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Um livro por semana diferente

As palavras em jogo - 30 entrevistas e uma memória - josé do carmo francisco

«As palavras em jogo» de José do Carmo Francisco

Está quase a chegar às livrarias este livro de 220 páginas que recupera do pó do relativo esquecimento 30 entrevistas e 1 memória, lembrando deste modo 30 anos de jornalismo. No universo multifacetado dos entrevistados há um abrangente olhar sobre o Desporto e a Sociedade: Álvaro Cunhal, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, António Roquete, Carlos Mendes, Clara Pinto Correia, Daniel Sampaio, David Mourão-Ferreira, Dinis Machado, E.M. Melo e Castro, Eduardo Guerra Carneiro, Eduardo Nery, Fausto, Francisco dos Santos, Francisco José Viegas, Helena Marques, Joaquim Pessoa, José Duarte, José Fernandes Fafe, José Manuel Mendes, José Nuno Martins, José Quitério, Lídia Jorge, Luís Filipe Maçarico, Mário Jorge, Matos Maia, Mia Couto, Nicolau Saião, Rita Ferro, Romeu Correia e Urbano Tavares Rodrigues.

As entrevistas e a memória de Francisco dos Santos (1878-1930), o primeiro português a jogar em Itália, foram publicadas entre 1992 e 1996 na Revista BOLA MAGAZINE que entretanto cessou publicação. Algumas delas foram mais sintéticas devido à falta de espaço mas todas apresentam o interesse do depoimento das diversas figuras públicas sobre a sua relação com o Desporto. Apenas dois aspectos: primeiro – algumas delas trazem anexos em verso e em prosa do entrevistado que muito enriquecem o conteúdo final; segundo – a partir destes textos é possível organizar um perfil do futebol em Portugal no século XX desde a memória de Francisco dos Santos em Roma na primeira década ao Eusébio da década de setenta aqui recordado por José Duarte passando pelo Mário Jorge dos anos oitenta e sem esquecer António Roquete que jogou nas década de vinte e de trinta além de Francisco José Viegas que recorda Madjer e Dinis Machado que lembra nomes dos anos 40, 50 e 60 como Araújo, Passos, Jesus Correia, Arsénio, Vasques, Travassos, Germano, Matateu, Jaime Graça, Hernâni, Águas, Humberto Coelho, Ian Rush, Yazalde, Carlos Gomes, Azevedo, Bento, Banks, Yashine, um nunca acabar de homens, de memórias e de mitos. Sem esquecer as motos de Eduardo Guerra Carneiro e as bicicletas de Lídia Jorge.

Um livro por semana 163

Outono Antonio Salvado Kousei Takenaka

«Outono» de António Salvado

António Salvado (n. 1936, Castelo Branco) é autor de 40 títulos de poesia e membro honorário da Associação Cultural Takenaka-Basho de Pintores, Poetas e Amigos do Japão.

O seu mais recente livro de 103 páginas integra poemas seus traduzidos por A. P. Alencart (castelhano) e An Oshiro (japonês) sendo cada poema acompanhado em página par por desenhos de Kousei Takenaka (n. 1950, Ishikawa).

O ponto de partida é o Outono («Outono. Como restam / ainda nesta árvore / as verdes ilusões?») e o ponto de chegada é a Morte: «A única ambição / consistiu em doar-se / (lê-se no epitáfio)».

No intervalo entre Outono e Morte fica um princípio para a Vida: «Entrego-te o segredo: / nunca o teu coração / trema perante a dor.»

Todo o percurso dessa Vida se revela oscilando entre Natureza («Há papoilas e espigas nos teus olhos: / o reflexo da breve pequenez / do silêncio da terra quando gera») e a Cultura que tanto pode ser a Escrita («São páginas e páginas / que tu foste escrevendo. / Porém pouco disseste») como pode ser a Música: «Cavos sons: os adufes / repercutem angústias? / meigos aprazimentos?»

