Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 82

Dissertação sobre um nome

O teu primeiro nome tem, dentro de si, a força da Terra e a graça de Deus.

Ele é, sem dúvida, o nome feminino mais divulgado em todo o Ocidente. Tem a sua origem nas profundezas da língua hebraica mas não se ficou pela Bíblia e pelos Quatro Evangelhos. Está presente na Eneida de Virgílio, no teatro de Luigi Pirandello, nos romances de Tolstoi, nos contos de Pushkin e nas óperas de Mozart. Está junto à Terra e o seu som pronunciado resolve as hesitações nas encruzilhadas sombrias dos caminhos quotidianos. Digo o teu nome e tenho, no momento de o dizer, uma direcção e um sentido. Porque sinto, dentro do seu som, a força da Terra e a graça de Deus.

O teu segundo nome tem, dentro de si, a força da Água e da Natureza. Vem de uma origem duvidosa, envolta na neblina da lenda. Terá sido a primeira mulher, a que saiu do mar e deixou os homens da praia, entre atónitos e cheios de júbilo, aquela a quem chamaram mar yam – gota do mar. Como se essa mulher quisesse mostrar que só há vida na água porque vivemos com a água e morremos quando estamos dezassete dias longe da água. O mistério da vida e os milagres da existência têm uma raiz nessa mulher que saiu do mar e a quem os homens chamaram mar yam – gota do mar.

O teu nome, feito de dois nomes, é uma bandeira feliz, um estandarte de alegria, uma luz que não se apaga. O teu nome, feito de dois nomes, é o lugar ideal para ouvir o som da voz da terra e o murmúrio do mar, o apelo a ficar e o convite a todas as viagens.

O teu nome, feito de dois nomes, tem a dimensão sem medida dos sonhos e a música sem fim de todas as orquestras. O teu nome, feito de dois nomes, Ana Maria.

Vinte Linhas 428

«O silêncio: lugar habitado» de Graça Pires

Autora que se estreou em 1990 com «Poemas», Graça Pires surge com o seu 11º título, Prémio Nacional Poeta Ruy Belo, edição da Labirinto, capa de Júlio Cunha e apoio da Câmara Municipal de Rio Maior. O título começa por suscitar uma interrogação. Como o silêncio é o oposto da palavra (A palavra é tempo, o silêncio é eternidade), o poema organiza-se entre Paisagem («as aves marinhas vão morrer no solitário coração dos barcos afundados» ) e Povoamento: «Não tem fim o silencioso enleio / que se esconde por entre a argila / nos dedos do oleiro; ou se enrola no linho / dos lençóis tecido pelas mães».

Depois funciona entre o Lugar («No meu país havia marinheiros / com braços de tempestade») e a Memória: «Os antigos conheciam os segredos dos caminhos e dos muros». A seguir oscila entre a Natureza («As abelhas coladas à cal dos muros / pela violência da luz / tornam impossível a essência das colmeias») e a Cultura: «Contra a luz não ousávamos quebrar / o silêncio que na música se abrigava / Schubert e as canções em palavras».

Por fim esta poesia discreta, alta e sábia, opõe a Morte («pode ser um nó / ou um grito ou uma trepadeira enroscada / no corpo ou na lápide onde escreverão / o nome que tivemos») e as Palavras: «Às vezes vêm de muito longe / de fatigadas viagens / de mortes prematuras / de excessivas solidões / Mas vêm. / E trazem a inicial pureza das fontes / E a lâmina do silêncio / E a desordem da noite / E a luz extenuada do olhar / Tão cúmplices, as palavras.»

