Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 303

Saudação de Natal a Marta

Feliz Natal Marta! Lembras-te quando éramos nós os primeiros a chegar? Eu vinha de uma cidade distante mas chegava primeiro, sempre cedo. Tu vinhas de uma vila próxima e banhada pelo mesmo rio que passava frente ao nosso escritório. O teu pai destinava-te tarefas transparentes, repetitivas, obscuras e afastadas do protagonismo. Eu dava os primeiros passos numa segunda vida de trabalho depois de trinta anos noutro espaço e noutro lugar. Às vezes chovia, às vezes o vento assobiava nas janelas daquele escritório e nós dava-mos início ao dia de trabalho com um sorriso que era construído pela paciência dos dois, pela ideia pouco explícita mas concreta de que estávamos a construir um novo dia onde se procurava negar a monotonia. Ás vezes eu percebia que nos teus olhos magoados havia uma ideia: o teu pai exigia muito de ti. Outras vezes eram as sequelas de uma doença recente que te empurravam para a tristeza e davam relevo à tua fragilidade. Nessas horas da manhã nós éramos os náufragos do tempo hostil que nos coube viver. Ás vezes falava-te da minha filha com um nome igual ao teu e das suas opiniões sobre tudo e sobre todos. A tua homónima é hoje uma jovem arquitecta à procura de um lugar de afirmação no seu espaço e no seu mundo. Nesse tempo eu já sabia que a vida não é fácil porque os pais e os filhos não nascem para serem amigos mas sim para serem apenas pais e filhos. Neste postal de Boas Festas diferente quero mandar-te, Marta, os meus votos de que continues todas as manhãs a construir esse sorriso teimoso e determinado fazendo de cada dia não uma monótona repetição mas a descoberta e a aventura de quem (como tu) sabe que o seu lugar no Mundo é próprio, exclusivo e irrepetível. Feliz Natal Marta!

Somos todos irmãos

«Somos todos irmãos – do «número de crianças que morre no Brasil» a um

inesperado poema de Rubem Braga passando pelo «Sentimento do Mundo»

Corria o mês de Setembro de 1940 quando, em São Paulo, Rubem Braga (n. 1913- Cachoeiro de Itapemirim) escrevia e publicava uma das suas mais famosas crónicas: «Os mortos de Manaus». Estava Rubem Braga a hesitar no tema de uma crónica, algures entre um grupo de pretos que cantava na madrugada os sambas da moda e uma fita de cinema sobre a qual podia valer a pena escrever mas, de súbito, caiu na sua mesa de trabalho o «Boletim Estatístico do Amazonas» com os 428 mortos do primeiro trimestre de 1940 em Manaus. Ao ler e interpretar os números, Rubem Braga percebe que dos 428 mortos, 73 são crianças com diarreia e enterite. E explica: «Eis uma coisa que não chega a me dar pena porque me irrita: o número de crianças que morre no Brasil. O que me irrita é o trabalho penoso das mulheres, o sacrifico inútil de dar vida a tantas crianças que morrem logo. A indústria nacional que nunca foi protegida é a indústria humana. Preferimos importar.»

Depois de uma dissertação emocionada sobre as várias causas de morte (paludismo, tuberculose, nefrites, lepra, cancro), depois de perceber que cada morto projecta sobre a sua mesa de trabalho e sobre a sua alma uma «sombra acusativa», Rubem Braga termina a crónica com uma expressão irónica, vasta e fria como a tristeza do Mundo: «Eu não tenho culpa nenhuma e nada tenho a ver convosco. Eu não tenho culpa de nada, eu não tenho culpa nenhuma!»
Continuar a lerSomos todos irmãos

Um livro por semana 156

um homem divido vale por dois luiz pacheco

«1 Homem dividido vale por 2» – Luiz Pacheco

Trata-se de um livro duplo: além do material respeitante a Luiz Pacheco (o autor) as suas 378 páginas integram a bibliografia completa de Pacheco (o editor). Entre outros a Contraponto de Luiz Pacheco editou Apollinaire, Raul Brandão, Alfonso Castelao, Camilo Castelo Branco, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Dostoiewski, Hélia Correia, Manuel Grangeio Crespo, Durrenmatt, António Ferreira, Garrett, Vergílio Ferreira, Carlo Goldoni, Herberto Hélder, Ibsen, Ionesco, Karl Jaspers, Kleist, Manuel Laranjeira, Raul Leal, Manuel de Lima, António Maria Lisboa, António Tavares Manaças, José Alberto Marques e Virgílio Martinho.

