Um livro por semana 107

Os «Narcóticos – volume 2» de Camilo Castelo Branco

O espírito e o humor de Camilo iluminam estas páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes».

Camilo comenta o problema dos direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa», dirigida por Fernandes Tomás, merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

8 thoughts on “Um livro por semana 107”

  1. Apesar de que já explicaste antes tudo muito bem – e que só mais tarde associei ao facto de teres visitado a Faculdade de Letras na qualidade de turista donde voltaste infectado com o micróbio da Literatura – ainda não consegui descobrir para quantas mercearias de livros trabalhas.

    Na minha inocência, a mancar com dificuldades de mau observador, quero lembrar-te que já tinha gostado da tua apreciação deste livro há dois ou três anos atrás, aqui, nesta montra.

    Se isto são saldos da Bonecos Rebeldes, diz, pá. Estou interessado em enriquecer a minha biblioteca com mais esse do Camilo.

  2. Olha mais um… não me digas que não percebes a diferença entre uma notícia e uma nota de leitura com ficha técnica e foto de capa. Ora bolas…

  3. Ai, o menino,

    “OLha mais um…”. Mas onde é que está o outro, ou outros? Vá, dá-me lá a lista dos livros da Bonecos Revoltosos que estão em saldo, antes que o entusiasmo se me arrefeça…

  4. Quais saldos qual carapuça… Isso é para as lojas de roupas, meias, malhas e lingerie. Não tentes brincar com coisas sérias. Vai dar uma volta ao bilhar grande. Olha que esta procissão não mete anjinhos, pá.

  5. Daqui a bocado estás a querer chamar-me «calimero» e essa não aceito. Cruzes canhoto! E olha que não são tantos são apenas dois que não percebem a diferença entre uma notícia e uma nota de leitura com foto e ficha técnica. Eles talvez até percebam mas gostam de atirar foguetes para apanharem as canas…

  6. Essa da “nota de leitura com foto e ficha técnica” fica para contar, sim, porque visto ninguém acredita. Entretanto, logo que tenha vagar, vou apresentar queixa oficial à Bonecos Revolucionários. Não te vais ficar a rir, essa garanto-te eu.

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