Um livro por semana 165

«Sermões de Santo António» – Padre António Vieira

O padre António Vieira (1608-1697) pregou sermões de 1633 a 1696 e, ao longo desses 63 anos, sempre se deixou fascinar pela forte personalidade de Santo António – desde as suas qualidades de pregador aos seus conhecimentos teológicos.

O presente volume inclui dez sermões; um deles é o célebre sermão aos peixes: «A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comerem os grandes, bastará um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.» Mais à frente fala aos peixes do estado da Justiça: «Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador e, ainda não está sentenciado, já está comido.» E conclui: «São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca não o comem os corvos senão depois de executado e morto; o que anda em juízo, ainda não está executado e já está comido».

(Editora: Portugália, Organização, apresentação e fotos: António de Abreu Freire)

8 thoughts on “Um livro por semana 165”

  1. Meu Caro José do Carmo Francisco:

    E dizem que, nos intervalos dos sermões, o santinho ainda concertava a bilha das moças.
    Ou faria sermões no intervalo dos consertos ?

    Jnascimento

  2. Meu Caro José do Carmo Francisco:
    Eu ignorante me confesso, para continuarmos na linguagem dos santos.
    Não é que só agora aprendi que o sermão de Santo António aos peixes é de António Vieira ?
    Para castigo vou comprar o livro.
    Jnascimento

  3. E obvio que nao, mas esse sermonario do seculo 17, sebastianista a sua maneira, diplomata, resistente aos holandeses com unhas e dentes e depois comensal na mesma mesa, ou muito me engano ou parece que ja andava preocupado com a baixa de producao na area de recursos piscicolas para sobreviventes de naufragios gastricos com complicacoes de acucar. O problema e que os peixes da mesma familia nao tem realmente tendencia para se devorarem uns aos outros, nem a piranha, muito embora isso nao seja a regra – regra violada ate entre primatas, nomeadamente entre uma ou outra tribo humana com o mau habito de comer o avo, mas so depois de morte certificada com ausencia de bafo sobre espelho, ou um ou outro chimpanze que come os filhos dos outros, mas nunca os seus.

    Por outro lado, e preciso nao esquecer este pormenor muito importante porque aparece nos tratados de ictiologia comparada, os peixes pequenos a que Vieira se refere na metafora nao eram muitos, nada disso, damas ecavalheiros, e muito menos em quantidades que permitissem serem comidos aos mil de cada vez. Pelo contrario, tinham boa representacao na Sociedade de Jesus e nada a ver com este ultimo homem, o Redentor, algo que deve ter, e aqui arrisco um ‘hipoteticamente’ muito a medo, influenciado bastante a opiniao positiva que dele, do sermonario, viriam a ter todos os seus admiradores que tambem o eram do progresso e da literatura digna de insercao nos livros da Instrucao Primaria Patria de quarta classe, tanto do tempo de Salazar, rei do cisco, como dos antigos revolucionarios da Republica carvoeira amarrados ideologicamente e religiosamente a mula da cooperativa.

    Uma fulano que leia uma suma alargada da vida e obra de Santo Inacio, o criador do Jesuitismo em sociedade que depois formou homens como o sermonario, so la ve e coisas de causar desmaio. O homem, Loiola, filho de gente de grandes meios, muita fina e misteriosamente basca, ou andava cheio de trapos a pedir esmola, ou aparecia de repente com um curso teologico muito invejado da universidade de Paris. Mas sempre, entre sessoes de mao estendida e sofrimento autoinfligido e vida de caverna, com recursos financeiros para dar a volta ao Mundo da Europa, Veneza, Paris, Londres, etc. Melhor que isto, digo eu, so na Abreu, e mesmo assim sera preciso que a perna esteja em melhores condicoes que a de Santo Inacio depois do balazio.

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