Da elite e do escol

Mas há uma coisa que eu noto nos meus amigos que emigraram, alguns deles pessoas absolutamente excepcionais, da minha idade. Do ponto de vista intelectual, profissional, pessoas absolutamente excepcionais, e que podem competir, e que têm estado a competir, com os melhores do Mundo. E têm-se safado muito bem até à data. Há uma coisa que eu noto quando falo com eles. Em primeiro lugar, eles não têm nenhuma vontade de regressar. E em segundo lugar – isto não é unânime, mas acho que abrange muitos dos casos que eu conheço pessoalmente -, não só perderam qualquer ligação afectiva a Portugal, eu não queria utilizar a palavra desprezar Portugal, mas acham que houve qualquer coisa aqui que eles não encontraram, um horizonte cinzento de bloqueio, de ausência de energia, que os faz sentir repúdio por Portugal, uma certa repugnância por Portugal.

Miguel Morgado

*

O Miguel tem a idade da democracia portuguesa. E pertence à elite. Alguns dos seus amigos foram trabalhar no estrangeiro. Trata-se de um conjunto de pessoas absolutamente excepcionais, capaz de rivalizar com os melhores do Mundo, a fazer fé no seu testemunho. Mas não ficámos a saber em que campo de actividade, nem em que parte do Mundo. Serão taxistas? Empregados de mesa? Futebolistas? Cabeleireiros? Pescadores de atum? Não interessa.

Todavia, gostava de conhecer o exacto número de amigos que preenchem a amostra. Quantos amigos do Miguel Morgado de tipo absolutamente excepcional emigraram e estão agora a safar-se lá fora? 200 amigos? 20 amigos? 2 amigos? A questão não é despicienda, é estatística. E vou apostar no número 20, por mero bom senso. Donde, haverá 20 portugueses que obtêm rendimentos e possuem propriedades no estrangeiro, que trabalham em actividades que os realizam e que estão muito bem, muito obrigado, não padecendo de distúrbios mentais que os levem a pensar em abandonar tamanha qualidade de vida. Isto é uma sonolenta banalidade, claro, mas o orador fez questão de a partilhar na televisão, olhando de frente para os dois maiores filósofos cá do burgo. É porque a boutade deve conter informação valiosa.

Tentemos descobrir quão valiosa. Para começar, e recorrendo a Aristóteles, temos que os iguais procuram os iguais. Ou seja, é altamente provável que o Miguel Morgado se conceba também como um ser absolutamente excepcional. Como não o ser, se não apenas os reconhece, mas priva com tais patrícios, é honrado com a sua dilecta estima? Ora, não é preciso ter esses predicados de excepção para fazer o cálculo seguinte: por cada amigo do Miguel Morgado que emigrou, haverá 10 que andam por aqui. Nas empresas, nas profissões liberais, nas universidades, nos partidos, nos negócios, nas artes. Enfim, nos círculos que o Miguel Morgado frequenta. Voltamos aos 200 amigos absolutamente excepcionais, perfazendo a bela quantidade de 201 portugueses, contando com o Miguel, que se consideram capazes de emular os melhores do Mundo. E que (ainda?) não se foram embora, que aguentam firmes em solo pátrio, utilizando os seus estupendos recursos intelectuais e morais ao serviço do PIB nacional. É uma sorte do camandro para todos nós. Já se fizeram revoluções, e fundaram religiões universalistas, com muito menos gente deste calibre.

Só há um pequeninozinhozinho problemazinhozinhozinho. É que o Miguel pertence a um grupo sócio-ideológico que é co-responsável pelas maleitas que fazem emigrar os seus amigos e os deixam em tal acédia não saudosista. Não só têm alternado na governação, como possuem privilégios que a concorrência não possui, desde favores da banca e empresariado a promoção mediática e ocupação de carreiras públicas. Acima de tudo, estes bravos filhos de algo, mesmo que com incontáveis cavalheiros de indústria à mistura, dispõem de todas as condições para apresentaram ao País o caminho prometido pelos arautos lusitanos, oferecendo a sua vitalidade, energia e horizonte solar para nos salvar da apagada e vil tristeza. Por que esperam, que vos falta ainda?

Talvez a enigmática demissão da nossa elite se explique à luz do suposto desabafo de D. Carlos, quando em Paris:

Isto aqui é uma terra, lá é uma piolheira.

