Gazeta 149

«A oração é uma forma de poesia, a poesia é uma forma de oração»

Do tempo da Estrada de Macadame a oração que mais vivamente recordo é a «Salvé, Rainha». Soube outro dia numa conversa entre escritores que o poeta Mário Cesariny considerava esta oração um dos mais belos poemas de todos os tempos. Vale a pena recordar: «Salve, Rainha / mãe de misericórdia / vida, doçura, esperança nossa, salve! / A Vós bradamos / os degredados filhos de Eva. / A Vós suspiramos, gemendo e chorando / neste vale de lágrimas / Eia, pois, advogada nossa / esses Vossos olhos misericordiosos / a nós volvei. / E depois deste desterro / nos mostrai Jesus, bendito fruto / do Vosso ventre. / Ó clemente, ó piedosa / ó doce Virgem Maria. / Rogai por nós, Santa Mãe de Deus / para que sejamos dignos das promessas de Cristo.»

Esta revelação de um poeta da dimensão de Mário Cesariny sobre o valor poético de uma oração tão conhecida e tão rezada em todo o Mundo, levou-me a fazer, eu mesmo, uma reflexão sobre esta relação entre a poesia e a oração. O mesmo é dizer entre oração e poesia. Vejamos:


Rezar é sempre a tentativa (nem todas as vezes realizada) de unir dois mundos – o da terra e o do céu, o material e o espiritual, o dos homens e o de Deus. Ao colocar-se de joelhos o crente mais não faz do que recordar nesse gesto a sua origem e o seu fim anunciado. Sabe que veio do pó, é pó e em pó se há-de tornar mas rezando ele (o crente) procura elevar as suas palavras do rés da terra para o reino superior que ele nunca viu mas pressente, que ele nunca tacteou mas reconhece, que ele nunca visitou mas sabe nomear.

Religando o que o tempo separou ele (o crente) procura ascender a uma relação superior. Algo mais do que o emprego, o café, o supermercado, o stand de automóveis, a loja de pronto-a-vestir, o centro comercial.

Rezar é tentar criar outra realidade dentro da quotidiana realidade prática, mercantil, de desperdício. Para quem tem os pés bem assentes na terra (sua condição e seu limite) rezar é uma viagem entre dois mundos, a veloz ligação entre dois tempos, a procura de uma ponte a unir dois espaços.

O poema (tal como a oração) procura ligar, unir, juntar o que a erosão do tempo separou no coração dos homens. O poeta, obscuro sacerdote duma liturgia de silêncio, procura resgatar no poema (que a folha de papel testemunha) uma outra ponte feita de palavras entre a fronteira e o limiar do país sentimental que o ignora.

A infância, a voz da mãe, as colheitas perdidas, a azeitona nos lagares, a lavoura vagarosa dos dias da inocência que nenhum banco financia e sobre a qual nenhuma companhia ou corrector se atreve a emitir uma apólice de seguro, são todos eles, bocados de terra. A mesma terra onde o crente ajoelha para rezar. E mesmo o estádio na cidade, lugar de romaria e de culto, altar urbano de um ritual de ofertório e consagração, cântico e comunhão nas vitórias e nas derrotas, o estádio é também um bocado de terra.

Na grande solidão do Mundo, perdido entre o precário do amor e o inevitável d

2 thoughts on “Gazeta 149”

  1. alto, francisquinho, que a oração e a poesia não tem nada que ver com joelhos no chão

    (preferia que falasses em orelha com feijão na panela).:-D

  2. É claro para todos, meu caro JCF, que a oração pode ser um poema e o poema tornar-se oração. Já não é tão evidente que o poema assuma, por natureza, a função religiosa da oração (religare), como que um retorno à primitiva relação do homem com a mãe natureza. Foi um longo caminho, até o homem se «desligar» da mãe natureza, através de um processo de consciencialização crescente, que lhe permitiu perceber a sua individualidade e singularidade. Finalmente pôde falar «eu e o universo» da mesma forma que pôde dizer «eu e tu».A constatação deste facto é, ao mesmo tempo, geradora de um sentimento de euforia incontida e de um sentimento de indescritível solidão. Eu e os outros, eu e o universo. E o poeta mergulha neste quase drama, tal como o crente. O movimento natural e primitivo da alma humana é procurar refúgio no regresso ao estado inicial, de fusão com a mãe natureza, voltando ao «pó» de que somos feitos. O crente vai por aí e chama Deus ao universo. Personificando Deus, continua a manter, apesar de tudo, a sua individualidade (no cristianismo, por exemplo). Desistindo desta personificação de Deus, desiste também da sua singularidade (eu sou) para morrer, fundindo-se, no oceano do Eu Único Infinito (budismo e afins).
    O poeta pode ser religioso, mas a sua poesia é, antes de tudo, arte, expressão dos seus sentimentos, emoções e pensamentos, necessidade e vontade de os comunicar. Muito mais que a oração do crente. Mas é aceitável pensar que a raiz da oração e da poesia seja a mesma: o génio humano que se confronta consigo mesmo, com os outros e com o universo.
    Neste contexto a morte surge como o aniquilamento desta singularidade. O poeta nunca poderá cantar o regresso ao seio da mãe natureza. Pelo contrário, chora essa realidade como uma tragédia e não pretenderá, nunca, «religar-se». Ora, «religar-se» é tudo o que mais deseja o crente na oração.
    O poeta, com Deus ou sem Deus, há muito que pressentiu que a única formar de vencer a nossa humaníssima solidão é o AMOR. Por isso o canta como ninguém

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