No que diz respeito a Pacheco (personagem) o outro lado do livro refere uma curiosa ligação afectiva a Caldas da Rainha: «Não me julguem que chegado a esta terra como náufrago ou foragido (e alguns sabem-no) sou aqui um tipo género pára-quedista. Por acaso, sou muito mais Caldense que muitos que por cá nasceram ou vivem – e isto bastantes o sabem já. Um dia espero contar como cheguei, quem já conhecia; quem já não vim encontrar e me fez deambular, meio-sonâmbulo, ensimesmado, pelas áleas do cemitério: a Dona Eugénia Soeiro de Brito, o Pai Freitas, o dono (como se chamava? Tiago?) do Gato Preto; o Jaime Arsénio de Oliveira e outros fantasmas mais. E aqueles que vim a conhecer, me deram a mão, ficaram Amigos ou malquistos e enchiam esta página. As minhas memórias de caldense adoptivo dariam um rico volume, se o chegar a escrever. E se não sair em letras está-me escrito na pele.»

(Editora: D. Quixote – Biblioteca Nacional, Comissário: Luís Gomes)

Vinte Linhas 435

«À sombra das árvores mortas» no Príncipe Real

O título é dum romance de Mário Ventura. Ontem das 21 às 23 horas na Faculdade de Ciências de Lisboa realizou-se um encontro de um grupo de pessoas à volta do tema «Que futuro para o jardim do Príncipe Real». Embora tenham sido convidados, não estiveram presentes os Drs. António Costa e José Sá Fernandes da CML, o Eng.º Amândio Torres da Autoridade Florestal e o Dr. Gonçalo Couceiro do IGESPAR. Foi dolorosa esta ausência mas tem lógica: a CML agiu neste caso como uma «Quadrilha selvagem», só obteve parecer favorável do IGESPAR em 30-11-2009 quando a destruição já estava consumada desde 24-11-2009 e nunca referiu «árvores» à Autoridade Florestal mas apenas e só «piso». Por outro lado todas as intervenções no raio de 50 metros à volta das árvores classificadas necessitam de parecer da AFN e, neste caso, ainda não há parecer. Foi projectada uma cópia de um relatório camarário de Janeiro de 2009 a referir o estado «razoável» das árvores do jardim. O abate de 46-49-54 árvores (ninguém sabe ao certo) foi ilegal e desrespeitou o espaço – as árvores e as pessoas. Uma requalificação a haver seria uma substituição gradual e não violenta além de que é impossível estarem doentes todas as árvores abatidas. O vereador na Junta de Freguesia referiu 6 árvores no interior do jardim quando são 9. Por outro lado um biólogo presente na sala referiu que a sombra das árvores abatidas em série faz falta não só às pessoas mas também às outras árvores. O «piso» é outro problema: no antigo jardim de S. Pedro de Alcântara (hoje miradouro) substituíram o empedrado por saibro e no Verão o pó que o vento levanta entra nas chávenas de café dos incautos turistas.

Vinte Linhas 434

O homem do saltério na estação do Campo Grande

A cidade tem armadilhas de ternura, emboscadas de encontros felizes, confusões que se desfazem devagar e nos ajudam todos os dias a dar um sentido ao tempo de viver aqui. Na estação do Campo Grande saía eu da carruagem da linha verde e procurava a linha amarela quando no espaço da plataforma fui surpreendido por um som insólito mas muito agradável. Não é todos os dias que se ouve um saltério.

O músico tocava o «My way» de Frank Sinatra, um génio que nasceu destinado a uma vida pobre, filho de um italiano empregado de um bar e pugilista em part time com um nome de guerra irlandês e de uma parteira que, também em part time, fazia uns abortos para arredondar o fim do mês.

O homem do saltério não conhecia o filme «O terceiro homem» nem a partitura de Anton Karas nem o livro de Graham Green nem a imagem de Joseph Cotten a fugir dos maus nos enormes esgotos de Viena. No fim os bons ganham. Nos filmes, ao contrário da vida real, os bons ganham sempre.

