Um livro por semana 49

«O nosso reino» de Valter Hugo Mãe

Por oposição ao reino de Deus («o seu reino não terá fim») este reino do narrador (Benjamim) é o reino dos Homens, uma vila de pescadores: «aos domingos, quando descíamos para a missa e o caminho até ao centro da vila se enchia de vizinhos, parecíamos todos felizes». Na vila estão o padre Filipe (que assustava), o senhor Luís (sacristão), o senhor Hegarty (que cantava) e o Carlos que veio da guerra: «em Angola tudo podia acontecer, porque os lugares eram ermos, esquecidos de tudo e de todos.» Havia também a Dona Darci («fugiu de Moçambique porque uma velha branca e misteriosa lhe rogou uma praga») e os tios de França: «eram dois, o rio João e o tio Saúl, mais velhos que a minha mãe e a minha tia Cândida, estavam em França como se estivessem mortos, excepto quando foi da herança». Benjamim queria ser santo («a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar». Surge inesperado o «25 de Abril» na escola primária: «a professora Blandina explicou que ontem os senhores que mandavam no país foram mandados embora. Nessa altura muitas pessoas pensaram que as liberdades eram maiores, muito maiores, do que o esperado.» A professora queria motivar o narrador para a realidade: «parecia querer dizer que na minha vida tudo era mentira mas não era exactamente.» Entre verdade e mentira, entre morte e vida, vence a vida: «No dia seguinte a vila acordou cheia de milagres, as pessoa vieram à ruas , quem não andava corria, quem não via pintava de todas as cores, quem emudecera cantava como os pássaros e o sol abrira em pleno Inverno e não havia chuva nem frio».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo sobre óleo de Cruzeiro Seixas)

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