Vinte Linhas 410

Príncipe Real – A perversão dos ecologistas

Nada tenho contra os ecologistas. Fui ecologista nos anos 70 e 80 quando escrevi sobre o assunto e li todos os livros de Sicco Mansholt (1908-1995), o holandês que lutou contra os pesticidas e produtos químicos (em geral) que obrigavam os agricultores da Ardenas a beberem água engarrafada. A dos poços já não de podia beber. Sicco Mansholt foi presidente da Comissão Executiva da CEE depois de ter sido o vice entre 1967 e 1972.

Aqui no Príncipe Real tivemos um terramoto ecologista: vieram rebentar com a bomba de gasolina que havia no jardim. Depois de há alguns anos terem feito desaparecer a bomba que existia no Pátio do Tijolo, numa garagem de recolhas, vieram acabar com esta nossa bomba de gasolina. Um vereador recusou a prorrogação da licença com o argumento de que o espaço era para um silo de automóveis. O vereador saiu mas a licença nunca foi prorrogada; agora acabaram com a nossa bomba de gasolina. Digo nossa porque a vida na cidade só faz sentido se for organizada a favor das pessoas. A nossa bomba permitia um atendimento personalizado. Parece que não mas é importante. Já houve quatro pessoas de idade que venderam os seus automóveis pois não podem abastecer-se com um olho no burro outro no cigano. Além do mais na bomba comprava-se gás e gelo. Ela apareceu nas crónicas do Alçada Baptista. Não estava dentro de nenhum prédio. Foi sacrificada por uma perversão do espírito ecologista. A Câmara deixou-se ir a reboque de alucinados com a ideia de trocarem a vida verdadeira por uma vida falsificada feita de saladas em vez de carne, de animais em vez de pessoas, de bicicletas em vez de automóveis, de produtos ditos biológicos em vez de alimentos naturais. Uns trambolhos, enfim.

10 thoughts on “Vinte Linhas 410”

  1. O meu amigo esta a confundir ecologia (com “c”) e egologia que, na esmagadora maioria dos casos, e este é emblematico, é exactamente o contrario.

    Descuple comentar, pois eu sei que você afina, mas este post não tem ponta por onde se lhe pegue…

  2. A que eu mais gostei neste post ego-lógico (bem apanhada, Viegas) foi a pseudo-estatística utilitária: «Já houve quatro pessoas de idade que venderam os seus automóveis pois não podem abastecer-se com um olho no burro outro no cigano». Tás em forma, ó Zé. Ouve lé: essas quatro pessoas ainda tinham idade para conduzir decentemente? É que quem conduz tem de ter um olho nos carros, outro nos peões.

    A «vida falsificada com saladas em vez de carne» também não tá nada mal.

    E aquele argumento de que a bomba «apareceu nas crónicas do Alçada» é esmagador.

    Fico por aqui, ou tinha que citar o post todo.

  3. eu não afino coisa nenhuma. Eu pertenço aos fracos, aos dominados, aos explorados. É deste lugar que escrevo. Trabalho há 43 anos para os outros, tenho sido enganado miseravelmente mas nunca deixo de gritar a minha revolta. ESte texto é uma revolta, sei que eles é que mandam. Não há nada a fazer tal como parece não há nada a fazer dentro do Bairro Alto – eles querem fazer do Bairro uma gaiola de malucas.

  4. Francisco se os seus vizinhos mais jovens preferem andar de bina a andar de carro, não ocupar com os trambolhos o espaço público, e preferem grão de bico com azeite à entremeada e à picanha, que fazer para impedi-los?

    O seu status quo está bem ilustrado aqui. Ainda bem que está a mudar.

    E explique-me lá melhor essa do cigano, por favor.