Ele, o desconhecido que interrompeu a minha deambulação na plataforma do Metro, continua a fazer voar o plectro, a pequena vara de madeira, por sobre as cordas do saltério. Eu não poderia desejar melhor motivo: um desconhecido vindo lá dos confins da Hungria ou talvez da Roménia toca com afinco, prazer e devoção uma música americana cujo titulo «My way» pode ser traduzido por «meu caminho». O meu e nosso caminho é, só pode ser, estarmos todos juntos na crónica, na Rádio, no Natal de 2009 e no mundo novo que este nosso Natal anuncia.

Vinte Linhas 433

Linhas para um perfil de Laura

O vidro da parede da casa frente às águas serenas da Lagoa acaba por projectar, no perfil de Laura, uma ideia de quadro e de moldura. Era como se um pintor do século XIX aqui procurasse fixar as linhas e os contornos de um rosto ansioso de mulher, este rosto debruçado na tarde de sol, na Lagoa povoada e na poderosa melancolia que tudo envolve. Para mim, simples cronista de um momento de encontro, vejo no perfil de Laura um reflexo do perfil de sua homónima avó à porta da sua casa nas Eiras onde eu nunca passava sem receber uma noz, alguns figos secos, uma maçã seca em rodelas ou meia dúzia de pinhões e, por fim, um beijo com a humidade da ternura.

Era como se um relógio antigo desse apenas para mim todas as horas repetidas num som de sala mergulhada em escuridão e cada hora da neta hoje frente às águas serenas da Lagoa, ao sol e à melancolia, fosse a repetição de todas as horas de sua avó homónima à porta de casa, sempre dividida entre o amor multiplicado pelas netas e as ordens para os trabalhadores rurais que nesse tempo ainda se chamavam «servos».

Há, nos pequenos barcos azuis e brancos da Lagoa, um convite explícito à viagem e um prenúncio de movimento como se, de súbito, o perfil de Laura, amargo, vagaroso e cinzento, partisse desta tarde, plena de frio e de sol, para se colocar no perfil de sua avó homónima. Assim podia Laura a avó entrar de novo na nossa alegria convocada por um encontro à porta da casa, algures entre um grupo de netas à espera de beijos e um rancho de trabalhadores rurais, homens e mulheres, à espera de vozes de trabalho. Assim podia Laura a neta sorrir de novo e abalar o rígido perfil da melancolia na casa frente à Lagoa.

Um livro por semana 158

«Sobressalto e Espanto» de Violante F. Magalhães

Vergílio Ferreira, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol são autores neo-realistas de romances e contos com protagonistas infantis e juvenis. «Vagão J», «Aldeia Nova», «Esteiros» e «Fanga» são quatro exemplos que podemos alargar a «O fogo e as cinzas», «Refúgio perdido» ou «Constantino, guardador de vacas e de sonhos» : «O menino guardador de vacas representa, afinal, a situação de todas as crianças de uma mesma classe social. Recorde-se que à data da saída de Constantino a escolarização tinha-se finalmente generalizado entre a população infantil portuguesa, pelo que, naturalmente, uma escrita engagée privilegiaria agora a denúncia de realidades escolares que fossem menos favoráveis às crianças. Por isso, em Constantino são ainda criticadas as condições em que essa escolaridade era praticada.» Trata-se de um ensaio, foi antes uma tese de doutoramento mas lê-se como uma ficção. Aqui as personagens são os livros. Por exemplo «Esteiros» e os seus quatro rapazes («Gaitinhas, Gineto, Sagui e Maquineta») ou então «Fanga» («Há nos campos da Golegã / grandes milhos e trigais / p´ra fartar os lavradores / enquanto os pobres dão ais») ou ainda «O fogo e as cinzas» («O Largo era a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes ou bêbados ou vagabundos») ou também «Constantino, guardador e vacas e de sonhos»: «Se perdes outro ano, acabou-se o ofício… Vais saber o custo da galé… A vida não passa de uma galé para quem nasceu pobre.»

