Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Um livro por semana 174

«Sabores de África» de Conceição Santos

A Gastronomia tem muito a ver com a Literatura – ambas nascem de uma alquimia. Não por acaso a Revista Ler nº 89 deste Março de 2010 dedica um espaço significativo a textos, memórias e ideias de Maria de Lourdes Modesto, Alfredo Saramago, Marguerite Duras, Fialho de Almeida, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Bento dos Santos, Brillat-Savarin, José Quitério e Francisco José Viegas – entre outros.

O que este livro nos dá em 126 páginas de receitas e 2 de vocabulário é uma grande viagem à cozinha tradicional de Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Vejamos, como exemplo, um prato de peixe, o Polvo à São Tomé: «para 4 pessoas juntar 1 polvo fresco, 250 g. de cebola, 250 g. de tomate maduro, 1 pitada de vinagre, ½ chávena de óleo de palma, louro, picante q.b. e sal q.b.; depois leve ao lume o óleo de palma, a cebola e o tomate picados, a folha de louro, o picante e o polvo amanhado e cortado aos bocados. Deixe cozer em lume brando e vá mexendo de vez em quando para não se pegar. Se necessário vá juntando um pouco de água da cozedura do polvo. Depois de cozido adicione o vinagre. Deixe ferver com a vasilha tapada, para apurar. Rectifique os temperos. Sirva com papas de mandioca ou com arroz branco».

A partir deste apetitoso exemplo é só partir à descoberta dos outros pratos. Bom apetite!

(Edição: Porto Editora, Capa: Hugo Andrade, Fotos: Mário Santos, Imagem Capa: Masterfile Portugal)

Vinte Linhas 460

Fotografias de Joe Fernandes na Fabula Urbis

Até ao dia 31 de Março podem ser vistas na Fábula Urbis (Rua Augusto Rosa 27) uma livraria atrás da Sé de Lisboa as 21 fotografias sobre a cidade de Lisboa deste fotógrafo com vínculos a Portugal e à Inglaterra.

Ao longo do tempo Joe Fernandes viajou por e fotografou em vários países: Irlanda França, Bélgica, Itália, Espanha, Noruega, Polónia, Roménia, Bulgária, Chile e Índia.

Estudou técnica de fotografia na Universidade de Brighton e estes 21 trabalhos são apenas uma pequena amostra do seu material acumulado ao longo dos anos.

Neste conjunto percebe-se que o seu olhar se demorou em pormenores de uma Lisboa que parece estar a desaparecer. Mas resiste com teimosia ao cilindro normalizador.

Por exemplo há três fotografias de mulheres a lavarem a roupa em tanques públicos. O excelente bacalhau da Islândia da Manteigaria Silva na Rua D. Antão de Almada 1-C ao Rossio, surge com algum destaque. O velho Animatógrafo do Rossio também faz parte da recolha em exposição. Outras fotografias contemplam as drogarias, as padarias, as frutarias, as casas de carimbos, as capelistas que ainda vendem estampilhas postais, os bolos, os vinhos finos, as conservas em lata, as leitarias e as floristas.

É todo um mundo que ainda resiste aos avanços das novas tecnologias, lojas onde ainda existe o contacto humano e humanizado, onde a velocidade das máquinas e a técnica impessoal das pessoas não ganharam espaço nem ganharão nos próximos tempos.

Para mais pormenores o contacto na Internet da Livraria é www.fabula-urbis.pt e o mail é o seguinte fabula-urbis arroba fabula-urbis.pt

