Um livro por semana 27

«Porto – da história e da lenda» de Germano Silva

Há neste livro mais história do que lenda: a formação e a prática de quarenta anos de jornalismo (Jornal de Notícias) levam Germano Silva para a procura de documentos escritos. Por exemplo este retrato do Porto em 1549 dum tal Confalonieri, secretário do Núncio Apostólico a caminho de Santiago de Compostela: «A cidade é pequena, muito linda, com muitas hortas, fontes e tem dois mil fogos. Está cercada de muros, abundam nela os panos de linho a bom preço. O fio é branco e finíssimo. São os mais famosos do reino. Os ares são saudáveis e os víveres baratos. Existem muitos mosteiros. A catedral é muito antiga embora mão seja muito grande. Há muito pescado barato. Tudo é fresco, alegre e florido.» Desfazendo um equívoco sobre o santo mais popular do Porto, o autor explica: «Noutros tempos chegaram a fazer-se no Porto grandes festas ao Santo António. Na desaparecida Capelas de São Roque, por exemplo, que ficava à entrada da Rua do Souto e que foi demolida aquando da abertura da Rua Mouzinho da Silveira, havia grandes festejos públicos. Os rapazes solteiros das redondezas eram os mordomos das festas. O Santo António tinha festa também na Capela da Lada, à Ribeira, e no seu dia as tabernas e estalagens do Souto e dos Pelames, e as estalagens de boas tarimbas e excelentes acomodações para pessoa assim como cavalgaduras, iluminavam os nichos do santo protector dos seus negócios.» Quanto às lendas temos a que diz respeito ao facto de Almeida Garrett nunca ter sido eleito deputado pela sua cidade. Segundo Camilo tal deveu-se ao facto de o grande romântico ter chamado ao Porto «grande aldeão». O meu voto tu não levas! – terá dito o Porto mas esse é um assunto de lenda; não de história.

(Editora: Casa das Letras, Capa: Neuza Dias, Prefácio: Geraldo Coelho Dias)

3 thoughts on “Um livro por semana 27”

  1. Francamente Cláudia essa é de cabo de esquadra. Não compares essa gralha de trocar um «n» por um «m» com a história do «barrete encarnado» em vez de verde ou a dos Bombeiros Voluntários da Ajuda que não são do Bairro da Ajuda mas sim da Praça da Alegria. Não tentes…

  2. Olha que fazes mal claudia, a não ser que não sejas do Porto e também o não conheças, pois ser-te-á mais difícil lê-lo, pois não tens as memórias das histórias que por cá vão correndo.

    Agora desculpares-te com a gralha, não pega.

    Mas, se gostas do Porto, deixo-te aqui um bocadinho, publicado por Severo Portela, em 1928, sob o título: >As alminhas da Ponte.

    Á beira do caes, fronteiras ao espaço em que as aguas do Douro graças ao trafegar intermino de embarques e desembarques se engorduram, é o nicho das Alminhas da Ponte alumiadas quer seja dia, quer seja noite, por uma lamparina de azeite. O Porto, vetusteza urbana de relembranças novelescas, sempre pelo local houve predilecção, tanto ele a indígenas como a forasteiros notorisa do expoente laborioso do seu genio tão gabado. É assim que a Ribeira com os rabelos que descem da Regua acogulados da racoita hortaliça, as barricas da sardinha em salmoura trescalando ao vento, as barcaças de carvão de pedra a alijarem em bichas de homens e mulheres de artelho fusco, vista uma vez, não mais se desgruda na retentiva. As Alminhas caiadas na parede por dedos pecos dos brochantes que de antes, periodicamente, haviam por zelo reaviva-las, no sopedaneo uma tulha para o azeite e um cofre para o dinheiro, simbilisam que desde 1809, o tripeiro nato, não poude mais esquecer o sossobrar, ali, das vidas, a tamanha mingua registarem na colmeia fabril que nos ufanamos. …

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