Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

O bode da viúva

Escondem entre as pernas o bode da viúva

Bem longe do balcão da sombria taberna

Seus gritos são iguais às bátegas de chuva

Da água maldita que não entra na cisterna

Nem mata a sede neste Verão de fornalha

Que queima as gargantas de quem passa

Nas ruas mais apertadas onde se espalha

Toda a pobreza da aldeia toda a desgraça

Cisterna, único lugar da casa bem fechado

Mais que roupa ou louça, arca ou armário

Riqueza fechada no segredo dum cadeado

Mata a sede de quem chega ao contrário

Da vida que se vai projectando no ecran

E que termina a dois numa dança ritual

A chuva da noite vai repetir-se de manhã

Nas ruas onde o ar sabe a mar e sabe a sal

O lugar do vento

Desde sempre quis saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

As velas projectam a velocidade que não desloca o moinho mas, pelo contrário, interioriza essa velocidade e transforma-a em farinha de milho e de trigo.

Alguns teimosos ainda fazem pão verdadeiro

porque recusam o pão de plástico do hipermercado.

De vez em quando um cabo trava o movimento das velas

tal como a âncora que imobiliza o navio, no sossego da tarde, no tempo suspenso,

no lugar do vento onde se junta o sal do mar e a argila desta terra singular.

A terra de onde parti e aonde hei-de voltar um dia para descansar perto do lugar do vento, sem obter resposta para a minha dúvida de sempre:

saber porque razão se chama moinho a este pequeno navio.

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

Os olhos de Afonso

Tinham água e fogo mas também sangue pisado

Os olhos de Afonso depois do golo em Alvalade

Ele regressou do Inferno, foi traído e humilhado

Mas marcar este golo foi escrever uma verdade

Poderia ter sido a explosão da revolta ou o grito

Mas foi mais do que isso; foi a festa e foi o golo

Ele foi o pastor de um rebanho perdido e aflito

No campo da amargura sem luz e sem consolo

Foi um livre marcado por um homem renascido

Regressado de uma morte civil mal decretada

Hoje é livre o jogador que andou como perdido

Os autores do seu martírio, esses não são nada

Minutos depois numa conferência de imprensa

Os olhos tinham água, fogo, sangue e alegria

Ele soube vencer toda a força da indiferença

Ganhou o pão da esperança à espera deste dia

Vinte Linhas 472

Portugal – O piquete e o cabo de dia ou A sarjeta no altar

Parece de propósito. Quando há dias coloquei no «aspirinab» o texto sobre o livro do Raul Brandão (1867-1920) com a citação da página 111 de «Vida e morte de Gomes Freire» houve quem não gostasse e me criticasse asperamente por fazer esta citação onde se podia ler: «É a vaza, é o costume secular, é a infâmia que sobe do fundo do charco e tolda tudo, suja tudo. Umas são reles, outras simplesmente ridículas.»

Parece de propósito. Poucos dias depois lá veio de novo Sócrates, a cegarrega dos projectos assinados, dos mamarrachos, das incompatibilidades, das suspeitas, das denúncias. Desta vez foi num jornal mas podia ter sido numa televisão. Claro que eu sei (tenho a obrigação de saber) que o pessoal de piquete e o cabo de dia não estavam à espera do que saiu no «aspirinab» mas dá que pensar. Parece que foi um reflexo.

Na minha terra existe uma expressão muito curiosa e muito apropriada ao caso que é esta: «Fulano sempre cavou com a mesma enxada». Quando um indivíduo teimava em manter a sua ideia, mesmo errada e com erro confirmado pela comunidade, as pessoas diziam: «Deixa lá que ele sempre cavou com a mesma enxada.»

Esta trapalhada do jornal da SONAE (podia ser da televisão, não vem ao caso) é mesmo de quem só cava com uma enxada. Quando se apagarem os foguetes deste «caso» lá virá a carta «anónima» do caso Freeport. E se for necessário, repete-se e voltam a ser distribuídas as cartas do baralho já velho, na velha taberna do velho país.

