Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 412

Avieiros – A Leandra de Loureiro Botas chegou em 1938

No texto anterior que dava conta da reunião de um grupo de 16 carolas em Alpiarça para arrancar um Fórum Ribatejo (ou coisa parecida) pois o Tejo está em perigo e a causa dos avieiros é um bom pretexto, cometi um erro crasso por omissão. Referi-me ao livro «Avieiros» de Alves Redol de 1942 mas esqueci-me que José Loureiro Botas tinha publicado em 1940 o seu célebre «Litoral a Oeste» com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. Nesse livro de contos (Prémio Fialho de Almeida em 1940) um deles («A Leandra») foi escrito em 1938 e ganhou o prémio literário desse ano do Ateneu Comercial de Lisboa. Loureiro Botas nasceu na Vieira de Leiria, viveu em Lisboa e conheceu bem as histórias dos avieiros como a Leandra. Vamos ao conto.

A Leandra quase naufragou uma noite no Tejo e por isso «sabia rir de tudo, sem ligar importância aos pequeninos nadas». Um dia foi pelo Tejo acima com o seu marido (o Joaquim) e os dois filhos mais pequenos (os outros três ficaram com a mais velha em casa) mas de repente apareceu um temporal e ficou escuro como «a ferrugem da chaminé» mas o pior foi que começou a chover muito e veio uma trovoada. No meio do medo e da confusão aperceberam-se da chegada de uma barca grande com o António Milhafre, pescador conhecido a quem pediram ajuda. A resposta do outro foi «arranjem-se como puderem, levo o barco a abarrotar de peixe e não o vou perder por causa de vocês». Horas depois rompeu o dia e apareceu um barco grande que os ajudou num reboque gratuito. Do António Milhafre nunca mais ninguém soube. Do seu barco só bocados «tábua aqui, tábua acolá». A Leandra nunca mais quis nada com tristezas.

As mãos de meu avô José Almeida

Caiu o telhado. Não sei se imaginas

Como tudo agora é sombrio e triste

A casa onde vivemos está em ruínas

O quarto onde se nascia já não existe

As pedras e os barrotes são só entulho

Ficou tudo acumulado no rés-do-chão

Há um silêncio onde antes era barulho

Que era um sinal de vida em profusão

Fosse na casa, no quintal, no palheiro

Onde também se fazia o nosso lagar

As tuas mãos à luz do velho candeeiro

Trabalhavam na noite fora sem parar

E aos domingos a trompete tão diferente

Faiscava entre a luz do sol na procissão

As tuas mãos, o chumbo e a água quente

Faziam na trompete um som de perfeição

Vinte Linhas 411

Alpiarça: Depois de uma adiafa no Patacão nasceu o Fórum Ribatejo

Apesar de fazer parte do emblema de Alpiarça, o barco avieiro parece estar perdido nos alçapões do esquecimento. Almoçar na sombra dos salgueiros do Patacão uma magnífica caldeirada feita pelo avieiro Fernando Saboga, foi uma espécie de adiafa sentimental. Os 16 convivas (amigos, antropólogos, músicos, investigadores, jornalistas) homenagearam a memória de Álvaro Brasileiro na presença do seu filho. Alguns desandaram dali pois não suportam ver a aldeia abandonada e em total degradação, outros talvez mais resistentes ao esplendor das ruínas, andaram pelo interior das casas dos avieiros que ainda não caíram de todo. Há ali ainda um frémito de vida. Roupas, facturas, papéis diversos. Um relatório de 1972 sobre um «RX» dum avieiro no Cartaxo, quatro páginas da bateria de análises feita em 1971 a uma avieira em Alpiarça. O forno comunitário e a respectiva barraca de apoio (onde ficou esquecida uma garrafa de Rical) são o contraponto do lado de cá ao abandono das casas do lado de lá do dique onde algumas árvores cresceram e derrubaram os telhados. A secura e a aridez da areia completam a desolação das casas. Horas depois a sala da Junta de Freguesia, local onde se realiza a Assembleia Municipal, recebe os 16 agentes culturais com uma mentira na parede – um quadro que anuncia a recuperação do Patacão. Mas o processo dos avieiros não pára; ainda agora um grupo de investigadores foi recebido no Ministério da Cultura (parece que existe…) e um Blog vai nascer para contactos activos dos agentes culturais do Ribatejo que nele queiram participar. É tudo uma questão de coração. Afinal Alves Redol escreveu «Avieiros» quando descobriu que a sua avó de Tomar era neta, filha, irmã e viúva de avieiros.

