Mas porquê com os jornalistas?

Paulo Querido destacou 4 conselhos de Anita Bruzzese, convidada de Crish Borgan. Vale bem a pena ler o artigo todo para melhor discordar do que se diz na síntese do Paulo.

O sempre útil e entusiasta (e nosso!) Paulo é enfático, refere-se a: todos os bloggers portugueses que eu conheço — and I mean todos. Eis o berbicacho: este conjunto corresponderá à nata da classe, aferida por critérios de popularidade. É um subgrupo que inclui jornalistas e pretendentes a jornalistas ou a comentadores oficiais, mais os outros que mimetizam estes. Para estes produtores de conteúdos, o nome é importante, porque está em causa constituir, ou enriquecer, o currículo. É a lógica do Daniel Oliveira e do Rui Tavares, para ir buscar um exemplo paradigmático, onde a passagem para os meios de comunicação profissionais (e de referência) aparece como prémio de consagração pelo tirocínio na blogosfera no momento da sua novidade mediática como canal agregador de elites. A enorme maioria dos bloggers almeja desfecho semelhante, sonha com ele, ufana-se sempre que recebe a atenção de um jornal, rádio ou TV. No entanto, a pirâmide continua a ter a base desvairadamente mais larga do que o topo, o que torna rarefeitos os lugares vagos na mesa dos publicistas profissionais. É o que leva muitos outros a disfarçarem a ambição frustrada, mas obtendo recompensas variadas pelo lado do convívio nas comunidades de autores, de leitores e da rede social própria – onde ainda é sinal de modernidade e sofisticação anunciar a presença em blogues.

É mais do que provável que este ramo da blogosfera já siga os conselhos da senhora. Aliás, o que ela escreve é básico, um registo tão elementar que poderia ser intitulado Anita e a blogosfera. Está a dirigir-se a um público inculto, que só agora entra no meio e que chega sem competências de comunicação. Só isso explica que tenha de botar discurso sobre a importância da gramática, da consulta de dicionários e da veracidade das informações. Ou que apele à procura de fontes de conteúdos fora da Internet, fazendo da novidade um fim em si mesmo numa lógica concorrencial, quando a quantidade incomensurável de informação disponível na Internet pede urgente tratamento de interpretação, correlação e reflexão. Mas o ponto interessante, onde a Anita e o Paulo se cruzam (não, não se trata de outro potencial título), é o da tese subjacente: If you want to be taken seriously by those outside the blogosphere, you’re going to have to verify your facts 100 percent of the time. O que está em causa é inequívoco, trata-se de convencer e encantar esses que não estão na blogosfera. Quem serão? E ainda mais trágico, se não estão na blogosfera, como é que alguma vez iremos conseguir despertar a sua misericórdia e obter as migalhas da sua atenção? Ou teremos de escrever um livro, como a autora não se cansa de recordar (referindo-se ao seu) nos 10 conselhos esgalhados?

Se a ideia for a de utilizar um blogue como meio de promoção para a obtenção de um lugarzinho nos meios de comunicação profissionais, os conselhos que o Paulo Querido em boa hora divulgou são válidos para exercícios padronizados e limitados pelos códigos sócio-profissionais dos jornalistas. Na prática, trata-se de anular a rebeldia e liberdade da blogosfera, uniformizando os discursos pela bitola politicamente correcta, industrial. Para quem não se interessar por esta cenoura, os modelos de referência podem e devem ser procurados noutras áreas da criatividade: literatura, poesia, universidade, tertúlia, teatro, política e happening. Sei lá. É contigo.

22 thoughts on “Mas porquê com os jornalistas?”

  1. Eis o que está em causa, convencer e encantar esses que não estão na blogosfera. Quem serão?

    São os internautas que não são leitores normais da blogosfera, que a desconhecem, que procuram informações nos motores de pesquisa, que seguem links para conteúdos relevantes nas áreas que lhes interessam.

    Essa gente, Valupi, é em grande número. Essa gente não quer saber das virtudes blogosféricas dos Certamentes!, Aspirinas B, e quejandos. Essa gente pesquisa, chega a 1 página que o Google (ou outro) lhe indicou, e recolhe o que quer ou não recolhe.

    Se a ideia for a de utilizar um blogue como meio de promoção para a obtenção de um lugarzinho nos meios de comunicação profissionais, os conselhos que o Paulo Querido em boa hora divulgou são válidos para exercícios padronizados e limitados pelos códigos sócio-profissionais dos jornalistas.