Parece de propósito. Esta gente não percebe que assim está a confundir tudo, a salpicar de lodo o jardim de todos, a enfim colocar uma sarjeta num altar. O seu altar.

Vinte Linhas 471

URBAN MAN – Profética não é provecta nem táxi tem a ver com tacho

No passado dia 2 de Abril fui ver o Sporting-Rio Ave e, para além dos cinco golos «leoninos», da expulsão envenenada de Izmailov e da não-expulsão do jogador do Rio Ave que derrubou Yannick à entrada da sua grande – área quando seguia isolado em direcção à baliza, houve outra coisa que aconteceu no jogo: a oferta de um exemplar da revista portuguesa para homens com o nome bem inglês de Urban Man.

Na página 41 da dita revista surge um texto sobre Silva Lopes: «Será que estamos tão mal de gestores que temos sempre de recorrer aos suspeitos do costume, mesmo quando já têm a profética idade de 77 anos?» Ora bem. A idade de quem tem 77 anos de vida não é profética mas sim provecta que vem do latim provectu e significa avançada ou adiantada em anos. Profético é outra coisa – tem a ver com predizer o futuro ou fazer profecias. Mais abaixo surge um outro texto sobre Maria de Lurdes Rodrigues a propósito da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento: «os taxistas são sempre os mesmos». Ora bem. Tacho como significado de ter um emprego chorudo (ter um bom tacho) nada tem a ver com táxi ou com taxímetro nem com taxista, profissional do volante. Tacho não tem a ver com táxi.

Na terceira coluna da página refere-se Francisco Loução como autor de artigos de economia e de física teórica. Aqui já é mais uma dúvida. De economia sabemos da economia política e da economia social mas de física só sabemos da física atónica e da física nuclear mas será que existe mesmo uma física teórica e que Francisco Louçã é especialistas mesma sem a gente saber? E fazemos figura de urso?

Vinte Linhas 470



Armando Nogueira – «Por onde andarão tuas chuteiras?»

Morreu Armando Nogueira (1927-2010) o homem que, como jornalista, entre 1950 e 2006, esteve em 15 campeonatos do Mundo e 7 Jogos Olímpicos.

Jô Soares deve estar triste: eram amigos e os dois, com Roberto Mulayert, escreveram o clássico «A copa que ninguém viu» sobre o campeonato do Mundo de 1954 na Suíça. Devido às complicações logísticas, as notícias chegavam ao Brasil só no outro dia.

Armando Nogueira é um poeta da prosa. Algumas das suas mais brilhantes crónicas e poemas estão no livro «O voo das gazelas» de 1991, uma edição da Civilização Brasileira, com apresentação de Énio Silveira. Corria o ano de 1950, era Pelé um pirralho de 16 anos, acabando de marcar dois dos cinco golos do Santos ao América quando o jovem repórter Armando Nogueira lhe perguntou: «Quem é o melhor centro-avante do Brasil?» e ele respondeu com naturalidade: «Eu». Nova pergunta: «E o melhor meia-esquerda?» «Eu também» – respondeu ele com um sorriso. Era verdade. Anos depois o jornalista escreveu a mais célebre frase sobre Pelé: «Pelé já era melhor muita antes de ser e continua sendo, mesmo depois de ter sido». Sobre Rosa Mota em Seul ele escreveu:

«As avenidas, as calçadas, as pontes do rio Han, o chão desta cidade está contente de te ver passar, sereno vento da manhã. Rosa das ruas, que o Senhor proteja o teu corpo peso-pena. Engenhosa fragilidade a disputar com o tempo a glória de um instante.

Rosa Mota, os ventos do Olimpo sopram por ti. O sol do estádio é luz por ti. Rosa, para sempre de ouro». Grande poeta da prosa, Armando Nogueira, para sempre.

