Vinte Linhas 418

As ameixas de Outubro

Na manhã de domingo, entre os numerosos suplementos dos jornais, por cima do som do saxofone tenor à porta da estação do comboio, para além dos grupos nas mesas do lado de fora do café a aproveitar todos os minutos de sol, surge o esplendor do mercado semanal de Blackheath. Ainda há pequenas quintas entre Dartford e Dover, entre Rochester e Whitstable, essa magnífica Whitstable com as suas casinhas de madeira junto aos últimos seixos da praia em frente ao início estuário do Tamisa.

Por isso os feirantes vendem ostras e peixes diversos, cenouras e batatas, couves e tomates, galinhas e carne de porco, leite e maçãs, empadas e flores, pão e ovos. Aos domingos, o espaço do parque da estação de caminho de ferro está livre de automóveis, as pessoas ficam em casa, às nove e meia as igrejas abrem-se às crianças e o seu ruído alegre é tolerado pelos celebrantes. Blackheath já foi uma terra de ninguém, algures entre Greenwich e Lewisham. Por isso as caravanas de ciganos ficavam aqui sabendo que nenhum município os iria expulsar. O mercado de domingo tem o aspecto das feiras antigas (carne, peixe, vegetais, leite, pão) mas sem os saltimbancos. Os furgões comerciais com refrigeração datam o mercado de 2009 mas, de súbito, as ameixas, as inesperadas ameixas de Outubro, instalam a dúvida no tempo. Em Portugal as ameixas aparecem em Junho pelo Santo António. De um momento para o outro a incerteza no calendário. As ameixas de Outubro, algures perto da cada onde viveu John Stuart Mill e onde Charles Gounod escreveu música, fazem a insólita pontuação do tempo nas manhãs de domingo, entre os jornais e o som do saxofone tenor à porta da estação do comboio.

5 thoughts on “Vinte Linhas 418”

  1. Bem, eu toco sax alto, gosto de ameixas (amarelas e roxas), tenho umas saudades da Inglaterra que me pelo (apesar de lá estar sempre metida) e mais um texto destes e dá-me uma vontade doida de zarpar.
    Loved it to bits!

  2. A essa hora de domingo, nós vamos a caminho do Continente ou doutro Pingo qualquer, e raros da Feira do Relógio, onde há ameixas quase sempre.
    As ameixas, em Outubro, são sempre de desconfiar, até podem ser castanhas portuguesas dos lados de Castainço ou de Ourozinho, que as vinte linhas são lindas de verdade e, lá no fundo, é a Feira das Caldas que está a acontecer.
    Obrigado
    Jnascimento

  3. Ainda bem que gostaram – aquilo é mesmo giro. Nada como estar num país com pouco sol para perceber como ele é importante. Aquilo da malta sair do café enquanto não chove e aproveitar todos os minutos é mesmo assim – tal e qual. Giro é ver que até os portugueses têm um esquema para os pasteis de nata – se o pastel é vendido com o café custa 80 centimos (e o café 1,70!!!) mas se for «fora-parte» já custa 1,30 o mesmo pastel…

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