Balada da Capela do Formigal

Capela do Formigal

Varanda abandonada

Dá para o porto fluvial

Quando rio era estrada

Porta caída no chão

Azulejos num altar

Faz doer o coração

O silêncio do lugar

Sombra de sacristia

Sino de som perdido

Já houve vida, alegria

E tudo tinha sentido

Havia a navegação

Porto é só memória

Fruta de exportação

Era receita acessória

País que faz de conta

Nada sabe deste rio

Carro em hora de ponta

Numa pressa de vazio

Vereador, presidente

Cultura, pasta na mão

Passa aqui indiferente

Só em ano de eleição
Podem até ser doutores

Com tese e dissertação

Nada sabem os horrores

Da chuva em dissolução

Se não fosse o arvoredo

A proteger o que resta

Entre vergonha e medo

Já não havia uma festa

Porque basta uma oração

No silêncio quase total

Para renascer a devoção

Na Capela do Formigal

Vinte Linhas 427

Será que o acaso não existe?

Há um mistério entre as recordações e a memória, uma terra de ninguém onde os sons se perdem, as imagens se diluem e as revelações se deixam apagar por um empurrão do acaso. O acaso não existe – alguém teima em repetir no encontro casual numa livraria das Escadinhas do Duque. O dono da livraria sorri e dá razão a toda a gente. Para cada um sua verdade – título de um livro, lema de vida para quem tem uma porta aberta, sujeito aos diários encontros e desencontros do acaso.

Um poeta que veio do Brasil passou aqui e escreveu o poema das Escadinhas do Duque sem saber ainda que o livro onde o poema seria incluído seria dado à estampa numa editora das Escadinhas do Duque.

O acaso não existe – é a frase que teima em permanecer no meu espírito. Acabo de sair de um Tribunal e avanço disparado para a beira-rio. Passo pelo interior de um parque de estacionamento, percorro esplanadas diversas e páro no Peter. Mando vir pão com atum e um gin tonic. Envio mensagens a alguns amigos dizendo onde estou. Que te faça bom proveito – respondem calorosos. O acaso não existe – é a conclusão provisória desta crónica. Porque somos nós a fazer minuto a minuto as nossas escolhas do momento. Viver é escolher, estamos sempre a escolher o que julgamos ser o melhor para nós e para os nossos. O acaso não existe? Talvez. Só o presente se vive, nunca ninguém meu conhecido viveu no futuro e este gin tonic não é do passado. Mas quem é que me pode explicar quem, que força estranha me conduziu do Tribunal à mesa do Peter na beira-rio de Lisboa numa destas tardes cinzentas a ameaçar chuva?

Vinte Linhas 426

«O mar em Casablanca» de Francisco José Viegas

O título está na página 222 quando se percebe a diferença entre cinema e realidade («Não estou a falar do filme. Estou a falar da cidade.») e entre pessoas e personagens: «Ingrid Bergman esteve até ao fim sem saber com quem ia ficar – Rick ou Victor». Este conflito de uma mulher entre dois homens surge no espírito do inspector Jaime Ramos: «Deter Mariana Serra, acusada da morte de Benigno Mendonça e, provavelmente, de Joaquim Seabra». Em resumo é este o enredo da história: «o nome de Mariana Serra é associado a um carro de matrícula diplomática conduzido por Benigno Mendonça, Mariana é associada a Isabel Castro, desaparecida em Luanda em 1977, Isabel Castro é associada a Juvenal Serra, fuzilado em 27 de Maio de 1977, Mariana aparece associada a Adelino Fontoura a bordo de aviões da TAP de Luanda para Lisboa e de Lisboa para o Rio de Janeiro, Adelino Fontoura é associado a Isabel Castro, mãe de Mariana, como antigo namorado em 1975 quando Isabel decide colaborar na revolução de Angola». Benigno Mendonça aparece nos acontecimentos de Luanda em 27-5-1977 a partir das «13 Teses» de Nito Alves: «ele subiu na história do partido desde 1978. Quem assinou as ordens de fuzilamento? Agostinho Neto não teve tempo de assinar todas – a velocidade a que a demência tomara conta de Luanda não permitia que se cumprissem todas as exigências. Decapitados na estrada do aeroporto. Presos durante anos. Mortos à porta de casa. Mulheres grávidas fuziladas». Jaime Ramos percebe a história mas não é historiador, é apenas o inspector que deslinda mais um caso entre livros lidos na sala e petiscos na cozinha: «Temo a morte, leio jornais irlandeses, deito-me cedo».