Eis uma das marcas intemporais da elite portuguesa, a tal repugnância por Portugal que os brilhantes amigos do Miguel Morgado vocalizam. Os amigos todos, incluindo os que por cá gozam das vantagens, diríamos pelos seus frutos, posto que deles não vem bom vento político (embora devam propiciar magníficos casamentos). E assim continuaremos enquanto não se voltar a reunir o escol da boa cepa, aquela que ama os seus piolhos.

53 thoughts on “Da elite e do escol”

  1. Val, um aparte, e desculpa lá ser chato: podias pôr a temporização desse comentário, para quem não tem tempo de ver 55 minutos.

  2. Totalmente de acordo com a conclusão, Valupi.

    Miguel Morgado e amigos não representam a diáspora priveligiada. Representam eventualmente uma parte, muito bem descrita no último parágrafo deste post.

    Vivo e trabalho em Bruxelas há 14 anos, fiz estudos superiores em Portugal e depois aqui e noutros países da Europa. Não o digo para me vangloriar, apenas porque é pertinente neste caso. Os meus amigos portugueses aqui têm um percurso semelhante. Regressamos TODOS regularmente a Portugal porque podemos e queremos. Fazemo-lo com prazer. E quando passam mais de 3 meses sem voltar sentimos saudades. Posto isto, também gostamos de viver cá, de correr mundo, não vivemos num saudosismo doentio, estamos bem nos dois lados. Mas se calhar, apesar de não nos acharmos excepcionais (como os amigos do Miguel Morgado), gostamos do que somos.

  3. Brilhante análise do “parolismo burguês” que ainda se vive neste País…
    Relativamente à Sofia, dá um testemunho pleno de humildade e de valor, muito similar aos exemplos que conheço na mesma situação!!!
    O “gabarolismo crónico” de Miguel Morgado ilustra bem que tipo de gente nos tem conduzido…

  4. Não vivo nem trabalho no estrangeiro mas também tenho amigos. E alguns deles trabalham no estrangeiro. É preciso pôr-me em bicos de pés para falar com esse senhor Miguel Morgado e trocar amigos como quem troca cromos? Eu faço-o. O meu irmão é físico no Instituto Max Plank na Alemanha, a Rita é bióloga marítima e dá aulas no Dubai, um dos meus tios foi professor de Quimica na Universidade de Pequim e depois na de New Orleans, outro é consultor do Banco Mundial na área da saude, outro ainda viveu anos seguidos em Oslo enquanto médico na OMS, um outro faz parte da comissão europeia para a reforma da justiça, aquela é economista no BEI. O que é que eles têm em comum? Nenhum deles faz parte do restrito e excelente grupo de amigos do Miguel Morgado e todos eles, sem exepção, são cidadãos do mundo mas portugueses acima de tudo. E como portugueses, como todos nós, dizem mal, criticam, mas não renegam. Porque eles sabem o que talvez o Miguel Morgado não saiba, eles sabem que a excelência deles começou aqui, fomos todos nós que lhes criámos as condições para serem o que são e eles sabem também que cá ou lá podem ser excelentes profissionais, mas só uma pessoa tonta e essa sim rodeada de horizontes curtos e cinzentos poderia exigir em nome do progresso, da modernidade e do equilibrio nacional um acelerador de partículas em Freixo de Espada à Cinta porque foi lá que nasceu e cresceu o Manel que agora, coitadinho, tem de estar longe da terra e até, quem sabe, é capaz de ficar a pensar mal dos pobretanas da família.
    Gente pequenina deslumbrada com o mundo lá fora e esquecendo que somos e fomos um povo de marinheiros habituado às glórias mas sempre com vontade de regressar ao cais.

  5. eu então tenho um amor parece que fatal por Portugal, mais ainda pelo povo português porque de Portugal como signo entristece-me o sacrifício premeditado do Infante Santo e mais umas coisas, mas enfim, S. Jorge e o dragão é uma longa história,

  6. Mas a tristeza faz-nos bem, dá-nos calo e apreciamos melhor a alegria depois.
    Queres umas favas, que são bem portuguesas?

    (estes putos deixam-me com a ligeira sensação que algures por aí fizemos um zig na vez de um zag…)

  7. pois eu acho bem que exista o Bloco, ao menos faz contraditório com aspectos relevantes. Ainda bem, já não faço parte do clube há anos mas assim ainda me alegro de ter participado na fundação.