(Editorial Verbum e Trilce Ediciones, Fotos: Jesus Formigo e Jacqueline Alencar)

Olhar o monte

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.
Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

Dança comigo

(sobre um óleo de António Carmo)

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiro, soltos e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

Vinte Linhas 443

Luís Freitas Lobo – uma monstruosa mistificação

Autor de «Os magos do Futebol» (Bertrand Editora) Luís Freitas Lobo escreve a páginas 214 deste livro: «Peyroteo foi o grande goleador da década de 40. Nascido em Humpata, em Angola, no ano de 1918, chegou ao Sporting em 1937, com 19 anos, ainda no tempo do Campeonato da Liga, o último.»

A mistificação monstruosa está nisto: nunca houve Campeonato da Liga. As Ligas foram torneios privados, experimentais e particulares disputados entre 1934 e 1938 nos domingos deixados livres pela disputa do Campeonato de Portugal. Esse sim, esse é que atribuía o título de Campeão de Portugal. Explicando melhor: privados porque se entrava por convite. A Académica ficou duas vezes em último (1934/35 e 1935/36) mas foi convidada para os torneios seguintes. Depois experimentais porque se tratou de uma experiência nova em Portugal: um torneio em que eram atribuídos pontos por vitória ou empate. A tradição desde 1921 era os jogos serem a eliminar começando em 32 avos de final até à final. Tal aconteceu desde 1921 até 1938. Por fim particulares porque nada tinham de oficiais: as equipas entravam por convite da organização e as datas eram designadas nos domingos deixados livres pelo Campeonato de Portugal.

Acontece que os jornalistas do Benfica aproveitaram o facto de o Benfica ter vencido 3 desses 4 torneios para fingirem que não houve Campeonato de Portugal nesses anos e adicionarem assim mais três campeonatos à lista. Freitas Lobo, com aquele ar doutoral e enciclopédico não podia entrar nisto. Nesta monstruosa mistificação. Mas entrou. Tentei contactá-lo através do jornal A BOLA desde 3-11-2009 mas nada respondeu.

Um livro por semana 162

Cartas a Deus Phillipe Capelle

«Cartas a Deus» de Philippe Capelle

Com o subtítulo de «As mais belas orações cristãs» o volume reúne 207 orações com autores diversos desde São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Teilhard de Chardin, Lutero ou Calvino aos inesperados Shakespeare, Senghor, Beaudelaire, Dante, Verlaine, Rilke, Saint-Exupery, Kierkegaard, Miguel Ângelo ou Dostoiweski.

A oração é tão antiga como a relação do Homem com Deus; já o Evangelho de S. Marcos refere: «Tudo quanto pedirdes, orando, crede que o recebereis». O poeta Mário Cesariny considerava este um dos maiores poemas da Humanidade: «Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, / Vida, doçura, esperança nossa, salve! / A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. / Eis, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. / E, depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre. / Ó clemente! Ó piedosa! Ó doce Virgem Maria!».

A mais bela, mais que oração programa de vida, será esta: «Senhor, faz de mim um instrumento da tua paz. / Onde houver ódio que eu leve o amor. / Onde houver ofensa que eu leve o perdão. / Onde houver discórdia que eu leve a união. / Onde houver erro quer eu leve a verdade. / Onde houver a dúvida que eu leve a fé. / Onde houver desespero que eu leve a esperança. / Onde houver trevas que eu leve a luz. / Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. / Senhor, que eu não procure tanto consolar quanto ser consolado / ser compreendido quanto ser amado. / Pois é dando que se recebe, / esquecendo-se que se encontra, / perdoando que se é perdoado, / morrendo que se vive para a vida eterna.»

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: Rochinha Digo, Tradução: António Maia da Rocha)

Bolero da web 2.0

Está, neste preciso momento, a nevar no Porto e, em Agosto do ano passado, quando resolvi concorrer a um curso de doutoramento leccionado pela Universidade do Porto e pela Universidade de Aveiro sobre Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, estava longe de pensar que o referido curso ia constituir para mim uma genuína epifania. Concorri um bocado às cegas: li o programa, pareceu-me interessante e condizente com esta minha paixão pelo HTML com pulso, mas nem isso me preparou para o rigor, o entusiasmo e a dedicação do corpo docente, nem para o elevadíssimo nível de qualidade humana e intelectual dos meus colegas, que têm mostrado uma capacidade invulgar para me aturar. Está, neste preciso momento, a nevar no Porto e fica desta forma recomendado aos interessados e mais destemidos um programa doutoral exigente mas profundamente enriquecedor.