Balada da casa de Ermelinda

Casa que é um museu
Baixo-relevo, escultura
O jantar aconteceu
Numa mesa de ternura
Pinacoteca no armário
Brasil, Tailândia, China
Com Tomás no calendário
Toda a paixão é rotina
Na biblioteca diferente
Um sentido profundo
Livros, Extremo Oriente
Outra visão do Mundo
Veio o vinho de Azeitão
Para festejar iguarias
Entre o queijo e o pão
Não é em todos os dias
Na cabeceira da mesa
No centro da liturgia
Avó Mam sem surpresa
Num ritual da alegria
Entre copos e talheres
Toalha nova estreada
Voz de cinco mulheres
Fez a minha voz calada
Casa à prova de bulício
Bem perto do Regueirão
Os Anjos fogem do vício
Entre o passeio e a pensão
Onde Indianos, Chineses
Fecham tarde o estaminé
Já há poucos portugueses
Junto à porta dum café
Casa do Mundo, alegria
Trazida pelo teu olhar
Se começou em Leiria
Não diz onde vai parar
Trouxe um antigo postal
Terreiro do Paço, parada
O coração de Portugal
Respira sem dar por nada

Um livro por semana 175

«Fragmentária mente» de Manuel Barata

Neste seu terceiro livro de poemas Manuel Barata (n. 1952) não se afasta das linhas dos anteriores volumes de 2003 (Quadras quase populares) e de 2005 (Fragmentos com poesia). Junta Natureza e Cultura. No poema Junho recorda a terra onde nasceu: «Nas manhãs de Junho / Quando o sol tudo doirava / A nossa casa era também / A sombra da oliveira / Do outro lado da rua». Mas em vez da mãe pode ser a avó: «Muito erecta em seu balcão / De cores tristes vestida / Cantava toda a manhã».

Noutros poemas surgem citações e leituras de autores tão diversos como Jorge Luís Borges, António Machado, Paul Éluard, Manuel da Fonseca, Ferreira de Castro, Gil Vicente, Bernardo Santareno, Cesário Verde, Adília Lopes, José Gomes Ferreira, Herberto Hélder, António Ramos Rosa, Ruy Belo, Bocage, Miguel Torga, José Antunes Ribeiro, António Nobre, António Osório e D. Dinis.

Enquanto lê a poesia culta o autor sente o fascínio da quadra popular: «A tristeza de uma vida / Pode ficar registada / Numa quadra comovida / Quatro versos, quase nada».

No entanto a sua escrita contém e articula uma revolta proclamada com todas as letras: «Pertenço a uma geração / Que tudo deu à pátria / E da pátria só agravos recebeu. / Nasci sob a pata e a bota / Do déspota de Santa Comba; / A Angola fui parar / Longe da pátria e dos meus; / e lutei pela democracia / E por uma pátria fraterna. / Rapazes de cueiros dizem agora / Que gozo de muitos privilégios. / E eu digo (lhes) livremente: / A puta que os pariu! / A puta que os pariu!»

(Edição: Edições Alecrim, Capa: Hugo Feio)

Vinte Linhas 458

A pedrinha no cais ou Dissertação para o esplendor de uma voz de mulher

Da Semana da Cultura Açoriana retive o Café Concerto de Zeca Medeiros, os «25 anos de Música Original nos Açores» com Rafael Fraga e a Orquestra Regional Lira Açoriana dirigida por António Melo com as violas da terra de Ricardo Melo e Rafael Carvalho e a voz de Ana Isabel Medeiros. Num concerto que se iniciou na massa sonora de Steven Reineke com «A Montanha dos Dragões», a voz de Ana Isabel Medeiros trouxe ao palco do Teatro São Luís toda a força da Terra. Mais do que Terra, a força do Mundo. Um Mundo de contrastes, entre matizes de verde, estradas desenhadas a compasso, lagoas com silêncio em vez de água, animais pacientes e vagarosos na sua indústria de ser, a alegria das festas e do encontro, a música das procissões nas ruas das freguesias e das cidades, as grandes orações que não precisam de palavras.

