Anfibologia da crise

Desde 2000 que é consensual a ideia de não haver no Planeta recursos que cheguem para os consumos que se prevêem na China, Índia e outras potências emergentes onde a classe média cresce dramaticamente. Na alta do preço do petróleo, na Primavera de 2008, uma das teses explicativas do fenómeno sugeria estar a China a comprar desenfreadamente para garantir os consumos próprios no futuro de médio e longo prazo. Para agravar, os especialistas antecipavam o esgotamento das reservas em poucas décadas, tanto por causa da ausência de novas descobertas significativas, como por causa do aumento do consumo global.

Desde 1988 que é consensual a ideia de não ser possível evitar catástrofes ecológicas inimagináveis se continuarmos a emitir para a atmosfera poluentes nas quantidades registadas, quanto mais nas previstas. A questão da origem do aquecimento global é já secundária, pois está em causa conseguir aplicar todo e qualquer meio para conseguir adiar, reduzir ou anular os efeitos nocivos (a maior parte deles completamente imprevisíveis) da alteração das temperaturas.

Após a 2ª Guerra Mundial, a Europa Ocidental e os Estados Unidos desfrutaram de 5 décadas de prosperidade sem paralelo na História. Bem cedo se criticaram as assimetrias económicas entre esse mundo da abastança e desenvolvimento e a pobreza e subdesenvolvimento circundantes. O que um cidadão médio europeu ou americano consome individualmente é escandaloso, aberrante mesmo, quando comparado com a média individual do Terceiro Mundo. Para além disso, temos riqueza espalhada em vias de comunicação, estruturas públicas e privadas, instituições políticas democráticas, órgãos de justiça, forças de segurança, conhecimentos científicos e tecnológicos. Esta qualidade de vida foi obtida à custa dos recursos e ecossistemas globais, ao longo de séculos, e serve agora de meta para quase todos os indivíduos no Mundo.

Então, a crise não é apenas financeira e económica, é civilizacional. Na etimologia da palavra grega krisis está a ideia de separação e decisão, krinein, cujo étimo também se encontra no termo crítica. Mais tarde ou mais cedo, teríamos de tomar decisões quanto ao que vamos fazer com esta Terra perdida nos subúrbios duma Galáxia à deriva na imensidão do Universo visível. Se for mais cedo, talvez não venha a ser tarde demais. Precisamos de encontrar e apoiar os dirigentes que saibam montar este tigre.

16 thoughts on “Anfibologia da crise”

  1. pois é amigo, a ὕβρις, e fomos todos mais ou menos cúmplices, veremos se conseguimos evitar a nemesis,

    e isto digo-te eu que não tenho gosto nenhum nisto embora tenha tentado contrariar alguma coisa, quem me dera abrir um túnel no espaço-tempo e oferecer-nos el paradiso, pelo menos um tempinho para descansar

  2. e noutro dia na Republica (VI-VII) li que já na altura Platão dizia que a doença da cidade era o excesso de consumo, tal qual, imagina que antigo que isto é, às vezes apetece esmorecer,

    hasta

  3. Valupi, errado!

    Parágrafo 1 – Os 6.000 milhões de pessoas que vivem neste planeta ficariam reduzidos e 2.000 milhões, no prazo de 1 ano, se os combustíveis fósseis acabassem hoje. Isto é, existem 4.000 milhões de petro-homens. Os humanos hoje vivos só existem porque a evolução dos métodos de fazer comida tem evoluído na proporção do aumento demográfico global.
    Se fosse distribuído um pequeno frigorífico a todas as famílias do mundo que não o têm, todo o aço e todo o cobre existentes no planeta seriam consumido na produção desses electrodomésticos, e nem por isso poderíamos considerar que a classe média dos países emergentes estava a aumentar.
    É essencialmente um problema demográfico. Isto é, um problema ecológico. Quando uma espécie vivendo num determinado território, tem comida suficiente, cresce em número, exponencialmente, até que a comida seja insuficiente ou que outros factores de destruição contrariem esse crescimento.
    Parágrafo 2 – O Planeta Terra tem capacidade suficiente para absorver e reciclar todos os venenos que o bicho homem despeja na Natureza. O efeito de estufa é provocado essencialmente pelo teor de vapor de água da atmosfera, e este gás aumenta ou diminui na atmosfera em função da actividade solar. A questão de Kyoto é uma balela para criar oportunidades de negócio aos países desenvolvidos, como aconteceu com a gasolina-com-chumbo. Hoje ainda ninguém sabe qual o impacto para a saúde humana que tem a utilização dos produtos substitutos do chumbo (nos combustíveis). A histeria é tal que até os copos de cristal de chumbo foram retirados do mercado americano!
    Parágrafo 3 – Os Estados Unidos invadiram a Europa pondo fim à 2ª Guerra Mundial. Como Nação Vencedora impuseram o plano Marchal. Depois, como nação dominante, impuseram regras que os favoreciam nas taxas aduaneiras e na gestão das bolsas de valores. Estas jogadas conduziram às tais 5 décadas de prosperidade em democracia para os EUA e para os Vencidos, na certeza que a estes últimos foi vedada a possibilidade de desenvolveram as sua indústrias de defesa. A questão do papão russo foi uma mega burla criada pelas elites das duas “super-potências” que desequilibrou ainda mais a capacidade de defesa dos Vencidos, ao mesmo tempo que a concentração do capital tornava as elites dos EUA senhoras do mundo.
    Criaram-se assim condições para o sistema estourar por dentro, porque a ganância humana não tem limites, e o desprezo pelos mais fracos banalizou a ajuda humanitária como forma de dominação. Um país com 1 milhão de pessoas quase a morrer é um país de cócoras! As ONGs alimentares têm como função manter esse milhão quase a morrer e usar a fraqueza a que isso conduz para fazer bons negócios na região.