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Vinte Linhas 442

Um homem veio de bicicleta chamar o meu pai

A chamada «fuga de Peniche», aventura extraordinária na qual um conjunto de militantes do PCP se evadiu do Forte de Peniche, aconteceu em 3-1-1960. Lembro-me bem: tinha oito anos e vivíamos no Montijo desde 1957. Na manhã do dia seguinte à fuga, um homem veio de bicicleta chamar o meu pai. Como motorista da Brigada dos Serviços Prisionais destacada para a construção do Palácio da Justiça no Montijo, competia-lhe levar um grupo de guardas prisionais na camioneta Merceds Benz para se juntarem a outros na perseguição dos evadidos, dos «malandros» como eram designados pela estrutura superior do EPL no Linhó. Os nomes desses militantes do PCP protagonistas da «fuga de Peniche» são os seguintes: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues.

As pessoas da minha rua (Sacadura Cabral) lançaram o boato de que o meu pai tinha ido levar os guardas prisionais para o cruzamento de Pegões mas não era verdade; ele foi levá-los ao Linhó onde foram integrados por elementos da PIDE com vista à perseguição dos evadidos. Ir para Pegões à procura de alguém que tinha fugido de Peniche só mesmo para alguém que conhecesse muito mal a nossa geografia.

Nesse dia 4-1-1960 a deslocação da «brigada» foi mesmo feita a pé desde o Samouco até ao local da obra no Montijo. Razões mais importantes a isso obrigaram; coisa que nem os presos nem os guardas apreciavam muito. O jornal «Público» nada disse sobre a data tão redonda mas as acções ficam com quem a pratica. Coitados…

Vinte Linhas 441

As letras são eternas nas paredes da memória

Pertencemos à civilização do livro. Para muitos de nós a frase de Guilbert de Pixérecourt é indiscutível: «O livro é um amigo que não engana nunca». Tal como a belíssima ideia de Cervantes: «Não há livro tão mau que não tenha algo bom». Ou a definitiva opinião de Óscar Wilde: «Não há livros morais ou imorais. Os livros são bem escritos ou mal escritos».

Há uma empresa na Net (www.letraseternas.org) que pode ter nascido daquela frase de Cícero («Uma casa sem livros é um corpo sem alma») e que se dedica a eternizar frases, textos em prosa, poemas. Basta um contacto enviando uma mensagem para o mail da empresa (geral arroba letraseternas.org) e a equipa estuda o enquadramento do livro escolhido no espaço envolvente.

Pode ser um poema de Eugénio de Andrade ou um parágrafo de Jorge Amado. Pode ser na sala de visitas da casa ou no espaço do escritório onde se recebem os clientes. Pode ser no quarto do bebé que está para nascer. Pode ser durante as festas de aniversário das crianças da casa ou dos seus amigos e vizinhos.

A base do trabalho de empresa «letras eternas» é o carvão e a cera. O seu lema de acção é «Escreva a sua vida. Escreva-se».

Trata-se de um projecto original e inovador. Logo é pioneiro e daí não ser ainda muito conhecido. Mas depende também um pouco de todos nós conhecer e dar a conhecer uma ideia nova. Este texto pode ser um bom espaço para divulgação inicial entre os nossos amigos e os amigos dos amigos. Acreditamos que as letras são mesmo eternas.

Vinte Linhas 440

Estremadura

Santiago do Cacém em 1911 não era Alentejo

Acabei de ler com prazer e proveito um livro de Violante Florêncio sobre as narrativas para a infância dos escritores neo-realistas. Nada a dizer no plano geral da concepção do ensaio e da informação nele contida. Mas um pormenor na biografia de Manuel da Fonseca acendeu-me uma luz vermelha. Eu sabia que em 1911 Santiago do Cacém pertencia à Estremadura e não era, portanto, Alentejo (como vem no livro) mas faltava-me a prova. Telefonei a diversos amigos licenciados em Geográficas mas ninguém tinha a resposta pronta. Todos tinham uma ideia mas nenhum a concretização dessa ideia. Ontem, numa visita a um velho alfarrabista (A Barateira) apresentei o assunto e minutos depois tinha na mão a resposta: o livro «Lições de Geografia» para o Ensino Primário Geral (4ª e 5ª classes) dos professores Faria Artur e Dias Louro, uma edição sem data das Livrarias Aillaud e Bertrand feita de acordo com o decreto de 15-2-1921.

