Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Graça/Prazeres

Por aqui vivi outras manhãs

a caminho dum emprego pontual

arrepiado à porta da PIDE

duas vezes por dia todos os dias.

Mesmo ao domingo por aqui passava

Para o cinema ou para o futebol

havia uma linha pela Rua Augusta

e ia até ao Rossio – só ao domingo.

Assembleias Gerais na Voz do Operário

Alguns mortos queridos nos Prazeres

Eu próprio que morri aos poucos nesta linha

E até Fernando Pessoa tem uma paragem

porque a aldeia dos sinos da minha aldeia

é aqui e não como eu vi nos livros escolares

uma aldeia vulgar como o romantismo queria.

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José do Carmo Francisco in «Transporte Sentimental»

Edição da Câmara Municipal de Lisboa

O quadro anexo é da autoria de J. B. Durão

e está na Galeria All Arts Gallery

na Rua da Misericórdia 30 ao Chiado

Um livro por semana 169

«Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música»

O Conservatório Regional de Música de Viseu celebra o seu 25º aniversário com esta edição organizada por Amadeu Baptista, São 130 poetas de diferentes espaços geográficos: Portugal, Angola, Brasil, Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste. De «A» a «Z» surgem registos poéticos tão diversos como os seus nomes e origens: Adalberto Laves, Alexei Bueno, Ana Hatherly, António Osório, António Rebordão Navarro, E.M. Melo e Castro, Fernando Echevarría, Fernando Grade, João Camilo, João Candeias, João Rui de Sousa, José Luís Peixoto, José Mário Silva, Maria Teresa Horta, Nicolau Saião, Ruy Ventura, Vergílio Alberto Vieira e Zetho Cunha Gonçalves. Na impossibilidade de os citar todos fica uma lista como sugestão de procura. Duas notas: o meu poema na página 106 foi repescado do «aspirinab» e cito o poema «Iannis Xenakis – sugestões» de Levi Condinho:

«Contra a gaguez dos deuses que nos confundem / erguem-se as ásperas vozes ossificadas / de dentro das pedras talhadas a pique / nas rebeldes falésias sobranceiras ao mar / pedras brancas habitadas por seres de eras submersas.

são coros cavados sobre peitos de cobre / metais que respiram no coração das lâminas / ecos sobre ecos sobrevoam vales ácidos / em busca do segredo das sibilas / ou do signo das maresias loucas incidindo sobre as têmporas / tambores de bronze conclamam as grandes aves das alturas/ as casas da música são brancas de ferir a areia / e o Homem desafia os deuses no gume do meio-dia – arrepio telúrico na arquitectura vermelha do Sol –

grande é esforço das ondas / no árduo combate às alcateias cegas / que o deserto transporta no seu ventre.

no topo da cidade a árvore gigante / reflecte-se no vidro – efémero triunfo das alquimias / onde a Razão namora o lagarto solar».

Vinte Linhas 449

Um minuto de silêncio por PB algures por aí e por JEB no Brasil

Aquele minuto de silêncio por Libânio, o lendário guarda-redes do SCP que fez parte dos cromos do meu tempo de menino, deu-me um estremecimento. Nasci em 1951 e vi o Libânio em algumas colecções num tempo em que o guarda-redes podia ser Octávio de Sá, Aníbal ou Carvalho mas também Libânio. Jogava muitas vezes nas «reservas» cujo campeonato era disputadíssimo. O minuto de silêncio deu origem a um coro de assobios alguns minutos mais tarde. Ora os assobios não são dirigidos só contra o jovem candidato que os recebeu (diz ele que entram a cem e saem a duzentos) mas contra quem o colocou lá. Os assobios são contra PB que afastou Stojkovic depois de uma frase assassina nas Antas («Em caso de dúvida devia pontapear a bola») quando o erro crasso foi do árbitro e não do jogador. Com os seus delírios e as suas alucinações, PB afastou sempre jogadores que tinham jogado muito bem no domingo anterior colocando em seu lugar quem tinha treinado bem durante a semana. Foi assim com Adrien, com Pereirinha, com Yannick, com Vukcevic, depois de exibições magníficas contra Roma, Porto, Braga e Benfica. Suprema humilhação: tirou Vukcevic da final da Taça quando foi ele e Derlei que mais fizeram pelos 5-3 ao Benfica. O minuto de silêncio tem a ver com JEB no Brasil pois fugiu na pior altura, quando o seu treinador (PB for ever!, lembram-se?) depois de afastado ainda é responsável pelo descalabro por si instalado na equipa. Aquele minuto de silêncio lembrou-me também Emídio Rafael na Académica afastado por PB do SCP; ele era capitão dos Iniciados em 2000/1 ao lado de André Vilar, João Moutinho, Carlos Saleiro e Miguel Veloso. O minuto de silêncio foi para ele também.

