Um livro por semana 166

«A luz fraterna» – poesia reunida – de António Osório

António Osório tanto cita dois trabalhadores rurais que lhe oferecem um copo («um vinho transparente e ácido, vinho dos pobres, o da poesia») como abre poemas com epígrafes de Camões, Quevedo, Dante, Octávio Paz, Jorge Luís Borges, Vivaldi, Mozart ou dos mestres pintores: «Impossível confessar todas as influências. E no entanto um poeta é filho de si mesmo». A luz fraterna do título pode ser a raiz de toda a Poesia.

Entre a Natureza e a Cultura, a sua escrita proclama um princípio: «Pela vida fora a poesia pode chegar a ser tão indispensável como o colostro, quando se nasce». A vida é um lugar povoado por homens, animais («Gato não sofre, existe. / Para o sol, ratos / militante das suas unhas. / Crente no seu motor / de ronronar / em que se embala / vigilante») e pela Pintura: «Van Gogh queria algo / tão consolador como a música.»

O poeta pode ser o vedor («Porque vê emanações, / veias da terra. / Porque tem nas mãos / uma haste de oliveira. / Porque procura encontrar / água dentro de si. / Porque levanta uma laje / e deixa uma janela») mas pode ser também o calceteiro: «Escrevem nas ruas: / juntam / cuidadosamente / palavras. / Pegam-lhes / sílaba a sílaba / escolhem, unem / completam/ tocam / ao de leve por cima / e continuam.»

Com o animal há a matança: «Alegria do massacre familiar / da oferta aos vizinhos. E o resto na salgadeira / túmulo que as mulheres / abrem para a boca dos filhos». Mas só o poeta pode relatar essa festa: «Armazenar sofrimento. / Distribuí-lo depois / límpido».

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: óleo de Miguel Ângelo Lupi, Foto: Luísa Ferreira)

4 thoughts on “Um livro por semana 166”

  1. Boa definição Sinhã. O meu amigo Orlando Neves fez um livro com mais de 600 definições de Poesia a que chamou «Organon». Essa podia lá ter cabido mas também gosto de uma de um grego «entre canção e reflexão, aí está a poesia».

  2. Meu caro Ze,

    Tenho um problema de somenos importancia com o Osorio. E talvez porque ser acido que esse vinho e ‘dos pobres e da poesia’, um vinho ganhador. Suponho que Bocage deve ter bebido dele pelo gargalo. De facto, os vinhos maus sao todos menos acidos e denotam excesso de potassio (ver grupo I da classificacao periodica), uma grande merda e um grande perigo, diga-se de passagem, na opiniao daqueles que sabem – e que sao, como ja deves ter calculado, os apreciadores da boa pinga e os cultivadores da melhor cepa.

  3. Mas o António Osório enquanto proprietário de uma quinta perto de AZeitão, tem um enólogo que o ajuda com sugestões de sábio. Presumo que o vinho da sua adega é um óptimo vinho tal como os poemas da sua lavra são excelentes exemplo deste artesanato de palavras.

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