Um livro por semana 35

«A árvore seca» de Alexei Bueno

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 1963) publica regularmente poesia desde 1984 além de ter editado diversas obras completas (poetas brasileiros e portugueses) e de ser um excelente tradutor de poesia – Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros.

Par dar aos nossos leitores uma ideia da poesia deste autor vejamos este espantoso retrato do Brasil no poema «Speculum Patriae»:

Um povo feio, essencialmente feio, / Fora os meio imigrantes. Cada dia / Uma outra humilhação que se anuncia, / Um saque, um roubo, sem controle ou freio. / Uma horda de imbecis, de olho no alheio, / Cuja rapina é a única mestria / Pretensamente os donos da alegria / Da esperteza, da graça e Deus no meio. / Um pátio dos milagres dos devotos / De tudo, irracionais, analfabetos / A orar, a praguejar, a cumprir votos, / À espera do que os salve, em meio a insectos, / A matar-se, a banhar-se nos esgotos / Das praias sem iguais, entre os dejectos.

Trata-se de uma poesia que não teme chamar as coisas pelos seus nomes embora também não deixe de reflectir sobre a poesia (ela mesma) e os poetas. Como em «Fernando Pessoa»:

Venceste. O reino é teu. Torceste a sina. / Compraste a vida invicta com a outra vida. / sem ter sido, ela é a nossa. A sombra puída / Do teu corpo nos guia em cada esquina.

No posfácio Gil de Carvalho chama a atenção para o facto de Bueno ser «um poeta de várias culturas». O mesmo é dizer um poeta a descobrir pelos leitores portugueses. Com toda a urgência e para seu proveito intelectual. Porque nem só de pão vive o homem.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: José António Coelho, Posfácio: Gil de Carvalho)

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