(Editora: Campo da Comunicação, Capa: Rui Pereira, Fotos: Alves Redol e Firmino Canejo, Apoios: Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e Fundação para a Ciência e a Tecnologia)

Um livro por semana 146

cristino cortes poemas de amor e melodia

«Poemas de Amor e Melodia» de Cristino Cortes

Trata-se da reedição de um conjunto de 42 poemas com data de 1999 sendo este novo livro composto nesta versão por 66 textos poéticos. O volume oscila, como o título indica, entre o Amor e a Melodia.

O ponto de partida é a Mulher: «O vento lhes move as saias e os vestidos / Ondeia e mexe os cabelos e é assim envoltas / Em anéis, lenços ao pescoço, as pernas soltas / Possível o esvoaçar e livres os sentidos»

O ponto de chegada é a Música: «Afino sempre a viola, faço o que posso, procuro / Cumprir o dom que aceito e vivo com alegria / Inevitável, inconsciente, em mim esta música / É quase natural, um respirar que não dou conta…»

No intervalo entre o Amor e a Melodia surge a Poesia, ela mesma («Sou delicado e prudente, é mulher a Poesia») ou por outras leituras (Herberto Hélder, Fernando Pessoa, Augusto Gil) ou Ruy Belo – como neste «Peixe com palavras»:

«Era um peixe no meio das palavras / Uma caravela por sobre a planície / De verde relva bem aparada, veloz a quilha / E uniforme a espuma lateral e envolvente; / Uma ave numa superfície marítima / Reflectindo nuvens cinzentas e encapeladas; / Uma flor teimando por sob os raios do sol / Hesitando entre a clorofila que não conhecia /

E a abelha matinal que no final já não zumbia»

(Editora: Papiro, Grafismo: Miguel Paulo, Design: Henrique Valente, Foto: Hélder Joana)

Vinte Linhas 432

«A Quadrilha Selvagem» da Câmara Municipal no Príncipe Real

Aqui há uns tempos (está os registos do Blog) publiquei no «aspirinab» um texto no qual me referia ao miradouro do ex-jardim de São Pedro de Alcântara e a dois guardas da Polícia Municipal que, à noite, vi a caminhar lado a lado para fazerem uma patrulha ao vazio. Com o quiosque fechado, sem alma nem vida, aquele espaço era mesmo o vazio. Na altura referi o filme «A Quadrilha Selvagem» de Samuel Peckimpah com Robert Mitchum a dizer aos três companheiros minutos antes de atacarem o Banco local: «Vamos formar!»

Este caso da destruição do jardim do Príncipe Real cometida em nome de uma falsa «requalificação» lembrou-me a referência à quadrilha selvagem (ao filme mas também à ideia) de alguém que avança para um espaço indefeso depois de combinar o ataque. As 46 árvores mortas, as cercas derrubadas e o pavimento destruído, surgem depois de ter sido afixada uma placa no gradeamento sem qualquer informação concreta sobre o projecto de «requalificação». Já falei com o professor Fernando Catarino que entre outras coisas me confirmou o óbvio: o facto de ter falado a um jornalista do «Público» não sanciona a acção da Câmara Municipal, como erradamente alguns tentaram fazer passar aqui no «aspirinab». A CML não ouviu o especialista e dizer que «os choupos não são o ideal» para um jardim citadino não significa aprovar a medida tomada pela Câmara, tal como a quadrilha selvagem. A Junta de Freguesia das Mercês foi ultrapassada neste assunto. Os moradores foram ignorados neste processo de destruição disfarçado de «requalificação». Tal como no filme «A quadrilha selvagem». A ferro e fogo.

Um livro por semana 147

José Rui Teixeira Diáspora

«Diáspora» de José Rui Teixeira

Percorre este livro de 102 páginas uma década de poesia (2000-2009) de José Rui Teixeira. Os primeiros poemas oscilam entre o medo («Houve um tempo em que eu desconhecia o medo») e a morte: «Mexemos excessivamente nos mortos».

A memória da infância não é um paraíso perdido mas sim um olhar de morte: «Quando eu era criança os velhos escolhiam dias amarelos para morrer.»

Além do povoamento, há nestes poemas uma paisagem desolada: «Quando eu era criança anoitecia / sobre a verdade intrínseca de haver ruas / pequenas e horizontes pequenos / no fundo das ruas».