(Editora: Porto Editora, Capa: Corbis/VMI, Foto: Pedro loureiro)

Posta-restante

Há anos escreveria para a posta-restante

Hoje sei que o teu telemóvel foi trocado

Uma semana num congresso importante

Desviaram o teu sorriso para outro lado

Para a luz de uma Madrid sem humidade

Onde o trânsito mais nervoso se atropela

Não há tempo para soletrara uma saudade

No teu quarto de hotel bem junto à janela

Há anos escreveria para a posta-restante

Uma estação de correios aí na Gran Via

Onde tu ias ao fim da tarde num instante

Para saber de uma carta que eu te remetia

Não sabendo o novo número nada digo

Não vale a pena eu mandar mensagens

No bolso guardo o poema que persigo

E espero aqui o teu regresso da viagem

Vinte Linhas 425

A sorte que a Policia Municipal teve esta manhã

Esta manhã duas viaturas da Policia Municipal («30 74 IZ» e «60 00 VT» têm estado estacionadas em cima do passeio na Travessa de São Pedro mas não foram multadas. Se por acaso tivesse acontecido isto no dia 16 de Junho de 2009 (o dia da grande carnificina) sem dúvida que teriam sido bloqueadas como nesse dia foram todas as outras.

Esta ratoeira foi criada pelos Sapadores Bombeiros perante a indiferença da Câmara Municipal ao lado do autismo da Junta de Freguesia e na qual a Policia Municipal vem periodicamente «cobrar» em bloqueadores e dinheiro vivo (um vizinho meu pagou 210 euros em dois dias…) mereceria um estudo mais alargado. O que pode levar uma instituição como os Sapadores (que depende da Câmara) assumir-se como uma espécie de pólo inatingível pela mesma Câmara («não podemos fazer nada que eles não deixam» – frase ouvida por mim quando era membro da Assembleia de Freguesia da Encarnação).

O que pode levar pessoas ditas normais a embarcarem numa paranóia autista que tem semeado nervos à flor da pele entre os moradores doo Bairro Alto que foram burlados pela EMEL quando os obrigou a trocar um documento que lhe garantia direitos (estacionar) por outro que só os deixa circular – exactamente o oposto?

No momento em que termino este texto a viatura «60 00 VT» ainda lá está em cima do passeio e estacionada ao contrário do sentido do trânsito – com a parte da frente voltada para o Jardim de São Pedro de Alcântara como se estivéssemos em Inglaterra, país onde se circula pela esquerda. Mas a sorte deles é que hoje a Polícia Municipal não veio bloquear e multar os automóveis da nossa rua. Havia de ter graça…

