Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Balada do meu amor

(sobre um tema de Pedro Homem de Melo)

O meu amor anda em fama
Mesmo assim lhe quero bem

Saltam pedaços de lama
Não acertam em ninguém

E batem a todas as portas
Profetas de voz medonha
Á noite às horas mortas
Não se percebe a vergonha

Do Aljube ao Limoeiro
Vai a distância de um grito
No olhar do carcereiro
Está tudo o que não foi dito

Entre Peniche e Caxias
Não pude escolher prisão
Na pele negra dos dias
Brilha o fogo da paixão

Fosse da boca a vermelho
Ou dos teus olhos escuros
Minha vida foi um espelho
Partido contra os muros

Nas prisões sou condenado
Sofro estranhas sentenças
Procurei por todo o lado
Só encontrei indiferenças

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Gazeta 149

«A oração é uma forma de poesia, a poesia é uma forma de oração»

Do tempo da Estrada de Macadame a oração que mais vivamente recordo é a «Salvé, Rainha». Soube outro dia numa conversa entre escritores que o poeta Mário Cesariny considerava esta oração um dos mais belos poemas de todos os tempos. Vale a pena recordar: «Salve, Rainha / mãe de misericórdia / vida, doçura, esperança nossa, salve! / A Vós bradamos / os degredados filhos de Eva. / A Vós suspiramos, gemendo e chorando / neste vale de lágrimas / Eia, pois, advogada nossa / esses Vossos olhos misericordiosos / a nós volvei. / E depois deste desterro / nos mostrai Jesus, bendito fruto / do Vosso ventre. / Ó clemente, ó piedosa / ó doce Virgem Maria. / Rogai por nós, Santa Mãe de Deus / para que sejamos dignos das promessas de Cristo.»

Esta revelação de um poeta da dimensão de Mário Cesariny sobre o valor poético de uma oração tão conhecida e tão rezada em todo o Mundo, levou-me a fazer, eu mesmo, uma reflexão sobre esta relação entre a poesia e a oração. O mesmo é dizer entre oração e poesia. Vejamos:

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Fátima Murta

Fátima Murta – Quando o poema se confunde com a oração

Desde sempre os poetas tiveram a coragem de chamar todas as coisas pelos seus nomes. Pois se a vida é tão breve e o amor tão incerto que outra oposição podemos fazer à morte além da criação de poemas, pequenos alicerces na grande casa da posteridade?

A posição do poeta é coincidente com a do crente. Ambos ajoelham em silêncio e ambos levantam do chão a palavra cansada para ligar de novo dois mundos separados pela distância, pelas sombras e pelo esquecimento.

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Crónica Açores

O pêlo branco de Faustino

O livro «Estórias de Alvalade» de Luís Miguel Pereira, editado pela «Prime Books» tem na sua página 137 um curioso depoimento de Artur Agostinho, apresentado como ex-relator desportivo, actor e empresário: «Relatei muitos golos do Travassos, do Peyroteo, do Tavares da Silva… golos de grande recorte técnico como os do Vasques ou aqueles golos do Faustino, a quem chamavam o Pêlo Branco.» Isto é o que está no livro mas Artur Agostinho nunca poderia ter dito isto. De facto Faustino da Silva Pinto, nascido em São Paulo no dia 30 de Agosto de 1937 e jogador do Sporting Clube de Portugal no tempo de futebolistas de grande categoria como David Julius, Fernando, Lúcio e Seminário era conhecido como o Pelé branco de São Paulo. O seu ídolo no Brasil era o grande Leónidas e Faustino veio para o Sporting depois de ter dado nas vistas no Palmeiras, no Santa Cruz e no São Paulo. Ora ser o Pelé branco não é o mesmo que ser o Pêlo branco. Esta não lembrava ao diabo. Só há uma explicação. A pressa era tanta que veio ao de cima o desconhecimento e a ignorância dos factos. Possivelmente o depoimento foi gravado e ao ser transcrito foi mal percebido. Daí Pêlo em vez de Pelé. Mas depois não houve um revisor talvez porque como diz um empresário de jornais «isso não é preciso porque os computadores já fazem a revisão.» Só que esse pobre diabo não percebe a diferença entre revisão ortográfica e leitura do sentido. O sentido de uma frase só uma pessoa o pode perceber. Os computadores apenas reparam nos erros de ortografia. Nada mais. Fiquemos pela frase de Fernando Pessoa -«o que não tem sentido é o sentido que tudo isto tem.»

