Vinte Linhas 417

«Cacilhas» de Luís Alves Milheiro

A História não se esgota na posteridade dos poderosos – reis, príncipes, guerreiros e navegadores. Os oprimidos e anónimos, muitas vezes sem acesso à escrita, também são História e merecem que os livros os não esqueçam. No bairro da cidade, na vila ou na aldeia, o pulsar da vida justifica a atenção do historiador. Depois de «Cacilhas – A gastronomia, a pesca e as tradições locais» com Fernando Barão, Luís Alves Milheiro regressa ao tema Cacilhas com um livro a focar o comércio, a indústria, o turismo e o desenvolvimento socio-cultural e político desta localidade ribeirinha.

Cacilhas despertou nos séculos XIX e XX o interesse de famílias estrangeiras que aqui criaram empresas: os Buknall, os Shultz, os Armstrong, os Sygmington e os Ferguson na indústria corticeira; os Parry e os Oakley na construção naval e os Black na indústria de fiação e no negócio do carvão. Entretanto já desde 1797 funcionavam em Cacilhas os grandes armazéns de vinho de Bento José Pereira Júnior.

Essa actividade de armazenagem e venda de vinho, azeite, vinagre, cortiça e conservas de peixe surge nos livros «Os Tanoeiros» e «Cais do Ginjal» de Romeu Correia e nos quadros de José Malhoa, Manuel Henrique Pinto, António Ramalho, Alfredo Keil e João Vaz ou, ainda, num poema de José Carlos Ary dos Santos sobre os cacilheiros: «Leva namorados, marujos / soldados e trabalhadores / E parte dum cais / que cheira a jornais / morangos e flores / Regressa contente / levou muita gente / e nunca se cansa / Parece um barquinho / lançado no Tejo / por uma criança.» Dito de doutra maneira: os anónimos e periféricos em relação ao poder também podem ser – e são – história.

(Edição: Junta de Freguesia de Cacilhas, Apoio: Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, Capa: Alfredo Keil, Foto: Elsa Carvalho, Prefácio: Diamantino Lourenço)

2 thoughts on “Vinte Linhas 417”

  1. Meu caro, sem os pobres e anónimos não haveria literatura…são o ar denso que preenchem o vazio das narrativas.

    Que frase estranha meu caro amigo, que frase estranha..

    ps ( não me censure:)

  2. E onde se vende, sem ter quer ir à Junta de Freguesia, embora atravessar o Tejo seja dos caminhos mais lindos que “a pequena Lisboa” tem ? A “piquena” como diria a outra !
    Luís Milheiro é ainda o responsável por “Largo da Memória” a quem muito devo e a quem muito deve a “Outra Banda”. Vou comprar, José do Carmo Francisco, mesmo que me perca no pouco de velho que Almada tem.
    Jnascimento

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