    Não me ocorreu esse target, mas serve, sim senhor. Eu estava a pensar nos bloggers que pretendam construir publicações confiáveis e relações sólidas com as suas audiências/grupos de interesse, num ambiente que é cada vez mais concorrencial e onde uma marca (simplifiquemos assim) tem hoje muito mais dificuldade em impôr-se, dado o espaço estar tomado pelos que chegaram primeiro.

    Usando algumas práticas que dão resultados em comunicação (comprovados através da prática jornalística através dos séculos), torna-se mais fácil concorrer com os instalados, sobretudo com todos aqueles que publicam ao sabor da maré, com desleixo e até desrespeito por items básicos da comunicação social e que, não dispondo da arma do talento (que o Valupi tão bem conhece e usa), vão vendo as suas audiências diminuirem à medida que o número de pessoas e de blogs aumenta à sua volta.

    Na prática, trata-se de anular a rebeldia e liberdade da blogosfera, uniformizando os discursos pela bitola politicamente correcta, industrial

    Hum… é um ponto de vista. Sempre que há um normativo — neste caso, o normativo de um tipo de escrita mais ajustada aos factos ou à sua busca, conjugado com as especificidades da publicação reticular — há lugar à perda de liberdade. Não posso fazer outra coisa que não concordar.

    A diferença é que não vejo mal algum nisso e o Valupi vê. Talvez por eu ser jornalista, isto é, aceitar à partida a limitação da liberdade discursiva em função da eficácia, neste caso medida no maior número de leitores que possa obter para cada artigo.

  2. E da discórdia se faz opinião. O que é bom, convenhamos, mostra que cada um tem ideias próprias. Mas há muito que eu não critico o António Carreira por cantar como canta, haverá audiências para todos. Umas vezes incompreendidos, outras vezes amados, só o tempo fará com que as modas mudem, embora elas sempre se repitam. Afinal é na diferença que todos nos distinguimos. Querido, ou não, ele está aí há algum tempo. A vaidade ganha-se com a idade, mesmo que se perca a razão.

    Abraços

  3. Primo, é isso. Os coletes não se querem de forças.
    __

    Paulo, muito obrigado pela tua presença. Vamos lá:

    – O Daniel já cá estava (já era jornalista e político), mas não tinha a projecção (o hype que lhe deu a moda) que viria a ter única e exclusivamente por causa do Barnabé. Claro que ele apresenta outros valores que lhe abrem naturalmente as portas: a filiação parental e partidária. Mas o ponto é relativo ao fenómeno do Barnabé. Quanto ao Rui Tavares, escapa-me o racional da tua afirmação, mas acredito na bondade dela.

    – A ideia de que todos querem ter uma grande audiência, quantidade, é insustentável, é cínica. Melhor seria afirmar que todos querem ter uma “boa” audiência, qualidade, sendo esta definida segundo critérios tão variados quanto os indivíduos. No fundo, são as leis da antropologia, sociologia e psicologia a funcionar.

    – Estar preocupado com os leitores casuais, os que aparecem pelos motores de busca, não se relaciona com critérios estilísticos e epistemológicos. Só para os projectos que pretendem emular a imprensa é que fará sentido produzir um conteúdo padronizado pelo gosto comum.

    – A temática das publicações sólidas e das relações confiáveis, mais uma vez, pretende ir buscar a matriz da comunicação social profissional, onde as condicionantes são óbvias e necessárias. Ora diz lá: faz algum sentido aplicar essa lógica a bloggers de culto como o maradona ou aqui o nosso João Pedro da Costa, por exemplo?

    – Concordo muito contigo na ponderação das restrições à liberdade quando em contexto jornalístico profissional. Aliás, haver uma maior separação entre a blogosfera e o jornalismo talvez fosse benéfica, se do lado do jornalismo se assumisse a vocação institucionalmente investigadora. Seria a concretização do 4º Poder, actualmente ausente, ou raro, em Portugal. É que a actividade de blogger não tem qualquer regulação, e não é crível que deva ter. Já um jornalista está protegido por um quadro jurídico que lhe permite ter uma eficácia não necessariamente acessível aos amadores na blogosfera.

    Em suma, constato que os bloggers mais populares, salvo as excepções, apresentam naturalmente uma identificação com o modelo jornalístico, e são muito cuidadosos com o seu estatuto, real ou imaginado. Daí, preferir uma blogosfera mais selvagem, mais aventureira, mais experimental e artística.

  4. Pensamentos soltos:

    É a lógica do Daniel Oliveira e do Rui Tavares, para ir buscar um exemplo paradigmático

    Maus exemplos, eu diria. O Daniel já cá andava. Admito que sim, que a blogosfera serviu, no caso dele, de lupa, ampliando o seu carácter combativo. O Rui é diferente. O Rui chegaria a colunista dos jornais SEM a blogosfera.