Da poesia, da oração, do amor e da morte

Os Estados existem com seus rituais, suas fronteiras e seus hinos mas as pessoas, sejam essas pessoas cidadãos ou súbditos, não se regem pela mesma norma. Um exemplo: em Abril de 1897 disputou-se entre Madrid e Ávila o primeiro campeonato de Espanha de ciclismo de estrada, a prova que ficou conhecida como os «100 quilómetros de Ávila». Apesar de os favoritos serem oriundos de Réus, Valência e Torrijos, o vencedor foi José Bento Pessoa que veio com a sua bicicleta Raleigh duma cidade portuguesa chamada Figueira da Foz. Outro exemplo: já em 1829 o pintor Bernardo López Piquer tinha registado em óleo sobre tela a figura de Maria Isabel de Bragança, portuguesa, mulher de Fernando VII, grande aficionada das Belas Artes e fundadora do Museu do Prado.

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25 de Setembro de 2009 às 18h30

Sou, obviamente, suspeito. Afinal de contas, está ali o Arraiolos que me deu cabo das costas, a minha bela e única cidade, as duas Dianas feitas da mesma luz que ilumina as árvores e a relva, a campainha de uma bicicleta, sombras insuspeitas e uma das mais belas músicas de um dos grandes compositores e intérpretes nacionais, esse grande bacano cheio de talento que é o Francisco, aka Old Jerusalem. Apetece dizer que, naquele dia, todos os elementos se conjugaram em nosso favor: as duas estudantes Erasmus alemãs (obrigado, Merle e Judith) que de imediato aceitaram o repto, o magnífico tempo que naquele dia permitiu ao Palácio de Cristal fazer jus ao nome, os ruídos da fauna e do acaso, a voz, as palavras e a guitarra do Francisco. Apetece dizer, de facto, mas não digo – porque tal seria menosprezar a forma magistral como o André Tentugal filmou tudo isto e a superior captação de som do Alexandre (aka The Weatherman) da pop tones. E é precisamente ali, meninas e meninos, que o Rui Rio quer construir uma caixa de cimento. No que depender de mim, não deixo.

Açores Abril

Uma questão de palavras

Um dos grandes problemas do nosso jornalismo desportivo actual radica na oposição qualidade versus quantidade. Em quinze anos saltou-se de três jornais trissemanários (A Bola, Record e Gazeta dos Desportos) para três jornais diários com uma média de 46 páginas cada um (A Bola, Record e O Jogo). Ora não é possível fazer todos os dias nas actuais condições o jornalismo com alguma qualidade que se fazia nos jornais antigos. Dou apenas dois exemplos. O Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 1908 mas festejou o seu falso centenário em 2004 com a complacência dos três jornais diários em cujas páginas nenhuma voz se levantou para dizer a verdade. Outro dia o Lyon venceu o Werder Bremen por 7-2 e o título de uma crónica não assinada num dos jornais desportivos diários era este: «Apetite foraz de Lyon» quando deveria ter sido «Apetite voraz de Lyon». Não é só um problema de dislexia transposto para o jornalismo. É também a ausência de revisores, essa classe perfeitamente dispensável para alguns administradores de jornais que dizem muito compenetrados a sorrir: «Os computadores fazem isso» Santa ignorância a dos administradores: os computadores podem vigiar a ortografia mas só um ser humano com a sua inteligência e intuição pode perceber o sentido. Como aquela história da expressão «chicória» humana atribuída por um jornalista ao Dr. Dias da Cunha em vez de escória humana que ele tinha dito de facto. Uma questão de palavras…

Luís Veiga Leitão

– Uma memória feliz em algumas histórias exemplares

De Luís Veiga Leitão guardo diversas memórias, todas felizes. Comecei por ter o gosto de incluir um poema seu no livro «O Trabalho – Antologia Poética» que organizei com Joaquim Pessoa e Armando Cerqueira para o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. Mais tarde encontrámo-nos em Vila Viçosa num encontro poético promovido por Orlando Neves e no qual participavam (entre outros) Mendes de Carvalho, Raul de Carvalho e Manuel Lopes. Num divertido almoço com um grupo de senhoras que gravitavam à volta dos poetas e queriam entrar no Círculo da Poesia Portuguesa, uma das senhoras dirigiu-se a Luís Veiga Leitão (que ostentava o seu nome na camisa e era de longe o poeta mais bonito do nosso grupo) perguntando com alguma ingenuidade: «O senhor fez parte do processo dos 254 e esteve preso em Caxias, não esteve?» A resposta do nosso poeta foi de um fino humor que arrasou por completo a senhora: «Não minha senhora! Eu sou muito mais antigo. Eu estive preso mas em São Julião da Barra!» A senhora em vez de sorrir com a piada que colocava Luís Veiga Leitão ao lado de Gomes Freire de Andrade no século XIX, respondeu apenas: «Desculpe!»