Entre as páginas 38 e 39 lá vem um belo mapa a cores de Portugal com as suas províncias tal com eram em 1921. A Estremadura começa em Vila Nova de Ourém e acaba em Sines. Isto (acaba em Sines) porque o distrito de Lisboa tinha como limites a norte Cadaval e Lourinhã e a sul Sines e S. Thiago do Cacém – era esta a grafia. Grândola e Alcácer do Sal também eram da Estremadura e Setúbal, embora fosse já uma cidade importante, não deixava de pertencer ao distrito de Lisboa.

Só nos anos 30, com a reformulação das províncias portuguesas levada a cabo pelo Estado Novo (que era chefiado por um velho que nunca foi jovem mesmo quando era novo) é que Santiago do Cacém passou para o Alentejo. Está tudo no livrinho.

Um livro por semana 161

ruben a. antologia

«Ruben A. – Antologia»

Ruben A. (1920-1975) é um escritor cuja obra se multiplica em várias direcções: ficcionista, dramaturgo, ensaísta, conferencista, crítico literário e divulgador cultural. Foi um viajante infatigável, viveu em vários países europeus e faleceu em Londres mas nunca deixou de olhar a sério a nossa língua («A língua que uso é a minha primeira realidade palpável») e sempre viveu as nossas romarias: «Há missa, procissão, joelhão, foguetório, festeiros, mordomos, cidra, barracas de comes, comunhão, vinho a rodos, sermão em grande estilo».

A sua obra-prima é «A Torre da Barbela», livro recusado por 14 editoras (!) antes de vencer o Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências. Neste volume (que conta com um notável prefácio de José Palla e Carmo) são revisitados oito séculos de história portuguesa através das histórias de família Barbela e da sua Torre.

Já em «O Mundo à minha procura» Ruben A. faz a sua autobiografia: «Sou contrário a que uma autobiografia se escreva no momento da reforma, quando se deixou de ser chefe de Estado, se abandonou a vida pública ou quando da caneta já nada mais pinga».

No seu livro «Kaos» surge uma das mais certeiras definições do que é ser português: «O português não sabe guardar segredos, depois, ou diz a verdade em que ninguém acredita ou os que não acreditam inventam um boato com base na verdade».

(Editora: Roma Editora, Organização: Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Apoios: Instituto Camões, Centro de Culturas Lusófonas, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Academia Brasileira de Filologia e Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa)

Vinte Linhas 439

A oficina da beleza ou o louvor do bar das sobrancelhas

Elas chegam aqui ansiosas pelo retoque, pelo diagnóstico certeiro, pela terapêutica eficaz. No Hospital da Beleza, o bar das sobrancelhas é o banco de urgência. A empregada (a enfermeira) transporta um cinto múltiplo onde cabem os diversos instrumentos da oficina da beleza: pincel de pestanas, pincel de sobrancelhas, líquidos de limpeza, diversos tipos de tesoura, pincéis para pó facial. Um nunca acabar.