Balada da Praça da Fruta

(a Carlos Querido)

João Cristo, sua cocheira

Onde o meu avô sabia

Que a burra trabalhadeira

Era a dez tostões por dia

Ficava ela a descansar

Nas cocheiras da cidade

Desconfiada do lugar

E moscas em quantidade

Minha tia Francelina

Nascida no Zambujal

Vinha vender obra fina

Os bichos do seu quintal

Numa carroça pequena

É que o seu mundo cabia

Sempre calma e serena

Dava-me um beijo e sorria

Exame era uma guerra

Bebemos uma gasosa

O grupo da minha terra

Não levou uma raposa

Nos armazéns do Chiado

Pronto-a-vestir é um fato

Nunca tinha reparado

Neste novo artesanato

Meu exame da terceira

Foi feito sem companhia

Em Abril, segunda-feira

Já não me lembro o dia

Chamado para a inspecção

Sou dado como capaz

Dentro duma contradição

Não sou guerra mas paz

Minha prima Deolinda

Professora de crianças

Na doçura que não finda

Dava-me muitas esperanças

Suas torradas matinais

A caminho do regimento

Davam-me forças especiais

Para marcha e movimento

Fosse das suas orações

Ou fosse da entrevista

Eu passei sem ralações

E fiquei em contabilista

Com três filhos crescidos

E acrescentado um neto

Compro beijinhos pedidos

E cavacas no Gato Preto

Praça da Fruta eterna

Onde o mundo nunca pára

És tão antiga e moderna

Porque és uma praça rara

Povoada por mil paixões

Todos nós mesmo distantes

Trouxemos nos corações

A força dos teus instantes

E mesmo na chuva londrina

Tomas, meu neto à escuta

Recorda Santa Catarina

E lembra a Praça da Fruta

Intermitência

 

 

 

 

“O Dioguinho disse-me que te viu enfiar o teu pénis enorme dentro de uma mulher que ele nunca tinha visto antes”, diz-me, tortura e tormento, C. “É verdade? É”, pergunta-me, desesperada. “Sim, é verdade”, confesso. “O meu pénis é, de facto, enorme”, concluo, orgulhoso, antes de, com um brilho nos olhos, o afagar carinhosamente.

Vinte Linhas 410

Príncipe Real – A perversão dos ecologistas

Nada tenho contra os ecologistas. Fui ecologista nos anos 70 e 80 quando escrevi sobre o assunto e li todos os livros de Sicco Mansholt (1908-1995), o holandês que lutou contra os pesticidas e produtos químicos (em geral) que obrigavam os agricultores da Ardenas a beberem água engarrafada. A dos poços já não de podia beber. Sicco Mansholt foi presidente da Comissão Executiva da CEE depois de ter sido o vice entre 1967 e 1972.

Aqui no Príncipe Real tivemos um terramoto ecologista: vieram rebentar com a bomba de gasolina que havia no jardim. Depois de há alguns anos terem feito desaparecer a bomba que existia no Pátio do Tijolo, numa garagem de recolhas, vieram acabar com esta nossa bomba de gasolina. Um vereador recusou a prorrogação da licença com o argumento de que o espaço era para um silo de automóveis. O vereador saiu mas a licença nunca foi prorrogada; agora acabaram com a nossa bomba de gasolina. Digo nossa porque a vida na cidade só faz sentido se for organizada a favor das pessoas. A nossa bomba permitia um atendimento personalizado. Parece que não mas é importante. Já houve quatro pessoas de idade que venderam os seus automóveis pois não podem abastecer-se com um olho no burro outro no cigano. Além do mais na bomba comprava-se gás e gelo. Ela apareceu nas crónicas do Alçada Baptista. Não estava dentro de nenhum prédio. Foi sacrificada por uma perversão do espírito ecologista. A Câmara deixou-se ir a reboque de alucinados com a ideia de trocarem a vida verdadeira por uma vida falsificada feita de saladas em vez de carne, de animais em vez de pessoas, de bicicletas em vez de automóveis, de produtos ditos biológicos em vez de alimentos naturais. Uns trambolhos, enfim.