Uma vez pedi-lhe um depoimento sobre o poeta Daniel Filipe e ele escreveu um texto enxuto e sem emendas, um texto manuscrito entenda-se. Saiu numa edição especial do jornal «Poetas e Trovadores» que dirigi com Joaquim Pessoa e Travanca Rego em 1982 e 1983. Ainda hoje guardo esse belo depoimento sobre Daniel Filipe – um poeta quase esquecido e que é também um brilhante cronista.

Luís Veiga Leitão distinguia os amigos com cartas escritas à mão num modelo com um pastor a tocar flauta. Uma das suas cartas foi por mim oferecida para um leilão a favor da Associação Portuguesa de Escritores e foi arrematada no Fórum Picoas pelo galerista que era proprietário da Galeria 111 no Campo Grande.

Uma última história que recordo com ternura: o desabafo que teve para comigo em Moimenta da Beira depois de uma homenagem da Câmara Municipal que colocou uma placa na casa onde o poeta nasceu: «Não se sabe. Não se sabe. A minha tia tem a ideia de que foi ali mas isso também não interessa muito.» E é verdade. O que interessa é que foi em Moimenta que nasceu o poeta Luís Veiga Leitão, um grande poeta português do século XX e de sempre. Uma das vozes mais puras e genuínas da nossa tradição lírica.

Isto, já agora, se eu não estou em erro…

O livro da minha vida – Dia Mundial do Livro

«Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira

Ler «Uma abelha na chuva» em 1969 numa Lisboa temerosa, vagarosa e desenhada a preto-e-branco foi, para mim, a descoberta de um escritor e de um mundo. Carlos de Oliveira escrevia romances como quem escrevia poemas, sem excessos palavrosos, com uma carpintaria essencial. As personagens movem-se na Gândara, a região onde o autor viveu a sua meninice: «terra areenta, infértil, dunas, lagoas pantanosas, pinhais, casas de adobe». As duas figuras-chave do livro continuam ainda hoje para mim inesquecíveis – Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre. E o conflito entre a aristocracia decadente e a burguesia em ascensão: amor e desprezo, ciúme e prazer, ódio e ternura. Notável é neste livro de 1953 como o autor pressente (mais de vinte anos antes…) o regresso dos «retornados» e os seus conflitos pessoais e sociais. Eu tinha dezoito anos e a minha paixão pela literatura nascera no Ciclo Preparatório em Vila Franca de Xira com os poemas de Cesário Verde e com os contos de D. João da Câmara e de José Loureiro Botas. O primeiro dava-me o Mundo, o segundo dava-me a Cidade, o terceiro dava-me o Campo no Inverno e a Praia no Verão. Mais tarde as fotografias de Augusto Cabrita e o filme de Fernando Lopes com Laura Soveral e João Guedes nos principais papéis vieram dar outra visibilidade ao livro em cujas páginas a morte duma abelha pode ser também a metáfora da morte dum certo tempo português. E este romance é a perfeita memória descritiva dessa mesma morte. Porque tudo aqui funciona em harmonia, o tempo interior das personagens, seus sonhos e angústias, mistura-se de forma feliz, acertada e completa com o tempo geográfico, uma aldeia perto das lagoas pantanosas mas a dois passos do mar onde as ondas das marés vivas levarão de noite o corpo do cocheiro assassinado. «Uma abelha na chuva» é um excelente ponto de partida para alguém descobrir o autor de uma das mais importantes obras de poesia e romance do século XX. Ainda me lembro, tantos anos depois, das últimas palavras do romance depois de alguém num grupo de mulheres chamar o Dr. Neto porque a Clara em desespero se tinha atirado ao poço da olaria: «A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

Nota final – Só o facto de pensar que estas palavras possam vir a ser traduzidas para brasilês deixa-me, desde já, arrepiado.