Vinte Linhas 469

Raul Brandão – aprende-se sempre com a História

Raul Brandão (1867-1930) não foi, nem nunca pretendeu ser, um historiador mas a verdade é que sem o seu livro «Vida e morte de Gomes Freire» não seria possível entender o estertor da monarquia absoluta em 1817. É nesse ano que Gomes Freire de Andrade (1757-1817) é enforcado e queimado em São Julião da Barra, sendo as cinzas lançadas ao mar. Mais tarde (1853) o governador da Praça de São Julião da Barra manda levantar um monumento em memória de Gomes Freire.

Relendo o livro «Vida e morte de Gomes Freire» com prefácio de Victor de Sá parei na página 111. Vejamos: «Vem então à tona, como sempre, a denúncia. Cartas anónimas para o intendente, cartas anónimas para D. Miguel Forjaz; mais cartas de gente que quer prestar serviços, mais papéis de gente que quer desfazer-se dum inimigo. É a vaza, é o costume secular, é a infâmia que sobe do fundo do charco e tolda tudo, suja tudo. Umas são reles, outras simplesmente ridículas. Um anónimo escreve que um Pedro Ferreira Mouro, morador defronte do Pátio das Vacas (Belém) «o combocou para ele com outros da sua fação combocase os meus amigos para fazer um lebantamento que nada lhes havia de faltar». Mouro não tinha nada em casa em Dezembro de 1816 morando na rua dos Cozinheiros e agora tem a casa bem movilhada, já puxa por peças». É «um fiel vassalo e portuguez verdadeiro» – a anónimo. Trata-se de uma carta anónima metida na caixa dos requerimentos de Francisco Leite, no Largo de S. Tomé em 29-5-1817.

Tudo isto que se passou em 1817 se repete melancolicamente quase duzentos anos depois: cartas anónimas, denúncias, infâmias, o lodo erigido como altar.

Vinte Linhas 468

Açores – Massa cevada não é massa sovada

Antigamente usava-se uma expressão curiosa nas Filarmónicas rurais da Estremadura de onde sou natural quando alguém se queria referir a um músico fracalhote: «Este só toca trompa e é de ouvido; não lê a pauta!»

«Tocar de ouvido» era apanhar assim «umas coisas no ar» e, como também se diz de alguém que lê mal os dossiers – «pela rama».

Tenho lido ultimamente coisas erradas que me parecem nascer da ideia de que se pode escrever «de ouvido». Tal como havia alguns músicos a tocar «de ouvido».

Vamos ao assunto: a Revista VIVER, editada pela Associação ADRACES (Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro – Sul) com sede em Vila Velha de Ródão, publica um artigo sobre o culto popular do Espírito Santo nos Açores. O artigo em causa, assinado por Maria Eduarda Rosa, contém o seguinte parágrafo: «Cinco Mordomas dos Rosais de São Jorge levaram cinco meses a criar 120 bandeiras de tecidos diferentes para enfeitar este carro de bois que levou o pão do Espírito Santo (Massa Cevada) para o Império, em local bem próximo».

Ora bem… É óbvio que massa cevada não é o mesmo que massa sovada. Basta ver a definição do dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa. Assim: «massa sovada – espécie de pão doce com ovos». Está na página 1002 do dito cujo dicionário.

O som de massa cevada (coisa que não existe) até é parecido com massa sovada (que eu comi em 1989 e cujo sabor não esqueço) mas coisas destas não devem acontecer. Sem esquecer que São Jorge é o nome de uma Ilha e Rosais o nome de uma freguesia.

Vinte Linhas 467

Abelaira na Wikipedia – quem foi o «artista» que fez aquilo?