Vinte Linhas 448

Tenho na memória um certo Lusitânia – Samora Correia

Li num texto de Joel Neto que o Lusitânia vai acabar, não um Lusitânia qualquer que os deve haver muitos pelas comunidades portuguesas, mas o Lusitânia dos Açores. Assim de chofre é como quando me disseram que o Diário Popular ia acabar. Um choque brutal porque quando morre uma instituição à qual estamos ligados morre um pouco de nós. O Diário Popular foi o jornal nacional onde me estreei em 1978; com o seu desaparecimento perdeu-se o melhor de mim que ao longo dos anos escrevi nas suas páginas honradas. Sobre o Lusitânia dos Açores faço apenas duas aproximações. Ouvi uma vez o grande Mário Lino (que veio da Horta para Angra por 15 contos) dizer com sentido de humor que no Faial teve a sua Instrução Primária, no Lusitânia fez o seu Liceu e no Sporting teve a sua Universidade do Futebol. Nunca esqueci esta comparação que diz bem da importância deste Clube fundado em 1922, delegação nº 14 do Sporting Clube de Portugal. Foi 38 vezes campeão distrital e 16 vezes campeão açoriano além de campeão insular em 1963/1964 jogando em Angra e no Funchal. Foi o primeiro clube dos Açores a disputar um campeonato nacional no ano de 1978/1980. A segunda aproximação é esta: corria o ano de 1989 quando fui primeira página no Diário Insular por um livro meu apresentado pelo poeta Álamo Oliveira. A outra metade da primeira página foi uma foto do Lusitânia – Samora Correia do domingo à tarde. Lembro-me bem de ter visto o jogo e de me ter parecido ao longe um Sporting – Boavista por causa das camisolas. Não quero acreditar; parece que ainda lá estou a ver o jogo com os soldados a devolveram as bolas mais altas que chegavam ao seu quartel.

Um livro por semana 168

«Enciclopédia da Música em Portugal no século XX»

Com direcção de Salwa Castelo-Branco e tendo Rui Vieira Nery como consultor geral, este volume de 326 páginas inclui os verbetes de «A» a «C» elaborados por 150 redactores. Ou seja, de Azinhal Abelho e Mara Abrantes a «Os Conchas» e «Conjunto de João Paulo», indicando os verbetes em campos tão diversos como a música erudita, a música popular ou o pop-rock. Também as figuras objecto de referência são muito mais do que os intérpretes; são compositores, grupos musicais, poetas, críticos, letristas, arranjadores, produtores, promotores e gestores culturais.

Podemos ver a ficha de José Mário Branco ao lado de toda a família Freitas Branco: Luís, Pedro, João, Maria Antoinette e João Paes. Notamos a entrada de José Afonso ao lado da de António Vitorino de Almeida ou a de Carlos do Carmo ao lado da de João Braga. Há verbetes bem informados sobre a canção de Coimbra mas também sobre o Baldão (Baixo Alentejo) ou a Chamarrita (Açores). Se Francine Benoit está junto a Constança Capdville, Ruben de Carvalho está junto de Álvaro Cassuto. E Paulo de Carvalho junto de Luís Cília. Numa obra de referência que estuda também o fado, o jazz, a música popular urbana e a música das comunidades migrantes, nota-se a falta do verbete de Paulo Bragança. Se havia dificuldade na obtenção dos dados biográficos (vive em Dublin) já a discografia está à vista de todos. Numa obra abrangente como esta faz falta uma referência à voz de Paulo Bragança. Os homens passam; as obras ficam.

