Um livro por semana 106

«Efeito borboleta e outras histórias» de José Mário Silva

Este é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta: «se uma borboleta bater as asas, algures na Amazónia, pode provocar um tornado no Texas». Aqui se percebe que o amor é difícil: «Meu amor, Esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Os meus netos venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão, talvez com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.» Aqui se percebe que a morte é inevitável: «São sete da tarde. Alberto está na sua área, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar. Depois de pedir ajuda a uma velhinha num 2CV preto vem a resposta com três notas de 50 euros – Meu filho, toma lá isto mas olha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste? – mas olhando melhor Alberto descobre uma gadanha no banco traseiro do 2CV. Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva: «Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance aos 31 anos em 2014, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, um choque eléctrico fulminante. Ninguém esperava aquilo. Depois deu-se o previsível colapso. Cenas lamentáveis num talk show. O internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto sem nada. A pose do eremita.» Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão: «Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.»

(Editora: Oficina do Livro, Capa: Neusa Dias, Revisão: Manuel Dias)

18 thoughts on “Um livro por semana 106”

  1. O José Mario Silva deve gostar de encurtar as distâncias. Será porque a história também não é longa? Mas percebe de geografia, ou este Zé percebe. No meu dicionário de inglês apresenta-se como exemplo desse efeito “um bater de asas de borboleta no Rio a mexer com o estado do tempo em Chicago”. Mutatas Mutandas.

    Que falta de imaginação nesta literatura de bolso portuguesa! Que tal meter a borboleta a bater as asas credoras em Xangai e a causar diarreias e nervosismo no Federal Reserve em Nova Iorque? Ou chamar a isso o “efeito do pardal” e pôr o animal a bater as asas em Bruxelas para conservar viva a brasa que assa a sardinha politica em Lisboa…

  2. Não me venhas com tretas – neste caso o que é verdadeiramente essencial é falar do livro. O Obama é de outra ordem. Tudo é absolutamente relativo. Detesto e sempre detestei essas entradas de magister – neste contexto importante é o livro. Ponto final.

  3. Caro Carlos Santos, você veja lá se dorme bem, acho impressionante como consegue acompanhar tanta coisa, mas gosto de ler, obrigado.

    Eu que sou básico ando a ver como é que no plano complexo o caminho entre dois pontos separados ao longo de uma curva pode ser mais curto, e muito mais, do que a corda que os liga, a distância euclideana, pode ser que ajude, quem fez a primeira prova foi Kasner (1914).

    a minha idéia é que se vai perceber muito melhor isto e actuar no plano complexo, até lá acho bem essas medidas todas e o Obama ainda podia mandar o Fed injectar directamente, digitalmente, nas contas bancárias de não sei quantos milhões de americanos que apresentassem uma história de cumprimento credível e agora estivessem com saldo mínimo ou negativo, x. Porque não?

  4. “Recordemos que o crédito hipotecário esteve na origem da actual crise”.

    Carlos Santos,

    Lamento mas tenho que concordar com o inefável JC Francisco. Não uses isto como um clipboard da Estação do Rossio, faz lá esse favor.

    E tu achas mesmo que as hipotecas americanas é que estiveram na origem desta crise? Gabo-te essa visão de economista do entulho normal. Meu senhor, esta, como todas as “crises” do século passado, e antes disso, foram criadas expressamente e com plano pela banca a soldo da rotxaildaria. O Eixo Londres-Nova Iorque, como de costume, foi fundamental e central, com umas ajudas de Paris e do resto dos moços de fretes da Europa.

    O que é que andavam os super-badanas de economistas e analistas de peixe grosso e muito verbo como tu a fazer que não previram esta crise e não nos salvaram dela? Bla, bla, 1929, bla, bla, 1994, tudo conversa de miudos a aguentarem o barco para não perderem os tachos nem acabarem com os sistema.. Os banqueiros, entre os quais se encontra com muita frequência marmelos da tua profissão sentados em cadeiras de presidentes e nos conselhos de administração, são uma cambada de parasitas bem pagos. Só tens que olhar aos bilhões que todos eles meterem nos bolsos, em bonuses, já não se fala do resto, durante o último ano por esse mundo fora. Não vejo muita diferença entre eles e a carraça. Se houver, é a favor da pobre carraça que se contenta com tinto fresco de cão ou gato.