  4. O que é ser realmente racional?
    Ser racional é perceber tudo isto.
    E continuar a agir como agimos, mesmo sabendo de antemão o que nos está a ser reservado, o que é?
    Quem determina essa nossa «impontência» para agirmos «racionalmente»?
    Continuamos muito «racionalmente» a aumentar os nossos cada vez mais mortíferos arsenais?
    Na nossa história é a primeira vez que temos a possibilidade de nos podermos autodestruir (várias vezes) e engraçado é que ninguém quer prescindir destes meios e cada vez há mais gente que os procuram «racionalmente» adquirir, mesmo sabendo que, óbviamente, não os podemos utilizar.
    Quando é que vamos perceber que estamos racionalmente a caminhar para o abismo?
    Será que alguém lá no seu íntimo estará verdadeiramente preocupado com isso?
    Eu preocupo-me em sobreviver no meu dia a dia, procurando não ser atropelado, assassinado etc… ,mas com isto «racionalmente» não me preocupo.

  5. Nós agimos individualmente, construindo a nossa existência, caóticamente numa ordem universal, que não conspira contra nós, nem contra ninguém, mas que age naturalmente em desígnios que nos escapam totalmente.

    Ps Por lapso não submeti esta última parte no meu anterior comentário e só agora dei por isso.

  6. Valupi,

    O meu comentário no Umbigo que acaba em “mau…” não era aplicado aqui ao Aspirina B, mas ao facto daquel’outro comentador lá do sítio já vos vir citar e não aos habituais dele, muito mais PS ortodoxo.

  7. Valupi: estava aqui a pensar, olha a crise lá fora que se lixe, está fora das minhas forças, mas podia vir um tempo bom aqui para a península e Portugal em particular, só para variar, afinal temos um clima, uma História, uma geografia, uma língua, e outras coisas, magníficos e tudo isso é riqueza, vale muitíssimo, um pentilhão para usar como símbolo as quinas, aposto que há aí uns cabrões internacionais que nos têm andado a comer, vamos fudê-los?

  8. A crise apanha-nos sempre de supresa. Mesmo quando sabemos que aí vem somos surpreendidos…. Mesmo quando sabemos as noticias que nos atiram para o choque estas continuam a apanhar-nos de surpresa.

    Por isso mesmo quando já somos alguns gestos de quem sabe fazemos “oh!”. Mesmo quando reciclamos e fechamos a água depois de molhar a escova de dentes, etc. somos apanhados por essa sensação de não saber o que fazer….

    A coisa melhor do choque desse choque é que doa ao acto de reciclar um novo toque de magia:

    Viva os trabalhos manuais com restos de pacotinhos de iogurtes, rolos de papel higienicos, e outras coisas afins.

    Viva as lojas de roupa em segunda mão!

    …. tenho pena que a minha lista seja tão pequena….

  9. Z, por enquanto ainda não temos túneis no espaço-tempo. Ou melhor, vamos escavando o nosso túnel…
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    Manolo Heredia, vamos lá:

    Parágrafo 1 – Os cálculos são relativos aos consumos das classes médias no 1º Mundo. Coisas como o facto dos EUA consumirem 25% dos recursos do petróleo tendo apenas 5% da população mundial.

    Parágrafo 2 – Em relação ao chumbo, não há histeria alguma. Estudos epidemiológicos, com décadas, já revelaram os seus efeitos maléficos na saúde. Quanto às alterações no clima, são evidências. Para lá da explicação ou das teses conspiritavas, está em causa agir para lidar com o aquecimento.

    Parágrafo 3 – As teorias da conspiração divertem muita gente, mas o ponto era o de que temos abundante riqueza nas nossas sociedades. Assim, está em causa saber utilizá-la melhor, tanto para nós como para os que vivem na miséria ou pobreza.
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    jv, levantas boas questões. Há muitos preocupados com os mesmos problemas e, num certo sentido, a Humanidade esteve sempre ocupada com essa pergunta: o que é a Razão?

    Felizmente, a resposta continua à disposição de cada descoberta pessoal. Cada um de nós contribui com a sua existência para essa verdade.

    Quanto ao destino da raça humana, é uma incógnita, claro. E continuará a ser.
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    João, bem lembrado. E inevitável: iremos para a Lua, Marte e alguns satélites de Júpiter e Saturno.
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    zé tó, depende do contexto. No caso da ciência, obviamente que não é argumento. Na política, por exemplo, já é.
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    paulo g, muito obrigado pela explicação e o cuidado de vires também aqui deixá-la.
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    dina, tens outras formas de reciclagem ao dispor. Por exemplo, a reciclagem de ideais, pegar em ideias gastas e criar ideias novas…

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