Vinte Linhas 307

Para eles Portugal acaba nas portagens de Sacavém

Acabo de ler o «Diário de Notícias» de hoje 28-12-2008 e na sua página 12, quarta coluna lá está «A autorização do Tribunal de Torres Vedras foi dada na sexta-feira…» Parece um caso isolado mas não é; ontem, dia 27-12-2008, na página 18 o ante título já anunciava: «O Tribunal de Torres Vedras adiou uma semana…»

Temos aqui um grande jornal a cometer dois erros grosseiros dois dias seguidos trocando Torres Novas por Torres Vedras como se tudo fosse a mesma coisa.

Entre 1997 e 2001 trabalhei na redacção do jornal semanário «O Mirante» (hoje o maior jornal regional português) e, sempre que surgia um caso parecido, ouvia a advertência: «Para eles Portugal acaba nas portagens de Sacavém». A frase era um lamento dirigido a mim (que não nasci em Lisboa) embora o destino final da chamada de atenção fosse alguém incógnito numa redacção de Lisboa. Nesse tempo ainda havia portagens em Sacavém coisa que hoje não acontece – passaram para Alverca. Mas o resto fica como estava – para muita gente Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. E o «seu» país, o seu pequeno país acaba mesmo nas portagens de Alverca.

Torres Vedras será o mesmo que Torres Novas mas não para quem lá vive, quem lá nasceu e lá estuda ou trabalha. Todos temos direito ao nosso nome e as cidades são como as pessoas – também se sentem feridas quando o seu nome aparece trocado. Depois de ter acabado de beber o meu café no Chiado (centro do centro) pensei logo no que poderia ter ouvido se tivesse continuado na redacção de «O Mirante». Apenas com uma diferença – já não existem portagens em Sacavém. Agora são em Alverca.

9 thoughts on “Vinte Linhas 307”

  1. Em tempos vivi em Torres Novas e recordo-me da frequência com que os jornais publicavam notícias em que esta cidade era confundida com Torres Vedras! Claro que os torrejanos ficavam indignadíssimos! Por outro lado esta situação é reveladora de uma insultuosa ignorância geográfica até porque Torres Novas não é de forma alguma um qualquer lugarejo perdido nas berças deste país! Um jornalista que se preze deve verificar os pormenores da notícia com rigor para não chamar a atenção para a sua incompetência! O país é tão pequeno!

  2. «insultuosa ignorância geográfica até porque Torres Novas não é de forma alguma um qualquer lugarejo perdido nas berças deste país!»

    Caro jcfrancisco, já que louva o comentário detenhamo-nos no extracto acima.

    A ignorância não é insultuosa… pode ser triste, podemos ter compaixão dum ignorante, mas nunca será insultuosa, pelo contrário a ignorância dos outros alimenta-nos o ego, sabemos uma coisa que aquela pessoa, supostamente, não sabe.
    A outra parte do lugarejo perdido remete-nos para uma realidade outra, há terras mais importantes que outras… se Torres Novas fosse um lugarejo perdido nas berças (onde ficam as berças?) o jornalista poder-se-ia enganar.
    Torres Novas não fica nas berças fica do lado esquerdo do IP6, actual A23, a menos de 100Km de Lisboa, logo é suposto os jornalistas não mostrarem uma insultuosa ignorância geográfica.

    Pedro Oliveira (aldeão do mundo)

  3. Para mim o que estava em causa não era o conteúdo mas sim o comentário – ele mesmo! Porque é muito mau colocar-se um texto no blog e depois não haver comentários. Isso sim é mau. Quanto à palavra «berça» tanto pode ser couve galega como parvónia. É o caso. Diz-se muitas vezes «Este veio das berças a falar axim…» Veja-se este caso recente que mete o pessoal de serviço ao cavaquistão, é quase tudo gente dessa…

  4. Pedro Oliveira!
    Diga o senhor o que disser, continuarei a afirmar que a ignorância revelada neste caso é insultuosa, melhor ainda, inadmissível, intolerável, abominável, vergonhosa, vexante, enfim, uma torrente de adjectivos apropriados para caracterizar uma situação reveladora da incompetência de um certo profissional da notícia!… Quanto ao significado da palavra berças, ei-lo:

    Berças- Plural depreciativo-Zona interior rural longe dos grandes centros urbanos, igual a parvónia. “O primo troçava por ela vir lá das berças com hábitos de provinciana”
    Fonte:Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa da Verbo Editora.

    Partindo do princípio, que para si, uma das cidades é mais importante que a outra, julga na verdade que, esse facto, justifica a confusão? Sabe o que penso disso? A raiz do problema reside na circunstância de Torres Vedras ser geograficamente mais próxima de Lisboa!

  5. Cara Milu,

    Ambas as cidades são importantes.
    Conheço-as bem às duas.
    Ao contrário daquilo que os nomes indiciam, Torres Novas é mais antiga que Torres Vedras.
    Torres Vedras fica a cerca de 50 Km e Torres Novas a cerca de 100 Km de Lisboa.
    Em termos de tempo (automóvel) cerca de 45′ a 1H15′ num e noutro caso ou seja, provavelmente, não foi por «insultuosa ignorância geográfica» que o jornalista terá redigido incorrectamente a notícia.
    No comentário anterior referi-me à palavra: insultuosa que naquele contexto (na minha opinião não é sinónimo de: inadmissível ou intolerável.
    Quanto às berças é lá, precisamente, que vivo… Portela de Santa Margarida da Coutada, concelho de Constância, distrito de Santarém (é pertinho de Torres Novas) sou um provinciano, portanto (na actual denominação geográfica foram abolidas as províncias, agora chamam-se: NUTS [Nomenclaturas de Unidades Territoriais – para fins Estatísticos] só por curiosidade Torres Vedras fica na NUT19 e Torres Novas na NUT23, ficam encostadinhas uma à outra).

    Pedro Oliveira, ex-provinciano, actual nutiano (aldeão do mundo)

  6. Pedro Oliveira!
    Conheço Constância! Lembro-me de ver uma estátua que representava Camões! E se a memória não me atraiçoa, era ali perto, numa casa com um terraço virado para o Tejo, que não era bem um restaurante mas uma tascazinha onde eu, nos meus verdes anos, na década de oitenta, costumava ir comer uns belos de uns bitoques! Sentia-me bem ali, ao ar livre e a mirar o Tejo, num alegre convívio! O pequeno terraço, os petiscos e o vinhito contribuíam em muito para aproximar pessoas que antes não se conheciam!

  7. Seja-me permitido um comentário extemporâneo. Constância chamava-se originalmente Punhete. Havia três Punhetes em Portugal, mas a dinastia de Bragança mudou-lhes o nome, a pedido de de um lóbi pró-decência. Fialho de Almeida comentava o facto dizendo que os Braganças, se de mais não se podiam gabar, pelo menos tinham acabado com as punhetes em Portugal. Mas não foi o suficiente para impedir a implantação da República.

  8. Isso era assim, Milu… até meados dos anos oitenta. Desde aí o Partido Comunista ganhou as eleições (APU ou CDU já nem sei) e atravessamos a longa noite comunista, há mais de vinte anos, eh, eh, eh.

    Caro Nik, isso não terá sido pem assim mas se tiver bibliografia ou referências sobre o que afirma muito agradecia que m’ as enviasse para: pedrolliveira@gmail.com

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