(Editoras: Temas e Debates-Círculo de Leitores, Apoios: FCT, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto Camões, Fundação Luso-Americana, Ministério da Cultura e FCSH Universidade Nova)

Vinte Linhas 447

Domingos não é Domingues ou uma «Visão» toldada pelo encarnado

Hoje, 4 de Fevereiro de 2010, a «Visão» (Revista) traz consigo uma «Visão» (Suplemento) que procura descrever a vida quotidiana em Portugal há cem anos. Até aqui tudo bem. É lógico que se façam trabalhos jornalísticos sobre o tema porque estamos num ano redondo – 1910-2010. Mas, porém, todavia, contudo…

Na ficha da cronologia desse tempo nota-se um erro no ano de 1904. Erro crasso mas inevitável num país onde a história do Desporto tem sido sempre entregue a benfiquistas. Todos o sabemos, é um dado adquirido, a história é sempre escrita pelos vencedores e, por isso mesmo, eles podem escrever todas as patranhas e ainda lhes sobeja tempo. Na página 17 da «Visão» História lá aparece: 28-2-1904. É fundado em Belém por um grupo de jovens ex-casapianos, o Sport Lisboa que, dois anos depois se fundirá com o Grupo Sport Benfica, passando a ser o Sport Lisboa e Benfica.

Erro crasso, mentira encarnada: o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 13 de Setembro de 1908 e não dois anos depois de Fevereiro de 1904. Por outro lado o Grupo Sport Benfica ainda não existia dois anos depois de 28-2-1904. Foi fundado mas no Verão de 1906. Dois anos depois de 1904 foi fundado de facto o Sporting Clube de Portugal mas a «Visão» esquece-se de dizer que o mesmo grupo de rapazes já tinha fundado o Sporting de Belas em 1902 e o Campo Grande Foot Ball Clube em 1904. E esquece-se da fotografia do Sporting Clube de Portugal, como é lógico e natural.

Outra coisa: na página 98 o nome do responsável da editora Frenesi é bem Paulo da Costa Domingos e não Paulo da Costa Domingues. Ai estes historiadores…

Um livro por semana 167

«Os putos – contos escolhidos» de Altino do Tojal

Altino do Tojal (n.1939) publicou em 1964 o livro de contos «Sardinhas e lua» que, a partir de 1973, mudou o título para «Os putos». Esta é a 30ª edição com 38 contos escolhidos entre os 145 da edição de 2001 da Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

O primeiro conto lê a infância: «Os crepúsculos eram negros, mas as manhãs… Enquanto a minha tia afligia os infelizes diabitos à sua mercê, entre quatro paredes sombrias forradas de velhos mapas rasgados, eu vadiava longe, na luminosidade mágica do dia, as mãos atrás das costas, as aletas do nariz palpitando a cada aragem resinosa, a guedelha tombada para os olhos como a crina dos póneis, gloriosamente sujo».

O último lê a idade madura: «Além de velho, feio, azedo e doente, sou pobre. E tenho livros publicados, pois tenho, o que não me libertou da pobreza. Vê-se que nunca lidaste com editores. Publicam-me os livros, mas quanto a pagar… Editores, editores…»

No intervalo surge a memória do avô: «Meu avô gozava de prestígio, porque em novo apertara pessoalmente a mão do presidente Bernardino Machado – um verdadeiro democrata. Recebia regularmente do Brasil uns jornais onde regularmente se dizia mal de Salazar e costumava levá-los para o café, depois do almoço, a fim de ler trechos perigosos aos confrades». Como pano de fundo geral, a solidão: «Penso que continuei a respirar os ares deste mundo porque a minha imensa solidão era afinal um firmamento povoado de boas histórias à espera de serem contadas. Expressar através da palavra escrita, com a máxima beleza e a mais pura limpidez, aquela tensão criativa permanente, cujo excesso de luz interior punha clarões nos meus olhos e me fazia andar pelas ruas como um sonâmbulo, eis verdadeiramente o que me mantinha vivo.»

Altino do Tojal: uma escrita de recorte clássico num autor moderno.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Isabel Ferreira)

Vinte Linhas 446

Os três meninos brincam com as canas da praia

Estamos no último dia de Janeiro. As ondas do mar na Foz do Lizandro rasgaram por fim a enorme duna de areia que separava as águas verdes e paradas do rio das outras águas azuis e agitadas do Oceano Atlântico.