    Mas há exemplos bons. Pessoas que se não tivessem os jornais dado pela sua escrita nos blogs, dificilmente chegariam a colunistas.

    A enorme maioria dos bloggers almeja desfecho semelhante, sonha com ele, ufana-se sempre que recebe a atenção de um jornal, rádio ou TV

    Sim — o que diz tudo sobre algumas das suas motivações para tanto trabalho.

    Os bloggers dividem-se em dois grupos, os que querem ter uma grande audiência e os que não falam disso.

    ….

    Aprendiz de ignorante, eu poderia dizer ao contrário, a vaidade perde-se com a idade, mesmo que se ganhe a razão :)

    Se há coisa que gosto de ser, é plural. Não acho que as opiniões valem todas o mesmo. Prefiro umas a outras. Muito menos acredito que A Verdade possa ser imposta democraticamente — embora dê crédito à “sabedoria das multidões”, nos aspectos em que a análise científica a tem confirmado. Sou tão aberto como plural e vice-versa.

    A discórdia é de cultivar. As modas, de desconfiar.

    Boas Festas

  5. Valupi, eu é que agradeço o teu talento na TubarãoEsquilo e o link.

    Caso encerrado quanto aos bloggers.

    A ideia da grande audiência é tão cínica quanto corresponde ao real e estou longe de estar sozinho, ou mal acompanhado, nela. Claro que a “boa” audiência é o que também todos ambicionamos. Mas não tenho ilusões quanto à “grande”.

    Só para os projectos que pretendem emular a imprensa é que fará sentido produzir um conteúdo padronizado pelo gosto comum.

    Valupi… perde algum tempo de um lado para o outro no Google Analytics. Para veres em acção uma coisa hoje popularizada por Cauda Longa — o princípio de Pareto aplicado à web.

    É também altura de referir isto: o que os bloggers podem aprender com os jornalistas nada tem a ver com a padronização, eu diria que vai até no sentido oposto, o da individualização. Cada post vale por si — cada post vale que o aprofundemos factualmente, que o acarinhemos com um título apropriado e que chame a atenção do leitor (é a função do título — ou fazemos todos como o ma-schamba e escrevemos posts sem títulos).

    Fazer títulos informativos e apelativos, coincidi-los com a primeira linha do artigo, cuidar de que o sistema editorial coloque o título no local apropriado, para aparecer com melhor leitura nos “quiosques da web” que são o Google e os agregadores, usar inteligentemente as horas de publicação em função do que se sabe sobre a nossa audiência nas diferentes partes de um dia — este tipo de cuidados, ainda que eu possa admitir que obedecem a padrões, nada têm a ver com “o gosto comum”.

    São técnicas, destinadas a aumentar e melhorar a legibilidade.

    À guisa de exemplo de como não aceito padronizações, nem é delas que falo, uma historieta. Recebi um mail da Google porque supostamente uma página minha, um post, continha linguagem que ofendia o ToS do AdSense, o programa de anúncios da Google. Retruquei, dizendo que a linguagem não violava nada, era como dizer que um artigo médico sobre sexo que contivesse a palavra “cú” violava os termos. Eles insistiram: ou retirava o post, ou retirava o AdSense daquele post. Eu não hesitei ou vacilei um nanosegundo: tirei o AdSense do meu blog, assunto resolvido.

    “Faz algum sentido aplicar essa lógica a bloggers de culto como o maradona ou aqui o nosso João Pedro da Costa, por exemplo?”

    Depende dos objectivos de cada um deles. Tendo em conta os talentos, competências e bagagens, quer um, quer o outro podiam estar no top 5 dos blogs nacionais — estou a falar das massas, portanto. Bastava-lhes disciplinarem o que é caótico (e cultivar esse look faz parte dos respectivos charmes, ou reputações): a relação de cada um com o editor do blog.

    Depois, há tantas razões… Olha esta: se o maradona fosse americano ou até espanhol, penso que já se teria profissionalizado — o blogging dar-lhe-ia sustento. Mas — em Portugal? Nem é “em português”, no caso dele é mesmo “em Portugal”, porque o que ele escreve se dirige a uma audiência definida social e culturalmente. Mais verdade, ainda, para o JP da C — se fossemos americanos e soubesse o que sei hoje, tinha pegado no blog dele no weblog e fazíamos uma publicação que estava hoje no top 250 do Technorati (não digo top 100 que isso é para os pros dos pros).