Vinte Linhas 409

O cavaleiro da Mongólia chegou ao Largo do Carmo

Ruslam Botiev, o pintor e escultor que veio da Mongólia para Portugal e a quem eu, por brincadeira, chamo cavaleiro da Mongólia, acaba de se instalar com armas e bagagens no Largo do Carmo. Depois de ter andado ao sol e à chuva pelas escadas da Basílica dos Mártires e da Igreja do Sacramento, este é o poiso ideal para Ruslam Botiev. Um pouco a exemplo do que aconteceu no Príncipe Real onde o pintor japonês Nagashima se instalou no quiosque do senhor Oliveira, este simpático cavaleiro da Mongólia está a expor e a vender os seus trabalhos junto do quiosque do Largo do Carmo. Mais protegido da chuva e do sol, a sombra do quiosque dá-lhe uma protecção objectiva. Deixou de ser nómada e tornou-se habitante do lugar, passando a integrar a paisagem.

Há um anúncio da Superbock no Youtube sobre a cerveja «Stout» no qual o amigo Ruslam Botiev surge como protagonista – é ele que entrega a rapariga a troco de 2 milhões de cervejas. Mas porta-se bem e não estraga a «menina» no momento do resgate. Mas voltando à pintura: ele continua a fazer os seus Cristos-Rei, as suas Praças de Touros, os seus Eléctricos de Lisboa, as suas Sés-Patriarcais e os seus cavaleiros da Mongólia. Às vezes em vez de cavalos são dromedários pachorrentos mas eficientes.

Gostei de ver Ruslam Botiev no Largo do Carmo. Aquele lugar que já foi um espaço de revolução está a ser para ele uma revolução silenciosa. Deixou de andar com a casa às costas, ao sol e ao vento. Deixou o precário e instalou-se num (relativo embora) quotidiano organizado e estável. Merece toda a sorte do Mundo este homem de paz, sempre armado dum sorriso capaz de desfazer todos os equívocos – «Bom dia Portugal!»

Um livro por semana 140

meu brasil brasileiro duda guennes

«Meu Brasil Brasileiro» de Duda Guennes

O jornalista Duda Guennes (Recife, 1937) vive em Portugal desde 1974 e colabora em A BOLA desde 1980 com «Meu Brasil Brasileiro». Ali cabem «crónicas, causos, estórias, factos, fofocas e acontecências» como esta curiosa definição de árbitro de Armando Nogueira: «O árbitro de futebol é o único ladrão que rouba a gente na presença de milhares de pessoas e ainda vai para casa protegido pela polícia». José Miguel Wisnick afirma que «A arte do amor, como a do futebol, é abrir espaços onde não há» e Rubem Braga testemunha que um dos maiores prazeres da vida é «Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro». Garrincha respondeu uma vez a um director que lhe chamou boémio por frequentar boates – «O senhor também já foi visto várias vezes em velório e não é defunto». Roberto Pásqua, presidente do Corinthians disse em 1985 – «Se minha vida particular atrapalhar o Corinthians, abandono a vida particular». Eurico Miranda, presidente do Vasco da Gama afirmou sobre a corrupção – «Ética é coisa de filósofo». Dissertando sobre a estética do futebol, o jogador Dadá Maravilha afirmou – «Não existe golo feio. Feio é não fazer golo».

Garrincha, farto de levar pontapés do chileno Eulálio Rojas no Mundial de 1962, gritou esta maldição – «Olha aí, ó panasca, vocês chilenos não jogam nada. O Chile só é bom em terramoto e mesmo assim perde para o Peru». Por fim um clássico: o médio Ananias antes de um Náutico-Santa Cruz no Recife disse – «Só faço prognóstico no final do jogo».

(Editora: Prime Books, Capa: Luís Afonso, Apresentação: Vítor Serpa, Prefácio: José Carlos de Vasconcelos)

Intermitência

 

 

 

 

“Disse, desde sempre, à minha esposa que só poderia, algum dia, porventura, traí-la se estivesse completamente sob o efeito do álcool”, explico, calma e objectividade, a F., uma loira espampanante que conheci na biblioteca. “Estou, por isso, a cumpri-lo à risca”, finalizo. E continuo, com método e paciência, a cobrir, com álcool etílico, o sexo erecto.

