Vinte Linhas 463

Rute – dissertação breve sobre o teu nome

O teu nome hebreu ilumina dois sentidos: quer dizer «a amiga» mas, por metáfora, significa «a acumulada de bens». É um nome cheio de beleza. Rute.

Na Bíblia, o livro com o teu nome revela uma sociedade agrícola: entre sementeiras e colheitas, entre servas e ceifeiros, entre bilhas de água e paveias de cevada.

Rute, a Rute da Bíblia, entra no campo de Booz e vai recolher espigas atrás dos ceifeiros. Ela é a respigadora. Ao fim do dia debulha as espigas e junta quase um efá de cevada. Um efá são 30 litros. Nesse tempo não havia alqueires.

Booz era rico, tinha terras e servos. Quando disse ao supervisor para deixarem Rute respigar à vontade sabia que na cidade de Belém a tinham na conta de mulher de valor. Rute era estrangeira, veio do planalto a oriente do Mar Morto com sua sogra Noemi («minha doçura») que queria ser Mara («amargura») pelas lágrimas derramadas entre os campos de Moab e as muralhas de Belém, no regresso. Rute, a moabita, é a sombra de uma história: sendo uma estranha passa a elemento-chave na genealogia de David. Rute torna-se então semelhante a Raquel e a Lia, duas paredes da Casa de Israel.

Porque Rute foi a avó feliz do rei David, o filho de Jessé, filho do seu filho Obed. Rute nunca desistiu de respigar. Perdido o primeiro marido, não parou nas lágrimas e decidiu descer à eira de Booz: tomou um longo banho, perfumou-se e escolheu os seus melhores vestidos. Há no teu nome o peso duma história e a força de um exemplo: quando respigas recibos e facturas, notas de crédito e balancetes, é como se segurasses nas tuas mãos um efá de cevada na eira de Booz a caminho da tua casa na cidade de Belém.

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