Avenida da Liberdade

Tão certo como se tivesse sido combinado

Ao telemóvel numa mensagem recebida

Numa cidade com ruas por todo o lado

Logo havia de te encontrar na Avenida

Uma alegria há muito tempo perseguida

Num intervalo quase terra de ninguém

Mas eu já via o teu olhar numa ermida

Na romaria anual da terra da tua mãe

Teimo ver no risco do quiosque a capela

Na tua pressa a ideia da promessa a pagar

A tua garrafa de azeite deixada na janela

Faz de noite a luz da lamparina no altar

Um sonho destruído pela ambulância

Que passou agora em alta velocidade

Rasgando na tua pressa uma distância

Trazendo ao meu olhar outra saudade

Vinte Linhas 416

«A casa e as sombras» de Joaquim do Nascimento

Este é um título feliz para o conjunto de 18 crónicas sobre uma aldeia do Alto Douro (Pereiros) e os seus quotidianos entre 1930 e 1980. A casa pressupõe sinais de vida; as sombras são sinais de morte. Entre a vida e a morte, estas crónicas são povoadas por pessoas e pelas suas memórias. Ou seja: «As casas fizeram-se para serem habitadas. Mas não chegaram a cumprir o seu destino, mudada que foi a sina de quem lá iria viver e, desabitadas, começaram a sofrer de frio, a criar fantasmas, a revelar segredos antigos. E o povo começou a olhá-las de lado.»

O autor domina a geografia do espaço («Esta rua, sem deixar de ser a mesma, toma várias designações ao longo da sua extensão: Fonte da Ladeia, Rua de Cima, Cômbaro, Fundo do Povo, Rua de Baixo, Acácias») mas também a dos afectos a partir dum retrato a enviar para Angola: «Vê lá tu António estão lindas as nossas filhas, olha como cresceram e se fizeram mulheres. Que mal te fizemos nós, António?» A partir de uma foto de estudantes surge outra memória: «Sinto um terno prazer em revisitar cada um de vós, nome, rosto, voz, a circunstância, a terra, já soube de cor a terra de cada um de vós, nesse tempo era mais natural perguntar a alguém donde és do que perguntar quem és porque o lugar onde se nascia era um elemento importante da identidade».

Entre a casa e as sombras fica o registo das tarefas agrícolas («Vindimas pobres, sem rogador, nem rancho, nem concertina, nem ferrinhos, nem bombo») dos artistas de ofício («carpinteiro, pedreiro, sapateiro, modista, alfaiate, tecedeira, ferrador, barbeiro») e das viagens: «Da Meda para o Pinhão era jornada de meio-dia. Antes do Vilarouco fica os Pereiros, aqui entrava pouca gente e saía ainda menos, mas quem quisesse ir dos Pereiros a Penedono ao mercado quinzenal subia a pé o Monte Airoso que começa nas margens do rio Torto, Póvoa, Bebezes, Granja, Santa Eufémia, o castelo sempre à frente, para descer à tardinha. A Fernanda sabe.»

(Editora: Padrões Culturais, Apoio: Associação Amigos de Pereiros, Capa: Mário Andrade)

Re-Intermitência

 

 

 

“Agora que te conheço tão bem, vejo-me forçado a admitir que tens toda a razão quando dizes que soubeste como envelhecer”, confesso, entre um beijo quente e outro, a M. “Mas, na realidade, prefiro aquelas que souberam como não envelhecer”, acrescento. E, delicadamente, retiro a minha língua de dentro da boca dela.

Um livro por semana 141

folclore íntimo valter hugo mãe

«folclore íntimo » de valter hugo mãe

«Entre solidão e perplexidade» – poderia ser este o título desta recolha poética de valter hugo mãe (n. 1971) que engloba 13 anos de labor poético. Um ponto de partida possível é o Eu: «és um rapaz estranho, aí metido num amor nenhum que te magoa e espera ter lugar no mundo». A solidão desse Eu é atravessada pelas memórias de África («as mulheres excisadas alinharam-se perante eles e exigiram a morte») e da Europa: «o meu irmão dizia que havia fantasmas no sótão. eu via-os de encontro às paredes».

Perante a perplexidade do Mundo e da Morte («os homens mortos ficam a comer erva pela raiz. vi num sonho») só o Amor surge como resposta: «já reparaste na maneira engraçada como nos deixaram sozinhos. foi propositado. sabem enfim que gosto de ti e que poderemos casar, um dia, quando formos mais velhos». Apesar dos desencontros: «somos cruéis / tão imaturos no amor / que ele acaba por ir-se embora / talvez para nunca mais voltar / perdoa-me helena».