Naquele fim de tarde em Lisboa, a voz de Ana revelou, para todos nós, um volume intenso, um timbre diferente, uma altura inesperada, um som redondo e feliz a misturar os rumores da terra aos ventos do céu. E a luz do Sol a fecundar as searas ao lado da noite escura que traz a chuva no Inverno de cada dia. Entre a massa sonora da orquestra e a pontuação sentimental das duas violas da terra, a voz de Ana trouxe, ao fim da tarde de Lisboa, um arquipélago de sons, uma tempestade de clamores, uma capela onde cada sílaba da oração é desenhada pela respiração da voz na gramática das canções. Ficou uma pedrinha no cais. Um sinal. O palco do São Luís foi um santuário onde os peregrinos foram felizes porque uma canção, tal como uma oração, pode ligar de novo dois universos separados pela morte, pelo tempo e pelas emboscadas do esquecimento.

Vinte Linhas 459

Futebol – em 2010 a pensar em 1966

Uma das vantagens que retirei do convívio regular com alguns antigos jogadores de futebol foi ter apreendido uma outra versão das coisas do futebol. Entre 1988 e 2006 convivi de perto no Sporting Clube de Portugal com Pedro Gomes, Mário Lino, Fernando Mendes, Hilário, Carvalho, Vítor Damas, Osvaldo Silva, Jesus Correia, Travassos, Vasques, Aurélio Pereira e Rui Palhares. No Benfica convivi com Rui Rodrigues, Bastos Lopes, Chalana, Jaime Graça, Toni, José Henriques, Bento, Humberto Coelho, Néné e António Carraça. Entre outros. Elas sabiam e sabem as coisas que, por norma, não aparecem nas páginas dos jornais. Por exemplo o caso do Campeonato do Mundo de 1966. Para quem sabe e lá esteve, tudo aquilo foi possível porque nesse ano de 1966 o campeão nacional foi o Sporting Clube de Portugal e o vencedor da Taça de Portugal foi o Sporting de Braga. Isso conduziu a uma situação em que os jogadores do Benfica estivessem mais descontraídos nesse Verão de 1966. O ataque da selecção nacional era o ataque do Benfica – José Augusto, Torres, Eusébio e Simões. Em termos mentais eles estavam melhor do que os outros jogadores que disputaram palmo a palmo tanto o campeonato nacional desse ano como a Taça de Portugal. Em 1966 eu tinha 15 anos e vibrei com as reportagens dos jornais. Inesquecíveis as crónicas de Carlos Pinhão em Manchester e em Londres. Vibrei com a carreira da equipa portuguesa em 1966 mas só muito mais tarde percebi a verdadeira razão pela qual tudo foi possível. Num ano de Mundial vale a pena lembrar esta memória de quem sabe do assunto porque andou lá dentro das quatro linhas.

Vinte Linhas 457

Rouslan Botiev – do Largo do Carmo para a Faculdade de Letras

De 10 a 31 de Março, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na Cidade Universitária de Lisboa, o nosso amigo Rouslan Botiev vai ter a sua exposição de pintura.

O título geral é «Homem, Cosmos e Mitos» e tem o apoio da Associação de Cultura Lusófona. Para quem começou por ver os seus trabalhos debaixo do Elevador de Santa Justa e à porta da Basílica dos Mártires não deixa de se um motivo de alegria ver esta notícia. E divulgar.

Se estar na sombra do Quiosque do Largo do Carmo já era uma promoção pois o toldo protege-o das intempéries, esta exposição e a possibilidade de muitas mais pessoas o poderem conhecer, a ele e aos seus quadros, abre novas perspectivas.

Porque a obra pictórica do Rouslan Botiev é muito mais do que a porca de Murça, o eléctrico 28, a Sé de Lisboa ou a ponte 25 de Abril a ligar Almada a Lisboa.

Como o título da exposição sugere, há nele, na sua obra, o Homem, o Cosmos e, entre o Homem e os Cosmos, os Mitos. No intervalo do Mundo e do Tempo, o Homem precisa de Mitos para ter uma gramática do Mundo.

A inauguração é às 17h 30m do dia 10 de Março mas a exposição só termina a 31 de Março. Ainda a tempo de todos poderem ir até à cidade Universitária.