Uma colecção de fatos de borracha seca ao sol no parapeito de um dos bares da praia enquanto um inglês lê um livro à porta da sua roulotte sentado numa cadeira de lona e completamente descalço, no usufruto completo e feliz do sol de Portugal.

As ondas da maré-alta trouxeram canas secas ao areal quase deserto. Na gramática da Natureza é possível (é mesmo provável) que estas canas tenham sido atiradas ao mar pela ligação rasgada na areia pelo furor das ondas. Entre as bicas escaldadas e os jornais do fim-de-semana, entre as conversas vagarosas e os telemóveis sossegados, três crianças brincam na praia à nossa frente com as canas.

Cada uma pega em duas canas. Parecem cavaleiros da Távola Redonda à procura do Rei Artur. É inevitável. Recordo de imediato o meu neto Thomas Francisco em Greenwich à beira do Tamisa a brincar com as suas canas. Em Outubro perguntei-lhe se ele estava a observar pássaros; ele respondeu que queria era brincar com os paus – como ele chama às canas na margem do rio Tamisa. Mais à esquerda dois rapazes com pranchas de surf cruzam o caminho dos três meninos. São dois tês gigantes no meio do círculo irregular dos meninos com as suas canas. Na ortografia da tarde, os tês do surf na cabeça dos jovens radicais são iguais aos tês das canas levantadas no ar dos três meninos que brincam na praia do Lizandro. É o esplendor do Sol.

Fala de Carlos Pato a Alves Redol 60 anos depois

Não morri. Sei que vai sair um pequeno livro

com os meus três contos por si guardados.

Em Vila Franca pouca gente sabe do assunto

mas em breve esse livro de contos vai esgotar.

Continuo nas histórias breves que escrevi

e no seu pequeno prefácio onde me recorda.

Sou o Bairro, sou a Charneca, sou a Lezíria

e os sonhos dos meus dois filhos por sonhar.

Não morri. Continuo no olhar dos meus filhos

Clara bebé e João Carlos que não cheguei a ver.

No olhar e nos sonhos por mim transmitidos

entre o rio de Santa Sofia e o Largo do Serrado.

Ainda hoje, tantos anos depois, sobeja azeite

no aroma intenso que se espalha pelas ruas.

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Palavras

(de um tema de Valle-Inclan in La Lámpara Maravilhosa)

As palavras são humildes como a vida

Na Primavera, carro de mato, carrada

Futuro estrume da caruma distribuída

Dos currais aos passadiços da entrada

Na gramática da lavoura e da colheita

As palavras são a semente e o animal

Crescem na terra. são máquina perfeita

No Inverno, na salgadeira plena de sal

As palavras são humildes como a vida

Dobradiças dum celeiro hoje fechado

Já o pão não vem da fornada aquecida

Chega em carros de noite a todo o lado

Hoje a palavra mais triste e a mais pura

Andam perdidas na notícia em alta voz

No telemóvel, mensagens de amargura

Que se apagam no ecran de todos nós

Vinte Linhas 445

Para a FIFA Thierry Henry não vai ser punido

A comissão disciplinar da FIFA decidiu não punir o jogador francês Thierry Henry pelo lance em que, por duas vezes, ajeitou a bola com a mão para a servir a um colega, Gallas de seu nome, que rubricou o 1-1. Com este golo duas vezes ilegal, a equipa de futebol da República da Irlanda foi afastada do Mundial de 2010 na África do Sul. Não deixa de ser repugnante que a decisão tenha por base um argumento falacioso: «nenhum texto jurídico suporta uma sanção». Para além da péssima tradução – «support» não é o mesmo que «suporte» mas sim «apoio ou base» – a grande verdade ninguém da FIFA a afirma: foi o árbitro que não escreveu no relatório aquilo que se passou de facto e que milhões de pessoas viram em todo o Mundo.