As três meninas

Ao sábado chegam a casa as três meninas

Sobem as escadas num porte de princesa

Em cada rosto há uma luz de tangerinas

As suas vozes ligam a Cultura à Natureza

São teses, são diplomas ou são mestrados

Novos conceitos na História, na Educação

A nova sementeira à espera dos resultados

Num campo onde é preciso saber ter razão

Das janelas vê-se a serra e as suas ravinas

Pressentem-se ribeiros, o Tejo e afluentes

Ao contrário da cidade com ruas e esquinas

Onde os dias são iguais embora diferentes

Ao domingo à noite a casa fica sombria

A linha da alegria fica logo interrompida

Sai então a Paula, sai depois a Ana Maria

E logo a seguir sai também a Margarida

Vinte Linhas 424

Do Rei Leão ao gato de Fernanda

Quando em 1994 a Disney realizou «The Lion King», a sua 32ª longa-metragem, quase ninguém reparou mas pela primeira vez a história baseava-se num argumento original e não numa fábula ou num clássico da literatura infanto-juvenil. Ao mesmo tempo a banda sonora era entregue a Elton John e Hans Zimmer, fazendo inundar o ecran de frescura em melodias e em canções inesquecíveis como «Cicle of live», «Hakuna Matata» ou «Can you feel the love tonight». Dois Óscares e três Globos de Ouro foram um prémio merecido mas o maior prémio é, ainda hoje em 2009, se ouvir com prazer e com agrado esta banda sonora. Diz a lenda que os gatos foram criados quando a Arca ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem e do espirro dos leões nasceram os gatos. Deles se diz que são símbolo da luxúria e da preguiça, da hipocrisia e da astúcia, da independência e da liberdade ou seja (numa síntese) «o animal feminino por excelência».

O gato de Fernanda não pára de olhar pela janela; a ser verdade a tradição, vai chover dentro de pouco tempo. Mas se em vez de chuva for mau tempo então o gato dormirá com as quatro patas escondidas debaixo do corpo. Desde sempre associados aos homens do mar (diz-se que foram os gatos dos marinheiros que em Veneza mataram os ratos que traziam a peste do Oriente) vejo no olhar de Fernanda, numa janela do seu terceiro andar, uma torre de comando de um navio. Os marinheiros acreditavam que o gato traria vento se saltasse e traria a chuva se espirrasse. No vidro da cozinha (da torre de comando do navio) Fernanda sorri, corre as cortinas e devolve com ternura ao olhar do gato uma nova carícia antes de se despedir a caminho do consultório.

Vinte Linhas 423

A carnificina, o pintor mongol e as canções de Vitorino

Hoje foi um dia com três fases distintas. Pela manhã, saudosos do dia 16 de Junho os homens da Polícia Municipal vieram fazer a faxina da loucura dos Sapadores Bombeiros perante a indiferença da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia. Entre o delírio e a alucinação dos Bombeiros municipais que «embirra» com alguns lugares perfeitamente passíveis de serem aceites para estacionamento, cabe aos homens da Polícia Municipal fazer o piquete da loucura, multando e bloqueando as viaturas que estão bem estacionados mas não para eles, os Sapadores do delírio e da alucinação. Mas para multarem na minha rua eles passam por situações ilegais (espaço de estacionamento ocupado com assadores) e imorais (8 lugares perdidos para um estaleiro) mas nada os detém. No Largo do Carmo fiquei a saber que o pintor Ruslam Botiev, o cavaleiro da Mongólia, fez um desenho a café com o rosto da Rainha de Inglaterra, desenho esse que já foi apreciado conforme informa a sua chefe de gabinete. Soube que graças a um vizinho que é casado com uma senhora de origem irlandesa, o desenho do meu amigo Ruslam foi colocado numa das paredes do palácio da Rainha. Ao fim da tarde estive no Teatro da Trindade para assistir ao primeiro de uma série de espectáculos de música popular. Foi pioneiro o Vitorino que cantou (as suas canções de sempre) e encantou (com as canções de José Afonso) ao longo de 60 minutos. Uma pequena plateia (os pioneiros são sempre poucos) cantou em coro o refrão de «Traz outro amigo também». Para a semana há mais: Aldina Duarte às 18 horas no Teatro da Trindade. Tristezas não pagam dívidas mas nada faz esquecer a carnificina da Polícia Municipal.