  8. Foi notável a lição de patriotismo do excepcional professor universitário. Fossem todos da sua estirpe, e valores como pátria ou nação seriam rapidamente vernáculos vocábulos, que pronunciados exalariam um enorme fedor a alho.
    Essa excepcionalidade toda só pode ser de origem genética. As origens destes cavalheiros remontam directamente aos germânicos, e outros povos bárbaros de olhos azuis. Tivesse vingado o Hitler, e os fulanos não emigrariam: tinham assento certo no Estado, que não estaria contaminado por gente sem berço, que ousam ocupar lugares quase sempre reservados. Petulantes.
    Não é assim que se trata Miguel Morgado e os amigos, pertencentes ao escol dos excepcionais beautiful people nacional. Da família dos Caneças.
    O Estado existe para os servir. Ajoelhar-se, implorar para que não saiam.
    Felizmente os meus amigos imigrantes, emigrantes, conterrâneos, compinchas, camaradas, etc. não cospem na Pátria onde nasceram ou na Pátria que os acolheu.

  9. Análise perfeita!

    Eu e o meu marido vivemos em Abu Dhabi há uns anitos largos, também temos estudos superiores e, a exemplo da Sofia, vamos a Portugal ´várias vezes ao ano porque queremos e podemos.
    Sentimo-nos muito bem na nossa pele e adoramos o nosso país.

    O ” Senhor Morgado” (parece o Paulo Rangel….em Bruxelas….)representa aquela diáspora que estando fora e para se sentir “integrada” gosta muito de ridicularizar Portugal e os portugueses mas, pobres coitados, o resultado é exactamente o oposto…. quem não respeita o seu povo e o seu País é desprezado pelos outros. Isso acontece aqui mas sómente com uma minoria pouco qualificada e com a mania que ficaram ricos por ganharem mais uns tostões do que em Portugal.

    Sou visita diária deste blog, gosto imenso dos vossos artigos.
    Cumprimentos
    Ana Soares

  10. Piolhosa: com as favas e o Plank só falta mesmo regar o jardim, o que talvez não seja preciso afinal. Portugal este ano ficou mesmo rico de chuva e rico é a palavra certa, vai haver muita alegria nas colheitas, muita energia gerada nas barragens. O meu soninho, my best friend, é que vem já a caminho :)

  11. Ó Ana Soares, aquela do sr. morgado (vai assim com minúscula que o homem não me parece que justifique a maiúscula) parecer o Paulo Rangel em Bruxelas não podia ser mais bem vista. Estão, de facto, muito bem um para o outro! Com que então um acelerador de partículas em Freixo de Espada à Cinta?! Então, ó senhor, não vê que aquilo é por lá uma zona muito alcantilada e de todo imprópria para uma tal instalação?! Tenha lá um pouquito de paciência e, espero que não tarde muito, estarão à disposição das luminosas cabeças dos seus 20 amigalhaços (acho que o Val foi muito generoso na estimativa!) uns lugarzitos no LABORATÓRIO IBÉRICO E INTERNACINAL DE NANOTECNOLOGIA prestes a nascer em Braga, que talvez lhes façam esquecer a “piolheira”! Passe bem, sr. morgado! Gente da sua espécie não nos faz a mínima falta!

  12. M.Morgado diz uma grande verdade, “que podem competir, e que têm estado a competir, com os melhores do Mundo”. Fico feliz quando oiço um elogio destes aos portugueses e à formação académica que existe em Portugal, aqui formamos gente que compete com o melhor do mundo.
    É assim que se começa a desenvolver sustentavelmente um país, não é com patacoadas de fachada, criando instituições sem gente para as manter, organismos de investigação e importando investigadores de 2ª de um lado qualquer.
    Claro que era maravilhoso ser tudo ao mesmo tempo e equilibrado, formarem-se as pessoas e abrirem organismos numa tal simbiose que nem um lugar era desperdiçado, nem uma pessoa ficava de fora. E tudo num ambiente estimulante e com uma mentalidade fenomenal e etc etc etc, já perceberam a ideia. A chatice é que a realidade não vai nessas coisas.
    Portanto, como é que se começa? exactamente como se tem feito nos últimos anos.
    Forma-se gente com competências do melhor do mundo, criam-se novas mentalidades, investe-se fortemente em novas tecnologias, prepara-se o futuro do país.
    Não há ainda o ambiente maravilhosos que M.Morgado gostava? pois não. Gostava ele e gostava eu e gostava o Val e gostava muita gente. Mas é assim que se lá chega.
    Há outra via, perguntem ao BE. Taxam-se os ricos e as grandes fortunas (devemos ser o país do mundo com mais grandes fortunas, dão para tudo) e decreta-se que agora é obrigatório que as empresas e instituições funcionem com abertura de espírito, ideias motivadoras, ambientes fenomenais, etc.
    E para termos a certeza que é assim põe-se à frente de cada empresa e organismo um funcionário do partido, já vimos disso em vários sítios no passado, vejo-o em Cuba no presente.
    Funciona às mil maravilhas.
    Agora noutro registo.
    O problema dos M. Morgados e amigos é serem pessoas com uma preparação de topo, patrocinada por um país que desprezam.
    É serem pessoas que antes de perguntarem o que podem fazer pela sua pátria, esperam que seja a sua pátria a fazer algo por eles.
    Mas eu sou optimista, acredito que os amigos de M.Morgado daqui a uns anos voltem e corram com os tipos que estão à frente dos organismos e empresas que agora desprezam.
    Tenho é receio que quando voltarem façam exactamente o mesmo que os que lá estão agora fazem…..