    Mas — os objectivos de cada um é que contam. Eles teriam a ganhar (e nesse sentido o artigo que mencionei é para eles também) se pretendessem ganhar. Não sou menino de dizer o que cada um deve fazer, gosto de falar de como se pode fazer bem, se se quer fazer.

    É que a actividade de blogger não tem qualquer regulação, e não é crível que deva ter

    Sim. Tirando a lei geral, não há regulação fina para a actividade. E espero bem que nunca haja. Também gostava muito que houvesse um estatuto de auto-adesão, algo que, não sendo enquadrável no jornalismo, pudesse dar aos que o quisessem um modelo, um estatuto e algum abrigo jurídico contra, por exemplo, autarcas inflamados e revistas que roubam conteúdos “na net” para enchouriçarem as suas páginas e vender mais publicidade, porque acham que podem roubar, ponto final.

    Uma associação de autores de blogs, não um organismo de classe pois não há a classe “blogger”.

    Em suma, constato que os bloggers mais populares, salvo as excepções, apresentam naturalmente uma identificação com o modelo jornalístico, e são muito cuidadosos com o seu estatuto, real ou imaginado. Daí, preferir um blogosfera mais selvagem, mais aventureira, mais experimental e artística.

    Hum… porque dizes “jornalística”? Eu não vejo propriamente jornalismo no top lusitano, ou no top americano. Vejo publicações, vejo profissionalismo, vejo media. Vejo mais entretenimento, divulgação e opinião fundamentada, e menos investigação, busca do que é notícia.

    Estatuto, sim. Acho normal que as pessoas procurem um estatuto e se revejam nele. Também acho normal que outras pessoas liguem pouco ou nada a estatutos.

    Selvagem e aventureira pouco me dizem pessoalmente, mas lutaria para que tais traços permaneçam. Experimental e artística, sem duvida, de no vejo nenhuma incompatibilidade com o que sublinhei no post, antes pelo contrário. Aliás, o guest-post original é o resultado de muita experimentação!

  6. Valupi: a credibilidade de um blogger junto dos outros, dos que o não são e dos que chegam agora a estas linhas do monitor é necessária.
    E é necessária quer o blogger se dedique a informação, opinião, poesia, cinema, pornografia, enfim, é necessária de forma que este se possa tornar uma fonte de qualidade comprovada para qualquer um que se aventure na selva do google.

    Uma primeira leitura do teu post, sem a necessária consulta do post do Paulo ou do texto da Anita Bruzzese, leva a crer que se trate, efectivamente, de uma “Anita e os Bloggers”. No entanto, um olhar mais cuidado revela que não é tanto assim. Aliás, devo acrescentar que o Paulo conseguiu alinhavar os quatro conceitos que, de entre toda a confusão, melhor se adequam a qualquer – e repito, qualquer – blogger, iniciado ou não.

    Dizes que «A ideia de que todos querem ter uma grande audiência, quantidade, é insustentável, é cínica. Melhor seria afirmar que todos querem ter uma “boa” audiência, qualidade, sendo esta definida segundo critérios tão variados quanto os indivíduos. No fundo, são as leis da antropologia, sociologia e psicologia a funcionar.»
    A ideia não é insustentável, nem tão pouco cínica. Repara que se te baseares precisamente nessas mesmas leis da antropologia, sociologia e psicologia, em conjunto com os relatórios existentes, hás-de chegar à conclusão que existem uma quantidade de blogs que desaparecem que é proporcional aquela dos que aparecem – para mais tarde irem abaixo. E isto deve-se, essencialmente, á falta de visitas, de feedback.

    A realidade é que cada um dos bloggers tem o secreto ensejo de um grande número de visitas. A qualidade é um outro requisito.
    Mas a coisa, como eu a entendo, passa-se de forma semelhante aos artistas pop que, vencidos uns anos e uns milhões na conta bancária, se podem finalmente dedicar a fazer o que “sempre quiseram”, e criar obras menos “mainstream” e de maior qualidade.
    Os bloggers existem porquê? A meu ver, porque querem comunicar. Porque querem passar ideias, pensamentos, opiniões, criatividade. Se não precisam de público, compram um diário ou gravam ficheiros word.

    Neste contexto, creio que a adopção de alguns critérios utilizados na forma jornalística é aconselhável. Limitem-se, obviamente, as respectivas responsabilidades perante os públicos: um jornalista é um jornalista, um blogger é um blogger.
    Mas o facto é que, escrevendo um bom título, um bom lead e por aí fora, se obtêm muito melhores resultados.
    Isso, juntamente com o factor do “não seguidismo”, isto é: ler jornais, informar-se, ler livros, ler poemas, ver filmes – em vez de andar atrás dos “tops” escritos pelos “consagrados”.
    E isso, sim, é um exercício de liberdade.

