O bode da viúva

Escondem entre as pernas o bode da viúva

Bem longe do balcão da sombria taberna

Seus gritos são iguais às bátegas de chuva

Da água maldita que não entra na cisterna

Nem mata a sede neste Verão de fornalha

Que queima as gargantas de quem passa

Nas ruas mais apertadas onde se espalha

Toda a pobreza da aldeia toda a desgraça

Cisterna, único lugar da casa bem fechado

Mais que roupa ou louça, arca ou armário

Riqueza fechada no segredo dum cadeado

Mata a sede de quem chega ao contrário

Da vida que se vai projectando no ecran

E que termina a dois numa dança ritual

A chuva da noite vai repetir-se de manhã

Nas ruas onde o ar sabe a mar e sabe a sal

14 thoughts on “O bode da viúva”

  1. Ai Sinhã que saudades quando a Irene Pappas aparece na taberna e os homens só a enfrentam porque estão em grupo, disfarçando a sua fragilidade na frágil união de todos à volta dos copos e do fumo dos cigarros…

  2. O último verso é desastrado e sinistro. Assemelha-se a um remate falhado na costura da D. Felisberta.

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