Um livro por semana 151

«Nós dois ainda» de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984) é autor de vasta obra poética e de artes plásticas mas começou por dar nas vistas com a rejeição de Namur, a sua terra de origem: «Os belgas foram os primeiros seres humanos de quem tive a ocasião de me sentir envergonhado». Este volume inclui o poema «Nous deux encore» (francês/português) dedicado à sua mulher Marie Louise que em 1948 morreu vítima dum incêndio em casa: «Música do fogo, tu não soubeste tocar. / Lançaste sobre a minha casa um pano negro. / O que é este opaco em toda a parte? / É o opaco que tapou o meu céu. / O que é este silêncio em toda a parte? / É o silêncio que calou o meu canto».

E as suas 64 páginas integram também a comunicação («A verdadeira poesia faz-se contra a poesia») de Henri Michaux em 1936 ao Congresso Internacional dos Pen Clubes em Buenos Aires na qual o autor afirma: «Em poesia vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento do que expor o melhor programa de entreajuda social. Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias. É isso a transfiguração poética. O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias que, frequentemente, são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Tradução e apresentação: Rui Caeiro)

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