Vinte Linhas 422

Aquele golo do Hugo Viana em Mortágua

Há coisas inesquecíveis como aquele golo de livre do Hugo Viana em Mortágua, corria a época desportiva de 1998/1999. O Sporting ia jogar com a Académica mas, como os «estudantes» estavam de castigo, os jogos realizavam-se a mais de 50 quilómetros da Lusa Atenas. Mas não era do lado de Lisboa – em Condeixa, em Penela ou em Pombal. Era (tinha logo de ser) do lado de Viseu, em Mortágua, num campo pelado que parecia lixa nº 2. O castigado era a Académica mas quem cumpria o castigo eram os adversários. O capitão dos «capas negras» era o Zé Castro que se batia como um leão e o guarda-redes defendia tudo. Tudo menos o livre do Hugo Viana, quase igual ao livre do jogo Braga-Benfica. Dessa equipa faziam parte o Miguel Garcia, o Ricardo Quaresma, o Tecelão, o João Paiva, o Filipe Costa e o Mangualde – que está em Chipre, vi-o agora na televisão. O árbitro do jogo foi Carlos Xistra que fez uma excelente arbitragem, sem se deixar influenciar pelo público de Mortágua – muito fanático e quase todo afecto aos «estudantes». O golo que abriu a vitória ao Braga foi quase igual ao outro em Mortágua e mostra como às vezes um pequeno pormenor pode alterar o destino de uma carreira. Depois de ter sido campeão nacional em 2001/2002 o Hugo foi para Valência mas voltou por empréstimo aos «leões». Logo por azar, pouco tempo depois, marcou em Alvalade um golo ao Braga de Jesualdo Ferreira mas um árbitro de Portalegre invalidou esse golo. Com essa vitória o Sporting passaria para a frente do Braga e assim, com o golo anulado, o Hugo desmoralizou. E a sua equipa também. Aprendeu à sua custa, sofrendo na pele, que os árbitros são sempre influentes e, muitas vezes, são decisivos.