Não percam. O Rouslan Botiev merece a nossa atenção e o nosso interesse pela sua obra de pintor.

Um livro por semana 173

«Duas vidas numa só» de Paulo Alexandre

Paulo Alexandre (n.1931) cujo nome civil é Modesto Pereira da Silva Santos viveu de facto duas vidas numa só, título feliz do seu livro. São 37 anos de empregado bancário (1944-1981) e 50 anos de percurso artístico (1954-2004) o que soma 87 – mais do que os seus 79 anos de, digamos, Bilhete de Identidade.

Esta ligação entre cifrões e canções nasceu cedo: em 1939 tem 8 anos e o pai comprou-lhe um banjo. No S. João de 1944 é convidado a tocar numa festa dos vizinhos (Mello e Sousa) na Rua D. Luís de Noronha e acaba por entrar para o Banco Burnay como groom (pessoal menor) tendo chegado ao cargo de director.

O Óscar da Imprensa em 1962 para o seu conjunto vocal «4 de espadas» e o êxito mundial do «Verde vinho» são dois dos pontos de alto interesse do depoimento de Paulo Alexandre que teve a feliz ideia de convidar dois prefaciadores. Júlio Conrado, ex-bancário e escritor multifacetado (n.1936) foca as memórias do «velho» Banco Burnay e conclui: «Partindo de quase nada, modesto Santos terá cumprido todos os seus sonhos sem atropelar ninguém». Por sua vez Artur Agostinho, jornalista, actor e escritor, recorda «o Paulo, quer ao vivo nos populares Serões para Trabalhadores, quer em estúdio no Ouvindo as Estrelas, quer ainda em programas musicais da RTP produzidos pelo saudoso Mello Pereira». Surge uma faceta menos conhecida de Paulo Alexandre, como realizador de documentários: Fernando Lopes Graça, Manuel de Brito, Jorge Salavisa, Opus Ensemble, António Rosado, Joly Braga Santos, Artur Pizarro e Elisabete Matos.

(Editora: Ésquilo, Capa: Ana Isabel Vieira s/ retrato de Luís Guimarães, Revisão: Levi Condinho)

Vinte Linhas 456

A eterna luta entre o pó e a posteridade

Há 32 anos, quando comecei no «Diário Popular» não imaginava como tudo isto é efémero. Os jornais são como as pessoas; também morrem. De repente lembro-me de alguns onde colaborei desde 1978 e que deixaram de se publicar: «Diário Popular», «Diário de Lisboa», «Gazeta dos Desportos», «A Capital», «República». Mas se recuarmos 70 anos vemos nove jornais diários que não resistiram: «Jornal do Comércio», «O Comércio do Porto», «O Primeiro de Janeiro», «O SÉCULO», «Novidades», «República», «Diário de Lisboa», «A VOZ», «Diário da Manhã». Só ficaram o «Diário de Noticias» e o «Jornal de Noticias». A BOLA MAGAZINE, de onde foram recuperadas para o meu livro «As palavras em Jogo» estas entrevistas e a memória, também só vive hoje na memória afectiva de quem a guarda e nas prateleiras das hemerotecas. Há 370 anos nasceu a primeira Gazeta que dentro de meses pode dar origem a algumas efemérides. Somos os bisnetos desses obscuros redactores e somos os remadores dessa barca onde se procura vencer o pó do silêncio e alcançar a posteridade possível. O Mundo é uma terrível fábrica de esquecimento; compete a todos e a cada um de nós fazer com que o esquecimento seja uma injustiça. Ao procurar saber mais do jornalismo de há 70 anos apareceu em O SÉCULO de 1941 uma referência a José Bento Pessoa. Pois o nosso figueirense foi em 1897 o vencedor do I Campeonato de Espanha em bicicleta disputado em Ávila na distância de 100 quilómetros que fez em 3h 42m e 31s. Ele é uma relíquia do Desporto Português. Este livro não aspira a tanto; pede apenas um pouco de atenção ao leitor comum e um lugar no futuro Museu do Desporto.

