As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

A outra metade é feita de tijolos

Tristes porque são todos iguais

Na sua tão repetida monotonia
À volta da avenida fica o arvoredo

Antigo como as casas dos guardas

Lembra um velho tempo de quintas

Com cavalos e carroças no mercado

Hoje só recordado aos domingos
Esquilos nos ramos, corvos na relva

De noite raposas fogem assustadas

Dos poucos táxis a circular na rua

Na escuridão fria da noite inglesa

À hora dos comboios mais raros
Envolvido nas rotinas das escolas

Levo na mão o meu neto de manhã

E vou buscá-lo perto do meio-dia

Pego na pasta azul com o seu nome

E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala

São elefantes, borboletas e ovelhas

Entram na floresta que eu lhe conto

E tremem de medo dos monstros

Como eu tremo de medo da doença
São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

Frágeis perante a neve a chegar

Tal como eu frente ao pâncreas

Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos

Maneira de eu dizer adeus à vida

Todos os momentos são preciosos

Para que o meu neto me lembre

E não se esqueça de me recordar

3 thoughts on “As casas de Blackheath Park”

  1. Pâncreas, José do Carmo Francisco ?!
    Se você se deixasse de disparates e pensasse na eternidade dos seus órgãos, para alegria do seu neto ! Ainda nem lhe ensinou a pôr o acento no nome: é Tomás e não Tomas, miúdo !
    Um abraço “saudoso”, de saúde claro, do
    Jnascimento

  2. Obrigado malta, porreiro. Foi bom estar lá mas é bom estar de volta. Sou daqui – poderia adaptar-me lá mas não sou de lá. Sinto é saudades de brincar às lojas com ele «tome lá cinco libras e dê-me dois quilos de batatas, não se esqueça do troco». coisa fofa…

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