Num espaço de morte e de hostilidade, só o amor pode ser resposta: «Eu nasci anos depois, já tinham morrido / muitos daqueles que mais tarde viria a amar».

Porque o lugar do poema é o lugar da terra, entre a morte e a vida, entre o amor e o ódio, entre o vazio e o esplendor: «A minha terra é onde descansam os meus mortos / um país com plátanos à beira dos caminhos / e mulheres com epistemas na voz.»

O último conjunto lembra que o poeta é, muitas vezes o profeta, castigado por «demónios antigos»: «Zerbino adormecia na periferia da infância, sob o silêncio ensimesmado de árvores lúgubres ou de um amarelecido domingo do tempo comum».

(Editora: Cosmorama, Capa: Karin Somers)

Um livro por semana 157

«30 Anos de mau futebol» de João Pombeiro

Num livro com frases de jogadores, árbitros, treinadores, dirigentes ou jornalistas é muito difícil escolher a mais disparatada. A de Lourenço Pinto é uma proposta: «Todos os árbitros são sérios. O mundo do futebol é um mundo pacífico, é um mundo de respeito». Na verdade, neste mundo poliédrico, o futebol pode ser uma vigarice («Quando saí deixei uma gaveta cheia de bilhetes de identidade, passaportes, cédulas e certidões de nascimento falsificadas») ou uma confusão («O futebol é uma selva») mas também uma porcaria («A porcaria que existe na Federação tem de ser varrida») ou uma máfia: «O futebol português não é uma máfia porque uma máfia exige organização». Ou então foco de palavras e expressões insólitas: Artur Jorge («Em todos os jogos fizemos coisas bonitas»), Carlos Padrão («O sonho comanda a vida…vamos lutar até à morte. Desculpe o pleonasmo»), Luís Filipe Vieira («A boca morre pelo peixe»), Paulo Sousa («Certo dia Csernai atirou-me com esta – Se queres voltar a jogar traz-me um presunto e uns garrafões de vinho tinto lá da tua terra») ou ainda Hernâni Gonçalves: «O bitaite é assim uma coisa doce, um sweet-nothing, algo que não é grande mas que pode ser profundo».

Futebol pode ser também delírio ou alucinação. Seja de Vale e Azevedo («Quando o Benfica vence as pessoas sentem-se mais realizadas, o trânsito flúi melhor e há mais produtividade»), seja de Pimenta Machado («Então vocês nunca ouviram dizer que o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira?», seja Miguel Sousa Tavares («O 25 de Abril só se concretizou quando o F.C. Porto foi campeão») ou de novo Vale e Azevedo: «Pretendo ser não um mecenas mas uma espécie de Sílvio Berlusconi do Benfica».

(Editora: Quetzal, Ilustrações: Pedro Vieira)

Balada das Escadinhas de S. Cristóvão

S. Cristóvão, escadinhas

Na esquina da Madalena

Sem prateleiras sozinhas

Na Livraria tão pequena

Toda a riqueza do Mundo

Teatro, poesia ou ficção

Cabe num olhar segundo

Se o primeiro é confusão

Já os turistas do Castelo

Descem e ficam a olhar

Depois de quebrar o gelo

Não há pressa para pagar

Levam seus sacos repletos

De saldos e livros antigos

Os dias ficam completos

Quando chegam os amigos
Rubem Braga, a saudade

«O conde e o passarinho»

Nas encostas da cidade

É que faço o meu caminho

No «Morro do isolamento»

Em Manaus há gente morta

O cronista é pressentimento

Olha o Mundo, abre a porta

De repente oiço-lhe a voz

Passa por aqui de raspão

Rubem Braga, somos nós

A ler teu «Poeta cristão»

