Um livro por semana 43

«Morreste-me» de José Luís Peixoto

Depois de ter sido editado no «D.N. Jovem» em 1996 e na Colectânea Jovens Criadores em 1998, este texto tem tido sucessivas edições em livro desde a primeira em 2000. A partir de uma vivência em ambiente de hospital («As mulheres falavam, os homens fumavam cigarros») surge a memória do filho a recordar o pai: «Dizia nunca esquecerei e hoje lembro-me». O texto oscila entre o diálogo com o pai («Se pudesse tinha-te protegido.») e a memória do filho: «Eu andava no primeiro ano da telescola e não pensava nas notas.» Na paisagem povoada pelo luto, a memória do afecto é uma agressão: «Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai, nunca esquecerei.» O texto é uma viagem («Vou. Avanço. Avanço e regresso. E cada quilómetro um mês e cada metro um dia. Avanço para o que fomos.») e a conclusão é uma visão inversa dos papéis – o pai é no texto o pequenino; o filho fala como se fosse o pai: «Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.» Este livro (comovente testemunho numa escrita prosopoética de rara beleza artesanal) é dedicado è memória do pai do escritor José Luís Peixoto – José João Serrano Peixoto.

(Editora: Temas e Debates, Capa: José Afonso Furtado)

2 thoughts on “Um livro por semana 43”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.