    Mas, enfim, isto é o que é, e não consigo deixar de te dar razão na generalidade, assim como não consigo evitar de ta tirar. Bipolaridade…
    Mas do que tenho a certeza é que este documento, como muito bem afirma o Paulo, é de fácil e boa leitura, servindo para muitos bloggers.
    Compreendo que a linguagem usada não seja nenhuma obra de Pessoa. Mas tal não é exigido. Algo como isto é para ser massivamente distribuído e para toda a gente: bloggers, não bloggers, perdidos na net, novatos, velhinhos, consagrados, enfim, para todos os que queiram absorver mais uma visão das coisas.

    Agora… é claro que tu já não necessitas disso para nada. :-)
    Já eu…

    Abraço,
    CJT

  7. “Claro que ele apresenta outros valores que lhe abrem naturalmente as portas: a filiação parental e partidária.”

    Já cá andava antes da militância partidária que tenho. Quanto à outra filiação, nem comento, de tal forma a afirmação revela mais de si do que de mim.

    Apenas um esclarecimento: entrei para o jornalismo sem ninguém saber (por afinco meu) da minha filiação. E lá continuei assim, por uns anos. Só desde que me tornei mais ou menos público as pessoas começaram a saber, porque este país é pequeno, de quem era eu filho. Saberia que acabaria por ouvir isto, por isso o meu afinco em manter a minha familia privada. Porque há sempre quem não possa acreditar que o que os outros fazem ao seu mérito o devem. E são sempre pessoas mais ou menos como o senhor.

    Passar bem.

  8. O aprendiz de ignorante, exactamente: da discórdia se faz opinião.
    __

    Paulo, há muitos exemplos de bloggers que abdicam da grande audiência. Isso leva-os a não terem caixas de comentários, nenhuma frequência de publicação e nenhuma concessão à mediania do gosto. Para se atingirem números altos tem de se descer o nível de dificuldade, de exotismo e de melindre temático. Isto é assim e para sempre assim será. É o que explica as audiências televisivas, as bilheteiras no cinema, as vendas de revistas. É também o que explica as publicações especializadas, de nicho.

    Claro que os teus conselhos, relativos à melhoria da performance de um qualquer blogue na arquitectura de informação actual, são úteis e neutros. Fazem sentido para maximizar as possibilidades de captar audiência, apenas disputo essa crença – que adjectivei de cínica – de se querer reduzir tudo e todos ao mesmo. A vida não é assim, porque raio haveria de ser a blogosfera?!

    É como dizes: se o maradona e o JPC domesticassem fosse o que fosse, deixariam de ser o que são. Eles cativaram pelo lado da surpresa, criatividade, pensamento fora do quadrado. Os seus “erros” são preciosos, pérolas. E também não creio que a sua fórmula seja aplicável fora da nossa geografia, pois o que faz o sucesso de um blogger americano ou inglês será algo necessariamente de acordo com as respectivas sociedades e populações blogosféricas. Fica essa incógnita de saber se eles seriam adaptáveis ao modelo profissionalizante, ou profissionalizado, que propões.

    Referia-me ao jornalismo de opinião, ao exercício do comentário. E ainda ao tratamento da informação, nas vertentes da análise e da síntese. Mas também existe uma dimensão “jornalismo do cidadão” em cada blogger, testemunhando e recolhendo testemunhos. Os blogues mais frequentados apresentam comunidades de comentadores muito activas, reforçando essa lado de uma rede de partilha contínua. E alguns bloggers desenvolvem ensaios no campo da entrevista, da reportagem e na produção de conteúdos de “infotainment”. Fazendo um apanhado pelos blogues com maior notoriedade, vemos que são animados por jornalistas ou publicistas altamente mediatizados: Abrupto, Arrastão, Blasfémias, Jugular, …
    __

    Carlos José Teixeira, muito obrigado pela desopilada reflexão. E concordo muito contigo quanto ao interesse e validade tanto dos conselhos da Anita como dos vastos conhecimentos do Paulo. O que contesto é essa concepção que tem como preocupação metodológica a captação de audiência. Ora, há uma bifurcação inevitável entre aqueles que procuram oferecer conteúdos populares e aqueles que se tornam populares por causa dos conteúdos que oferecem. Esta é a questão crucial, e qualquer das vias é boa para a comunidade, obviamente.

