Olhar o monte

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.
Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

6 thoughts on “Olhar o monte”

  1. Porreiro Sinhã. Ainda bem que gostas do poema em prosa. Está a ser oferecido às pessoas que em Cáceres apanham os «expressos» para Évora ou Portalegre. Trduzido por Antonio Saez Delgado, com o outro «Dança comigo».

  2. Como terá o Delgado vertido o teu monte para castelhano? Monte? Finca?

    Veo (percibo é melhor) la finca cuando te miro…

    Recuerdo el monte cuando ojeo para ti…

    Pá, traduzindo monte por monte dá raia, ninguém te entende; traduzindo monte por finca perde-se todo o sentido, fica-te a poesia a manquejar.

    Pá, se é para publicar noutras línguas talvez seja preferível colocares a rapariga noutro sítio, talvez um barco-casa na albufeira do Alqueva, uma cabana de madeira na mata do Buçaco, um alambique clandestino na serra do Caldeirão, sei lá…

    Quando puderes põe aqui esta tua prosa em língua castelhana, se quiseres fazer o favor. Fiquei curioso.

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