Vinte Linhas 311

Barretes verdes há muitos, seu palerma…

Amália Rodrigues está na ordem do dia. Por causa do filme que já vi por aí classificado como o pior (?) filme português de todos os tempos (as opiniões são livres) mas também por causa do livro – uma «Fotobiografia» editada pelo Círculo de Leitores.

Hoje vive-se tudo numa pressa. Presumo que os livros (em geral) também sofrem desse problema. Uma foto de Amália Rodrigues em Alcochete no ano de 1949 no Aposento do Barrete Verde surge com a seguinte legenda: «nas festas do Barrete Encarnado (em Alcochete) em Setembro de 1949». Ora bem – todos nós sabemos que o que é de facto Encarnado é o Colete e esse é de Vila Franca de Xira. Barrete é verde; colete é encarnado. Ponto final.

Outro dia vi num outro livro sobre o século XX português numa legenda um erro na identificação de uma corporação de Bombeiros de Lisboa: os Voluntários da Ajuda cuja sede é na Praça da Alegria apareciam referidos como sendo do Bairro da Ajuda. Lapso talvez originado no seu nome que nada tem a ver com geografia mas com atitude.

Lembro-me também de um catálogo de um alfarrabista que se referia ao Zé do Telhado como João do Telhado. Alguém lhe chamou a atenção para o evidente lapso e a resposta veio fulminante: «Isso é a mesma coisa…»

Fala-se muito em raças em vias de extinção mas fala-se pouco nos revisores de imprensa. Será que já estão todos extintos, afastados, reformados, dispensados e ignorados? Será verdade que isto não passa de um sinal dos tempos? Será que eu estou a ver mal e os outros é que são senhores da razão? O barrete é mesmo encarnado?

8 thoughts on “Vinte Linhas 311”

  1. A legenda que tu dizes errada deve ser uma subtil referência ao autêntico barrete encarnado que nesse ano de 1949 perdeu o campeonato para o Sporting.

  2. Esse foi o mais inesperado comentário que alguma vez imaginei. Como se diz na minha terra – «Boa malha!». Ou então «Tem sainete!». Introduz um fundo de piada numa coisa muito triste – a morte dos revisores de imprensa.

  3. Os revisores foram abatidos por força da evolução da informática. É a vida.
    Em miúdo gostava de apreciar o trabalho dos cesteiros e dos caldeireiros, e hoje não sei de nenhum.

  4. Os revisores não acabaram, ainda existem, há anúncios (raros) a prová-lo estão alguns anúncios que de vez em quando aparecem por aí.

    Claro que com a qualidade do ensino a cair a pique, a língua portuguesa vai sofrendo tratos de polé, e com a criação dos mais-que-mal-concebidos revisores informáticos ainda pior.

    Mas não é só na língua que tal se verifica, o JCF fala-nos aqui de legendagem de fotografias, mas se vir filmes legendados dará por si a rir-se a bandeiras despregadas, ao deparar com algum João Castanho (John Brown) ou um Ricardo Verde (Richard Green), um fumador inveterado de cigarros (cigars) que os importa da República dos Dominicanos(Dominican Republic), um estudante a pesquisar numa livraria(library), sobre a exportação de bife (beef), alguém que teve a sorte de enriquecer por ter uma vida de azares (hazardous life), mas se dermos um saltinho a outras línguas, o panorama repete-se numa espiral vertiginosa.

    Já parei de ler alguns livros por terem frases completamente desconexas e sem sentido que tornavam a sua leitura quase indecifrável, e que dizer dos que passam no rodapé dos noticiários televisivos e são cacarejados pelos respectivos apresentadores?

    Vinte mil milhões de anos-luz dizia um dia destes o rodapé da RTP anunciando a descoberta de um planeta idêntico à Terra, como se de repente o Universo se tivesse expandido misteriosamente, ou a de um monomotor a jacto que chocou com um prédio por terem parado os seus dois motores!!! e na imagem via-se um bimotor com as hélices em bandeira…

    Isto para não falar nas coisas que caem para baixo, sobem para cima, têm acabamentos finais, entram para dentro, saem para fora, dão de borla, metades iguais, despesas com gastos, etc. etc.

  5. Bem… não é só com os revisores de imprensa. Se ajuda à festa, uma leitura do livro “Jezabel” de Lezley Hazleton, Bertrand, proporciona momentos de grande humor, muito necessários, aliás, nesta época de crise. Vale a pena determo-nos na tradução exímia.

  6. É a mesma gente que pensa que os limites de Portugal são as portagens da auto-estrada em Alverca – dantes era em Sacavém…

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