Mães e filhas, umas trazem as outras, sucedem-se no balcão das urgências. Umas procuram a manutenção do esplendor juvenil, outras anseiam o recuperar da beleza e do tempo perdido em amarguras silenciosas, em manchas de solidão que formam pequenas ilhas negras no mapa da pele. Em gestos que misturam, de modo feliz, a técnica e a simpatia, as empregadas aplicam a terapêutica indicada e vão, aos poucos, dando alta hospitalar às meninas mesmo meninas e às mulheres que são de novo meninas na porta do estabelecimento de perfumaria nos Armazéns do Chiado. Lá fora, o vento e a chuva agridem quem atravessa a rua mas o sorriso e a confiança de novo readquirida ajudam a enfrentar todas as hostilidades. No sorriso da empregada que recolhe o cinto das ferramentas está o prémio invisível desta subtil acção de medicina, desta beleza de novo recuperada. Entrei no estabelecimento para comprar um perfume cujo nome (talvez não por acaso) é «Poême» para uma amiga aniversariante e fico imóvel perante a azáfama do balcão das sobrancelhas. A empregada (a enfermeira) a todas recebe com um sorriso. Não se trata apenas de um ofício; há também uma força de paixão e de ternura entre as mães ágeis, o cinto dos instrumentos, o trabalho desenvolvido e o resultado final.

Vinte Linhas 438

«Nós por cá» todos mal na SIC e no Príncipe Real

Um dos 57 comentários no Blog «aspirinab.com» ao meu texto de revolta intitulado «O arboricídio camarário floresce no Príncipe Real» remete para um vídeo da SIC no seu programa «Nós por cá». Na altura de maior calor à volta do assunto (agora a destruição já está consumada) vi o referido vídeo mas não me apercebi da gravidade de uma pergunta feita pelo repórter ao vereador. É uma pergunta capciosa, falsa, fora da realidade: «Alguma destas árvores abatidas estava classificada?» Todo feliz, o vereador respondeu, como quem fecha uma porta: «Nenhuma estava classificada!».

O problema é esse. Não só não perguntou qual a razão que levou a «quadrilha selvagem» da CML a abater todas as árvores de um mesmo enfiamento (não estavam nem podiam estar todas doentes) mas também não perguntou porquê a ausência de parecer do IGESPAR e da AFN (Autoridade Florestal) em relação aos abates de árvores a menos de 50 metros de uma árvore classificada. Quem tenha visto o referido programa fica com a ideia (erradíssima) de que está tudo legal quando, na verdade, a destruição das árvores teve início no dia 23-11-2009 e só no dia 30-11-2009 muito à pressa e de modo atabalhoado, o IGESPAR ratificou de facto uma carnificina florestal já iniciada e concluída. Quanto à AFN ainda nada – nem novas nem mandados. Mas também agora já nada adianta. O trabalhinho está feito. Fora do assunto das árvores (o principal) é espantoso como o repórter não se lembrou de perguntar porquê a insistência num saibro que já provou não prestar noutros jardins (agora simples miradouros) com o vento a fazer do saibro açúcar maldito nas chávenas de café dos incautos turistas.

Um livro por semana 160

«A Bíblia para Todos» – edição literária

Numa edição feita a partir dos textos originais em hebraico, aramaico e grego, este livro surge na sequência do trabalho de uma vasta equipa: Manuel Alexandre, Carlo Buzzetti, Soares Carvalho, Roy Ciampa, Rui Duarte, Teófilo Ferreira, Carreira das Neves, João Pinheiro, José Ramos, Pinto Ribeiro, António Tavares e Theron Young. As suas 2415 páginas estão organizadas num texto «corrido», sem mapas, desenhos, glossários ou tabelas cronológicas mas existe um site na Net (www.abibliaparatodos.pt) no qual é possível entender melhor o significado de certos textos. Outros, como as palavras do sábio Qohelet no Eclesiastes, são acessíveis ao leitor mais desprevenido:

«Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio. Há o tempo de nascer e o tempo de morrer; o tempo de plantar e o tempo de arrancar; o tempo de matar e o tempo de curar; o tempo de destruir e o tempo de construir; o tempo de chorar e o tempo de rir; o tempo de estar de luto e o tempo de dançar; o tempo de atirar pedras e o tempo de as juntar; o tempo de se abraçar e o tempo de se afastar; o tempo de procurar e o tempo de perder; o tempo de guardar e o tempo de deitar fora; o tempo de rasgar e o tempo de coser; o tempo de calar e o tempo de falar; o tempo de amar e o tempo de odiar; o tempo de guerra e o tempo de paz.» E conclui: «O melhor que uma pessoa tem é comer e beber e saborear os frutos do seu trabalho».