A vida («estou no enredo irrevogável da minha vida») não se esgota no quotidiano; há respostas nas artes e nas letras como no dia da morte de Mário Cesariny: «vamos levar-te para o panteão mas não sem antes surrealizar aos gritos os chatos que lá estão / traz mais dinheiro o que tenho hoje não chega para ser feliz / amanhã vendo algo e pago-te».

Entre a ameaça da Morte e o precário do Amor, a felicidade é possível: «quem deixou sobre o coração / um feixe de luz / não cega nunca».

(Editora: COSMORAMA, Capa: José Rui Teixeira sobre imagens de Nelson d´Aires e Isabel Lhano, Foto: Nélio Paulo)

Vinte Linhas 415

«Você tem-me cavalgado, seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você»

Passam dois anos depois do escândalo do golo fantasma que ditou a vitória do Porto sobre o Sporting por 1-0 com um árbitro do Belenenses a ir à televisão explicar tudo (Jorge Coroado) pois a palavra deliberadamente é chave na interpretação da letra da lei. Um jogador caído no chão só faz cortes; não faz passes. Dois anos depois aí está novo escândalo. O responsável pelos árbitros que se calou como um rato depois do golpe do Algarve com aquele penalty fantasma que levou o Benfica ao colo na Taça da Liga, afirmou agora que esta era uma nomeação «normal». Mentiu. Este árbitro Duarte Gomes está envolvido num processo pois agrediu o treinador de guarda-redes do Sporting antes dum jogo Sporting-Setúbal depois de ter entrado pela baliza dentro dos «leões» no aquecimento. Também empurrou o «segurança». Se houvesse uma réstea de bom-senso nesse trambolho (Vítor Pereira) não teria nomeado este Duarte Gomes pois só atirou petróleo para a fogueira. Ontem ele poupou a expulsão ao Raul Meireles e foi lesto em dar dois amarelos ao Miguel Veloso em duas faltas mas esqueceu-se de mostrar cartão ao Tomás Costa quando este trambolho deu uma joelhada ao Caicedo e não mostrou amarelos aos jogadores do Porto que fizeram faltas violenta e sucessivas. Sei que isto está tudo montado pois por um lado o Porto tem que «ganhar sempre custe o que custar e doa a quem doer» e o Benfica investiu mais de 50 milhões de euros em jogadores e, tal como se viu em Leiria, esse investimento não se pode perder. Lembro-me sempre dos versos do Alexandre O´ Neill – «Você tem-me cavalgado seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você / que uma coisa pensa o cavalo / outra quem está a montá-lo».

Um livro por semana 143

irene flunser pimentel história das organizações femininas do estado novo

«História das Organizações Femininas do Estado Novo» de Irene Flunser Pimentel

Os ideólogos do Estado Novo fizeram os possíveis por colocar as raparigas nas Escolas Técnicas de onde sairiam como assistentes sociais, professoras, parteiras e enfermeiras. A Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) de 1936 e a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) de 1937 são estudadas neste volume de 456 páginas. Apenas três breves notas. Em 1938 a delegada de Braga da OMEN reclamava contra «a crueldade de certos capitalistas que rebaixa de forma aviltante o salário em favor dos seus lucros». Em 1941 o Boletim da MPF definia a rapariga ideal no texto «O que nós queremos que as raparigas sejam» nos seguintes termos: «verdadeiras, amáveis, sãs, novas, elegantes, activas, contemplativas e boas» enquanto a revista Menina e Moça alinhava as qualidades a possuir («simplicidade, elegância, boa educação e cultura») e os defeitos a evitar: «má-língua, vaidade, desleixo, cólera, curiosidade, tagarelice, indolência e arrogância».

A Menina e Moça, muito preocupada com a moral, publicava em 1958 uma curiosa «Carta a uma rapariga» dirigida a um casal visto no cinema que concluía deste modo: «não gostei do modo como quase te abandonaste sobre o ombro. Fiquei com a impressão que se ele te pedisse um beijo lho darias (…) pensas que te vais casar com ele mas talvez isso não aconteça. Não estou a chamar-te estúpida mas é que as teorias modernas têm o condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de alguém que te tire dessa onda de modernismos e inconsciência. Confia tudo à tua mãe».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Fernando Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 414

