Um livro por semana 108

«Histórias de amor» de José Cardoso Pires

Mais do que um livro trata-se aqui de uma lição de história da literatura. Estamos no ano de 1952: Victor Palla e Aurélio Cruz na editora Gleba criam a colecção «os livros das três abelhas» e publicam em Julho estas «Histórias de amor» que em Agosto os serviços da Censura retiram do mercado. José Cardoso Pires, então com 27 anos, escreve uma carta ao director dos serviços de Censura reclamando contra o abuso mas nada consegue. Ficou a história de proveito e exemplo para hoje: é possível pelo sombreado verificar no texto as palavras e expressões cortadas pela Censura: «dor de corno», «filhos da mãe», «saliva de beijos», lábios húmidos», «não me beije», «sua tonta» ou «conversa do catano». Sem esquecer que também cortou nomes de autores como Maiakowski, Eluard, Gide, Pessoa e Debussy. Além dos contos e da novela, este livro inclui as críticas de Óscar Lopes, Mário Dionísio e Luís de Sousa Rebelo – o único a quem, por viver em Londres, foi permitido denunciar o facto de a Censura ter retirado este livro do mercado.

Lido em 2009, há neste livro de 1952 o vigor dum jovem escritor que queria dar o seu recado ao Mundo ao descrever a «rapariga dos fósforos»: «Deixei-a é certo, sozinha e a trincar fósforos. Mas que poderá uma pessoa, unicamente por si, quando se lhe depara uma rapariga tão jovem e com o corpo traçado pela boca esfaimada duma velha, uma rapariga que nada sabe do mundo nem nunca beijou um homem? A menos que um vento sagrado de justiça venha dignificar as razões ultrajadas, os gestos, o olhar.»

(De notar na referência biográfica de JCP a rasura de Vila de Rei; passando da freguesia ao distrito e esquecendo o concelho)

(Edições Nelson de Matos, Capa: Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Contracapa: Júlio Pomar)

7 thoughts on “Um livro por semana 108”

  1. Estamos em 2009 e há quem se lembre de retirar livros do mercado na mesma. E depois dizem que não há censura? Como se já não bastasse a censura às mulheres nuas do Magalhães. Aonde é que isto vai parar?

  2. claudia, isso é um insulto a toda a gente que foi censurada durante 48 anos.
    essa comparacao ridícula só pode servir para branquear o que foi verdadeiramente a censura do estado novo.

  3. Eu não acho piada nenhuma que agentes da PSP entrem numa feira para retirarem a “Pornocracia” e acho ainda menos piada às censuras carnavalescas. Insulto é ver reminiscências dos tais 48 anos.

  4. É impressão minha ou o Estado anda pudibundo? Por um lado, a defesa do casamento homossexual, as aulas de educação sexual; por outro lado, agentes a retirarem as capas de Courbet e as censuras às mulheres pirinuas no Magalhães. Se isto não parece o Carnaval, o que é? Mas há aqui alguma lógica? Hoje, a estibordo; amanhã, a bombordo?

  5. uf, vitória felina,

    não te preocupes claudia, eles andam baratinados mas depois vai ao sítio, já devolveram os livros porque afinal é arte, isto agora é tudo arte é a nova conclusão,

    é por isso que eu não consigo deixar de amar o meu país,

  6. Pois é! Eu também amo o meu país e também penso que eles “andem” baratinados e que depois acabam por ir ao sítio. Todavia pensava que o pide, bufo, inquisidor que existe em muitos portugueses já estava bem adormecido. Na realidade não está e o Braudel explica bem a razão destas coisas. Por vezes a memória atraiçoa-me e esqueço algumas lições. Desculpem lá o incómodo vou pôr a dentadura e ferrar a prótese no biscoito molhado no chá de tília.

  7. é, ainda ontem li sobre os relaxados em carne, também me apetecia relêr a Gramática das Civilizações mas já nem sei onde pára,

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