Vinte Linhas 317

«Um professor sem palmatória é um artista sem ferramenta»

Descobri na Livraria Alfarrabista «1870» um livrinho («Notas de um professor liceal») da autoria de João Anglin e publicado no ano de 1955 em Ponta Delgada. O que é espantoso nisto tudo é que na página 62 aparece a mesma data (1870) como referência dum grave incidente em Vila Franca do Campo: uma professora indigna desse nome infligia às suas alunas maus-tratos continuados. O comissário dos estudos Eugénio do Canto dirigiu-se ao administrador do concelho solicitando um inquérito urgente: a filha de João Oliveira Júnior tinha um tumor na sobrancelha e ferimentos nas orelhas, a de Manuel Açafroa estava quase a morrer no hospital porque tinha o osso do peito partido, a de Manuel Furtado tinha um braço deslocado. As filhas de Manuel Cantareira, Manuel de Medeiros, Serafim Tavares Pereira e Maria de Jesus também tinham razão de queixa do monstro. É neste contexto que o autor lembra «A paixão de Jane Eyre» de Charlotte Bronte e os problemas das raparigas no internato de Lowood mas também o conto «Para a Escola» de Trindade Coelho com o título desta crónica. Um episódio menos doloroso tem a ver com o Teófilo Braga que em 1860 motivou um «Conselho Escolar» no liceu de Ponta Delgada devido aos problemas que teve com o professor Coelho de Amarante (uma altercação prolongada que obstou à continuação da aula) mas tudo se resolveu a bem: o pai de Teófilo era professor no Liceu e garantiu que o filho não voltaria à aula do professor queixoso. Este, quatro anos depois, comprou e ofereceu aos melhores alunos do Liceu seis exemplares do livro «Visão dos Tempo» do mesmo Teófilo Braga. Pudessem todas as histórias acabar assim mas a maldade humana é infinita e não permite.

5 thoughts on “Vinte Linhas 317”

  1. Olá, meu Caro José do Carmo:
    Em “Uma Memória de Pereiros” no texto “A Minha Escola” reproduzo a memória de minha mãe e de outras pessoas da mesma idade, a mesma época do livro, para amaldiçoar a memória da Dona Inês e esconjurar a sua violência sobre as crianças. Não tinham direitos nesse tempo, as crianças, só os que conquistavam por suas próprias mãos, como o Eduardo que lhe sacou a vara das mãos e lha partiu na cabeça.
    Ficou analfabeto, como muitos, mas ficou livre, o senhor Eduardo
    Peço desculpa de me estar a citar.
    Cumprimento-o e vou a correr comprar o livro para me indignar de novo.
    Jnascimento

  2. A Caudia de certeza que não é deste tempo.
    Já seria muito bom se não lhe enfiassem a palmatória.
    Os Eduardos eram as excepções…a regra era comer e calar.

  3. Passei quase toda a minha primária em França, mas passei por Portugal de fugida dos 9 aos 12 anos. Fiquei a saber o que era uma reguada por eu ser uma distraída e nunca trazer os deveres de casa feitos! Em França, estudava por gosto, para ser a number 1 (e era sempre); aqui, passei a ser boa aluna, mas por medo. Ir para o convento de Santa Clara em Vila do Conde, para mim, era ir para o Inferno, a tortura, nem eu compreendia porque nos mandavam para aquele antro escuro de pessoas ausentes e miséria escondida. Ainda hoje, se me falam em palmatórias ou reguadas, fico com esse sabor amargo de nunca ter podido dar uma boa reguada naquela p*** de professora.
    E que isto fique aqui bem gravado para todos lerem. 1985/86. Foi há bem pouco tempo.

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