Vinte Linhas 408

«Outros frutos» de Luísa Ribeiro (uma leitura)

Organizada em dois capítulos («Outros frutos» e «Intervalo»), esta edição bilingue tem como ponto de partida a voz da solidão («Estou só e ferida») e como ponto de chegada o encontro do amor («tens um coração e dois / olhos como toda a gente mas não sei / o que te reveste de tão puro que ficas / parecido com a lua). Entre a solidão e o amor existe uma distância igual à que distingue a Natureza da Cultura: «não passas do papel / para a ogiva dos meus braços e morro / antes que me encerrem as palavras / numa fábrica de significados / e uma língua de água / me passe perdida no rosto / alucinado».

O segundo espaço («Intervalo») organiza-se em prosopoemas e desloca o fulcro dos textos do Corpo para a Casa: «A minha casa é eterna, se eu escrever a minha casa». Essa casa existe perto do mar («Vem da luz do mar aos meus olhos de fera perdida») e situa-se numa ilha: «Assaltam-me piratas na madrugada. Roubam-me da arca os bichos de pelúcia, degolam-me bonecas cegas e rasgam os poemas que te escrevi aos dez anos». Na desordem do Mundo a saída possível está numa peregrinação ao contrário – do Universal para o Local: «Sou peregrina de Compostela à Serreta. Faço descalça qualquer trilho, rumo infinito. Prometo aos pés doidas caminhadas. Guardo num vaso o cabelo rapado. Não evito urtigas, agulhas, espinhos e vou forte prometer a vida. Peço três desejos de águia. No regresso, tomo o caminho do Paraíso».

(Editora: DAURO, Prefácio e Tradução: Emílio Ballesteros, Prólogo: Nuno Júdice)

Intermitência

 

 

 

 

“Costumam dizer que eu sou parecido com o Nuno Gomes, aquele avançado do Benfica”, digo, estilo e pose, a uma morena sensual que conheço no bar do bairro. “Vês como é verdade”, reitero, orgulhoso, horas mais tarde e já no sofá da casa dela. E continuo, sem sucesso, a tentar acertar com o meu pénis no sexo aberto dela.

Um livro por semana 139

crepúsculo teixeira de pascoaes

«Crepúsculo» – antologia – de Teixeira de Pascoaes

Teixeira de Pascoaes (1877-1952) foi vítima, enquanto poeta, de uma espécie de «Sporting-Benfica» na literatura portuguesa: «Se lês Pessoa não leias Pascoaes». Quem lê Pessoa deve ler Pascoaes e Sophia e Herberto e Carlos de Oliveira e Ruy Belo e Jorge de Sena e Vitorino Nemésio. Não há Sporting-Benfica em literatura.

Este volume recolhe três livros publicados em 1924/1925 por Guilherme de Faria: Elegia do Amor, Sonetos e Londres. O mentor do Saudosismo («a religião da saudade») abre deste modo a Elegia do Amor:

«Lembras-te, meu amor / Das tardes outonais / Em que íamos os dois / Sozinhos, passear / Para longe do povo / Alegre e dos casais / Onde só Deus pudesse /Ouvir-nos conversar?»

Mas já os Sonetos entram em contradição; vejamos o início do poema Amor:

«Para que foi, Senhor, que ao mundo vim / Se eu hei-de, nesta vida, amar somente / A mais sequinha flor do meu jardim / E o bailado das sombras do poente?»

Já no livro Londres (dedicado a Aubrey Bell) a viagem na cidade inglesa (Trafalgar, Westminster, Hide Park) termina sempre na portuguesa saudade:

«Tudo é saudade… E aqui, debaixo deste Azul / Que a tristeza em feições quiméricas dilata / Evoco dolorido o meu País do sul / Lá, onde é oiro o sol que, neste céu, é prata».

