Vinte Linhas 446

Os três meninos brincam com as canas da praia

Estamos no último dia de Janeiro. As ondas do mar na Foz do Lizandro rasgaram por fim a enorme duna de areia que separava as águas verdes e paradas do rio das outras águas azuis e agitadas do Oceano Atlântico.

Uma colecção de fatos de borracha seca ao sol no parapeito de um dos bares da praia enquanto um inglês lê um livro à porta da sua roulotte sentado numa cadeira de lona e completamente descalço, no usufruto completo e feliz do sol de Portugal.

As ondas da maré-alta trouxeram canas secas ao areal quase deserto. Na gramática da Natureza é possível (é mesmo provável) que estas canas tenham sido atiradas ao mar pela ligação rasgada na areia pelo furor das ondas. Entre as bicas escaldadas e os jornais do fim-de-semana, entre as conversas vagarosas e os telemóveis sossegados, três crianças brincam na praia à nossa frente com as canas.

Cada uma pega em duas canas. Parecem cavaleiros da Távola Redonda à procura do Rei Artur. É inevitável. Recordo de imediato o meu neto Thomas Francisco em Greenwich à beira do Tamisa a brincar com as suas canas. Em Outubro perguntei-lhe se ele estava a observar pássaros; ele respondeu que queria era brincar com os paus – como ele chama às canas na margem do rio Tamisa. Mais à esquerda dois rapazes com pranchas de surf cruzam o caminho dos três meninos. São dois tês gigantes no meio do círculo irregular dos meninos com as suas canas. Na ortografia da tarde, os tês do surf na cabeça dos jovens radicais são iguais aos tês das canas levantadas no ar dos três meninos que brincam na praia do Lizandro. É o esplendor do Sol.

4 thoughts on “Vinte Linhas 446”

  1. Anda a malta às voltas com a conversa de restaurante de hotel que foi mais uma história mal contada. São foguetes a mais para o meu gosto, não apanho essas canas…

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