Um livro por semana 171

«Humanidade» de Fernando Nobre

Fernando Nobre (n. Luanda, 1951) juntou em livro as suas reflexões e pensamentos sobre os desafios, as ameaças e as esperanças globais que o interpelam enquanto português e enquanto cidadão do Mundo sob o subtítulo de «Despertar para a cidadania global solidária». Com data de 4-1-2009 escreve sobre a chacina de Israel em Gaza, estranha guerra em que os «agressores», os Palestinianos, têm cem vezes mais baixas e mortos em mortos e feridos do que os «agredidos». Nunca antes visto nos anais militares! Vejamos um excerto:

«Os jovens palestinianos que, desesperados e humilhados, actuam e reagem hoje em Gaza, são os netos daquele que fugiram espavoridos do que é hoje Israel, quando o então movimento «terrorista» Irgun liderado pelo seu chefe Menahem Begin, futuro primeiro-ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou com armas brancas durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Yassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos arquivos históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos arquivos os actos genocidas perpetrados pelos nazis no gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio) horrorizou o próprio Bem Gurion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e para a Cisjordânia…»

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Marta Claro, Foto: Teresa Champalimaud)

9 thoughts on “Um livro por semana 171”

  1. Já agora, relativamente ao plangente “chacinou com armas brancas durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia”, recomendo a leitura de http://www.deiryassin.org/mh2001.html (num site que me parece insuspeito).

    Diga-se, em abono da verdade, que (ainda) não li o livro de Fernando Nobre, mas a julgar pela passagem, já lhe posso tirar a pinta. É que, sem retirar uma onça de brutalidade ao massacre, é obvia e totalmente desonesto (para não dizer tendencioso ou até imbecil) descrevê-lo como (a inefável) selvajaria zionista sobre os pobres inocentes, ou como o “acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e para a Cisjordânia…”

    Um acto de guerra (por mais sujo que seja) não surge do nada, nem da confluência de insondáveis desígnios dos Israelitas que, obviamente por desalmada malvadez, se lembraram de ir chacinar inocentes (que, realcemos, o são sempre), assim do pé para a mão. Depois, comme il faut, junta-se a sempre auto-apologética referência ao Holocausto, como quem, sem relativismos de qualquer espécie, compara eventos incomparáveis e se arroga a desarmar o argumento do moral highground.

    Como nota, diga-se que há (e haverá) na nossa história partilhada milhares de massacres, injustiças, desgraças, assassinatos, genocídios, matanças, crimes e todo um sem fim de actos que, pela bestialidade, são os que melhor nos definem e descrevem a todos como “unidade” antropológica, independentemente da religião professada. Não precisava o caro candidato (e todos os que o fazem) de recorrer à hiperbole para assistir à comparação. O Holocausto, pelo que representou e representa, é um conjunto de acontecimentos – tanto quanto sabemos – total (e felizmente) singular na racional, nos mecanismos, nos fins e nos objectivos de execução.

    É este maniqueísmo e esta lógica de causa (absoluta) – efeito que mina, e minará sempre, quaisquer perspectivas de entendimento ou de, quanto mais não seja, discussão civilizada. Sob pena de se tornar no seu exacto oposto, a “humanidade” do Dr. Fernando Nobre (de que não duvido, bem entendido) ou de qualquer outro de nós, não se deve ater à perpetuação do propalado por determinadas correntes historiográficas. Se a Humanidade somos todos nós (lapalisse não o diria melhor), um Humanista deverá reflectir sobre as complexidades que nos definem. E não adoptar as que mais o seduzem.

  2. Gonçalo, agradeço o acesso ao Artigo recomendado, muito oportuno. Mas quanto ao resto, e depois de o ler (todos deveriam fazê-lo!), acho que já nem vale a pena dizer mais nada sobre a “superioridade moral” e a maior “humanidade” dos israelitas face aos “terroristas” palestinianos…

  3. Marco, não tem de agradecer, como é óbvio. Pode encontrar na internet um sem número de documentos e relatos relacionados com a história do(s) conflito(s). Todos eles (ou pelo menos a esmagadora maioria), repare, “biased” de acordo com as filiações políticas / intelectuais do autor… este link remete para uma “facção” pró-palestiniana, mas há-de encontrar também o mesmo relato observado e relatado pela “facção” pró-israelita. Ambas as fontes são, naturalmente, legítimas: a versão “oficial” israelita não nega (e assume o acto), mas tenta contextualizar no âmbito do conflito, a versão “oficial” palestiniana é, obviamente, um pouco mais “apaixonada”. O normal, enfim. Para nós, Aljubarrota foi uma retumbante vitória, para os espanhóis foi um acontecimento menor, perdido nos livros dos investigadores ;)

    Não depreenda do meu post, no entanto, qualquer julgamento. Na verdade, não penso que, neste conflito em particular, haja “superioridade moral” ou maior “humanidade” de qualquer das facções. Bem pelo contrário. Acho que é um conflito auto-alimentado, e fomentado por elites extremistas, pelo ódio e por divergências que se querem insanáveis (lá está, se se continuar a “tomar partido”), que tanto interessa a quem vende a guerra e o conceito de “povo eleito” em Israel, como a quem vende o conceito de “”califado” e de “guerra santa” pela umma muçulmana (e para quem os palestinianos são um simples meio para atingir um fim).