    Querer comunicar, como dizes, é comum a todos. Foda-se, até um suicida que deixa um bilhete quer comunicar. Mas isso não obriga a ter um qualquer número mínimo de “visitas”. Citando Erich Fromm, não é do conhecimento da técnica que vem o amor, antes é o amor que melhor permite aprender a técnica.
    __

    Daniel, obrigado pela tua presença.

    Vamos lá:

    – A frase que citas é parte de um diálogo. O seu contexto não confirma o significado que lhe dás.

    – O que estava em causa na referência à tua pessoa era apenas o Barnabé. Foi com ele que o teu nome ganhou a notoriedade actual. E foi com o Barnabé que o Rui Tavares igualmente se destacou. Este é o contexto do texto, e foi já em diálogo com o Paulo Querido que passei do território blogosférico para o biográfico para dar conta de um seu justíssimo reparo que remetia para essa área.

    – Não duvido do que dizes. Aliás, nunca perdi um segundo a pensar na tua vida, nessa dimensão privada que trouxeste, nem como é que a levaste ou vais levar. Acredito que tudo o que tenhas alcançado fosse por exclusivo esforço e talento teu. E compreendo as dificuldades que relatas, o peso e ambiguidade de se carregar um pai famoso.

    – Contudo, a pública verdade é essa: a tua filiação parental e partidária abre-te portas. Quero dizer: dá-te mais oportunidades e valoriza a tua marca. Também iria abrir sem o Barnabé. Mas o facto de abrir não anula, antes agudiza, o que se segue: teres de estar à altura da função e das expectativas mais altas. Seja qual for o critério, tens estado. És uma vedeta da política-espectáculo, e és uma figura cívica relevante. Não creio que haja alguém sério que duvide do teu mérito.

    Dito isto, aproveito para te dar um conselho: descontrai um bocadinho.

  9. Até que enfim que leio um texto critico, bem construido por aqui, sem o apelo ao “coração socrático”!

    Quando as pessoas tendem a generalizar, sai asneira, foi o que aconteceu com o Querido. Há mil e uma razões para as pessoas andarem na blogosfera. A maior parte delas talvez até ande por aqui para combater a solidão, para dizer o que lhe vai na alma, sem estar preocupado com degraus ou com audiências.

    Depois existem aqueles (cada vez são mais, embora ainda sejam uma minoria) que têm a mania que são a “Primeira Liga” dos blogues, e que até podem dar lições de moral aos outros, fazendo ao mesmo tempo o papel de “mestres”. Ou seja, paxecos pereiras pequeninos.

    O que eu acho curioso, é a desfacatez, com que esta gente que escreve nos jornais, tenta influenciar as “massas” da blogosfera, com os seus maus hábitos diários, a feira de vaidades, a falta de investigação, o diz que disse, a protecção aos amigos e o bajulamento aos “idolos” (tal como fazem com os amigos políticos), para se manterem na “élite”, esquecidos que isto é tudo virtual, até as audiências. Alguns que eu conheço até passam cem vezes pelo próprio blogue, para dizerem que têm muitas audiências.

    É por isso que este é um bom texto, porque de Anitas e Queridos, está o mundo cheio.

  10. É por isso que este é um bom texto, porque de Anitas e Queridos, está o mundo cheio.

    Tem piada. Eu acho precisamente o contrário, este é um bom texto porque de Anias e Paulos Queridos era bom que existissem mais no mundo. Veja lá como as coisas são.

    Valupi, acrescento duas coisas mais, e isto sem querer estender demasiado a thread, que está óptima, estendo o cumprimento a todos os envolvidos — incluo-a a si também, elsa:

    Primeira coisa:
    Sobre o maradona e o JP da C, fechas: “fica essa incógnita de saber se eles seriam adaptáveis ao modelo profissionalizante, ou profissionalizado, que propões“. Eu digo-te sem pestanejar que sim, seriam adaptáveis ao modelo profissionalizante. Aliás, ambos são profissionais disto, no sentido em qwue usam a escrita muito bem, sabendo o efeito que provocam, usando as suas fórmulas, afinando o que dá retorno e usando menos o que não dá. O cuidado com os “erros” (podias dar lições do uso de aspas ao editor do Abrupto, entre outros destalentos que temos na blogosfera) trai esse cuidado que só está ao alcance de quem sabe, de quem é profissional (não falo no sentido de ter um emprego, naturalmente).

    Um e outro, mais o maradona que o JP da C (este é inconstante demais), cuidam da imagem das suas marcas: “criativos”, “desconcertantes”, “brilhantes”, “desalinhados”. Cuidam muito bem, eu acho.

