Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

7 thoughts on “Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater”

  1. Que belo texto.
    E os olhos são, ainda, os mesmos de Afonso.
    Obrigado
    Jnascimento

    PS Claro que vou a correr comprar o filme.

  2. Essa pergunta completamente fora do contexto só prova que não olhaste com olhos de ver nem para a fotografia de Henry Fonda nem para o meu poema em prosa. «Aconteceu no Oeste» merece um olhar sério de uma pessoa como tu. Não havia necessidade ó meus amigos…

  3. Estive quase a dar-te os parabéns por teres conseguido fazer um poema sem rimas a martelo, mas depois pensei melhor e decidi não fazê-lo porque o teu poema pode ser muito melhorado. Tem coisas a mais, como a água salgada das lágrimas, desagradáveis, como matar vários assassinos, ou a menos, como a vírgula cuja ausência enforcou o irmão na infância, etc. Se toda a gente louvasse os teus poemas, tu nunca crescerias. Melhor dizendo, acho que não cresces porque estás rodeado de pessoas que te felicitam e dão palmadinhas nas costas sempre que escreves umas linhas. Seriam melhor amigos se te dissessem para rever os textos, podá-los, depurá-los, porque nenhuma obra-prima nasce unicamente da inspiração.

    Quanto à notícia que indiquei, só queria saber a tua opinião, como jornalista, sobre a correcção de chamar grávido ao amante da grávida.

  4. Faltou agradecer-te por me teres recordado o melhor filme de Sergio Leone, a obra que marcou o fim do Western. Por tua causa já fui buscá-lo à net e revê-lo-ei ainda hoje. É um filme que se deve saborear depois de um bom jantar de Sábado, com um Porto velho à mão de semear.
    Obrigado.

  5. Pois, pois. Esta tarde vi numa livraria um bocadinho desse filme. Quanto ao resto tudo bem as tuas opiniões mas não me parece nada bem chamarem grávido ao companheiro da grávida. Acho mesmo uma estupidez e isso nem tem nada a ver com ser jornalista com carteira profissional; é uma questão de falta de senso.

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