Vinte Linhas 455

«Padre Cruz – um salvo-conduto do Dr. Afonso Costa para ninguém o prender…»

O Padre Cruz (1859-1948) nasceu há 150 anos. A efeméride foi comemorada aqui em São Roque com uma missa solene transmitida pela TVI. Há muitas histórias do Padre Cruz como aquela do barbeiro perto da igreja da Conceição Velha onde o Padre Cruz cortou o cabelo, não pagou porque tinha dado o dinheiro aos pobres mas, passado pouco tempo, a barbearia encheu-se de fregueses como antes nunca tinha acontecido. O barbeiro já tinha ouvido falar dele por trazer sempre uma carta do Dr. Afonso Costa para ninguém o prender. Esta história da carta do Dr. Afonso Costa tem uma origem curiosa. Depois de 1911, com a «Lei da Separação», surgiram muitos problemas para os Padres. Numa localidade perto de Torres Vedras o Padre Cruz estava a pregar mas acabou preso pelo Regedor local que o enviou para Lisboa acompanhado de um polícia mas o Ministro da Justiça mandou-o em paz. Tempos depois à porta do Limoeiro, depois de visitar os presos, o Padre Cruz ficou detido e incomunicável durante nove dias. Como o mundo é pequeno, o mordomo do Patriarca tinha um familiar licenciado em Direito e que conhecia o Dr. Afonso Costa da barra dos Tribunais. Pediu-lhe que contactasse o Ministro da Justiça e este ordenou uma investigação para se descobrir onde parava o Padre Cruz – estava numa enxovia imunda no Limoeiro. Para evitar males maiores foi o próprio Dr. Afonso Costa que escreveu pelo seu punho um «Salvo-conduto» em favor do Padre Cruz. Este mandou colocar um caixilho no documento e andava sempre com ele. No meio das maiores confusões, passava sempre e nenhum polícia o impedia de ir às cadeias ou aos hospitais visitar os presos e os doentes.

Vinte Linhas 454

O maloio, o lapão, o saloio, o labrego, o lapuz e outros malcriados

Utilizo com muita frequência o Dicionário da Língua Portuguesa da Sociedade de Língua Portuguesa, edição de 1986 coordenada por José Pedro Machado.

A propósito do termo «lapão» que utilizei em anterior comentário a uma nota de leitura, o mesmo dicionário refere-o como «Termo de Leiria». De facto em Leiria era usual chamar-se «lapão» a um trabalhador rural no sentido em que este, vindo à cidade, não dominava a gramática daquela civilização. Como tal não sabia sequer como dirigir-se às pessoas dos diversos serviços (Finanças, Câmara Municipal, Grémio da Lavoura e outros) havendo mesmo quem na cidade de Leiria utilizasse um termo mais forte – lapãozão. Explica o dicionário acima referido que «lapão» é labrego, campónio e lanzudo. Mas então «labrego» é rude, rústico, camponês, aldeão, malcriado, grosseiro e ordinário. Já «lapuz» surge como bruto, campónio, labrego, rude e grosseiro. E «saloio» é aldeão, grosseiro e rústico. Mas há um segundo sentido no termo «saloio»: pode ser ardiloso, manhoso, finório e velhaco.

Quanto a «maloio» o termo é definido no dicionário como saloio, campónio, labrego e lapuz. Assim sendo, quando escrevo «maloio», estou a acertar em cheio pois este termo acumula o sentido de quase todos os outros da mesma família.

Recordo muitas vezes uma frase da minha avó em Santa Catarina nos meus tempos de férias grandes entre 1957 e 1961: «Nunca dês parte de fraco, não sejas maloio!» Ora tendo eu nascido no distrito de Leiria, cidade onde fiz as admissões à Escola Técnica e ao Liceu, esta frase prova que o termo não é só de Leiria mas sim de todo o distrito.