Canção breve para António Osório

Traz a casa das sementes

Com enxadas e forquilhas

Nos poemas diferentes

Foi casa de maravilhas

Entre a luz da Natureza

E o esplendor da Cultura

Seu poema é a incerteza

E não lhe cansa a procura

A raiz feita de afecto

Chegou à Academia

Na vindima do projecto

Faz falta a adega fria

Se a língua é um espanto

Milagre só igual à vida

Um voz que sobe ao canto

É clamor e terra erguida

Nas adegas e nos celeiros

Com sementes e cereais

Cabem precisos, inteiros

Os corpos dos animais

E se as palavras são pão

Dum forno de muita gente

Cada poema é um grão

E o campo quer semente

À porta dum hospital

Ou escondido na capela

Toda a clínica geral

Se fecha numa janela

Numa igreja londrina

Ou no museu madrileno

Mulher atrás da cortina

É um Vermeer sereno

Ou Goya de fuzilados

Corpos caídos sem luta

Quantos tiros disparados

Na infâmia que se disputa

Entre o nojo e o delírio

Entre a morte, seu mistério

Entre o hissope e o círio

Só um remorso é critério

Se a morte é ignorada

Surge o lugar do amor

A vida não vale nada

Se lhe falta esse rumor

Velásquez tinha meninas

El Greco perto do Tejo

No volume das esquinas

Um perímetro do desejo

Entre Palmela e Azeitão

No moscatel mais doirado

O poema dá uma razão

A quem o tem trabalhado

Poeta da arte e do ofício

Entre a pedra e a verdura

O poema é o precipício

Do que o sonha e procura

Balada do consultório

Na sombra do consultório

Onde o olhar é um mundo

Do envelope ao relatório

Numa gaveta sem fundo

A desordem dos ficheiros

Entre nomes e apelidos

Vives minutos certeiros

Se ordenas os perdidos

No telemóvel esquecido

Ficam várias mensagens

As palavras, seu sentido

Ganham força de imagens

Na nuvem que mais além

Empurra o vento da serra

Entre Sintra e o Cacém

Coração em pé de guerra

Das palavras não perdidas

Há resposta no outro dia

Num poema, duas vidas

Respira outra melancolia

A vida não é o concurso

Nem o prémio de lotaria

Entre memória e discurso

O teu olhar traz poesia

É promessa de relatório

Raio X duma tristeza

Na sombra do consultório

Telemóvel sobre a mesa

Fica um perfil registado

Do teu rosto, fim do dia

Eu levo para todo o lado

O que este olhar anuncia

Vinte Linhas 421

Juízes Sociais – as coisas não podem continuar assim…

Hoje tive mais um choque brutal daqueles que puxam a gente para baixo. Convocado para uma audiência de julgamento para as 14 horas num dos juízos e numa das secções do Tribunal de Família e Menores de Lisboa, lá estava eu pontualmente ás 14 horas. Esperei e ninguém me perguntou nada. Às 14h 25m dirigi-me à secretaria do juízo (que é noutro andar) e perguntei se a audiência tinha sido adiada. Respondeu a senhora, algo aborrecida: «Aqui não fazemos a chamada!» Ora bolas, careca de saber isso estava eu ou não seja juiz social desde o ano de 1993 – ainda era no velho palácio da Justiça, ali no alto do Parque. (Recordo com saudade a coluna «Um juiz no alto do Parque» do meu amigo Manuel Geraldo no Diário de Lisboa…) Pois isto é tudo fruto das circunstâncias, o pessoal anda nervoso e saem estas respostas. Então se até o polícia que está à porta me cumprimenta como «velho» frequentador, é claro que a senhora já me conhece mas não, teve mesmo que ser assim. Lá esperei até às 15h e 10m para constatar que dos quatro convocados (dois efectivos e dois suplentes) era eu o único presente. Fui dispensado pois só podemos funcionar «em asa» e eventualmente receberei 3 euros e 99 cêntimos gastando na ida e na volta 1 euro e 58 cêntimos. Não sei nem tenho que saber das razões de cada um (cansaço, desmotivação ou outros compromissos) mas a verdade é que passar uma tarde num tribunal a participar em nome do Povo no julgamento de uma criança ou um adolescente que precisa de um rumo para a sua vida não se paga com 3 euros e 99 cêntimos. Parece que somos muito civilizados e temos o Povo nos Tribunais mas depois pagar 3 euros e 99 cêntimos de ajudas de custo aos juízes sociais não lembra ao Diabo.

ESTRADA DE MACADAME

CLXXXVIII – «Eu cá nan sei fazeri mas sei pôr defêto!»

No tempo da «estrada de macadame» uma das situações que mais me chocou ao chegar a Lisboa no ano de 1966 com 15 anos de idade, foi a quantidade de pessoas que nas ruas me perguntava e me pedia para ler os destinos inscritos nas bandeiras dos autocarros e dos eléctricos.

Percebi então que, na verdade e apesar das minhas ideias em contrário, em Lisboa havia muitos e muitos analfabetos. E não eram como os de hoje que sabem ler e escrever mas se manifestam por grunhidos e monossílabos; eles não sabiam, mesmo, ler e escrever. Até aí eu tinha visto o analfabetismo como algo de folclórico, insólito e especial tanto em Vila Franca de Xira como no Montijo e também em Santa Catarina mas deparar com muitos analfabetos na capital do nosso país foi algo que me fez estranhar, chocar e surpreender. Não estava nada à espera.

Continuar a lerESTRADA DE MACADAME

Vinte Linhas 420

«História de Portugal» de Maria Cândida Proença

A partir do pedido expresso da sua neta Marta, a autora organizou uma História de Portugal para os mais jovens em 7 volumes. Acaba de chegar à minha banca de trabalho o terceiro volume – «Descobrimento s e Expansão».

O grande desafio não é o conhecimento da matéria mas sim a linguagem usada, sempre no ponto de equilíbrio entre o rigor científico e a simplificação que o público-alvo (dos 9 aos 14 anos) pode sugerir. O texto final contou com o apoio de sugestões de José Mattoso, Teodoro de Matos e José Subtil.

Um aspecto muito curioso desta obra diz respeito ao grafismo; além das barras cronológicas e de mais de 700 fotografias, mapas e gráficos, surge nestas páginas a ilustração em 3 dimensões – a fórmula encontrada para, a partir de genuínas gravuras de época, reconstituir mais a carácter as cenas da vida quotidiana em Portugal e no Mundo nos séculos XV e XVI.