Ouvi dizer: «Procura Abelaira na Wikipedia. Vais ter uma péssima surpresa!». E foi. Na biografia não há o til em Ançã nem o nascimento – 1926. Duas vezes na mesma frase usam a expressão «participou activamente» para mais à frente explicarem que se estreou «como autor de romances» com «o romance A cidade das flores». Grave é a afirmação de que, depois da década de 30, «passou a utilizar a ironia» ele que nasceu em 1926 e tinha 4 anos em 1930 publicando o primeiro livro em 1959. Depois não explicam que o júri da Sociedade Portuguesa de Escritores, que em 1965 premiou Luandino Vieira, integrava, além de Abelaira, Fernanda Botelho, Manuel da Fonseca, Gaspar Simões e Pinheiro Torres. Mas falta dizer que Abelaira foi presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores, que foi colaborador de O Jornal, que o nome completo do Jornal de Letras é também de Artes e Ideias, que Abelaira é autor de textos teatrais como A palavra é de oiro, O nariz de Cleópatra e Anfitrião, outra vez além do livro de contos Ode quase marítima de 1978. O seu livro Enseada amena ganhou em 1966 o Prémio de Romance da Imprensa Cultural. Mas o ponto máximo do delírio é quando referem personagens com «aversão à política de esquerda» e «contra o Plano Marshall». Ora bolas! Então se para Caeiro da Mata «o meu país não precisa de ajuda financeira externa» e para Costa Leite (Lumbrales) «não interessa ao país enfileirar no número dos famintos do dólar» como pode este artista dizer que as personagens de Abelaira (1959) combatem o Plano americano quando essa ajuda só existiu até 1951 e se ficou em 54 milhões de dólares para créditos documentários do trigo da FNPT. Ora bolas!

Vinte Linhas 465

Assim não, senhora Ministra Dulce Pássaro

O gabinete da Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território acaba de publicar o seu Despacho nº 5185/2010 que começa por reconhecer uma evidência: «O rio Tejo é o maior rio nacional e um dos mais importantes da Península Ibérica.» Até aqui tudo bem. O Despacho cria um grupo de trabalho para a elaboração de uma proposta de plano estratégico de intervenção de requalificação e valorização do Tejo e nomeia três engenheiros – Pinto Leite, Manuel Lacerda e Ana Lopes. Até aqui tudo bem. Mas onde se borra a pintura é na constituição de uma comissão de acompanhamento: além de diversos técnicos cuja competência não está em causa, nomeiam-se representantes dos seguintes municípios: Abrantes, Alenquer, Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Constância, Golegã, Salvaterra de Magos, Santarém, Vila Franca de Xira e Vila Nova da Barquinha. Além destes 14 municípios não percebo qual a razão que levou o gabinete da senhora ministra a ignorar outros que também estão à beira do Tejo e á beira de afluentes importantes (e poluidores) do Tejo: Tomar, Torres Novas, Alcanena, Entroncamento, Vila Velha de Ródão, Mação, Alcochete, Barreiro, Montijo Moita, Almada e outros haverá. Estou a escrever sem recurso a livros. Poderia evitar-se esta confusão deixando os municípios de fora. Ficavam apenas os técnicos do Instituto da Água, do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade, os técnicos da CCDRA e CCDRLVT além do técnico do NERSANT mas escolher só 14 municípios ligados ao Tejo deixando de fora outros tantos não parece boa política. Anexo capa do primeiro livro que fala dos Avieiros em 1940 com o conto de 1938 – «A Leandra».

Museu da Cidade

Apenas duas palavras (ou quase) para avisar que está perto do final a exposição sobre figuras populares de Lisboa no Museu da Cidade, no Campo Grande. Já só podem visitar a dita exposição nos dias 30 e 31 de Março mas vale a pena. Personagens como a Madre Paula, o pai Paulino, a madame Villaret, as manas Perliquitetes, o galego Mateo Agustin, o Luciano das Ratas, a preta Fernanda, a peixeira Ilda Fernandes, a leiteira Albertina de Jesus e o arquitecto Victor Palla são algumas das figuras de Lisboa presentes nesta exposição. Vale a pena, só faltam dois dias.