Um livro por semana 172

«O Primeiro Marquês de Alorna» de Filipe do Carmo Francisco

No seu primeiro trabalho publicado em volume autónomo, o jovem investigador Filipe do Carmo Francisco (n. 1981) aborda a carreira de D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756) que foi Vice-Rei da Índia entre 1744 e 1750. Conforme o subtítulo indica o Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo-Novo (1744) e Marquês de Alorna (1748) foi o restaurador do Estado Português da Índia. A partir do massacre de Aldoná (1737) no qual perderam a vida quatro companhias de granadeiros, D. Pedro reorganiza, aos poucos, a força militar portuguesa na Índia e empreende as diversas campanhas com ataques navais e expedições terrestres contra os vizinhos mas sempre sob a ameaça do Marata e da pirataria, quer do Angriá quer do Bounsuló.

Os panegíricos publicados em Lisboa, Paris e Roma entre 1715 e 1759 em louvor dos Vice-Reis Setecentistas da Índia, mostram que só para D. Pedro são escritas 43% das obras mas, curiosamente, o texto impresso que vai perdurar até 1961 é a célebre Instrucção que D. Pedro escreveu para o seu sucessor, o Marquês de Távora. Estranhos são os caminhos da posteridade: esquecidas as centenas de páginas escritas em seu louvor, o contributo de D. Pedro para a história de Goa, Damão e Diu está nas sucessivas reimpressões do seu relatório de 1750 sobre a realidade física e humana, geográfica e social, política e religiosa da Índia Portuguesa.

(Editora: Tribuna da História, Capa: Maia Moura Design, Revisão: Manuel Amaral, Editor: Pedro de Avillez, Patrocínio: Fundação das Casas de Fronteira e Alorna / Comissão Portuguesa de História Militar)

Um livro por semana 171

«Humanidade» de Fernando Nobre

Fernando Nobre (n. Luanda, 1951) juntou em livro as suas reflexões e pensamentos sobre os desafios, as ameaças e as esperanças globais que o interpelam enquanto português e enquanto cidadão do Mundo sob o subtítulo de «Despertar para a cidadania global solidária». Com data de 4-1-2009 escreve sobre a chacina de Israel em Gaza, estranha guerra em que os «agressores», os Palestinianos, têm cem vezes mais baixas e mortos em mortos e feridos do que os «agredidos». Nunca antes visto nos anais militares! Vejamos um excerto:

«Os jovens palestinianos que, desesperados e humilhados, actuam e reagem hoje em Gaza, são os netos daquele que fugiram espavoridos do que é hoje Israel, quando o então movimento «terrorista» Irgun liderado pelo seu chefe Menahem Begin, futuro primeiro-ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou com armas brancas durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Yassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos arquivos históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos arquivos os actos genocidas perpetrados pelos nazis no gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio) horrorizou o próprio Bem Gurion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e para a Cisjordânia…»

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Marta Claro, Foto: Teresa Champalimaud)

Vinte Linhas 453

Ruslam Botiev – do cavaleiro da Mongólia ao cavaleiro Português

Ruslam Botiev provavelmente nunca leu «A última corrida de touros em Salvaterra» mas não precisa. A sua intuição de homem de artes diversas (escultura, óleo, aguarela, borras de café, etc.) levou-o a cedo perceber a respiração da corrida de touros à portuguesa.

Depois de alguma vagabundagem pela zona do Chiado e da Rua do Carmo, assentou arraiais no Largo do Carmo, à sombra do quiosque. Digo sombra mas também se trata de proteger os seus quadros da chuva. Ele tem o cuidado de os proteger com o plástico mas o vento também os ataca e é preciso evitar mais estragos dos pingos de chuva.

Disseram-me no Largo do Carmo que vai haver uma exposição dos trabalhos do Ruslam Botiev mas não me explicaram se é na Universidade Clássica ou na Nova. A seu tempo saberemos.

