Vinte Linhas 433

Linhas para um perfil de Laura

O vidro da parede da casa frente às águas serenas da Lagoa acaba por projectar, no perfil de Laura, uma ideia de quadro e de moldura. Era como se um pintor do século XIX aqui procurasse fixar as linhas e os contornos de um rosto ansioso de mulher, este rosto debruçado na tarde de sol, na Lagoa povoada e na poderosa melancolia que tudo envolve. Para mim, simples cronista de um momento de encontro, vejo no perfil de Laura um reflexo do perfil de sua homónima avó à porta da sua casa nas Eiras onde eu nunca passava sem receber uma noz, alguns figos secos, uma maçã seca em rodelas ou meia dúzia de pinhões e, por fim, um beijo com a humidade da ternura.

Era como se um relógio antigo desse apenas para mim todas as horas repetidas num som de sala mergulhada em escuridão e cada hora da neta hoje frente às águas serenas da Lagoa, ao sol e à melancolia, fosse a repetição de todas as horas de sua avó homónima à porta de casa, sempre dividida entre o amor multiplicado pelas netas e as ordens para os trabalhadores rurais que nesse tempo ainda se chamavam «servos».

Há, nos pequenos barcos azuis e brancos da Lagoa, um convite explícito à viagem e um prenúncio de movimento como se, de súbito, o perfil de Laura, amargo, vagaroso e cinzento, partisse desta tarde, plena de frio e de sol, para se colocar no perfil de sua avó homónima. Assim podia Laura a avó entrar de novo na nossa alegria convocada por um encontro à porta da casa, algures entre um grupo de netas à espera de beijos e um rancho de trabalhadores rurais, homens e mulheres, à espera de vozes de trabalho. Assim podia Laura a neta sorrir de novo e abalar o rígido perfil da melancolia na casa frente à Lagoa.

20 thoughts on “Vinte Linhas 433”

  1. Obrigado Sinhã – mesmo para ter apenas uma leitora já vale a pena escrever. Mas tu és uma leitora qualificada – ainda melhor.

  2. boa!.:-)

    (sabes o que é, há quem prefira muitas, e de merda, que nem sequer percebem nada do que lêem e cagam em quem, de facto, lhes dá valor – são, assim, os vaidosos).

    olha: no início do ano vou aí, a trabalho, à capital (do nada – não zanga :-)) e bem que podiamos tomar conversa e um cházinho de camomila. :-)

  3. Concordo, Sinhã.
    E os mimos, “roubados” ao Poeta, uma noz, alguns figos secos, uma maçã seca em rodelas – este mimo eu não conhecia – e meia dúzia de pinhões, tanta ternura em tão poucas coisas.
    Obrigado e Boas Festas, José do Carmo Francisco.
    Jnascimento

  4. Com as tuas vírgulas não me meto, Sinhã. Deus me livre. Mas olha lá bem e vê se é a única marotice. :)

    (isto é só para não mandares bocas à capital :))

  5. Isso da piada sa Sinhã lembra-me uma frase do Ruben A. quando veio do Porto para Lisboa «Uma pressa para coisa nenhuma». No meu tempo de criança já se dizia na minha aldeia que Lisboa era o caixote do lixo de Portugal mas vivo cá desde 1966 e já sou mais lisboeta por adopção do que caldense ou estremenho. Um abraço para o Joaquim Nascimento cujo livro vai para o «ar» na Gazeta das Caldas no dia de Natal… boa malha!

  6. Temos, temos, e chata. As ondas sísmicas e a falta do comprimidinho deixaram-me assim. :)

    Não era só dessa marotice que eu estava a falar. Olha lá bem. :)

  7. Ah, andas a insultar o menino Jesus, mais um motivo para seres castigada. :)

    As virgulazinhas têm de estar todas no sítio, e bem. Então, e os acentos? São à vontade do freguês? Conjuga lá o verbo poder no pretérito imperfeito. E, de castigo, não tomas chazinho nenhum. :)

  8. Conselho:
    Para evitarem os erros e a pontuação escrevam o texto numa folha Microsoft Office Word 2007. Ele corrige esses erros. Quanto às vírgulas é mais difícil de solucionar.
    É o que faço, vingo-me das novas tecnologias.

  9. ai, pachequinho, que de tanto gargalhar até saiu peido. :-D

    (guidinha, para mim, bica é uma coisa de onde sai água. como dizes peido aí na tua zona?) :-D

  10. Sinhã, por acaso, também não costumo dizer bica, foi para evitar o cafezinho. Também sem acento. :)

    Digo da mesma forma esteja em que zona estiver. :)

  11. O que é de mais é como o que não chega:
    De há uns tempos para cá que venho notando uns comentários impróprios, sobre textos ou a comentários meus. Desde que mando textos para o Aspirina B, noto que tenho sido “insultado” com respostas às quais não tenho contribuído para tal.
    Como sou favorável, ao bom uso e costume da língua portuguesa, não estou para suportar tamanhas boçalidades. Parte da minha vida profissional foi passada com os excluídos da sociedade mas, comparando a postura desses com algum (s) aqui no Aspirina, eram uns verdadeiros diplomatas. A esses ainda tolerava, agora a gente que se intitula de fina flor não estou para suportar tal comportamento a meu respeito. Estou como o António Costa, na Quadratura do Circulo, no que disse a para Pacheco Pereira: “julga-se o dono do programa e da verdade, desça ao seu pedestal e não se julgue um ser acima dos outros”.
    Também sou adepto dos ditos e costumes populares que quando era menino aprendi com a minha mãe (hoje falecida). Admirava-me de muitas vezes a ver a arrancar as penas às galinhas. Nesse tempo nas aldeias havia os galinheiros e regra geral eram num espaço ao ar livre e cercados com rede de arame, por todos os lados menos a parte de cima. Como as penas das galinhas cresciam dava-lhes oportunidades para as mesmas voarem e fugirem. Fora do galinheiro comiam de toda a porcaria que por ali existia e muitas vezes eram confundidas com outras galinhas que por ali andavam ao abandono e os seus donos se apropriavam delas. Com o arrancar das penas, dizia minha a minha mãe que, elas permaneciam ali até novo crescimento e corte.
    Como acima referi que sou adepto deste tipo de coisas é por isso que resolvi escrever este texto, para as penas não cresceram de mais e mais tarde os dissabores serem maiores. Ponderei se o havia de mandar mas como o cântaro tantas vai à fonte que um dia… Neste blogue só respeito o Valupi e da parte dele nunca recebi uma reprimenda um mau tratamento. Assim como para toda a gente sou educado, exijo dos outros respeito e educação. Na certeza porém que não terão no futuro mais alguma resposta minha.

    Termino com este verso do meu amigo Rodela:

    Gosto imenso da cultura,
    Mas homem culto não sou…
    Aprendi na vida dura
    A dar-lhe o valor que dou.

    Manuel Maria Ferreira Pacheco
    Rua da Escola Nº. 91 – 1º Esquerdo
    4590 – 385 Freamunde

  12. olha, manuel pacheco, só não me decepcionas porque não és, para mim, suficientemente importante. mas fico triste que não percebas que os meus peidos não são insultos nem para ti nem para ninguém. peido, flato ou ventosidade são todos sinónimos para a mesma coisa: é tudo merda gasosa cujo cheiro, limpo, nada tem que ver com ofensas. também não vou dar importância a isso que dizes do respeito porque não há sábado sem sol e – talvez para alguns – sem uma diarreia cerebral: dou-te um desconto.

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