Vinte Linhas 452

Pequena dissertação para um retrato de menina

A mulher-menina fixa o olhar num retrato de menina-mulher no lado esquerdo da secretária na tarde onde, devagar, declina o Sol de Fevereiro que todos os dias acrescenta um minuto ao tempo da luz.

Tem dez anos de idade essa menina-mulher que não conheço mas sei que existe, porque senti no seu olhar contido no rectângulo do retrato, a força e a cor de uma bandeira, o timbre altivo de um clarim, o mapa colorido e vário de um país sentimental.

Na organizada confusão do tampo da secretária, entre telefones e lembretes, entre telemóveis e faxes com anotações de «urgente» no cabeçalho, a única urgência é a ligação entre dois tempos: a mulher-menina recorda o seu tempo de menina-mulher quando tinha a idade da filha cujo retrato se fixa num rectângulo de luz de ouro.

Havia nesse tempo uma Cadeia, o fumo na chaminé da fábrica de cerâmica, carros de um só boi conduzidos por presos de confiança que empilhavam com paciência os tijolos ainda quentes nas tábuas do carro. De vez em quando passava uma camioneta que vinha carregar telha para as obras de um palácio da Justiça – quando a Justiça ainda vivia em palácios e não em páginas de jornal que terminam no fundo dos caixotes de lixo.

Havia nesse tempo recreios separados de raparigas e de rapazes, falava-se na Telescola para quem não podia ir estudar para a grande cidade, ainda se dizia quarta classe em vez de quarto ano, ainda havia o exame de admissão ao Liceu e à Escola Técnica.

Na luz que o Sol inunda na tarde sem fim do escritório, o sorriso da mulher-menina é uma agrafe gigante de ternura húmida a ligar o seu olhar ao retrato da menina-mulher.

12 thoughts on “Vinte Linhas 452”

  1. Pá, o Jnascimento é chinês. Aquele possilga, quer dizer prossiga, vê-se logo! E olha o francisquinho todo contente! Uma boa malha precisava ele!

  2. Será que posso justificar-me com o acordo ortográfico, oh correctores automáticos, oh dicionários ambulantes ?
    Claro que vos peço perdão e aceito o traço encarnado !
    Jnascimento

  3. E tu parvalhão, saia da Carolina da treta, miserável, palhaço, estás à espera de quê? Volta para a sarjeta que é a mesma do outro. E depressa!

  4. Vale a pena espreitar o que escrevem só pelo prazer de rir à gargalhada, O que, pelos vistos, é “fármaco” infalível para evitar problemas cardíacos e afins. Continuem com os mimos!

  5. Ó Ana espero que ao menos tenhas lido o texto que esse sim vale a pena. O resto são consequencias, quem anda à chuva molha-se…

  6. Olha, olha, «…espero que tenhas lido o texto que esse sim vale a pena»!!! Grande lata! E diz o francisquinho para um comentador num outro post: «gaba-te cesto»!!! É preciso não ter vergonha e muito descaramento!E podes rabiar à vontadinha, que já estamos habituados aos teus mimos linguísticos!

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