Vinte Linhas 466

Maria Farandouri – memória de um poema

A propósito da Grécia lembrei-me da Maria Farandouri. Em 1981 dediquei-lhe um poema no meu livro «Inicias» e ontem passei uma hora a ouvir no Youtube as suas canções cuja memória ainda guardo: Pote, pote, pote, To palio roloi, Ligo akoma, Pios ti zoi mou, O kaimos, Menexedenia ta vouna, Z, To Yelasto pedi, O Antonis e Asma Asmaton. Canções quase todas com música de Mikis Theodorakis, ligando de modo mágico o som da sirtaki à sua poderosa voz de contralto.

O poema é este:

Desculpe que lhe diga mas gosto mais do disco

Não digo que não me emocione profundamente

Quando a vejo num palco a enfrentar a multidão

Mas o disco tem um som mais cuidadoso e belo

Você coxeia ligeiramente talvez devido às sevícias

Embora a sua palavra nada transmita dessa situação

Como se fosse possível esconder a longa noite

Por detrás da frescura da sua bela voz

Nesse tempo você não usava óculos como hoje

Na prisão em Zatouna você percorria o perímetro da lágrima

Hoje tenho comigo a dupla emoção de a ver

Pedindo-lhe desculpa por não saber escrever grego.

Vinte Linhas 464

António Carmo na Galeria Diário de Notícias

Foi ontem inaugurada a exposição de António Carmo (n.1949) intitulada «Percursos». A Galeria Diário de Notícias (Avenida da Liberdade 266 – Lisboa) que já foi Livraria e que tem as paredes decoradas com trabalhos de Almada Negreiros, recebe desta vez vinte peças (entre obras a cores e a preto e branco) deste pintor lisboeta com quadros expostos em vários países: Alemanha, Austrália, Brasil, Bélgica, Bulgária, Canadá, Checoslováquia, Cabo Verde, EUA, Espanha, Guiné-Bissau, Holanda, Inglaterra, Japão, Luxemburgo, Macau, Marrocos, Suécia, Suíça, URSS e Venezuela.

Um dos aspectos curiosos desta mostra diz respeito ao facto de algumas peças homenagearem o traço definidor, a marca indiscutível de pintores hoje clássicos como Gauguin, Magritte, Rubens, Velásquez, Miro e Matisse. Todos os quadros desta série apresentam o título de «No atelier com…»

Pessoalmente fiquei fascinado por ter encontrado nos desenhos a tinta-da-china da série «Leitura e Leituras» o António Carmo que todas as semanas recebia em 1982 das nãos de Jacinto Baptista textos de diversos autores e depois os ilustrava em casa, ali no Bairro Alto. Não havia telemóveis nem «mails» mas as pessoas contactavam entre si e as coisas prosseguiam. Esta série a preto e branco, estas cinco peças, recordam-me esses tempos de 1982 quando um jornal chamado «O Ponto» saía às quintas-feiras ali na Rua da Rosa. Quero recomendar a todos uma ida ali ao Diário de Notícias e envio um dos desenhos da série a preto e branco. Para quem ainda não conhece os frescos de Almada Negreiros a ida ao D. N. acaba por se tornar um dois em um com António Carmo.

Perícia

Manobrava o automóvel com perícia

Como num filme uma nave espacial

No Marquês havia o carro da polícia

Não evitou que ela chegasse triunfal

À Braamcamp que devorou com rapidez

A olhar o Largo do Rato em confusão

Sexta-feira, fim-de-semana, fim do mês

Mais dinheiro nos motores de combustão

Antes já passou sem vislumbre de medo

Na tão caótica Avenida Duque de Loulé

Sobre os comandos actuam sem segredo

As mãos e o hábil toque no pedal, do pé

Partiu veloz na direcção das Amoreiras

Atenta a manobras tão perto da loucura

Eu vi ao fim destas duras sextas-feiras

Apenas a perícia salva piloto e viatura

Belém – Porto Brandão

Nas pequenas viagens pode haver a saudade das grandes rotas.