  13. Nano… Pikenas… You say to-may-to, I say to-ma-toe… São coisinhas maneirinhas e isso é a minha praia!
    (Se é de gente erudita, é melhor eu pôr-me a andar que toda a gente sabe que eu sou povo.)

  14. O Sr. “D. Miguel”, morgado, faz parte daquela pleiade de gente de grande categoria, bem instalados e anafados na vida, pessoas de grande virtude e excelsa oratória, com origem em boa cepa, com todos os caminhos previamente desbravados para terem ao longo da vida grandes sucessos e grandes encómios. E, possivelmente como ele, os tais tantos amigos a que aludiu, que eu boa ora, abandonaram a “piolheira”, imerecida para si.
    Pois é!
    O que me faz pena nisto tudo, é que os canais de televisão e estações de rádio que nos matraqueiam o juizo, só têm antena aberta para os senhores morgados nos insultarem com a sua pretensa superioridade ou, talvez melhor, o seu incomensurável pedantismo.
    Portugueses de grande qualidade, saber e valor há; lá fora e cá dentro. Só que em quase todos o que raramente se encontra é petulância, mas tão só, e na maior parte das vezes, uma discreta humildade.

  15. E importar elites? Não?… Não faz sentido. Então deixe-se estar como está.
    É urgente renovar as elites empresariais e industriais, senão, um dia destes, estamos como as Filipinas a formar pessoas cujo único desejo é emigrarem.

  16. Da elite e do escol:
    Há uma data de empresas a ir às universidades contratar os melhores elementos que lá se formam. Não entendo os amigos do Miguel Morgado serem obrigados a emigrar para terem colocação, quando digo todos, acho impossível pelo facto de os grandes empresários dizerem que andam à caça desses talentos. A não ser que tudo seja uma treta por parte dos empresários mas, quem não quer os melhores elementos ao seu serviço?
    Lamento que pessoas destas tenham vergonha de serem portugueses. Eu que em tudo ponho o meu País acima de tudo ao ver pessoas destas não percebo essas afirmações. O País gasta dinheiro – dos nossos impostos – em formação com estes indivíduos. Deviam de ser obrigados a indemnizá-lo quando vão para outros países e não querem mais saber do seu. Nunca por nunca se deve cuspir no prato em que se come.
    Tenho um irmão a trabalhar em Barcelona e de quinze em quinze vem visitar a esposa e a filha e se pudesse ser todas as semanas era todas as semanas. Quando cá chega diz que as saudades são imensas.
    Vejo o meu País como um pai ou uma mãe. Já não os tenho e sei dar o valor à falta que me fazem. Vou dar um exemplo: um dia um sujeito depois de se ter formado e com boa média em medicina, resolveu fazer uma visita surpresa a seu pai. Quando se aproxima do pai vai para o abraçar e o pai diz-lhe. Não o faças porque te sujo todo. Ao que o filho lhe respondeu. Se não fosse a sua sujidade eu não era o que sou hoje. O pai tinha como profissão, carvoeiro.
    É por isso que digo. Portugal pode ser dos países mais pobres do mundo mas, é sempre o meu País. Não o abandono e se isso acontecesse fazia como o meu irmão, sempre que pudesse voltava cá. Aliás quando estava na Madeira, não era fora País, todos os meses vinha porque sentia saudades da minha terra. Que faria se fosse fora de Portugal.

  17. Esta semana foram mais três amigos meus que pensam emigrar, dois para a Australia e um para o Reino Unido.

    Estas partidas programadas são uma catástrofe porque:

    – contrariamente aos amigos do Miguel Morgado, nada têm de excepcional.

    – também não são desempregados e ganham relativamente bem para este país.

    – obviamente têm formação superior.