Já digo adeus à livraria

E continuo a caminhada

Levo nas mãos a poesia

Mas ninguém dá por nada

Um livro por semana 148

dennis mcshade mulher e arma com guitarra espanhola

«Mulher e arma com guitarra espanhola» de Dennis Mcshade

Corria o ano de 1968 e Dinis Machado, editor da colecção RIFIFI da Editorial IBIS, apresentava Dennis Mcshade, autor deste livro. Depois de lembrar Conan Doyle e Ellery Queen, Chandler e Hammett, afirmava: «o género policial tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem». A história passa-se em Nova Iorque («não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da vida, dinheiro, poder, mulheres») e envolve Maynard («Nós sabemos distinguir entre as nossas necessidades reais e as nossas fraquezas congénitas») e Ricco: «era um dos maiores malandros que conhecera em toda a minga vida, um homem de uma baixeza quase integral». Este Ricco tinha pago dez mil dólares ao «Menino» para este matar Nora mas este tinha desaparecido sem matar a mulher e sem devolver o dinheiro. A morte é uma coisa simples para estes homens: «É preciso um automóvel e dois ou três homens com pistolas, às três da madrugada, num certo sítio. Depois, levam-no.» Pelo meio da história surge Marlowe («homem ligado a muitos interesses obscuros, mudava de automóvel todos os meses») e a organização nazi dos EUA, a John Birch Society. E um bar com um nome insólito (As vinhas da Ira) e frequentadores conhecidos: Zola, Charlotte Brote, Proust, Baudelaire, George Sand, Pablo Neruda, Hemingway, John Keats. E sempre, por todo o livro, opiniões divergentes sobre o Concerto de Aranjuez de Joaquim Rodrigo: há quem prefira a guitarra de Andrés Segóvia; outros a de Narciso Yepes. A reedição deste clássico de 1968 anuncia o inédito «Blackpot», algures numa gaveta desde 1985.

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: João Fazenda)

Vinte Linhas 431

A primeira palavra vinte e cinco anos depois

Em 1984 o meu filho Filipe, nascido em 1981, procurou escrever o seu nome numa página A4 e o resultado em maiúsculas saiu assim – EFILPI. Vinte e cinco anos depois o meu neto Thomas tentou escrever o seu nome e saiu apenas um conjunto de três letras THO. As outras três letras MAS não couberam no quadro porque o tamanho não o permitiu. No meu tempo de criança e na terra onde vivia a minha infância, as pessoas não passavam muito cartão aos miúdos. Um miúdo numa família nesse tempo, anos cinquenta, não era um indivíduo e mesmo quando se encontrava uma criança num carreiro ou numa serventia entre duas fazendas semeadas ninguém lhe perguntava «como te chamas?» mas sim «de quem és tu?». As crianças eram dos pais assim como no tempo da Bíblia se lê que os homens ao atravessarem o deserto levavam consigo «as mulheres, os filhos, os criados e os animais». É com um misto de ternura e esperança que olho para estas três letras THO escritas pelo meu neto de três anos ou seja a mesma idade do meu filho quando escreveu EFILPI em vez de FILIPE. Ternura pois uma coisa lembra a outra e se o tio está em vias de ver publicado o seu primeiro livro vinte e cinco anos depois o sobrinho está a dar os primeiros passos nesta fascinante relação com as palavras.

Não sei onde está essa folha com as palavras EFILPI do nome do Filipe e a foto com o nome THO do Thomas ficará no computador porque não existe em papel.

A vida não está fácil, as coisas são complicadas, há uma agressividade apor aí à solta nas ruas, basta ver que dantes nos agradeciam quando se chamava a atenção para as luzes acesas dos automóveis e agora insultam mas estas pequenas coisas tudo salvam.

