Vinte Linhas 468

Açores – Massa cevada não é massa sovada

Antigamente usava-se uma expressão curiosa nas Filarmónicas rurais da Estremadura de onde sou natural quando alguém se queria referir a um músico fracalhote: «Este só toca trompa e é de ouvido; não lê a pauta!»

«Tocar de ouvido» era apanhar assim «umas coisas no ar» e, como também se diz de alguém que lê mal os dossiers – «pela rama».

Tenho lido ultimamente coisas erradas que me parecem nascer da ideia de que se pode escrever «de ouvido». Tal como havia alguns músicos a tocar «de ouvido».

Vamos ao assunto: a Revista VIVER, editada pela Associação ADRACES (Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro – Sul) com sede em Vila Velha de Ródão, publica um artigo sobre o culto popular do Espírito Santo nos Açores. O artigo em causa, assinado por Maria Eduarda Rosa, contém o seguinte parágrafo: «Cinco Mordomas dos Rosais de São Jorge levaram cinco meses a criar 120 bandeiras de tecidos diferentes para enfeitar este carro de bois que levou o pão do Espírito Santo (Massa Cevada) para o Império, em local bem próximo».

Ora bem… É óbvio que massa cevada não é o mesmo que massa sovada. Basta ver a definição do dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa. Assim: «massa sovada – espécie de pão doce com ovos». Está na página 1002 do dito cujo dicionário.

O som de massa cevada (coisa que não existe) até é parecido com massa sovada (que eu comi em 1989 e cujo sabor não esqueço) mas coisas destas não devem acontecer. Sem esquecer que São Jorge é o nome de uma Ilha e Rosais o nome de uma freguesia.

7 thoughts on “Vinte Linhas 468”

  1. É parecido, Sinhã mas não é igual. E alfenim já provaste??? Os livro do João de Melo estão povoados desses cheiros. «Gente feliz com lágrimas» por exemplo. Fiquemos por aqui…

  2. ainda não (mas isso deve ser bom para inchar as coxas e hidratar a alma). :-)

    e agora fiquei com gana de comer páginas dessas de peralta agridoce. :-)

  3. Massa sovada, porque ao amassar é sovada, isto é leva uma sova( bater com socos) e quanto mais bem sovada melhor fica.

  4. Ex.mo Senhor
    De facto na minha ilha, a do Faial, na freguesia do Capelo dizia-se “massa cevada”. Creio ser a forma correta de nomear o pão do Espírito Santo.
    O adjetivo “cevado,a” vem nos dicionários como sendo, em sentido figurado, repleto, farto, satisfeito, etc. O Camões utiliza este adjetivo n’Os Lusíadas (II, 76). Não será que o meu povo é que tinha razão, ao dizer que aquele pão era abundante, que dava para todos, que saciava abundantemente, aliás segundo o espírito das Festas do Espírito Santo?
    Conheço a expressão massa sovada (doce) de que nos deu conta Pombinho Júnior que creio ter sido incluída no livro Etnografia Portuguesa de J.L. de Vasconcelos da qual se faziam “manitas, ouriços, ratinhos” para dar aos rapazes no dia de N.S. das Candeias e de São Braz(2 e 3 de fevereiro).
    A expressão “massa cevada” já a defendi no livro: A Guardadora do Tesouro e A Vara de Ouro (Blu edições, 1998).
    Com consideração, a bem da língua portuguesa e do povo que é que devia fazer a língua,
    Maria Eduarda Rosa
    P.S.: Quem terá feito o verbo consciencializar na língua portuguesa para entrar nos dicionários? Não foi o povo de certeza…os brasileiros utilizam conscientizar…

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