    – têm abaixo de 30 anos

    – dois até votaram PS

    Resultado, a emigração já não toca os excepcionais a procura de um espaço para a sua ´genialidade´ mas também não são desempregados. A classe média está a fugir. E isso é assustador, é ela que sustentava esse país e que está progressivamente a deixar de acreditar no seu futuro.

    Obrigado Sócrates, obrigado PS!

  18. Val, só há um emigrante que eu conheço que cabe bem na descrição do Miguel e que é o João Magueijo.
    O Magueijo é mesmo um gajo com grande reputação e que escreveu coisas nas melhores revistas e jornais. E também já li em qualquer lado que ele não quer regressar a Portugal, que tem pena é de não ter emigrado mais cedo.
    Não percebo qual é o problema de termos algumas pessoas (poucas mas temos) de grande nível a trabalhar lá fora e que não querem regressar a Portugal. É evidente que alguns deles não sentem vocação para a política, não querem mudar as coisas, e não querem regressar a um país onde não podem trabalhar a um nível tão alto.
    Eu julgo que esse repúdio por Portugal por parte dos emigrantes será em parte devido ao terem sido forçados a emigrar e não poderem regressar por terem escolhido esse caminho.
    Tens razão , uma das coisas que mais me irrita nos portugueses é a maneira como se deslumbram com qualquer merda do estrangeiro (basta ver os comentários do post!!!) e a falta de amor ao país.
    Claro que temos que fazer umas críticas e melhorar mas não podemos sempre andar nesta merda de que isto é uma grande merda, especialmente se se pertence às elites que criaram, ou mantêm, a tal merda.

  19. Não percebo qual o problema com a afirmação do Miguel Morgado ou sequer com o facto dos amigos dele pensarem o que ele diz que pensam. Aquilo é tão português como a saudade.Que não se goste dessa parte do ser português é natural face aos fortes sentimentos de pertença e valores patrióticos que uma questão destas possa suscitar, mas que ela existe, existe e não mora só nas elites ou no escol. Muitos tipos assim foram nas caravelas aquando dos descobrimentos e desbravaram continentes.
    Acho até corajosa a afirmação do Miguel Morgado, 1º porque é genuina, 2º porque é português e 3º porque combate um pouco a ideia do mercado da saudade.
    Porque é que um português tem que ser obrigado a gostar de portugal?

  20. Uma vez puseste aí um poema do Sena que me arrasou. Eu não sei se ele quereria vir para o panteão, não sei não, mas quem sabe com isso das saudades,

  21. Tambem não sei &, só sei que tudo aquilo que ele escreveu sobre o país onde nasceu tinha por detras uma grande e imensa dor.

  22. O saudoso Adriano Correia de Oliveira cantava (e de que maneira!!!) este poema, que penso, ilustra bem a mentalidade desse tal morgado:

    O Senhor Morgado

    O senhor morgado
    vai no seu murzelo,
    todo impertigado,
    é um gosto vê-lo
    próspero, anafado,
    véstia alentejana,
    calça de riscado:
    Homem duma cana!
    Vai, todo se ufana
    de ir tão bem montado.
    E ela na janela…
    Seja Deus louvado!

    O senhor morgado
    vai nas próprias pernas,
    todo bandeado;
    Tem palavras ternas
    para cada lado.
    Quando passa, sente
    que é temido e amado;
    Fala a toda a gente.
    Topa um influente:
    “Sou um seu criado…”
    Eleições à porta,
    Seja Deus louvado!

    O senhor morgado
    vai na sege rica
    todo repimpado
    ai que bem lhe fica
    o chapéu armado
    e a comenda ao peito
    e o espadim ao lado!
    Que homem tão perfeito!
    Deputado eleito
    muito bem votado,
    vai para o Te-Deum,
    Seja Deus louvado!

    Conde de Monsaraz / José Nisa

  23. Eu até ja ouvi dizer que foi um dos sapientes amigos do morgado que inventou os bicos para as cafeteiras.E registou a patente.