(Edição: Círculo de Leitores/Temas e Debates, copyright: Sociedade Bíblica de Portugal)

Vinte Linhas 437

O Nobel da Paz para Barack Obama ou a memória de Panduru

O absurdo que constitui a atribuição de um prémio internacional (o Nobel da Paz) ao presidente dos EUA no momento, quase em cima do momento, em que ele acaba de reforçar a aposta militar no Afeganistão com mais 30 mil soldados americanos a caminho do Oriente, lembrou-me uma situação muito curiosa por mim vivida nos anos 80 no meu local de trabalho. O presidente foi premiado por aquilo que se espera que ele faça e eu fui preterido numa promoção porque era preciso dar ânimo a um «rapaz» que por sistema faltava ao trabalho umas vezes na sexta e outras na segunda-feira. Fazia sempre fins-de-semana prolongados mas era considerado recuperável e precisava de estímulo. Para ele ser estimulado eu não podia ser promovido. Uma questão de vagas por cada secção e por cada departamento. Isso me foi explicado por um «rapaz» do meu tempo que era director e que gostava de falar comigo sobre temas do futebol. Como benfiquista ferrenho, esse «rapaz» perguntava-me muitas vezes o que pensava eu da qualidade de futebolista do romeno Panduru. «Percebe-se que tem escola mas nada nem ninguém nos garante que consiga a integração» – era isto mais ou menos que eu dizia à porta do seu gabinete. Outro «rapaz» do meu tempo era o meu chefe de secção que em diálogo com o director, bem apertado por este, lá desembuchou essa história da promoção como estímulo em vez da promoção como prémio. Já morreram dois – o «rapaz» director e o «rapaz» promovido. O outro anda por aí e deu em tratar a neta por «você». Nunca recuperou e está a enlouquecer lentamente pelos jardins da cidade que a «quadrilha selvagem» da CML ainda não destruiu.

Vinte Linhas 436

«O jogo de Salazar» ou as distracções imperdoáveis de um «mestre»

Como co-autor do livro «Glória e Vida de Três Gigantes» (edição de A BOLA) não posso deixar de manifestar a minha surpresa perante as afirmações de um senhor de nome Ricardo Serrado, «mestre» em História pela Universidade Nova à revista do Diário de Notícias deste domingo. Autor do livro «O jogo de Salazar – a Política e o Futebol no Estado Novo» (editora Casa das Letras), o jovem «mestre» começa por fingir desconhecer que antes das duas Taças dos Campeões ganhas pelo Benfica em 1961 e 1962 já o Sporting tinha sido convidado a inaugurar a Taça dos Campeões Europeus em 1955 num jogo com o Partizan disputado no Estádio Nacional. O jogador «leonino» José Travassos foi seleccionado para alinhar na equipa representativa da UEFA contra o «resto do Mundo». A sua frase infeliz é esta: «O país esquecido que até então nunca tinha tido qualquer expressão internacional nas lides do futebol, vê-se no topo da Europa e nas bocas do Mundo». Mas tão grave como esquecer os antecedentes a 1961-62 é fingir que no ano de 1964 o Sporting não ganhou a Taça dos Vencedores das Taças da Europa depois de um brilhante percurso desportivo. Bateu os frágeis cipriotas do Apoel por 16-1-e 2-0 mas teve árduo trabalho para vencer o italiano Atalanta de Domenghini (0-2, 3-1 e 3-1 no desempate), o inglês Manchester United de Charlton, Law e Best (1-4 e 5-0), o francês Lyon de Combin (0-0, 1-1 e 1-0 no desempate) e por fim o húngaro MTK de Sandor e Kuti em dois jogos terríveis – Bruxelas (3-3) e Antuérpia (1-0) com o golo de Morais em canto directo. Mas não; o «mestre» não sabe isto porque isto não tem a ver com o Benfica. Assim não se faz a História, só a lenda.