De notar que as palavras mais estranhas e difíceis (para os jovens) integram o texto a negro com chamada de atenção para o glossário de 94 termos no fim do volume.

O período de tempo a que diz respeito o volume fica bem ilustrado por esta passagem de Damião de Góis («Crónica de D. Manuel») na página 90: «Eu vi muitas vezes na Casa da Índia mercadores com sacos cheios de moedas de ouro e de prata para fazerem os pagamentos do que deviam por conta das especiarias que compravam. E os oficiais lhes diziam que voltassem outro dia porque não havia tempo para contarem o dinheiro, tanta era a soma que se recebia todos os dias».

(Editora: Círculo de Leitores, Capa: RPVP Designers/Booktailors, Mapas: Leonor Antunes, Revisão: Conceição Candeias, Coordenação: Jorge Garcia)

Vinte Linhas 419

A Câmara de Lisboa e os alucinados do lixo

Quando era membro da Assembleia de Freguesia detectei que as obras num prédio da Rua da Atalaia me tinham tirado a vista do Tejo. Na Junta e na Assembleia disseram que não valia a pena protestar porque «na Câmara eles não fazem nada». Aqui à porta tenho o muro dum colégio de freiras mas os alucinados dos Sapadores Bombeiros só deixam estacionar em 4 lugares quando podem ser 12. Em suma – má vontade, delírio e autismo. Mais abaixo há o colégio dos Calafates onde os mesmos Sapadores só deixam estacionar 2 quando podem ser 6 lugares. E a Câmara não faz nada para defesa dos moradores pelos 8 lugares perdidos na Travessa da Boa Hora. Mas restaurantes continuam a roubar lugares de estacionamento para colocarem assadores e mesas nos dias de mais freguesia sempre sem multa. Uma pessoa aqui da rua recebeu agora uma carta registada para pagar 90 euros de multa por ter deixado à porta um saco com papéis às 15h 25m dum certo dia de 2008. Incrível e espantoso. Alguém se deu ao trabalho de abrir o saco de plástico e vasculhar para descobrir um nome. Fez fotografias e instaurou um processo de contra-ordenação mas esqueceu-se de perguntar à pessoa em causa se conhecia o regulamento. Se tivesse procurado saber saberia que essa pessoa viveu 5 anos noutra cidade a tirar um curso universitário. Bastava isso para perceber que essa pessoa fez o mesmo que fazia em Évora onde o regulamento é diferente. Mas para esta gente não basta o delírio, é necessária a alucinação. São os alucinados do lixo. Fecham-se em gabinetes e decretam as multas – uma gente que não vive, apenas destrói a vida dos outros. Kafka não faria melhor; com esta gente entra-nos em casa o mundo do delírio e da alucinação.

As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

A outra metade é feita de tijolos

Tristes porque são todos iguais

Na sua tão repetida monotonia
À volta da avenida fica o arvoredo

Antigo como as casas dos guardas

Lembra um velho tempo de quintas

Com cavalos e carroças no mercado

Hoje só recordado aos domingos
Esquilos nos ramos, corvos na relva

De noite raposas fogem assustadas

Dos poucos táxis a circular na rua

Na escuridão fria da noite inglesa

À hora dos comboios mais raros
Envolvido nas rotinas das escolas

Levo na mão o meu neto de manhã

E vou buscá-lo perto do meio-dia

Pego na pasta azul com o seu nome

E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala

São elefantes, borboletas e ovelhas

Entram na floresta que eu lhe conto

E tremem de medo dos monstros

Como eu tremo de medo da doença
São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

Frágeis perante a neve a chegar

Tal como eu frente ao pâncreas

Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos

Maneira de eu dizer adeus à vida

Todos os momentos são preciosos

Para que o meu neto me lembre

E não se esqueça de me recordar

Vinte Linhas 418

As ameixas de Outubro

Na manhã de domingo, entre os numerosos suplementos dos jornais, por cima do som do saxofone tenor à porta da estação do comboio, para além dos grupos nas mesas do lado de fora do café a aproveitar todos os minutos de sol, surge o esplendor do mercado semanal de Blackheath. Ainda há pequenas quintas entre Dartford e Dover, entre Rochester e Whitstable, essa magnífica Whitstable com as suas casinhas de madeira junto aos últimos seixos da praia em frente ao início estuário do Tamisa.