  24. “Eu julgo que esse repúdio por Portugal por parte dos emigrantes será em parte devido ao terem sido forçados a emigrar e não poderem regressar por terem escolhido esse caminho”.
    Conheço vários episódios. Há uns anos em conversa com um emigrante há vários anos na Suíça – conhecia-o de vista – disse-me que para ali foi com o intuito de ganhar dinheiro para fazer uma casa na sua terra, não vivia na minha. Foi para ali sozinho, passados uns meses, como não se dava a viver sozinho, a mulher foi fazer-lhe companhia, tendo os filhos, ainda a frequentar a escola ficado na companhia da sua sogra. Estes concluíram o ensino obrigatório da altura e também para ali foram.
    A casa que tanto ambicionava ficou concluída. Vinha a Portugal uma vez por ano e no princípio nem uma vez por ano vinha para não gastar dinheiro. Os filhos arranjaram emprego e habituação à Suíça. Casaram com naturais da Suíça e a sua vida ali se reportava e Portugal pouco lhes dizia muito mais a terra em que nasceram.
    A mulher morreu vítima de doença prolongada e lá foi sepultada. Dizia-me ele com lágrimas nos olhos. Estou reformado, tenho uma casa que está abandonada, trabalhei noite e dia para a conseguir e agora o que me resta é vendê-la. Os amigos que cá tinha, uns morreram, outros não há relação, pelo que vou ter de voltar para lá porque me sinto aqui isolado. Se fosse hoje não dava o passo que dei. Nada compara com a nossa terra, Pátria e família. Estas palavras foram pronunciadas entre soluços e embargo de voz o que levou a ter pena e pensar porque não deve ser caso único.
    Outro caso. Não tem a ver com emigração e sim com imigração. Encontrava-me a cumprir o serviço militar em Angola e numa vinda a Luanda, num café, encontrei um sujeito da minha terra a quem convidei para tomar uma bebida comigo. Disse-me que estava com pressa e que não podia me fazer companhia. Saliento que estava fardado, tomei a bebida na companhia de um outro soldado que comigo ali foi e quando abandonamos o dito estabelecimento esse tal “amigo” estava sentado num jardim ali em frente. O que me levou a comentar com o soldado que me fazia companhia. “De certeza julgava que ia pagar a despesa e não deve ter dinheiro”.
    Mais tarde esta desconfiança veio-se a confirmar. Vivia do expediente e mais tarde veio para a minha terra com a descolonização através do organismo criado para esse efeito. Se não fosse assim ainda se encontrava lá. Nunca se importaram com os que cá estavam tendo alguns afirmado que nós soldados íamos para ali para matar a fome. Ouvi isto e custava ouvir. Sei que uma árvore não faz a floresta mas, que faz parte dela, isso faz.

  25. Para o &. Aquela de ir buscar para aqui a Trova do Vento Que Passa, diz bem o que passa por essa cabecinha! Quero acreditar que o Adriano não gostaria; quanto ao M.Alegre, tenho dúvidas!

  26. Eu nunca fui grande adoradora de Portugal e dos portugueses. E isso já me trouxe várias discussões com amigos.

    Concordo com o que aqui disseram, que não é por nascermos num país que devemos ser “obrigados” a gostar dele.

    Acredito que a minha “casa” é onde me sinto bem e não necessariamente onde nasci.

    E por cá vejo tanta coisa que não me faz sentir bem (muito pelo contrário) e que me leva a não adorar Portugal. Gosto do clima, gosto da paisagem, gosto de algumas pessoas. Mas não é só isso que faz um país. Faz-me falta a responsabilidade social, a organização, a justiça, o civismo nas pequenas coisas do dia-a-dia, o respeito pelos outros e pelas regras… Algo que não encontro na vida do meu país.

    Eu sei que nada nem nenhum lugar é ideal, nada nem nenhum lugar funciona sem problemas mas há problemas e problemas… Sei também que Portugal não é o pior país do mundo… Mas falta-nos uma mudança de mentalidade, um interiorizar de que somos TODOS membros da mesma sociedade, com direitos mas também com deveres.

    Gosto de ler blogs em que se valoriza Portugal, em que se divulga o que de bom se faz por cá a ver se mudo um pouco a ideia que tenho. E acho (políticas à parte) que a visão, postura e optimismo de José Sócrates tem ajudado (a mim, pelo menos) a ter um bocadinho mais de esperança neste país. Que também é feito de gente civilizada, cumpridora, respeitadora. Basicamente, também é feito de bons cidadãos.

    Só queria deixar a minha opinião, sem querer ofender nenhum dos que defendem a sua pátria. Acho que fazem muito bem e acreditem que eu também gostava de estar desse lado. “Infelizmente”, sentimentos não se forçam…

  27. Chegou a Primavera e não me apetecem grandes dissertações, portanto é assim – para o país funcionam as mesmas regras que para a família, eu posso dizer mal da minha os de fora não podem e se tiver que viver pertinho dela e aturá-los todos os dias posso dizer pior que os outros que se piraram para longe e só aparecem no Natal depois da mesa estar posta e o perú assado.
    Acho que fui clara qb.