Há muitos anos, no clássico Good Companions, Priestley explicou a razão pela qual o público inglês adora o futebol. A razão, segundo ele, é esta: «O futebol reúne arte e conflito, duas fortes motivações humanas desde que o Mundo é Mundo». O presidente da Federação Francesa de Futebol ficou feliz com a frase da FIFA («não se trata de uma ofensa grave») e até já se saiu, ingénuo e parvo, com um desejo («Só espero que seja o fim da história») mas a verdade é que, se para a FIFA Thierry Henry não vai ser punido, para milhões de amantes do futebol em tudo o mundo ele nunca vai ser perdoado. Tal como, 43 anos depois, ninguém perdoou ao árbitro suíço e ao fiscal de linha soviético que sancionaram um golo fantasma na decisiva Inglaterra-Alemanha Ocidental de 1966. Thierry Henry também não vai ser perdoado no coração de todos os que amam o futebol. Pode a FIFA fazer o que quiser em nome do Direito; a Justiça já foi feita.

Um livro por semana 166

«A luz fraterna» – poesia reunida – de António Osório

António Osório tanto cita dois trabalhadores rurais que lhe oferecem um copo («um vinho transparente e ácido, vinho dos pobres, o da poesia») como abre poemas com epígrafes de Camões, Quevedo, Dante, Octávio Paz, Jorge Luís Borges, Vivaldi, Mozart ou dos mestres pintores: «Impossível confessar todas as influências. E no entanto um poeta é filho de si mesmo». A luz fraterna do título pode ser a raiz de toda a Poesia.

Entre a Natureza e a Cultura, a sua escrita proclama um princípio: «Pela vida fora a poesia pode chegar a ser tão indispensável como o colostro, quando se nasce». A vida é um lugar povoado por homens, animais («Gato não sofre, existe. / Para o sol, ratos / militante das suas unhas. / Crente no seu motor / de ronronar / em que se embala / vigilante») e pela Pintura: «Van Gogh queria algo / tão consolador como a música.»

O poeta pode ser o vedor («Porque vê emanações, / veias da terra. / Porque tem nas mãos / uma haste de oliveira. / Porque procura encontrar / água dentro de si. / Porque levanta uma laje / e deixa uma janela») mas pode ser também o calceteiro: «Escrevem nas ruas: / juntam / cuidadosamente / palavras. / Pegam-lhes / sílaba a sílaba / escolhem, unem / completam/ tocam / ao de leve por cima / e continuam.»

Com o animal há a matança: «Alegria do massacre familiar / da oferta aos vizinhos. E o resto na salgadeira / túmulo que as mulheres / abrem para a boca dos filhos». Mas só o poeta pode relatar essa festa: «Armazenar sofrimento. / Distribuí-lo depois / límpido».

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: óleo de Miguel Ângelo Lupi, Foto: Luísa Ferreira)

Balada para Carlos Paredes

Na mais teimosa vontade
Entre as cordas e os dedos
Nasce um rumor na cidade
A empurrar velhos medos
Era o mundo a duas cores
Dentro dumas fotografias
Meia dúzia de senhores
Confiscavam nossos dias
Se para uns era a SACOR
E bons empregos escassos
Para outros era a MABOR
E o pior para nossos braços
A guitarra é uma bandeira
Que juntou esta multidão
Entre o Rossio e a Ribeira
A água azul dum camião
De autocarro muitas vezes
Entre Benfica e Sete Rios
A música dos portugueses
Não precisava dos fios
Nem rádio nem televisão
Davam a exacta medida
O esplendor duma paixão
Mais forte do que a vida
Os sons desta melodia
Resistem a toda a usura
Se os oiço hoje em dia
Envolvidos em ternura
A força da qualidade
Bateu um acorde triste
Na luz da posteridade
Carlos Paredes resiste

Um livro por semana 165

«Sermões de Santo António» – Padre António Vieira

O padre António Vieira (1608-1697) pregou sermões de 1633 a 1696 e, ao longo desses 63 anos, sempre se deixou fascinar pela forte personalidade de Santo António – desde as suas qualidades de pregador aos seus conhecimentos teológicos.

O presente volume inclui dez sermões; um deles é o célebre sermão aos peixes: «A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comerem os grandes, bastará um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.» Mais à frente fala aos peixes do estado da Justiça: «Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador e, ainda não está sentenciado, já está comido.» E conclui: «São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca não o comem os corvos senão depois de executado e morto; o que anda em juízo, ainda não está executado e já está comido».

