Um livro por semana 46



«A voz da Mãe» de Fernando Miguel Bernardes

Depois de «Escrito na cela», «Uma fortaleza da resistência» e «Docas secas», Fernando Miguel Bernardes recupera neste livro uma certa noção de história em testemunho: o cruzamento de uma história particular com a história mais geral do País no qual os sujeitos se movem. As histórias são pessoais e familiares mas o fito da narrativa é mais geral quando o narrador se dirige à Mãe, então morta: «Parecido contigo é o Francisco mas homem e pai de outra família que vai crescendo. Como tu curioso, à procura de uma explicação do mundo, como se uma razão houvesse do nascer e do viver, dos homens e dos bichos, da honradez e do perverso.» Uma das histórias tem a ver com a resistência ao fascismo: «arrombam e tombam e invadem e avançam e tu que te antepões à mulher a à criança, aqui param!, no quarto não entram! E em menos de um credo estás no chão, o menino a chorar pelo alarido que se gerou e a Sara pronto meu filho, não foi nada, e procura distrair-lhe a atenção, com ele nos braços cá e lá, e por ti angustiada.» É uma história de pessoas mas também da terra, da terra propriamente dita e do seu abandono: «Grande abandono grassa por aí. Triste sem dúvida mas a vida se concertará e quem vier há-de com certeza resolver este grave problema que a todos diz respeito. Um drama, pois quem o nega? mas de dramas nunca o ser humano se libertou nem libertará, assim o creio e sincera sou, duvido se ao mundo isso algum bem traria; das contradições é que nasce o novo…» Um livro no qual convivem histórias dos últimos cinquenta anos da nossa história pública recente e que, tal como afirma o autor do prefácio, «nos ajuda a manter viva a nossa memória colectiva».

(Editora: Occidentalis, Capa: sobre um óleo de Picasso, Prefácio: António Ventura)

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