Os Avieiros

A Cultura dos Avieiros candidata a Património Nacional

No passado dia 10-9-2009 a candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional foi apresentada no Palácio da Ajuda onde funciona o Ministério da Cultura. Estiveram presentes João Serrano (projecto dos Avieiros), Luís Vidigal (Instituto Politécnico de Santarém), Luís Marques (Director Regional de Cultura) e Nelson Quico, assessor do Ministério da Cultura. Depois de formalizado o pedido, ficou marcado o 1º Congresso Nacional da Cultura Avieira para 7/8/9 de Maio de 2010 em Santarém. Além da homenagem nacional a Maria Micaela Soares, outro ponto da agenda será a edição popular do livro «Avieiros» de Alves Redol, há muito esgotado no mercado livreiro português. Não sendo antropólogo ou historiador, tive alguma convivência com a realidade dos Avieiros em Vila Franca de Xira entre os anos de 1961 e 1966. Vivia no Bairro do Bom Retiro, estudava na Escola Técnica e tinha aulas nos «Combatentes» e no «Matadouro» além de «Trabalhos Manuais» num armazém perto da estação da CP. Guardo desses tempos a imagem do garrido dos seus trajes, o seu falar típico e a percepção de que eles viviam num espaço diferente. Não só pelas «casas-barco» mas também pelo precário que tudo aquilo prenunciava perante as longas chuvas do Inverno daquele tempo. Outro dia tive um choque quando fui com um grupo de amigos ao Patacão (Alpiarça) e estive dentro de uma casa abandonada, vendo as árvores a entrarem pelo telhado, a destruir tudo, barrotes, telhas, traves. Entretanto o antropólogo Aurélio Lopes em parceria com João Monteiro Serrano publicou na Âncora Editora o livro «A reconstrução do sagrado» sobre a religião popular dos Avieiros. O livro tem o prefácio do Bispo de Santarém, D. Manuel Pelino Domingues. Pela minha parte reconheço que, das poucas vezes em que escrevi sobre o tema, cometi um erro crasso por omissão. Referi-me ao livro «Avieiros» de Alves Redol de 1942 mas esqueci-me que José Loureiro Botas tinha publicado em 1940 o seu conhecido «Litoral a Oeste» com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. Nesse livro (Prémio Fialho de Almeida em 1940) um desses contos («A Leandra») foi escrito em 1938 e ganhou o prémio literário desse ano do Ateneu Comercial de Lisboa. José Loureiro Botas nasceu na Vieira de Leiria, viveu em Lisboa e conheceu bem as histórias dos Avieiros como a Leandra. Vamos ao conto.

A Leandra quase naufragou uma noite no Tejo e por isso «sabia rir de tudo, sem ligar importância aos pequeninos nadas». Um dia foi pelo Tejo acima com o seu marido (o Joaquim) e os dois filhos mais pequenos (os outros três ficaram com a mais velha em casa) mas de repente apareceu um temporal e ficou escuro como «a ferrugem da chaminé» mas o pior foi que começou a chover muito e veio uma trovoada. No meio do medo e da confusão aperceberam-se da chegada de uma barca grande com o António Milhafre, pescador conhecido a quem pediram ajuda. A resposta do outro foi «arranjem-se como puderem, levo o barco a abarrotar de peixe e não o vou perder por causa de vocês». Horas depois rompeu o dia e apareceu um barco grande que os ajudou num reboque gratuito. Do António Milhafre nunca mais ninguém soube. Do seu barco só bocados «tábua aqui, tábua acolá». A Leandra nunca mais quis nada com tristezas.

4 thoughts on “Os Avieiros”

  1. Mais recentemente, e um pouco mais a sul, já próximo de Lisboa, ainda me lembro desses barcos-casa e das famílias que neles viviam. Obrigado a quem trabalha na preservação dessas memórias.

  2. São raras as referencias aos Avieiros e à realidade da sua saga tão bem retratada por Alves Redol, quando afinal, parecendo referencias a ocorrências que se perdem no tempo, elas são contemporâneas.
    Como Vieirense agradeço este empenho.
    Quero informar a quem eventualmente não saiba que a obra referida “Litoral a Oeste” de José Loureiro Botas, foi recentemente reeditada pela BIP – Biblioteca de Instrução Popular, que como o nome indica, é uma colectividade vieirense criada pelo povo na década de 30, então como agora dedicada à promoção e divulgação da cultura dos vieirenses.

  3. E deve lembrar-se, como parte integrante dessa cultura, a “fataça na telha” que se comia num pequeno restaurante da borda d’água, nas Caneiras, Santarém, invenção de uma velha avieira de quem era justo que eu tivesse guardado o nome.
    Bom apetite, José do Carmo Francisco e muito empenho nestas causas !
    Jnascimento

  4. Quando se chega a uma certa idade não custa nada admitir um erro ou neste caso umlapso de perspectiva: na verdade o pioneiro foi José Loureiro Botas com os contos embora o trabalho de Alves Redol seja mais substancial pois é um romance

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