Sábado na Calçada

Passa o eléctrico leva GRAÇA na bandeira

Mas já vem outro para MARTIM MONIZ

O teu olhar fica suspenso até segunda-feira

Multiplicado por quatro na luz destes carris

Quando o sol de sábado dispara tão devagar

Feixes de luz e calor até ao fim da calçada

Onde o eléctrico parece vai entrar no mar

As ruas em ângulo parecem porta do nada

Como se o pano de cena agora se fechasse

Os eléctricos e passageiros fossem levados

No lugar sem nome, sem espaço ou classe

Entre o real e o imaginário, nos dois lados

Aqui passam eléctricos, passa uma pressa

De chegar lá onde proclamam os roteiros

A verdade não existe assim e não é essa

A hora do meu mostrador e dos ponteiros

Vinte Linhas 430

O arboricídio camarário floresce no Príncipe Real

Embora mal disfarçada de «requalificação» o que a Câmara Municipal de Lisboa está a fazer no Jardim do Príncipe Real desde o passado dia 23 de Novembro é, de facto, uma monstruosa destruição de árvores muitas delas «jovens» e sem qualquer sinal evidente de «doença». Para quem, como eu, gosta deste Jardim desde 1966 isto é uma aberração. Ver a Câmara Municipal a destruir as árvores (são quase cinquenta árvores mortas) é como se diz em bom português «uma dor de alma». Porque o que se espera de uma autarquia é que conserve, amplie e melhore o que existe – nunca que estrague, faça ruína e destrua. Mas além das árvores (que á o aspecto mais doloroso) estão também a destruir o pavimento e os gradeamentos do Jardim. Alguém tinha pressa, muita pressa, em destruir muito e rapidamente, de modo a evitar as reacções. O mais curioso é que o vereador Sá Fernandes que ficou conhecido por colocar nos Tribunais muitas «providências cautelares» é o rosto escondido desta destruição. Segundo me disseram no Jardim, esse vereador terá dito a alguém que havia árvores «doentes» mas tudo de uma maneira muito vaga e imprecisa. Para mim doentes são os indivíduos que, eleitos para dirigirem os destinos da Cidade, se esquecem do bem comum e se agarram aos seus privilégios, conveniências e interesses. Para mim doentes são na verdade os indivíduos que vão ganhar com esta falsa «requalificação» do nosso Jardim. Porque se nós, moradores e habituais utilizadores do Jardim, perdemos muito; então alguém vai ganhar muito (mesmo muito!) com este negócio. Já no século XIX dizia o nosso Almeida Garrett nas «Viagens» que para fazer um rico são precisos duzentos pobres…

Um livro por semana 155

«Dança dos Demónios»» – Intolerância em Portugal

Com coordenação de António Marujo e José Eduardo Franco e com prefácio de Anselmo Borges, este volume de 630 páginas conta com a participação de dez autores: Esther Mucznick (Anti-Semitismo), Faranaz Keshavjee (Anti-Islamismo), Luís Machado de Abreu (Anticlericalismo), João Francisco Marques (Antiprotestantismo), José Eduardo Franco (Antijesuitismo), Rui Ramos (Antimaçonismo), Ana Vicente (Antifeminismo), Ernesto Castro Leal (Antiliberalismo), Miguel Real (Anticomunismo) e Viriato Soromenho – Marques (Antiamericanismo).

Com se refere na introdução dos dois coordenadores (António Marujo e José Eduardo Franco) «Hoje vivemos numa sociedade aberta, alicerçada em valores como a liberdade, o pluralismo, a tolerância o respeito pela cultura e crenças do Outro. No entanto bastas vezes se fendem e sangram as cicatrizes mal saradas dum passado conspiracionista e intolerante. Expressões, apreciações simplistas ou nostalgias de um passado segregacionista pretendem acordar os velhos fantasmas da conspiração oculta. Esse é um dos perigos que a democracia enfrenta e para o qual importa estar atento, especialmente pela via da educação para a tolerância».

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: António Rochinha Diogo)

Um livro por semana 154

«Sacerdotes em Cristo» – 12 testemunhos de um chamamento

Num volume de 126 páginas com uma parte das vendas a reverter para a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre se reúnem doze testemunhos, doze histórias, doze depoimentos dos quais tomamos seis breves notas. D. Manuel Clemente, (n.1948), ordenado em 1979 e bispo desde 1999, viveu a infância em Torres Vedras: «ao domingo acorria à igreja com os outros da minha idade, havia o adro e o jardim em frente onde a tarde continuava com brincadeiras e jogos. Mesmo ao lado, os presos da cadeia pediam-nos ofertas por entre as grades». D. Serafim Ferreira e Silva (n.1930), ordenado em 1954 e bispo emérito de Leiria/Fátima, recorda: «Sou o nono filho dum casal de lavradores da Maia. Pelos meus 11 anos um cónego ofereceu-me um santinho que representava um sacerdote. Fiquei seduzido pelo mistério». O padre Dário Pedroso (n. 1943) ordenado em 1975, explica: «Nasci numa família quase pagã, num lar onde nunca vi ninguém rezar. Foi preciso esperar pela maioridade e, no dia seguinte, fugir de casa, sem mala, sem enxoval, sem nada e partir rumo ao noviciado em Braga». O padre David Sampaio Barbosa (n. 1949) ordenado em 1969, adverte: «Os pobres ainda estão fora da Igreja; não entram nos nossos templos; os seus cadeirais são os degraus que precedem a entrada das nossas igrejas. O Evangelho ainda não é Boa Notícia para muitos deles». O padre Duarte da Cunha (n. 1968) ordenado em 1989, afirma: «Um padre não pode ser imparcial. Ele tem de tomar partido. Não por partidos mas pelo Evangelho, pelas pessoas. Há momentos em que calar é um pecado, um crime. Um padre não é da direita, não é da esquerda, não é do centro; é do fundo. É da profundidade de Deus que ele tem de brotar».