    Portanto, facilmente levavam o profissionalismo ao estádio seguinte, que é obterem um retorno financeiro da sua actividade com as marcas que criaram na web. Agora, naturalmente, para projectos específicos como os deles, com imagens de “rebeldia”, eu aconselharia mais / outras formas de potenciar as audiências.

    Resumindo: a criatividade e a rebeldia, até a genialidade, não colidem necessariamente com a ambição de publicações.

    Segunda coisa:
    mesmo sem picotado destaco e enfatizo duas tiradas do Carlos José Teixeira que são lapidares e recomendáveis:

    Esta:
    Mas o facto é que, escrevendo um bom título, um bom lead e por aí fora, se obtêm muito melhores resultados.
    Isso, juntamente com o factor do “não seguidismo”, isto é: ler jornais, informar-se, ler livros, ler poemas, ver filmes – em vez de andar atrás dos “tops” escritos pelos “consagrados”.
    E isso, sim, é um exercício de liberdade.

    E esta:
    Agora… é claro que tu já não necessitas disso para nada. :-)
    Já eu…

    O talento é uma ferramenta espectacular e admirável. Infelizmente, o talento não abunda nem se constrói. Felizmente, não é a única.

  11. Boa tarde,

    Vi a referência a este blog no Twitt do Paulo Querido.

    Antes de mais uma declaração de interesses: não sou jornalista nem pretendo ser mas gosto de ter visitas ao meu quintal virtual.

    Iniciei um blog em 2006 com o objectivo de comunicar as minhas ideias. Este é o objectivo politicamente correcto porque a razão de ter começado a escrever é bem mais pessoal e intima mas partilho aqui: andava que um depressão do caraças e decidi começar a escrever … escrever … escrever. Foi a minha terapia e saiu mais barato que ir ao psiquiatra!

    Ao longo destes 3 anos fui comunicando com outros blogs de pessoas que não são jornalistas. Pessoas interessantes foi o que descobri.

    Onde quero chegar com tudo isto? Simples … noto em alguns jornalistas e fazedores de opinião algum receio dos blogs. A razão é simples: para alguns isto é um “ataque” ao seu campo de actuação profissional e aos seus rendimentos. A concorrência aumentou para os opinion makers e jornalistas.

    É uma nova realidade! Alguns – jornalistas – vão conseguir agarrar essa nova realidade. Outros não.

    Rematando, os blogeiros amadores têm muito que aprender com os jornalistas mas estes também têm muito que aprender com os amadores.

    Eu espero aprender muito com jornalistas!

    Saudações natalícias,
    Daniel Nunes aka Bikoka Frita.

  12. Daniel Nunes (ou Bikoka Frita), o espírito com que publiquei aquela chamada de atenção para o post de Anita Bruzzese foi o de reagir: o que não faltam por aí, e eu tenho feito menções repetidas, são posts a explicar o que é que os jornalistas têm a aprender com os bloggers. Agora, um post ao contrário — o que têm os bloggers a aprender com os jornalistas — é mais raro, e, quanto mais não fosse, é notícia por isso.

    Deixe-me dizer-lhe que essa visão da blogosfera como um campo de batalha entre uns (jornalistas, profissionais) e outros (bloggers, amadores) é uma visão ultrapassada. Quer por uns, quer por outros.

    Posso acrescentar ainda isto: só um jornalista doido, doente ou mediocre temerá a concorrência da blogosfera e verá nesta um ataque. Bem pelo contrário: o colossal ruído de feira que podemos escutar da blogosfera é uma excelente oportunidade para um profissional da informação mostar o que vale o seu treino.

    Boas Festas

  13. Caro Paulo Querido,

    Concordo com o teu primeiro parágrafo. Acho o artigo interessante: pela sua raridade e – pelo menos para mim – pela sua utilidade.

    Quanto ao segundo parágrafo não estou tão de acordo. Sinto que por vezes existe uma tendência ainda para denegrir o ruído da blogosfera porque parte de alguns jornalistas. Mas concordo que esse grupo de jornalistas é cada ver menor. Talvez seja maior entre os fazedores de opinião, ou seja, os comentadores. Mas isto é uma percepção minha e vale o que vale.

    Quanto aos doidos, doentes e medíocres … concordarás que devem existir na classe dos jornalistas assim como nos blogeiros amadores!

    Bikoka Frita (Daniel Nunes)

  14. Pois, bem me queria parecer que o verdadeiro alvo, aí, eram os comentadores e opinadores por atacado que vão à televisão dizer disparates sobre a blogosfera.