(Editora: Cosmorama, Prefácio/Organização: José Rui Teixeira, Capa: sobre desenho de Carlos Carneiro, Apoio: Câmara Municipal de Amarante)

Vinte Linhas 407

Pátio do Tijolo – desapareceu a placa e no Gabinete ninguém faz nada

As pessoas que moram no Pátio do Tijolo entre os números 39 e 59 (onze habitações com vários andares) estão a ser prejudicadas pois o seu correio está a ser entregue na Calçado do Tijolo. Não se trata dum capricho do empregado dos CTT mas sim da consequência natural do facto de o empreiteiro da obra ter retirado a placa toponímica respectiva e de a mesma nunca ter sido recolocada. Ninguém inspeccionou, ninguém se apercebeu, ninguém se preocupou com o assunto. Tanto quanto sei as obras são fiscalizadas. Em teoria é assim, na prática não. Quando eu era membro da Assembleia de Freguesia da Encarnação queixei-me informalmente de ter perdido o meu bocado de Tejo que desde 1976 (ano em que vim para aqui morar) tinha a partir da janela da cozinha. Tudo porque umas obras (que presumo ilegais) alteraram a volumetria de um prédio na Rua da Atalaia e eu deixei de ver o Tejo. Disseram-me logo que não valia a pena questionar o Gabinete do Bairro Alto pois não iriam fazer nada. Agora com este caso da placa toponímica desaparecida no Pátio do Tijolo fui lá ao dito Gabinete três vezes, não consegui falar com ninguém responsável e hoje disseram-me na recepção que o melhor era apresentar o assunto no Campo Grande, no edifício da Câmara Municipal.

Era o que faltava. Usam o pomposo nome de «Unidade de Projecto Bairro Alto e Bica» e afirmam-se integrados na «Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana» mas uma simples placa toponímica que desaparece durante umas obras e está a prejudicar a vida de dezenas de pessoas não aparece nem é substituída. Se isto é tratado assim com o peixe miúdo imagine-se o que não será com os tubarões.

Vinte Linhas 406

Há 43 anos era assim: não igual mas parecido

Comecei a trabalhar em 9 de Setembro de 1966. O vencimento era de 900$00 mas como não trabalhei todo o mês recebi 660$00 ilíquidos. Descontaram-me 13$20 para o Fundo de Desemprego, 2$50 para a Caixa de Abono de Família e 7$00 para a quota do Sindicato. Total – 22$70 para a corda do sino, como se diz na minha terra. Sendo empregado bancário nunca poderia vir a beneficiar do Fundo de Desemprego pois os Bancos não estavam na Segurança Social, tendo 15 anos de idade não podia ser sócio do Sindicato mas descontava, sendo bancário não beneficiava de «Caixa» mas descontava. No mês seguinte já trabalhei os 30 dias e o vencimento ilíquido foi 900$00 mas os descontos também aumentaram: 18$00 para o Fundo de Desemprego, 9$00 para o Sindicato e 2$50 para a Caixa. Total: 29$50 para a corda do sino. Dito de outra maneira: por cada 30 dias que ganhava 1 dia inteiro ia para descontos injustos e sem fundamento. Mas em 1966 era assim: comer e calar. Há tempos referi a macacada dos mínimos nas Finanças, aquela história da jovem arquitecta paisagista que ganhou 1.225,00 euros mas que as Finanças obrigaram a pagar 2.998,00 de mínimos, ignorando ostensivamente que ela começou a trabalhar em Outubro e que não faz sentido obrigar uma pessoa nessas condições a pagar tanto como quem começa a trabalhar em Janeiro, não percebi logo o alcance. Foi hoje que percebi. Em 43 anos pouco mudou nas mentalidades. O «espírito de guichet» permanece. As respostas que deram à jovem arquitecta paisagista agora («Não há nada a fazer») são as mesmas que me deram a mim há 43 anos. Não há nada a fazer. As mentalidades demoram muito tempo a mudar. Quando mudam.