Este Largo do Carmo diz-me muito: quando lá andei a estudar nos anos 60 ainda havia uma memória muito viva do poeta Sebastião da Gama. Como professor deixou um rasto de luz e de bondade atrás da sua figura que ainda lá continua nos corredores da Veiga Beirão. Agora a Veiga Beirão não existe mas continua no afecto de quem lá estudou.

Hoje trouxe este desenho que quis compartilhar com todos vós. Ainda estou a aprender mas a imagem dá uma ideia embora não passe de uma cópia electrónica.

Depois da «Porca de Murça» e do «Fernando Pessoa», depois do «Eléctrico 28» e da «Tourada à Portuguesa», Ruslam Botiev não pára e vai descobrindo novas séries de desenhos. Sua maneira de dizer «Bom dia Portugal!», todos os dias.

Vinte Linhas 452

Pequena dissertação para um retrato de menina

A mulher-menina fixa o olhar num retrato de menina-mulher no lado esquerdo da secretária na tarde onde, devagar, declina o Sol de Fevereiro que todos os dias acrescenta um minuto ao tempo da luz.

Tem dez anos de idade essa menina-mulher que não conheço mas sei que existe, porque senti no seu olhar contido no rectângulo do retrato, a força e a cor de uma bandeira, o timbre altivo de um clarim, o mapa colorido e vário de um país sentimental.

Na organizada confusão do tampo da secretária, entre telefones e lembretes, entre telemóveis e faxes com anotações de «urgente» no cabeçalho, a única urgência é a ligação entre dois tempos: a mulher-menina recorda o seu tempo de menina-mulher quando tinha a idade da filha cujo retrato se fixa num rectângulo de luz de ouro.

Havia nesse tempo uma Cadeia, o fumo na chaminé da fábrica de cerâmica, carros de um só boi conduzidos por presos de confiança que empilhavam com paciência os tijolos ainda quentes nas tábuas do carro. De vez em quando passava uma camioneta que vinha carregar telha para as obras de um palácio da Justiça – quando a Justiça ainda vivia em palácios e não em páginas de jornal que terminam no fundo dos caixotes de lixo.

Havia nesse tempo recreios separados de raparigas e de rapazes, falava-se na Telescola para quem não podia ir estudar para a grande cidade, ainda se dizia quarta classe em vez de quarto ano, ainda havia o exame de admissão ao Liceu e à Escola Técnica.

Na luz que o Sol inunda na tarde sem fim do escritório, o sorriso da mulher-menina é uma agrafe gigante de ternura húmida a ligar o seu olhar ao retrato da menina-mulher.

Vinte Linhas 450

O nome do cavalo inglês era bem português

Este cavalo retintamente inglês foi o vencedor do derby «Great St. Leger» em 1815. O seu proprietário era o fidalgo inglês Sir W. Maxwell. Ora acontece que o dono do cavalo quando o baptizou não fazia a mínima ideia do real e profundo significado da expressão. Porque de uma expressão se tratava: o bom do tratador português ou porque se sentisse mal pago ou porque o cavalo fosse mesmo insuportável, ia dizendo enquanto esfregava e penteava o belo cavalo – «Ai o filho da puta! Ai o filho da puta!».

Hoje lembrei-me desta velha história porque vi na televisão uma cavalgadura a fazer uma triste figura e a dar uns coices repugnantes. E já não é a primeira vez. Foi essa mesma cavalgadura que deixou passar sem punição o golo francês duas vezes irregular pois Thierry Henry tocou a bola com a mão antes de o seu colega facturar o golo que ditou o abandono da República da Irlanda do Campeonato do Mundo da África do Sul.

