ESTRADA DE MACADAME

CLXXXVIII – «Eu cá nan sei fazeri mas sei pôr defêto!»

No tempo da «estrada de macadame» uma das situações que mais me chocou ao chegar a Lisboa no ano de 1966 com 15 anos de idade, foi a quantidade de pessoas que nas ruas me perguntava e me pedia para ler os destinos inscritos nas bandeiras dos autocarros e dos eléctricos.

Percebi então que, na verdade e apesar das minhas ideias em contrário, em Lisboa havia muitos e muitos analfabetos. E não eram como os de hoje que sabem ler e escrever mas se manifestam por grunhidos e monossílabos; eles não sabiam, mesmo, ler e escrever. Até aí eu tinha visto o analfabetismo como algo de folclórico, insólito e especial tanto em Vila Franca de Xira como no Montijo e também em Santa Catarina mas deparar com muitos analfabetos na capital do nosso país foi algo que me fez estranhar, chocar e surpreender. Não estava nada à espera.


Uma vizinha que conheci no Montijo gritava para todos nós, os miúdos que jogavam à bola na Rua Sacadura Cabral: «Gaiatos malditos!». Eu era um miúdo como os outros mas já nesse tempo gostava de reparar nas palavras e dizia-lhe: «Oh vizinha então assim está a chamar malditos aos seus filhos João Eduardo e Zé Maria!». Mas ela não se desmanchava e respondia logo: «Para mim são todos malditos, atiram a bola aos vidros das janelas, é só prejuízo, são gaiatos malditos!».

Em Vila Franca de Xira eu vivi no Bairro do Bom Retiro e uma das nossas vizinha era completamente analfabeta. Mas, ao contrário de outras pessoas, em vez de se preocupar em aprender a ler e a escrever, essa vizinha tudo fazia para esconder dos outros que era uma iletrada. Quando ia ao cabeleireiro, no coração da Vila, ela pegava nas revistas daquele tempo (a Plateia, o Século Ilustrado, a Flama, a Crónica Feminina) e fingia ler mas fingia tão mal que os bonecos ficavam ao contrário (ou seja de pernas para o ar) denunciando assim a sua visceral incompatibilidade com o universo de Gutemberg. A sua enorme falta de jeito para lidar com as palavras era evidente. No que diz respeito à máquina de costura o mesmo se passava. Ela estava completamente a leste das agulhas e das linhas, dos moldes e dos alfinetes, das tesouras e dos figurinos. Ou seja, dito o mesmo mas de uma outra maneira mais simples e eficaz, «Essa, nem bainha nem botão!» – como sempre dizia a brincar a minha avó Flauta. Mas a nossa vizinha analfabeta surpreendia tudo e todos com as suas opiniões sobre assuntos de costura mesmo quando ninguém lhas tinha pedido. Foi chamada um dia à pedra por um grupo de vizinhas acerca da distância entre os conhecimentos e as opiniões («Você nem sequer tem máquina de costura, mulher!») ela respondeu toda enxofrada: «Eu cá nan sei fazeri mas sei pôr defêto!». Foi uma risota geral no nosso Bairro e a prova de que aquilo foi histórico como exemplo de uma parvoíce é que ainda hoje me lembro dessa cena que parecia um filme com António Silva e Beatriz Costa. Um filme a preto e banco tal como o mundo nos surgia nos écrans de televisão no café do senhor Jorge onde os homens jogavam à malha para ver quem pagava as rodadas de vinho.

Quarenta e cinco anos depois dessa história rocambolesca parece que ainda lá estão no café os homens a jogar e a sorrir perante os comentários de quem, como eu, de cima os vê derrubar o paulito. A sorrir. Sempre. Como numa fotografia eterna de onde nenhum de nós saiu nem vai sair nunca.

6 thoughts on “ESTRADA DE MACADAME”

  1. Não queiras sair nunca da fotografia, JCF. A saudade dá-nos um sentimento de saborosa eternidade. ( e eu só quero ser eterno, se for assim, de outro modo que a vida seja breve e nem haja eternidade nenhuma!)

  2. JCF
    Esse seu recordar também me traz à memória coisas idênticas. Quando se aproximava o meio-dia e não aparecíamos em casa para levar o comer aos nossos pais, lá vinha o vozearia de uma qualquer mãe a chamar pelo filho mas, ao contrário de chamar maldito, era ao Joaquim, como não respondia, a seguir era ao meu filho da puta, vens ou não vens.
    Gosto de recordar esse tempo, as frases não.

  3. uma crónica gira e actualissima…

    os criticos sem obra e talento, continuam a andar por aí de tesoura no bolso, JCF…

  4. pois é luis eme, quem nunca compôs uma “modinha” que seja não pode criticar uma sonata, completamente de acordo. Quem nunca nunca fez um filme não deve criticar cinema. Em suma, a critica só pode vir de quem têm experiência da função. Parece-me que sim!

  5. Ouvir a “Ti Maria Espanhola” a chamar o filho Manuel “anda cá filho da puta” é uma das recordações da minha infancia, numa aldeia da Beira Baixa ,onde ia passar férias de verão. Eu era um dos previlegiados, era filho do Sr. Doutor(o meu pai não era médico mas era formado em história)e tinha saído daquela aldeia para ir estudar no colégio das missões laicas num concelho próximo.Tinha vindo para Lisboa estudar na faculdade de letras-daí o sr. Doutor.Lembro-me bem da miudagem descalça e com os calções abertos no rabo para evitar” acidentes”.Os pés descalços reduziam as despesas .Muitos pares de sapatos lá deixei para os meus companheiros de brincadeira.Nunca mais vi a maior parte dêles, e tenho saudades daqule tempo.O Manuel, filho da “Ti Maria Espanhola” emigrou para o Brasil e por lá ficou, penso eu que enriqueceu.Nunca mais lá voltei , mas quero lá ir o mais depressa que conseguir,para ver o que aconteceu á miudagem da minha infancia e se ainda amdam descalços e com as calças abertas no rabo.

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