Os Avieiros

A Cultura dos Avieiros candidata a Património Nacional

No passado dia 10-9-2009 a candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional foi apresentada no Palácio da Ajuda onde funciona o Ministério da Cultura. Estiveram presentes João Serrano (projecto dos Avieiros), Luís Vidigal (Instituto Politécnico de Santarém), Luís Marques (Director Regional de Cultura) e Nelson Quico, assessor do Ministério da Cultura. Depois de formalizado o pedido, ficou marcado o 1º Congresso Nacional da Cultura Avieira para 7/8/9 de Maio de 2010 em Santarém. Além da homenagem nacional a Maria Micaela Soares, outro ponto da agenda será a edição popular do livro «Avieiros» de Alves Redol, há muito esgotado no mercado livreiro português. Não sendo antropólogo ou historiador, tive alguma convivência com a realidade dos Avieiros em Vila Franca de Xira entre os anos de 1961 e 1966. Vivia no Bairro do Bom Retiro, estudava na Escola Técnica e tinha aulas nos «Combatentes» e no «Matadouro» além de «Trabalhos Manuais» num armazém perto da estação da CP. Guardo desses tempos a imagem do garrido dos seus trajes, o seu falar típico e a percepção de que eles viviam num espaço diferente. Não só pelas «casas-barco» mas também pelo precário que tudo aquilo prenunciava perante as longas chuvas do Inverno daquele tempo. Continuar a lerOs Avieiros

Livraria do Simão

A mais pequena livraria do Mundo

Fica nas Escadinhas de S. Cristóvão nº 18 (à Rua da Madalena) na Baixa, tem o telefone 211106666 e o código postal 1100-512 Lisboa. O seu proprietário Simão Carneiro tem 37 anos de idade, uma licenciatura e uma pós-graduação em Enologia mas o seu mundo é este: livros usados, raridades bibliográficas, discos, papéis antigos, gravuras, manuscritos e banda desenhada. A casa tem um metro de largura e 3,80 metros de comprimentos – o que perfaz 3,80 metros quadrados. De tal modo é maneirinha a livraria que quando o cliente curioso entra, o seu proprietário tem de sair. Não há espaço para dois seres humanos lá dentro. O espaço foi arrendado há quatro anos e tem uma frequência interminável de gente que vem do Castelo para a Baixa a pé. Ouve-se falar inglês, castelhano, francês, italiano, russo. Os turistas acham graça e às vezes compram. Há aqui um pequeno «stock» de livros estrangeiros.

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Um livro por semana 159

«A Reconstrução do Sagrado» de Aurélio Lopes e João Monteiro Serrano

Depois de «Videntes e Confidentes» sobre Fátima, Aurélio Lopes, que se estreou em 1995 com «Religião Popular do Ribatejo», regressa ao tema em parceria com João Monteiro Serrano. Com o subtítulo de «Religião Popular dos Avieiros da Borda d´Água», este volume de 168 páginas investiga o modo como a religião em memória trazida da Vieira de Leiria se transformava em religião prática nas aldeias à beira do Tejo. A viagem era complicada: «A gente ia primeiro a pé até Monte Real, em seguida de comboio até Alfarelos e, depois, noutro comboio até Santarém». A instalação não o era menos: «O barco era instrumento de trabalho mas igualmente casa, veículo de transporte, maternidade e enfermaria». Com a itinerância, os Avieiros deixaram de frequentar as igrejas («excepto para casamento ou funeral») e a razão era a distância: «Não íamos porque era muito longe e não tínhamos vida para isso». As relações com as comunidades locais não eram fáceis: «Aos Avieiros do Patacão que mandavam os filhos à escola na Quinta da Lagoalva, era-lhes exigido que frequentassem a missa ao domingo em conjunto com as crianças, condição indispensável para as mesmas terem direito ao almoço escolar na semana seguinte». Os pioneiros sabiam rezar («A minha avó sabia. Ela era da Vieira») mas os mais novos já não: «A gente não tinha vagar de aprender as rezas porque andávamos de noite e de dia por lá». Daí a importância do bruxo: «Esta noite iam e apanhavam bom peixe. Se na noite que vem não apanhassem nada, diziam logo que era uma bruxa que andava ali».

(Editora: Âncora, Prefácio: D. Manuel Pelino Domingues, Capa: Ideias Virtuais sobre foto de João Serrano)