A coisa teve hoje requintes de malvadez. Perante a gravidade da decisão tomada (marcação do livre contra a equipa inglesa) o árbitro deveria ter tomado uma atitude minimamente digna. Seguraria a bola com a mão e esperaria que se formasse a barreira. O guarda-redes estava muito longe da baliza, ainda surpreendido com a decisão – que não discuto. O que é indiscutível é que o árbitro foi (pelo menos) parcial ao pegar na bola e entregar a mesma a um jogador de azul e branco que não se fez rogado: mesmo perante o absurdo da situação com o guarda-redes fora (e bem fora) da baliza pôs a bola a rolar e ela entrou na baliza. Pudera… o guarda-redes não estava lá! Ao menos o do golo contra o Sporting num lance parecido ainda esperou pela formação da barreira…

Um livro por semana 170

«Fernando Pessoa – Empregado de escritório» de João Rui de Sousa

Trata-se da segunda edição (revista e aumentada) do já clássico livro de 1985 que João Rui de Sousa organizou para o SITESE. Fernando Pessoa foi sempre múltiplo: poeta e pensador, ele-mesmo e ele multiplicado em heterónimos, esteta e político, crítico literário e sociólogo, introspectivo e polemista, ansioso e lúcido. Mas desde 1907 e até ao fim da sua vida Fernando Pessoa foi sempre correspondente estrangeiro em numerosos escritórios. Como refere Bernardo Soares: «Todos nós, que sonhamos e pensamos, somos ajudantes de guarda-livros num Armazém de fazendas ou de outra qualquer fazenda, em uma Baixa qualquer. Escrituramos e perdemos; somamos e passamos; fechamos o balanço e o saldo invisível é sempre contra nós.»

Da sua colaboração na «Revista de Comércio e Contabilidade» vejamos três notas:

«Em correspondência comercial há três princípios que convém ter presentes: antes mais explicado que mais breve; antes muitos parágrafos do que poucos; antes responder depressa, embora dizendo só parte, que demorar a resposta para dizer tudo.»

«Uma carta áspera ou violenta é sempre injustificada porque é sempre inútil. Indispõe e não dá resultado. Quem não paga porque não quer não passa a pagar porque lhe dizem que não paga porque não quer. Isso já ele sabe. E quem não paga porque não pode, não fica contente que se lhe diga ou se lhe insinue que não paga porque não quer.» «É do pior gosto, e do pior efeito, desculpar-se um chefe com um erro dum empregado. Não há erros de empregados. Todo o erro dum empregado é apenas o erro de ter empregados que fazem erros.»

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: fotos do escritório de Francisco Camello)

Lorca no caminho do Montijo

Era pelo Inverno de cinquenta e sete.
No Porto Alto um homem de capuz e oleado
segurava uma lanterna com dois vidros pintados
e fazia alto com a outra mão.
A ponte sobre o Sorraia era de madeira
e só passava uma camioneta de cada vez.
Não havia ao tempo muitas Mercedes Benz
de cor verde e com a chapa do Estado.
Meu pai saudava o homem entre a chuva
e desejava-lhe uma boa noite impossível.
Se recordo estes passos e rituais
dos caminhos desse tempo
é porque aquele lugar marcava para mim
o principiar da circulação de uma temperatura
que me fazia lembrar Lorca.
Eu tinha aprendido a ler nos jornais.
Meu pai trazia-os à noite para casa.
Terá sido num «Diário Popular»
que li um texto sobre o poeta assassinado.
Mesmo sem conhecer os seus poemas
comecei a sentir naquele espaço
a respiração do verde e do vermelho,
a relva sem fim e o sangue dos touros,
o pó levantado pelos cavalos breves,
os gritos dos campinos sempre longe
e a noite sempre negra e sempre longa.
Mais à frente, a caminho do Montijo,
respirava o sal de Alcochete,
o sabor conservado de uma angústia serena,
a ideia imaginada de que estes campos verdes,
estas oliveiras e este som da alegria
rente à raiz de tudo
poderiam ter sido caminho
do poeta Federico Garcia Lorca.
Ainda hoje não sei porque cavaram
tão depressa os cabouqueiros da morte.
Sei que entre o Porto Alto e o Montijo
algures entre verde e verde
uma sombra esguia faz sinal aos deuses
e os deuses param.
Lorca poderia ter morrido aqui
à porta desta taberna, a caminho do Montijo.