    Se fenómenos como o Irun, os muros, os checkpoints e os colonatos “musculados” nos parecem detestáveis, também a recusa primária do estabelecimento de um estado hebreu (recomendo-lhe uma pesquisa sobre Amin al-Husseini), a mentalidade e tentativas de “gang bang” dos países circundantes e os ataques visando o mediatismo e as populações civis, nos devem repugnar.

    Os “terroristas” palestinianos não são piores que os “terroristas” israelitas. Mas também não são melhores. A razão assiste apenas os pobres coitados – de ambos os lados – que só querem viver a sua vidinha descansada, mas a quem, de ânimo leve, nos atrevemos (na paz e sossego da nossa rotina diária) a colar rótulos e a atribuir defeitos e vontades.

    O meu post referia-se apenas ao excerto seleccionado… é que, para ilustrar o seu ponto de vista, não se coibiu de utilizar (talvez não por má fé, mas por simples ignorância – repare que o tenho em muito boa conta) um “abuso” da verdade (como pode ver pelo Artigo linkado) que, por acaso, começa a ser cada vez mais mainstream: malhar nos sacanas dos israelitas = aprovação de certa intelectualidade de esquerda (e direita, que o que está a dar é transversalidade).

    O Alegre não faria melhor… e o Cavaco escusar-se-ia logo à partida de o dizer, por implicar muitos tempos e flexões verbais complicadas. Mas vá, no melhor pano cairá a nódoa.

  4. Nota: nos 2 últimos parágrafos refiro-me, obviamente, ao autor (e putativo candidato) Fernando Nobre. Penso que me terá escapado ali uma referência mais explícita. Ponho-me a falar dos verbos do outro e ainda me tramava com o uso de pronomes :p

  5. Gonçalo, estamos perfeitamente de acordo: a vitória da Paz só poderá surgir se não implicar a derrota de nenhum dos opositores no conflito.

    Penso, contudo, que a (eventual) imprecisão factual detectada, quanto a este assunto, no livro de Fernando Nobre é muito menos perniciosa, para a formação das consciências, do que décadas de informação torrencial e globalmente tendenciosa contra a “causa palestiniana”, com que nos têm bombardeado há décadas (sem qualquer efeito, pelo que vejo, pelo menos no seu e no meu caso, e ainda bem…).

  6. Se tiverem, como eu, diversas enciclopédias em casa, podem perceber facilmente que o país foi inchando aos poucos com bocados dos territórios vizinhos e nunca respeitou as fronteiras estabelecidas pela ONU. Deir Yassin foi só o primerio no primeiro impulso.

  7. Goncalo, sorry my friend, I didnt like your potatoes either.

    A descricao do historiador ISRAELITA Benny Morris e a batata que normalmente utilizo nos meus cozinhados. De uma olhadela:

    An Israeli historian Benny Morris has access to IDF archives and the integrity to speak. In a January 8 interview in Ha’aretz, Morris says:

    “Twenty-four [massacres]. In some cases four or five people were executed, in others the numbers were 70, 80, 100. There was also a great deal of arbitrary killing. Two old men are spotted walking in a field – they are shot. A woman is found in an abandoned village – she is shot. There are cases such as the village of Dawayima [in the Hebron region], in which a column entered the village with all guns blazing and killed anything that moved.

    “The worst cases were Saliha (70-80 killed), Deir Yassin (100-110), Lod (250), Dawayima (hundreds) and perhaps Abu Shusha (70). There is no unequivocal proof of a large-scale massacre at Tantura, but war crimes were perpetrated there. At Jaffa there was a massacre about which nothing had been known until now. The same at Arab al Muwassi, in the north. About half of the acts of massacre were part of Operation Hiram [in the north, in October 1948]: at Safsaf, Saliha, Jish, Eilaboun, Arab al Muwasi, Deir al Asad, Majdal Krum, Sasa. In Operation Hiram there was a unusually high concentration of executions of people against a wall or next to a well in an orderly fashion.

    “That can’t be chance. It’s a pattern. Apparently, various officers who took part in the operation understood that the expulsion order they received permitted them to do these deeds in order to encourage the population to take to the roads. The fact is that no one was punished for these acts of murder. Ben-Gurion silenced the matter. He covered up for the officers who did the massacres.”

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