    Enquanto que qualquer merda de cidadão com a instrução primária sabia há anos que o crédito estava a ser artificialmente e propositadamente posto à disposição de milhões sem condições para pagar, o economista típico ía fazendo a sua punhetita ao grilo e a escrever orações de lucro e investimento nas revistas da especialidade e nos jornais controlados pela mesma escumalha.. E agora dizem que estas coisas acontecem, que ninguém poderia ter previsto, que vamos tentar resolver tudo com uma cooperação governo-bancos.

    Nabinhos, esses especialistas? Não! Nabinhos somos nós, que votamos nesta merda todos os quatro anos.

    E não te desfaças do Obama, ele é que vai salvar este mundo.

  5. Estaca, olha que o gajo só tem trinta anos, não lhe cobres como a nós. Cobra sim com essa força toda ao César das Neves e a esses catedráticos todos de Economia que andaram a empolar isto ou caladinhos que nem ratos.

    Depois não te esqueças que a jogada foi magistral, o embuste da guerra do Iraque junto com a agenda Sokal deixou tudo suspenso excepto os tomatudos, por força da gravidade, esses foram para a rua,

  6. já agora uma sugestão socialista: todas as reformas do Estado deviam ser truncadas em 500 contos por mês, €2500, é absurdo andar a pagar mais de quinhentos contos a reformados – que no activo ganhassem mais é uma coisa, agora na reforma?

    excepto se tiverem para lá umas dívidas complicadas

    Ainda por cima como não sabem o que fazer a tanto dinheiro jogam na bolsa e nos casinos e morrem do coração mais depressa, em vez de andarem a dar passeios ao Sol e colaborarem nas actividades cívicas,

    E o diferencial devia ser usado para empregar pessoas, gerar emprego eventualmente no próprio Estado.

  7. Falar no livro. Eis o que o Zé tem a dizer sobre o mesmo:

    «Este é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta:… Aqui se percebe que o amor é difícil:… Aqui se percebe que a morte é inevitável:… Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva:… Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão:…»

    O que é isto? O vazio absoluto.

  8. Z,

    Bom, não sabia a idade do senhor. Deveria ter mostrado mais comedimento, de facto. Mas sou assim, quando chega o cheque da reforma perco a cabeça e desato logo a abrir as garrafas de champanhe, sem olhar à politica económica. Depois lixo-me.

    Nunca mais tenho juizo.

  9. Óh João Pedro não me digas que nunca ouviste dizer que cada um só pode dar o que tem? Eu não sou o professor Manuel Frias Martins; só entrei na Faculdade de Letras para asssitir à defesa da dissertação de mestrado do meu filho. Comecei a trabalhar com quinze anos e faço umas coisas nos jornais há 30 anos. Fiquei pelo Instituto Comercial; não sou professor de Letras – sou um prático. Cada um dá o que tem…

  10. jcf, não podes enveredar por esse tipo de argumento. É sempre dar razão ao adversário. Quando nos atacam, não nos devemos justificar, apontando a própria fraqueza. Devemos ripostar, com argumentos fortes e convincentes.

  11. Também não posso pedir argumentos emprestados a ninguém – só posso utilizar os meus. «Pode alguém ser quem não é ?» já dizia o Sérgio Godinho

  12. pum!

    camarada Estaca: tás mais que compreendido eu também nunca mais tenho juízo, sequer o juízo de achar que devia tê-lo, mas em relação ao rapaz por muito phoda que seja só tem trintas não tem culpa deste estado de coisas e ao menos tem tusa tal que até a mim deixa eriçado,

    jcf, longos dias têm cem anos dizia a Agustina num dos poucos momentos em que concordei com ela, a catástrofe da borboleta é considerada o signo da revolução,

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