  5. Se fossem só os vizinhos a ter ideias mas o problema é ser a própria Câmara e (quem sabe ?) normas comunitárias, percebes ou não percebes que o delírio e a alucinação já chegaram aí? Depois eu chamo «trambolhos» aos indivíduos que fazem do Bairro Alto um lugar onde é complicado e quase impossível de viver. Reduzem os lugares de estacionamento em vez de os aumentar, nada fazem para ressarcir os moradores pelos 8 lugares ocupados pelo estaleiro de uma obra, bloqueiam automóveis em frente a muros de colégios de freiars e de crianças – onde não há janelas nem portas. Quando vão multar à minha rua passam por restaurantes que ocupam ilegalmente lugares de estacionamento para colocarem mesas e assadores mas «esquecem-se» de multar. É isso. Já expulsaram os nosso filhos e agora querem expulsar-nos a nós para fazerem do Bairro uma gaiola de malucas como o Bairro das meninas de Amsterdam. Eu estive lá em 1977, eu vi. «Olho no burro olho no cigano» é uma expressão para dizer «dar atenção» a duas coisas ao mesmo tempo… coisa que os velhotes não podem fazer nas bombas super modernas.

  6. Venho só dar-te uma sugestão: porque não te candidatas a presidente da Câmara Municipal de Lisboa? Se não fores eleito desta vez, pode ser que sejas na próxima. Acabam as tuas queixas, deixas de pertencer ao «grupo dos fracos, dos dominados, dos explorados» e pões ponto final a esses «43 anos a trabalhar para os outros». Deixas de ser «enganado miseravelmente», de «gritar a tua revolta», de dizer «eles é que mandam» e passas a ser dos fortes, a dominar em vez de seres dominado, a explorar em vez de seres explorado, a enganar miseravelmente, em vez de seres tu, miseravelmente, o enganado. Passas a «mandar». Podes voltar a colocar a bomba de gasolina com «atendimento personalizado» no meio do jardim do Príncipe Real (o Alçada Baptista, naturalmente, ia lá comprar o gás e o gelo), e podes mandar fechar os «restaurantes com assadores nos passeios», para dar lugar aos estacionamentos. Só não sabia que tinhas sido «ecologista nos anos 70 e 80»! Daí, não aceitares a troca de automóveis por bicicletas, é evidente. Depois, há lá coisa que chegue a uma entremeada de porco preto com batatinhas fritas, impregnadas de óleo com toxinas, em vez de uma insípida saladita? Sem falar da bela fruta do hipermercado, de tamanho desmedido, muito polidinha, em vez daqueles frutuzecos minorcas, sem paladar nenhum! Apenas não entendo que vivas há tantos anos no Bairro Alto e que nunca tenhas dado pelas putas! Sempre as lá houve! E gente boa também, incluindo as putas. O teu bairro sempre foi uma imitação da tal «gaiola das malucas», designação que teimas em repetir, post sim, post sim. E, se me permites perguntar, quantas vezes foste a Amesterdão? Aí umas quatro ou cinco, não? Se somares os posts em que falas disso…Mas lê-se nos teus escritos que és uma pessoa viajada. Pena que, em ti, o alarde seja sinal de pobreza lusitana. Se calhar, antigamente, ias até Cacilhas e já estavas com sorte. Outra coisa que me faz confusão é que exista no Bairro Alto «um colégio de freiras e crianças onde não há janelas nem portas». Como é que lá entram e vivem as crianças e as freiras?! Talvez seja melhor burilar a tua escrita… Já disseste, também, várias vezes, que «expulsaram os teus filhos do bairro». Porquê, que mal fizeram? Andavam a tocar às campainhas e depois fugiam, é isso? Agora, essa dos trambolhos…Trambolho só se fores tu: incongruência, egoísmo, vaidade, intolerância, está tudo lá, no teu post. É tudo teu. Que te faça bom proveito!

  7. Não há nada que a engenharia dos nossos dias não consigo. Logo, pode muito bem fazer-se uma cidade subterrânea só de serviços (estacionamentos, abastecimentos, e o que mais for preciso) com acessos fáceis á superfície, com elevadores e passadeiras rolantes, por exemplo. O Bairro Alto se quer continuar a ser habitado e não apenas usado, para continuar a ser Bairro Alto, tem que oferecer as condições compatíveis com a modernidade.
    Por isso acho muito bem que o JCF fale sobre o desconforto que existe e em que vive. Se ninguém falar não se arranjam soluções e os lugares parecidos com os que temos na memória, desaparecem.
    Acho ainda que cada um pode apresentar os seus pontos de vista sem ser rude para o autor.

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