Sombras, soldados, frades, caravelas perdidas, um império.

Ao fim da tarde jovens de calções enchem o barco, trazem ruidosos leitores de cassetes, quase não falam, beijam-se para que todos saibam.

Transportam o sal do mar e vão chegar a casa muito tarde.

Alguém cuidará do jantar. Há, pelo menos essa certeza.

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José do Carmo Francisco in «Transporte Sentimental» (1987)

Fotografia de António Brito

Vinte Linhas 463

Rute – dissertação breve sobre o teu nome

O teu nome hebreu ilumina dois sentidos: quer dizer «a amiga» mas, por metáfora, significa «a acumulada de bens». É um nome cheio de beleza. Rute.

Na Bíblia, o livro com o teu nome revela uma sociedade agrícola: entre sementeiras e colheitas, entre servas e ceifeiros, entre bilhas de água e paveias de cevada.

Rute, a Rute da Bíblia, entra no campo de Booz e vai recolher espigas atrás dos ceifeiros. Ela é a respigadora. Ao fim do dia debulha as espigas e junta quase um efá de cevada. Um efá são 30 litros. Nesse tempo não havia alqueires.

Booz era rico, tinha terras e servos. Quando disse ao supervisor para deixarem Rute respigar à vontade sabia que na cidade de Belém a tinham na conta de mulher de valor. Rute era estrangeira, veio do planalto a oriente do Mar Morto com sua sogra Noemi («minha doçura») que queria ser Mara («amargura») pelas lágrimas derramadas entre os campos de Moab e as muralhas de Belém, no regresso. Rute, a moabita, é a sombra de uma história: sendo uma estranha passa a elemento-chave na genealogia de David. Rute torna-se então semelhante a Raquel e a Lia, duas paredes da Casa de Israel.

Porque Rute foi a avó feliz do rei David, o filho de Jessé, filho do seu filho Obed. Rute nunca desistiu de respigar. Perdido o primeiro marido, não parou nas lágrimas e decidiu descer à eira de Booz: tomou um longo banho, perfumou-se e escolheu os seus melhores vestidos. Há no teu nome o peso duma história e a força de um exemplo: quando respigas recibos e facturas, notas de crédito e balancetes, é como se segurasses nas tuas mãos um efá de cevada na eira de Booz a caminho da tua casa na cidade de Belém.

Vinte Linhas 462

Dia Mundial da Poesia e depois?

Acabo de ser convidado para um evento poético na Ericeira e recebo do Brasil o livro «O que poesia?» organizado pelo poeta Edson Cruz e editado pela Confraria do Vento e pela Calibán. 45 Poetas responderem neste livro à pergunta «O que é poesia?».Uma pergunta, quanto mais ingénua e simples, mais difícil de responder. Aqui há tempos na nota de leitura de um livro de José Mário Silva recordei uma frase de Camilo Castelo Branco: «A poesia não tem presente; ou é esperança ou saudade». Descobrem-se aqui ideias novas quando parece que tudo já foi dito. Bárbara Lia (n.1955) por exemplo afirma: «A poesia é universal mas cada poeta é único». Já Cláudio Daniel (n.1962) lembra Jorge Luís Borges («a poesia vem da poesia») para apelar à leitura incessante e define a poesia como a «deslocação entre perplexidade e descoberta, incerteza e encantamento». Para Cláudio Willer (n.1940) «a poesia é uma aventura, um modo de expressar a imaginação e de expressar a paixão. Uma operação sobre a linguagem. Uma experiência de liberdade e também de possessão.» Para concluir as palavras de Nicolau Saião (n.1946): «A poesia nada tem a ver com a literatura, essa que os aproveitadores ou os simples falsários erguem (como se ergue um bloco de apartamentos) e que depois habitam com todas as vantagens que em geral esse tipo de gente artilha. A poesia pode ser, e muitas vezes é, uma maldição ou uma incursão no mistério ou uma aventura no mal ou uma naturalidade doméstica… Mas nunca um sujeito de literatura como infelizmente certa gente medíocre ou primária mas altamente colocada sectorialmente no país que melhor conheço (Portugal) pretende incutir nas gentes.» E continua…

