Vinte Linhas 318

Ler e publicar na era da abundância

Gabriel Zaid escreveu em 1995 o livro «Los demasiados libros» que em português deu «Livros de mais» na tradução de Miguel Graça Moura e na edição da «Temas e Debates». O ponto de partida deste livro é o passado («Graças aos livros sabemos que Sócrates desconfiava dos livros») para chegar ao presente: «Se a nossa paixão pela escrita não for controlada, num futuro próximo haverá mais gente a escrever livros do que a lê-los».

Um dos problemas é a rapidez de fabrico: «Os livros publicam-se a tal velocidade que nos tornam cada dia mais incultos. Se uma pessoa lesse um livro por dia estaria a deixar de ler outros quatro mil publicados no mesmo dia».

Surge a inevitável pergunta – «Ler para quê? E escrever para quê? – e a resposta do autor: «a medida da leitura não deve ser o número de livros lidos mas o estado em que eles nos deixaram». Isto porque há livros que não são para ler: «dicionários, enciclopédias, atlas, livros de arte, de cozinha, de consulta, bibliográficos, antologias, obras completas». E também há livros bons e maus: já Plínio (o Antigo) fazia um resumo de tudo o que lia porque pensava que não havia livro, por mau que fosse, que não contivesse algo de bom…

Lembra Gabriel Zaid que «depois de Gutenberg já apareceram a grande imprensa, o cinema, a televisão, a informática, os satélites, a Internet. E, de cada vez, profetizou-se o fim do livro; e no entanto, cada vez se publica mais e com maior facilidade». E por fim conclui: «as pessoas verdadeiramente cultas são capazes de ter em casa milhares de livros que não leram, sem perderem a compostura nem deixarem de continuar a comprar mais».

4 thoughts on “Vinte Linhas 318”

  1. Não só o cinema, a televisão, a informática, os satélites e a internet não acabaram com o livro, como foi criado o mercado de livros sobre cinema, televisão, informática, satélites e internet.

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