  28. Não queria alongar-me em comentários, até porque está quase tudo dito. Eu tenho família no estrangeiro (e amigos), que por mais boas condições que tenham lá fora (e algun têm mesmo excelentes) adoram regressar a Portugal. É por isso que a saudades é algo tão nosso. Ainda que cada caso seja um caso, não queria deixar de lembrar Padre António Vieira, que me parece que escapa a Miguel Morgado: «Os portugueses têm um pequeno país para berço e o mundo todo para morrerem». Se não compreende esta frase, é porque as suas próprias origens lhe dizem muito pouco e, assim sendo, está identificada a questão central.

    Bom post.

  29. É que para além do que já foi dito, o rapazinho usou de um tom jocoso quando confrontado pelo José Gil, algo que o atirou imediatamente para o cano. Discordando, é possível ter respeito. Ele não teve.

    Por outro lado, a inexistência de ideias levou-o necessariamente a falar dos amiguinhos bem sucedidos. Que bom para eles.

    A idiota da Fátima Campos Ferreira que trata ministros e outra figuras do tipo tu lá tu cá, tratou este palerma por senhor professor. É a miséria que temos.

  30. É evidente que também eu não partilho desse nacionalismo bacoco que delira com tudo quanto cheire a Portugal por mais bacoco e censurável e intolerável que seja.Há na nossa história há pontos altos, altíssimos e pontos abaixo de cão. Há, pois, que não ver tudo a preto, nem ver tudo a cores.

    Não esqueço a gesta dos Descobrimentos mas não fecho os olhos à forma como tantas e tantas vezes nos comportámos para com os povos que “descobrimos”, fomos quem primeiro aboliu a escravatura e pena de morte mas fizemos “trinta por uma linha” com uma das mais ferozes Inquisições, tivemos o D.Pedro mais a sua monarquia constitucional, mas tivemos também o D.Miguel imbecil e trauliteiro que teve a seu lado a Igreja e quase todo o povo numa guerra civil devastadora para manter a monarquia absoluta.

    Curvámos a cerviz quais “sicambulos amansados” durante quase 50 anos a uma ditadura, mas tivemos homens – muitos e bons – de uma inigualável capacidade de sacrifício e indomável coragem, que foram capazes de gritar: Não! (Infelizmente aos herdeiros desses, ficou-lhes apenas o vício do grito e hoje, quais Quixotes perdidos no tempo, mais não fazem do que gritar contra moínhos de vento)

    Alguém lá atrás falou no Jorge de Sena. Suponho que estava a referir-se ao seu célebre libelo que entitulou: PORTUGAL. Foi escrito em 1961, em plena ditadura salazarista e quando estava exilado. Não vem, por isso, nada a propósito.

    Pois bem, é precisamente tudo isto que me faz acreditar no futuro e pensar que sem derrotismos parolos, como o do Snr. Morgado, todos temos o dever de espevitar a auto estima dos portugueses, tanto mais quanto é certo que, infelizmente, a inveja lamurienta de tanta gente, essa que vende a alma ao diabo (para não usar uma expressão mais brejeira) por 15 minutos de visibilidade na TV, encontra na nossa comunicação social sedenta de audiências, campo aberto ao seu doentio paleio maldizente, a pedir urgente consulta psiquiátrica.

  31. O direito de não gostar de um qualquer país, é, antes do mais, uma questão de liberdade individual. A primeira responsabilidade de um homem é para com ele próprio, e o seu país é onde ele se sentir bem. Este facto existe em todos os países, pessoas que escolheram outros países como suas patrias e aí escolheram viver. Qual o problema?
    Quando é ao contrário até costuma dar na televisão. Um Inglês ou um alemão que gosta muito do nosso país que o escolheu para sua ultima morada ou uma miuda russa que gosta de portugal e da escola e já escreveu um livro de poesia em português, ou milhentos outros casos…Mas não, um português não gostar do seu país é que não, é quase inaceitavel.
    Isto num país que aceita alegremente e sem grades sobressaltos civicos que um 1º ministro seja quase diariamente enxovalhado, alvo de processos inventados há 5/6 anos, de conspirações por parte do PR e de procuradores do MP, de comissões de inquerito cujos resultados já foram apurados, etc…e onde se houve diariamente nos cafes nos transportes em sitios publicos ou privados “Isto é um país de merda!”.Esse país não pode estranhar que alguns não gostem dele, que se vão embora e que ainda por cima gostem.

  32. No País dos Sacanas

    Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
    Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
    e todos estão contentes de se saberem sacanas.
    Não há mesmo melhor do que uma sacanice
    para poder funcionar fraternalmente
    a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
    para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
    em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

    Dizer-se que é de heróis e santos o país,
    a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
    Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
    ingénuos e sacaneados é que foram disso?

    Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
    Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
    porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
    que a nobreza, a dignidade, a independência, a
    justiça, a bondade, etc., etc., sejam
    outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
    a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

    No país dos sacanas, ser sacana e meio?
    Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
    Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
    Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
    Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

    Jorge de Sena

  33. A PORTUGAL

    Jorge de Senna

    Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
    Nem é ditosa, porque o não merece.
    Nem minha amada, porque é só madrasta.
    Nem pátria minha, porque eu não mereço
    A pouca sorte de nascido nela.

    Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
    quanto esse arroto de passadas glórias.
    Amigos meus mais caros tenho nela,
    saudosamente nela, mas amigos são
    por serem meus amigos, e mais nada.

    Torpe dejecto de romano império;
    babugem de invasões; salsugem porca
    de esgoto atlântico; irrisória face
    de lama, de cobiça, e de vileza,
    de mesquinhez, de fatua ignorância;
    terra de escravos, cu pró ar ouvindo
    ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
    terra de funcionários e de prostitutas,
    devotos todos do milagre, castos
    nas horas vagas de doença oculta;
    terra de heróis a peso de ouro e sangue,
    e santos com balcão de secos e molhados
    no fundo da virtude; terra triste
    à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
    cheia de afáveis para os estrangeiros
    que deixam moedas e transportam pulgas,
    oh pulgas lusitanas, pela Europa;
    terra de monumentos em que o povo
    assina a merda o seu anonimato;
    terra-museu em que se vive ainda,
    com porcos pela rua, em casas celtiberas;
    terra de poetas tão sentimentais
    que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
    terra de pedras esburgadas, secas
    como esses sentimentos de oito séculos
    de roubos e patrões, barões ou condes;
    ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

    eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
    és mais que cachorra pelo cio,
    és peste e fome e guerra e dor de coração.
    Eu te pertenço mas seres minha, não.

    Jorge Sena

    Isto continua a fazer sentido mas para ser mais actual pode-se acrescentar pudicamente a palavra “democraticamente” a cada adjectivação mais forte. Ex: “Es cabra democraticamente, és badalhoca democraticamente…” etc…

  34. Não, meu caro, isto não continua a fazer sentido, não obstante ter de reconhecer que em muitos aspectos, seguramente de extrema importância para um viver verdadeiramente democrático, as coisas continuam de uma “badalhoquice” a toda a prova. Olhe a comunicação social e a justiça são dois desses aspectos. Isto para não falar da baixeza com que se comporta a oposição política deste país que todos os dias faz questão de desce um patamar a caminho da mais descabelada demagogia e falta de sentido de Estado! Bem gostaria de ouvir o que hoje nos diria o Jorge de Sena deste país. É certo que nele houve alguém com o descaramento suficiente para impedir que José Saramago concorresse a um prémio europeu. Mas esse tal, estou disso cada vez mais convencido, está longe de representar o português de hoje!

  35. As caracteristicas retratadas pelo Jorge de Sena são intemporais, não se desfizeram com a democracia, ao contrario encontraram uma forma de se legitimarem em democracia. A decência, a coragem não são valores deste ou daquele regime. Gostava de saber o que pensaria Jorge de Sena? Olhe à sua volta…a falta de coragem , a mentira, a hipocrisia, o pensar em manada, a cobardia, o não reconhecimento do outro, a mesquinhez, o não querer ver, a fantasiosa hiperidentidade…

  36. oh Aniper, agradeço-lhe a atenção com a minha cabecinha vou retribuir com atenção à sua. Fui buscar o Adriano porque alguém o tinha citado acima, e conheci-o, e a modos que se retirou da vida, já em democracia…

    Em Portugal existe uma esquizofrenia esconsa, talvez desde sempre. Quando o cardeal-rei D. Henrique encerra o testamento não nomeia herdeiro do trono de Portugal, para não parecer mal?

    enfim, hoje tem aqui.

  37. &, tiraste-me o link da boca;))
    É terrivel mas só quem não vive cá se espanta.. mas é melhor não ver…por varios motivos é muito violento viver numa sociedade como a nossa. Fica aqui mais um visãovisão sobre este problema.

  38. Pois é, K. É como se a expansão da lusofonia assentasse num dipolo esquizóide, uma força centrípeta e uma reacção centrífuga de poetas et al. É ver os painéis de S. Vicente, está na cara. Vivam os mulatos que enchem o mundo de música e não só! Hasta,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.