Vinte Linhas 440

Estremadura

Santiago do Cacém em 1911 não era Alentejo

Acabei de ler com prazer e proveito um livro de Violante Florêncio sobre as narrativas para a infância dos escritores neo-realistas. Nada a dizer no plano geral da concepção do ensaio e da informação nele contida. Mas um pormenor na biografia de Manuel da Fonseca acendeu-me uma luz vermelha. Eu sabia que em 1911 Santiago do Cacém pertencia à Estremadura e não era, portanto, Alentejo (como vem no livro) mas faltava-me a prova. Telefonei a diversos amigos licenciados em Geográficas mas ninguém tinha a resposta pronta. Todos tinham uma ideia mas nenhum a concretização dessa ideia. Ontem, numa visita a um velho alfarrabista (A Barateira) apresentei o assunto e minutos depois tinha na mão a resposta: o livro «Lições de Geografia» para o Ensino Primário Geral (4ª e 5ª classes) dos professores Faria Artur e Dias Louro, uma edição sem data das Livrarias Aillaud e Bertrand feita de acordo com o decreto de 15-2-1921.

Entre as páginas 38 e 39 lá vem um belo mapa a cores de Portugal com as suas províncias tal com eram em 1921. A Estremadura começa em Vila Nova de Ourém e acaba em Sines. Isto (acaba em Sines) porque o distrito de Lisboa tinha como limites a norte Cadaval e Lourinhã e a sul Sines e S. Thiago do Cacém – era esta a grafia. Grândola e Alcácer do Sal também eram da Estremadura e Setúbal, embora fosse já uma cidade importante, não deixava de pertencer ao distrito de Lisboa.

Só nos anos 30, com a reformulação das províncias portuguesas levada a cabo pelo Estado Novo (que era chefiado por um velho que nunca foi jovem mesmo quando era novo) é que Santiago do Cacém passou para o Alentejo. Está tudo no livrinho.

10 thoughts on “Vinte Linhas 440”

  1. Como por vezes sabemos certas coisas! Nunca entendi como no B.I. do meu pai , ele aparecia como nascido em Alcácer do Sal, Estremadura, e não Alto Alentejo .Agora já vi a razão.E ele nunca falou nisso; sempre se considerou e muito bem Alentejano: o Alentejo é um país.

  2. Já agora que viveste até aos 18 anos devias procurar uma autora de S. Tiago do Cacém chamada Maria da Conceição Vilhena. Tem um belo livro de memórias e um capítulo cujo título é: «Nós não éramos alentejanos». Alentejanos eram os que passavam nas carroças a caminho da praia… Ela deve ter nascido entre 1910 e 1920, talvez. Daí esse título num dos seus livros.

  3. Já agora Alcácer do Sal, Grândola, Santiago do Cacém e Sines passram a pertencer ao Baixo Alentejo, nunca pertenceram ao Alto Alentejo, província que não tem qualquer ligação ao mar.

  4. Queres com isto dizer que o Manuel da Fonseca não era Alentejano? Pois…mas ser Alentejano não se é por uma questão geográfica e de razão, é-se pela alma, pela emoção e pelo coração. Basta ler a obra. ter conhecido o Homem e falado, olhos nos olhos com ele (como eu fiz), para não se ter dúvidas quanto à grande identificação que o Manuel da Fonseca tinha com o Alentejo e, sobretudo, com os Alentejanos. O resto é burocracia e nada mais.

    Paulo Chaves

    Santiago do Cacém

  5. O que eu quero dizer é outra coisa; eu não escrevo para «querer dizer». Então se tu nem o título percebeste o que é que queres que eu diga??? Que és analfabeto??? Conheci muto bem o Manel da Fonseca, fiz parte de diversos júris de prémios literários com ele, convivi muito com ele na Livraria Forja aqui no Bairro Alto, fui a Santiago do Cacém uma vez almoçar com ele, não venhas querer dizer o que eu sei. Mas não queiras fingir que não percebes o título do texto…

  6. Jcfrancisco

    Encontrei no Google uma historiadora Maria Conceiçãi Vilhena com doi livros publicados sobre Santiago do Cacém nas edições colibri. Esse do “nós não somos alentejanos” não encontrei mas vou adquirir os outros dois. Obrigado!

  7. Meu Caro Antonio Parente – esse título não é do livro é de um capítulo do livro de memórias, nomeadamente quando ela recorda os seus tempos de gaiata em que vinha uma camioneta recolher o conteúdos dos bacios…

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