Vinte Linhas 405

Hóquei, andebol, futsal, ténis de mesa e bilhar ou memória para António Ramos

Morreu António Ramos, jornalista de «modalidades» que trabalhou nos jornais «Record» e «Sporting». Gostaria de repetir o seu desembaraço quando, na secretária em frente à minha, «despachava» sucessivas notícias sobre os jogos do nosso fim-de-semana desportivo. Como tinha várias modalidades não podia estar em todos os pavilhões ao mesmo tempo mas ninguém ficava sem notícias. Com alguns telefonemas para a pessoa certa, fosse no ténis de mesa («Amigo Adérito, estamos a ganhar?») fosse no bilhar («Amigo Salgado está tudo bem?») ou fosse no futsal («Amigo Paulinho já acabou?») o António Ramos conseguia sempre dar a notícia em tempo útil. A sua agenda de contactos era um mapa de amizades em todo o país incluindo a Madeira e os Açores. Muitas vezes apanhámos o mesmo táxi, lá para as duas da madrugada, quando o jornal do Sporting fechava. Trajecto: Telheiras – Campo de Ourique – Bairro Alto. Algumas vezes, noite alta, lhes coloquei perguntas inoportunas («Se são 128 golos no quadro não podem ser 129 na lista dos mercadores») mas nada que não se resolvesse («Tire um golo ao melhor marcador, amigo Zé»). Tivemos um tempo pleno (1996-2006) em que acamaradámos muito à mesa no Chinês mas há três anos que falávamos menos. Continuávamos porém a compartilhar o mesmo barbeiro aqui no Bairro Alto. Além do sportinguismo e do amor aos jornais, muita coisa nos unia: a paixão pelos livros e pelos netos. Quando a conversa derivava para aí o António Ramos era um gigante de ternura derramada. Na noite tantas vezes agreste de Lisboa, a sua voz entre Telheiras e Campo de Ourique lembrava sempre as palavras de Tasso – «Tempo perdido é todo aquele que não se gasta em amar».

Um livro por semana – Especial

praça da fruta carlos querido laborinho lúcio

«Praça da Fruta» de Carlos Querido

Para muitos de nós, caldenses de nascimento ou de adopção por vivências escolares, pessoais e militares, a Praça da Fruta é um lugar mágico de onde todos trouxemos algum pó público nos sapatos particulares. Os meninos do meu tempo de menino tinham (os que podiam) um fato dos Armazéns do Chiado no dia do exame da quarta classe.

O ponto de partida para esta ficção narrativa é o próprio lugar: «A névoa das manhãs do Oeste dissipa-se sempre devagar. É então que surge um momento de luz perfeita, quando céu já é azul e o chão ainda reflecte o orvalho da noite. Nesse instante único, em que a limpidez do olhar chega a tornar-se insuportável, surpreendo-me a observar as imperfeições da calçada. Marcas do tempo, cicatrizes, rugas, sinais de envelhecimento que nos passam despercebidos por os vermos todos os dias».

É neste espaço mágico que se articulam duas histórias paralelas: a do Narrador com Marília e a da viúva do Casal da Areia que mandou matar o marido muito mais velho do que ela. Do primeiro caso temos a história e o enredo; do segundo apenas a memória. Em ambos a diferença de idades é flagrante. Mas não só: os sonhos também são opostos. O Narrador é um empregado de uma Repartição; Marília é professora. Um apenas regista; outra semeia. Um gosta dos papéis do passado, outra ouve a música do futuro. Conheceram-se na Praça da Fruta quando Marília vendia pêssegos para ajudar a família. Juntou-se o peso da Cultura com a força da Natureza. Um dos momentos mais conseguidos da narrativa é a chegada do Narrador à casa da família de Marília num dia de matança do porco. Leva na mão um ramo de flores que não consegue entregar à mãe do seu amor porque a mesma se encontra integrada nas tarefas inadiáveis de não deixar coalhar o sangue do animal pendurado no tecto. E é o avô de Marília que o integra no espaço e no tempo com uma espécie de radiografia antropológica do que era viver na nossa terra nos anos 40 e 50 do século XX.

Surge neste livro a eterna disfunção entre Natureza e Cultura, entre o rodar maquinal e certeiro das sementeiras e das colheitas (Marília) e o fascínio dos velhos alfarrábios, jornais, livros, cartazes, actas camarárias e postais antigos (Narrador). Mesmo com livros comprados na livraria «107» e lanches na pastelaria Machado, a ligação entre Narrador e Marília começa a perder-se. Falta de comunicação num tempo em que há comunicação em excesso. Tal como a viúva Marreiros, Marília procura algo mais. A primeira teve um criado espanhol, a segunda tem a Internet. Diria um leitor cínico: «Se tivessem um bebé já nada disto acontecia!». Mas se assim fosse já era outra história. Não era esta história que começa na vida de um lugar e atravessa a vida da vila que foi da cidade que hoje é e do país do qual faz parte. E nos envolve a todos, porque todos os que lá estiveram e passaram nunca mais deixam de estar e viver. Lá ficaram mesmo quando não parece. E cabem todos nas 160 páginas deste livro. Um livro a não perder, sem falta.

(Editora: Corrida de Letras, Prefácio: Álvaro Laborinho Lúcio, Capa, Design e paginação: Inês Querido)