(Editora: Paulus, Introdução: Padre Senra Coelho, Apoio: Ajuda à Igreja que Sofre)

Um livro por semana 153

«Narrativa» de Paulo da Costa Domingos

O autor rejeita a «autobiografia» mas não deixa de falar de si para falar do Mundo: «Nem me lembro de ter nascido. Um mês depois de eu chegar, partia António Maria Lisboa». O miúdo lisboeta («Tronco em flor. Não esqueço o S na fivela») vive numa família (A mãe vinha queimar folhas de eucalipto, o pai chegava com o Condor, o Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante») e vê o país: «Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento à porta de um dispensário, num coro constante de tosse; também ramelas». No Liceu vem paixão pelos livros (John Osborne, Boris Vian, Carlos de Oliveira, Maupassant, Herberto Hélder) porque «a leitura faz de nós melhores pessoas; faz de nós pessoas». Depois, com a revista «&etc», a descoberta da censura: «Lá no alto de uma escada em madeira num prédio da Ruía da Misericórdia situava-se um postigo semelhante a um oratório ou um confessionário». Mais tarde em 7-7-80 agentes da Judiciária apreendem 580 exemplares de «O Bispo de Beja», ordem dum juiz que não sabia a data de edição do livro – 1910. Daí nasce a sua editora, a «Frenesi» – «porque eu tive que ser eu, num país onde tantos se escondem no grupo». Homenagem a Almeida Garrett e José Daniel Rodrigues da Costa, neste livro de PCD se recordam os amigos mortos (Mário Botas, António José Forte, Ricarte Dácio, Luiza Neto Jorge, Al Berto, Hermínio Monteiro, Eduardo Guerra Carneiro, João César Monteiro, Álvaro Lapa, Mário Cesariny, Manuel João Gomes, Acácio Barradas) e os vivos: Luís Carvalho, Jorge Fallorca, Rui Baião, Manuel Fernando Gonçalves, Luís Manuel Gaspar, Anabela Duarte, Vera Pinto, Jorge Pires, Telma Rodrigues), amigos e livro lado a lado: «cada livro punha-me momentaneamente no exacto centro do Universo. Refiro-me tanto àqueles que li, ou leio, como aos que fui escrevendo».

(Editora: Frenesi, Capa: sobre desenhos de Francisco Cervantes de Haro, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Um livro por semana 151

«Nós dois ainda» de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984) é autor de vasta obra poética e de artes plásticas mas começou por dar nas vistas com a rejeição de Namur, a sua terra de origem: «Os belgas foram os primeiros seres humanos de quem tive a ocasião de me sentir envergonhado». Este volume inclui o poema «Nous deux encore» (francês/português) dedicado à sua mulher Marie Louise que em 1948 morreu vítima dum incêndio em casa: «Música do fogo, tu não soubeste tocar. / Lançaste sobre a minha casa um pano negro. / O que é este opaco em toda a parte? / É o opaco que tapou o meu céu. / O que é este silêncio em toda a parte? / É o silêncio que calou o meu canto».

E as suas 64 páginas integram também a comunicação («A verdadeira poesia faz-se contra a poesia») de Henri Michaux em 1936 ao Congresso Internacional dos Pen Clubes em Buenos Aires na qual o autor afirma: «Em poesia vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento do que expor o melhor programa de entreajuda social. Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias. É isso a transfiguração poética. O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias que, frequentemente, são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Tradução e apresentação: Rui Caeiro)