(Editora: Portugália, Organização, apresentação e fotos: António de Abreu Freire)

Igreja de São Roque

*

As asnas são feitas de carvalho das Ardenas
E julgo-me dentro de um navio ao contrário
O som dum coro entra pelas frestas pequenas
Saio daqui fascinado à procura do dicionário
Mais de quatrocentos anos resistiu a estrutura
Desde tremores de terra às invasões francesas
Lá em baixo no largo o trânsito é uma loucura
A meio da tarde com buzinas e luzes já acesas
Uma vez por ano abrem as portas do passado
Forte sensação de respirar a memória da vida
Entre o lado da madeira todo bem aparelhado
E o som da música de Bach em ensaio repetida
Ficar aqui para sempre no forro de uma igreja
Horas perdidas junto ao tempo, dia após dia
Monteverdi e Bach são cantata que se festeja
Na beleza das vozes neste tempo de harmonia

Um livro por semana 164

«Lisboa em 1870» de Gonzalo Calvo Ascensio

Com o subtítulo de «Costumes, literatura e artes do vizinho reino», este livro do jornalista espanhol (director de El Democrata) corresponde à memória da sua estadia em Lisboa até 1872 quando era secretário da embaixada de Espanha antes de ser eleito deputado às Cortes em Madrid.

Sobre a Justiça escreve: «Aqui a estatística criminal é pequena, o roubo, o furto, a trapaça, podem dar-se em repetidos casos, o assassinato quase nunca; aqui a navalha não se emprega como arma de combate. Portugal é a primeira nação que aboliu a pena de morte após um período de 28 anos em que ela já não se aplicava.»

Sobre a Imprensa adianta: «A imprensa é livre, pode manifestar toda a espécie de opiniões, debater os mais graves problemas políticos, opor sistemas a sistemas e ideias a ideias, controverter teorias e no entanto não se ocupa de outra coisa senão de trazer para a rena da discussão as diferentes personalidades que entre si disputam o poder».

O autor vê assim em 1870 a luta política em Portugal: «A luta política está hoje reduzida à das ambições pessoais; não há partidos com bandeira nem agrupamentos políticos com lemas bem definidos nem programas que preencham uma aspiração racional ou científica: não há mais do que a personalidade do duque de Saldanha oposta à do duque de Loulé, ou a do bispo de Viseu à do conde de Ávila».

(Editora: Frenesi, Tradução: Jorge Pires, Capa: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Vinte Linhas 444

O terramoto do Haiti tem réplicas em San Sebastián

O truculento bispo de San Sebastián, monsenhor José Ignacio Munilla (n.1961) está nas bocas do Mundo depois das suas infelizes declarações sobre os mortos do Haiti: «es mas grave la situación espiritual de España que la tragédia que viven los haitianos».

Dito de outra maneira: «nuestra concepción materialista de la vida».

Considerado pela imprensa espanhola em geral como «reaccionário, conservador e antinacionalista» o ex-bispo de Palencia foi contestado por um abaixo-assinado de 131 presbíteros locais (Guipuzcoa) e é considerado praticante de um catecismo «obsoleto» embora se reclame defensor do catecismo de 1992 ou seja do Concílio Vaticano II.

Nada tem a ver com o seu antecessor Juan Maria Uriarte mas pede aos jornalistas que não lhe façam perguntas sobre o passado da diocese. Perante o ruído à volta das suas palavras inesperadas sobre o Haiti recua e, além de dizer como dizem todos, que foi mal interpretado, torna-se, de súbito, humilde: «Yo tampoco soy el obispo ideal».

Mas, ao cabo e ao resto, afinal, do mal, o menos; a Caritas de Guipuzcoa (que depende da diocese) enviou para o Haiti uma ajuda de 100.000 euros. A festa de São Sebastião a 20 de Janeiro pode aumentar essa ajuda aos sinistrados. Boa resposta foi a de um missionário local: «Es verdad que hay grandes males en el mundo, pero no es oportuno compararlos ahora com una tragédia tan enorme y dolorosa».

Depois de um terramoto verdadeiro no Haiti surge um terramoto de palavras no País Basco. Embora nascido em 1961 parece que este controverso prelado basco parou no tempo em que os jornais chegavam no dia seguinte.