Vinte Linhas 414

Cardoso Pires, de súbito, numa rua da Ericeira

Na pontuação destes dias de Setembro a espuma branca das ondas na Foz do Lizandro faz com que elas pareçam parágrafos e os rapazes estrangeiros, quando passam com as pranchas debaixo do braço a caminho do mar, parecem pontos de exclamação. É o fim das férias para quem trabalha e haver mesas com menos gente na esplanada é já um sinal. Os outros, desempregados de longa duração ou sujeitos a biscates ocasionais, não podem dizer que estão de férias. Pelo contrário; eles sabem que não há nada mais sem esperança do que um recibo verde. Terminado o meu dia de trabalho frente ao ginger ale e ao livro à espera de uma nota de leitura, despeço-me da praia do Lizandro trazendo nos ouvidos o som da rebentação e no nariz a força do iodo tão comum das praias do Oeste. De súbito Cardoso Pires aparece numa placa no nº 35 da Rua (salvo erro) Francisco Granate. São estas as palavras: «Nesta casa viveu José Cardoso Pires com os seus amigos. A sua escrita e a dignidade solidária de um dos maiores escritores do nosso tempo. Maio 1999». Esta rua não faz parte das minhas voltas diárias mais voltadas para o Parque de Santa Marta e para o Jogo da Bola, para a Biblioteca Municipal e para o simpático café em frente – o Paloma. Dei por mim a pensar numa história que JCP me contou na Estufa-fria numa mesa com Maria Ondina Braga e António Torrado. Um indivíduo pede boleia ao Cardoso Pires no Porto, mete conversa, julga-o conhecido da tropa e, em Coimbra, surge a polícia de trânsito. Excesso de velocidade dá multa. O da boleia tenta convencer o polícia a perdoar. Já em Lisboa o desconhecido pára nos Olivais e entrega a JCP não só a carta apreendida pela PVT mas também o caderno completo das multas. Era um profissional.

Nota final – esta crónica integra a antologia das crónicas jornalísticas do século XX de Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores.

4 thoughts on “Vinte Linhas 414”

  1. Bela crónica de fim de Verão, JCF, do tempo em que as estações ainda se distinguiam umas das outras e, no Outono, as praias de Sintra e dos arredores perdiam, finalmente, a neblina de Verão e deixavam passar o Sol e o Mar, em todo o seu esplendor.
    Trouxe-me saudades do Algarve onde vou voltar depressa, enquanto o peneco está de pé, à procura de Alexandra Alpha.
    E de qualquer coisa de mais forte do que o seu ginger ale a que já lhe vi acrescentar uma rodela de limão.
    Assim, com um bom lastro, não temerei os bons malandros com que JCP conviveu, meu caro JCF, nem os maus.
    Jnascimento

  2. Como dizia e escrevia o Eduardo Guerra Carneiro – «isto anda tudo ligado». O livro de que falo no texto é o «Historia das Organizações Femininas do Estado Novo» de Irene Pimentel, edição da Temas e Debates. Andava à procura de um exemplo para o «ar» da Manuela F. Leite e apareceu-me nesse livro – tem o «ar» de uma comissária da Mocidade Portuguesa Feminina. A nota fibal é espantosa – sabia que aquela história não me era estranha e por um bambúrrio de sorte descobri o livro do Fernando Venancio, do Circulo de Leitores. Há hoars felizes – já dizia o cauteleiro.

  3. Meu caro José do Carmo Francisco:
    Embora isto ande tudo ligado, estaremos a falar da mesma coisa ?
    Onde ficou, então, a sua resposta ao meu post, se posso interpelá-lo deste jeito?
    Um abraço
    Jnascimento

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