Cardoso Pires, de súbito, numa rua da Ericeira

Na pontuação destes dias de Setembro a espuma branca das ondas na Foz do Lizandro faz com que elas pareçam parágrafos e os rapazes estrangeiros, quando passam com as pranchas debaixo do braço a caminho do mar, parecem pontos de exclamação. É o fim das férias para quem trabalha e haver mesas com menos gente na esplanada é já um sinal. Os outros, desempregados de longa duração ou sujeitos a biscates ocasionais, não podem dizer que estão de férias. Pelo contrário; eles sabem que não há nada mais sem esperança do que um recibo verde. Terminado o meu dia de trabalho frente ao ginger ale e ao livro à espera de uma nota de leitura, despeço-me da praia do Lizandro trazendo nos ouvidos o som da rebentação e no nariz a força do iodo tão comum das praias do Oeste. De súbito Cardoso Pires aparece numa placa no nº 35 da Rua (salvo erro) Francisco Granate. São estas as palavras: «Nesta casa viveu José Cardoso Pires com os seus amigos. A sua escrita e a dignidade solidária de um dos maiores escritores do nosso tempo. Maio 1999». Esta rua não faz parte das minhas voltas diárias mais voltadas para o Parque de Santa Marta e para o Jogo da Bola, para a Biblioteca Municipal e para o simpático café em frente – o Paloma. Dei por mim a pensar numa história que JCP me contou na Estufa-fria numa mesa com Maria Ondina Braga e António Torrado. Um indivíduo pede boleia ao Cardoso Pires no Porto, mete conversa, julga-o conhecido da tropa e, em Coimbra, surge a polícia de trânsito. Excesso de velocidade dá multa. O da boleia tenta convencer o polícia a perdoar. Já em Lisboa o desconhecido pára nos Olivais e entrega a JCP não só a carta apreendida pela PVT mas também o caderno completo das multas. Era um profissional.

Nota final – esta crónica integra a antologia das crónicas jornalísticas do século XX de Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores.

Vinte Linhas 413

Estive duas vezes de acordo com Pinto da Costa

Corria o ano de 2002 e a editora Padrões Culturais acabava de publicar o meu «Os guarda-redes morrem ao domingo» que foi apresentado na FNAC Colombo por Manuel Alegre. Como há nesse meu livro um poema para Pavão, contactei o senhor Pinto da Costa e ele deu-me a morada para lhe enviar um exemplar. Ainda recordo essa morada: FCP SAD Avenida Fernão de Magalhães 4350-158 Porto. Estive de acordo com Pinto da Costa. Corria do ano de 2006 quando surgiu um novo jornal desportivo cujo primeiro número incluía uma entrevista com Jorge Nuno Pinto da Costa realizada (salvo erro) por Vasco Resende. Guardei o dito jornal para o oferecer à mãe do Miguel Garcia, Dona Albertina Garcia e fui a Moura de propósito para lho entregar. A razão desse «estar de acordo» é simples: Pinto da Costa nessa entrevista recordava um lance ocorrido no Estádio José Alvalade entre Miguel Garcia e Simão Sabrosa quando, na grande área do Benfica o primeiro foi derrubado pelo segundo. Mas o árbitro não marcou embora estivesse perto. Estive de acordo com Pinto da Costa duas vezes: uma por razões poéticas e sentimentais, outra por razões de arbitragem. Lembrei-me disso hoje ao ver como a União de Leiria foi brutalmente prejudicada com a marcação de uma grande penalidade completamente inventada. O lance é um simples corte, o jogador leiriense joga apenas a bola, nada mais. Lembrei-me porque o árbitro é o mesmo. O que não viu em Alvalade viu em Leiria. Sou do tempo em que os árbitros eram todos do Benfica menos o Décio de Freitas (OS Belenenses) e Joaquim Campos (Sporting). Em Portugal de 2009 voltou a coboiáda em que é tudo do xerife. Não há quase ninguém do lado dos índios.

Esboço para um retrato

Agora eu pouco sei das tuas rotinas

O chão do poema é deserto povoado

As nuvens são o aviso das neblinas

E este vento traz um frio antecipado

Há aqui uma luz azul intermitente

No carro da patrulha estacionado

A mensagem para ti está pendente

Ouves a confusão no prédio ao lado

Agora eu pouco sei das tuas rotinas

Ao fim da tarde, telemóvel desligado

O teu rosto desenhado nas cortinas

Mantém toda a frescura do passado

Quando ias entre a Estrela e a Graça

No eléctrico tão ronceiro à janela

A madrinha pedia as coisas da praça

À noite ias da Graça para a Estrela