Um livro por semana 176

«A torre» de Baltazar de Matos Caeiro

A Torre de Matos é uma torre de atalaia militar anterior à nossa nacionalidade. O seu nome deriva dos extensos matos que a rodeavam e desde o século XIV passou da família Matos para a família Pinto até aos nossos dias. Nela situou Eça de Queirós a acção de «A Ilustre Casa de Ramires» em homenagem ao filho de Ramiro II de Leão, D, Alboazar Ramires. No último quartel do século X era esta a vida na região da Torre: «as fronteiras mudavam constantemente, flutuando a bel-prazer de belicosos reis cristãos, arrogantes condes, sanguíneos emires e ambiciosos califas, levando a combates renhidos com destruição de aldeias, inutilização de colheitas, destruição dos campos. Sucediam-se, assim, os fossados e as cavalgadas dos fronteiros para sul e as algaras muçulmanas que de rompante iam até ao curso do Douro».

A paixão infeliz do cristão Tedon pela moura Ardínia, filha do alcaide Alboacém de Lamego, acabou com a morte de ambos, executada por quem não aceitava as ligações entre mouros e cristãos: «Há muitos interessados para que as coisas corram mal entre os dois povos e se mantenha a guerra». Entre as diversas lutas e aventuras à volta desta Torre, cujo brasão vai terminar em Castelo de Vide, bem longe do Douro, só uma coisa fica imutável: «A vida na época era essencialmente pensada para a guerra e passada na guerra, quer pelo medo relativo que todos e principalmente os grandes senhores sentiam uns pelos outros, cujos limites eram frequentemente desrespeitados, quer pelo chamamento às Cruzadas contra os infiéis, fosse na própria terra, fosse na Terra Santa».

(Editora: Plátano, Prefácio: João Malta, Capa, design e paginação: José Maria Pires)

Vinte Linhas 461

Alexandre Herculano no bicentenário do seu nascimento

Alexandre Herculano (1810-1877) foi uma figura de escritor que sempre me fascinou. A biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa tem uma sua bibliografia seleccionada em mostra patente ao público até ao dia 31-3-2010 entre as 10 e as 13 e das 14 à 17 horas no seu edifício ali mesmo ao lado do Coliseu dos Recreios.

Um dos meus mestres no jornalismo – Jacinto Baptista – dedicou muito do seu estudo à obra de Alexandre Herculano nomeadamente à faceta de Herculano jornalista. Citava de cor uma frase de Raul Brandão sobre o labor de Herculano na História: «a seriedade, a obstinação, o amor à terra, ao azeite e ao pão…»

Mais tarde, jornalista na redacção de O MIRANTE em Santarém, li com prazer um trabalho muito completo de Jorge Custódio sobre Herculano agricultor e sobre os seus trabalhos para apurar a fabricação do azeite de modo a que ele deixasse de ser apenas elemento de iluminação nas candeias das cozinhas das nossas casas portuguesas.

Há nesta mostra da Sociedade de Geografia diversos livros com muito interesse para quem queria descobrir algo mais sobre Herculano. São seus autores: Cândido Beirante, Luciano Cordeiro, António Enes, David Lopes, Bulhão Pato, Carlos Portugal Ribeiro e Rebelo da Silva, entre outros. Há também obras colectivas.

A biblioteca tem outros livros disponíveis sobre Herculano, nomeadamente dos seguintes autores: Fortunato de Almeida, Pinheiro Chagas, Teófilo Braga, António Barata, Anselmo de Andrade, Alfredo Pimenta e Vitorino Nemésio.

Vale a pena ir visitar a exposição de Herculano à biblioteca da Sociedade de Geografia.