Vinte Linhas 431

A primeira palavra vinte e cinco anos depois

Em 1984 o meu filho Filipe, nascido em 1981, procurou escrever o seu nome numa página A4 e o resultado em maiúsculas saiu assim – EFILPI. Vinte e cinco anos depois o meu neto Thomas tentou escrever o seu nome e saiu apenas um conjunto de três letras THO. As outras três letras MAS não couberam no quadro porque o tamanho não o permitiu. No meu tempo de criança e na terra onde vivia a minha infância, as pessoas não passavam muito cartão aos miúdos. Um miúdo numa família nesse tempo, anos cinquenta, não era um indivíduo e mesmo quando se encontrava uma criança num carreiro ou numa serventia entre duas fazendas semeadas ninguém lhe perguntava «como te chamas?» mas sim «de quem és tu?». As crianças eram dos pais assim como no tempo da Bíblia se lê que os homens ao atravessarem o deserto levavam consigo «as mulheres, os filhos, os criados e os animais». É com um misto de ternura e esperança que olho para estas três letras THO escritas pelo meu neto de três anos ou seja a mesma idade do meu filho quando escreveu EFILPI em vez de FILIPE. Ternura pois uma coisa lembra a outra e se o tio está em vias de ver publicado o seu primeiro livro vinte e cinco anos depois o sobrinho está a dar os primeiros passos nesta fascinante relação com as palavras.

Não sei onde está essa folha com as palavras EFILPI do nome do Filipe e a foto com o nome THO do Thomas ficará no computador porque não existe em papel.

A vida não está fácil, as coisas são complicadas, há uma agressividade apor aí à solta nas ruas, basta ver que dantes nos agradeciam quando se chamava a atenção para as luzes acesas dos automóveis e agora insultam mas estas pequenas coisas tudo salvam.

4 thoughts on “Vinte Linhas 431”

  1. Ao avô babado:

    Ainda assim, o tio era mais trapalhão.
    Quando Thomas conquistar mais papel – estes ingleses e a sua mania de expansão – escreverá o “mas” que ainda lhe falta. E que até poderá ser menos quando Thomas escrever em português, sem “h”, seu nome.
    Um abraço para José do Carmo Francisco, para o tio, assim disléxico, e para o “Tho” quase Thomas.
    Boas Festas
    Jnascimento

  2. «Disléxico» será força de expressão – não esquecer que em 1984 ele era um bebé. O livro dele sobre o Marquês de Alorna deve estar nas livrarias em Janeiro. Isso é que conta, isso é qeu é importante. Para mim (Sinhâ) basta-me pensar que ele nasceu no ano em que eu publiquei o meu primeiro livro – 1981 – hoje uma raridade bibliográfica. É uma emoção muito especial.

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