Por isso os feirantes vendem ostras e peixes diversos, cenouras e batatas, couves e tomates, galinhas e carne de porco, leite e maçãs, empadas e flores, pão e ovos. Aos domingos, o espaço do parque da estação de caminho de ferro está livre de automóveis, as pessoas ficam em casa, às nove e meia as igrejas abrem-se às crianças e o seu ruído alegre é tolerado pelos celebrantes. Blackheath já foi uma terra de ninguém, algures entre Greenwich e Lewisham. Por isso as caravanas de ciganos ficavam aqui sabendo que nenhum município os iria expulsar. O mercado de domingo tem o aspecto das feiras antigas (carne, peixe, vegetais, leite, pão) mas sem os saltimbancos. Os furgões comerciais com refrigeração datam o mercado de 2009 mas, de súbito, as ameixas, as inesperadas ameixas de Outubro, instalam a dúvida no tempo. Em Portugal as ameixas aparecem em Junho pelo Santo António. De um momento para o outro a incerteza no calendário. As ameixas de Outubro, algures perto da cada onde viveu John Stuart Mill e onde Charles Gounod escreveu música, fazem a insólita pontuação do tempo nas manhãs de domingo, entre os jornais e o som do saxofone tenor à porta da estação do comboio.

Vinte Linhas 417

«Cacilhas» de Luís Alves Milheiro

A História não se esgota na posteridade dos poderosos – reis, príncipes, guerreiros e navegadores. Os oprimidos e anónimos, muitas vezes sem acesso à escrita, também são História e merecem que os livros os não esqueçam. No bairro da cidade, na vila ou na aldeia, o pulsar da vida justifica a atenção do historiador. Depois de «Cacilhas – A gastronomia, a pesca e as tradições locais» com Fernando Barão, Luís Alves Milheiro regressa ao tema Cacilhas com um livro a focar o comércio, a indústria, o turismo e o desenvolvimento socio-cultural e político desta localidade ribeirinha.

Cacilhas despertou nos séculos XIX e XX o interesse de famílias estrangeiras que aqui criaram empresas: os Buknall, os Shultz, os Armstrong, os Sygmington e os Ferguson na indústria corticeira; os Parry e os Oakley na construção naval e os Black na indústria de fiação e no negócio do carvão. Entretanto já desde 1797 funcionavam em Cacilhas os grandes armazéns de vinho de Bento José Pereira Júnior.

Essa actividade de armazenagem e venda de vinho, azeite, vinagre, cortiça e conservas de peixe surge nos livros «Os Tanoeiros» e «Cais do Ginjal» de Romeu Correia e nos quadros de José Malhoa, Manuel Henrique Pinto, António Ramalho, Alfredo Keil e João Vaz ou, ainda, num poema de José Carlos Ary dos Santos sobre os cacilheiros: «Leva namorados, marujos / soldados e trabalhadores / E parte dum cais / que cheira a jornais / morangos e flores / Regressa contente / levou muita gente / e nunca se cansa / Parece um barquinho / lançado no Tejo / por uma criança.» Dito de doutra maneira: os anónimos e periféricos em relação ao poder também podem ser – e são – história.

(Edição: Junta de Freguesia de Cacilhas, Apoio: Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, Capa: Alfredo Keil, Foto: Elsa Carvalho, Prefácio: Diamantino Lourenço)