    Eu não respondo pelos jornalistas, não tenoh tal mandato, e penso ser justo presumir que a classe comporta a sua dose de doidos, doentes e medíocres.

  15. Bom posto do Valupi(caraças! o homem está a ficar cada vez melhor) seguido de excelentes respostas-comentários.

    E Bikoka Frita, não é que o homem também está cheio de razão!

    Mas confesso que nunca me passou pela cabeça o combativo Daniel ter tido a honestidade de omitir o apelido “Salazar” quando andava à procura dum lugar ao sol na arte, ou profissão, que em termos de investigação e olfacto para a verdade ainda anda mais frio que pedra do rio.

    O resto são googlomanias, porque, no fundo – deixemo-nos de malabarismos -vale mais um bom blogue cá dos nossos que três jornais de referência, agora que já nem prestam para embrulhar peixe frito ou para dar lustro a sapatos.

    Tenho dito, senão daqui a pouco começo a falar dos cabrões que controlam a media em todos os continentes e depois ainda nos zangamos.

  16. Para mim a maioria dos blogueiros faz um “post” como quem atira uma garrafa ao mar com uma mensagem lá dentro. Pensa: era giro se alguém lesse isto, e gostasse. É a escrever que se consolidam ideias, e é a possibilidade, ainda que ínfima, de sermos lidos, que nos motiva a escrever melhor, mais condensado, mais simples. Esse é o grande mérito da blogosfera, e é por essa razão que aqui andam tantos jornalistas e tantos políticos. Os blogs que são citados nos jornais são os mais lidos mas são uma excepção.

  17. elsa, o texto da Anita vai ao encontro das tuas preocupações, pois faz apelo a uma postura objectiva e profissional. Um outro pressuposto dos seus conselhos é o de que os blogues poderão ser um complemento informativo ao jornalismo. E, por aí, tem toda a razão.

    Claro que há de tudo na blogosfera, e talvez o mais frequente sejam esses exercícios narcísicos e fúteis, amiguistas e tribais. Mas, também por aí, tanto a Anita como o Paulo estão do teu lado.

    Quanto ao “coração socrático”, bem observado. É uma tara deste blogue.
    __

    Paulo, foste tu que trouxeste interesse para a discussão, a começar pela temática que publicaste. Muito obrigado.

    Não tenho qualquer certeza sobre a possibilidade de profissionalizar o maradona ou o JPC (enfim, usando-os aqui como exemplos, pois até poderão achar ridícula a referência). Aliás, não faço ideia do que possa ser um critério de sucesso e respectivo racional financeiro. É que se a Internet ainda está à procura de estabilização das suas populações e hábitos, por ser tão recente e ter estado em constantes saltos de crescimento demográfico e tecnológico, na blogosfera é ainda mais difícil fazer previsões. Apenas sei que as marcas blogosféricas são muito mais densas do que as marcas do entretenimento. O jogo da sedução e criação de hábito de consumo pede competências muito mais complexas por parte das audiências, se excluirmos as temáticas relativas ao sexo e ao desporto, o que me aparece como uma novidade ainda por dominar.

    Fazendo um resumo das tuas ideias, concordo com o propósito de instituir boas práticas na produção, maximização das oportunidades de contactos e exploração do potencial dos autores em formatos de maior abrangência e retorno. Apenas não reduziria todos à mesma lógica. Foi isso que me fez reagir, por ser uma ideia importante que tens repetido noutras ocasiões. Dá que pensar, é uma discussão fértil como também aqui se viu.
    __

    Bikoka Frita, gostei muito do teu testemunho relativo aos efeitos terapêuticos da escrita, e de como um blogue por ser uma ajuda preciosa – e de graça! Não posso concordar mais. No entanto, consultar um psiquiatra, ou psicólogo, também é bom, útil e eventualmente necessário.

    Quanto ao receio de jornalistas face aos blogues, deve acontecer. É que nada impede que apareçam talentos capazes de assustar os consagrados, quanto mais os que medianos…
    __

    CHICO, a prova de também tu estares a ficar cada vez melhor está no facto de reconheceres que eu estou cada vez melhor. Isso, sim, é objectividade, lucidez e a mais inquestionável das verdades.

    Quanto aos cabrões que controlam a media, foste misericordioso em não ter revelado quem são.
    __

    Manolo Heredia, bela imagem, a da garrafa lançada ao mar. É isso mesmo!

    (mas também pode ser ginástica, treino, um dos altíssimos benefícios da escrita, do pensamento, da criatividade…)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.