Vinte Linhas 439

A oficina da beleza ou o louvor do bar das sobrancelhas

Elas chegam aqui ansiosas pelo retoque, pelo diagnóstico certeiro, pela terapêutica eficaz. No Hospital da Beleza, o bar das sobrancelhas é o banco de urgência. A empregada (a enfermeira) transporta um cinto múltiplo onde cabem os diversos instrumentos da oficina da beleza: pincel de pestanas, pincel de sobrancelhas, líquidos de limpeza, diversos tipos de tesoura, pincéis para pó facial. Um nunca acabar.

Mães e filhas, umas trazem as outras, sucedem-se no balcão das urgências. Umas procuram a manutenção do esplendor juvenil, outras anseiam o recuperar da beleza e do tempo perdido em amarguras silenciosas, em manchas de solidão que formam pequenas ilhas negras no mapa da pele. Em gestos que misturam, de modo feliz, a técnica e a simpatia, as empregadas aplicam a terapêutica indicada e vão, aos poucos, dando alta hospitalar às meninas mesmo meninas e às mulheres que são de novo meninas na porta do estabelecimento de perfumaria nos Armazéns do Chiado. Lá fora, o vento e a chuva agridem quem atravessa a rua mas o sorriso e a confiança de novo readquirida ajudam a enfrentar todas as hostilidades. No sorriso da empregada que recolhe o cinto das ferramentas está o prémio invisível desta subtil acção de medicina, desta beleza de novo recuperada. Entrei no estabelecimento para comprar um perfume cujo nome (talvez não por acaso) é «Poême» para uma amiga aniversariante e fico imóvel perante a azáfama do balcão das sobrancelhas. A empregada (a enfermeira) a todas recebe com um sorriso. Não se trata apenas de um ofício; há também uma força de paixão e de ternura entre as mães ágeis, o cinto dos instrumentos, o trabalho desenvolvido e o resultado final.

14 thoughts on “Vinte Linhas 439”

  1. De certeza, Sinhã !
    Eu vejo, subliminar, um lamento de José do Carmo Francisco:
    – Então não há disto para homens ?
    Com votos de bom Vinte Dez.
    Jnascimento

  2. Mais bonitas sim, Sinhã, por isso lhes chamei «mulheres meninas» e assumo o que escrevi. Repara que foi um acaso. Fui comprar um perfume e percebi o outro lado da loja que é mais do que loja, é um hospital de beleza.

  3. Esta é de graça: o nome científico de “pó facial” é, dependendo das utilizações:
    a. blush;
    b. pó-de-arroz (solto ou compacto, também depende);
    c. terracota.
    “Pó facial”?!, ó santa ingenuidade! :)

  4. Ingenuidade – ora bolas. Foi preciso chegar a esta idade (58) para me chamarem ingénuo. REpara que se as próprias mocinhas que trabalham no assunto usam a expressão «pó facial» isso pode ser levado em linha de conta naquelas derivações de linguagem dos professores, dos pescadores, dos guardas prisionais, dos jornalistas. Nunca ouviste falar num «linguado» quando os jornais eram feitos a chumbo??? Eu em 1978 no Diário Popular trabalhei com linguados. Sem igenuidade…

  5. Sinhã,
    Terracota forever, girl!

    jcfrancisco,
    pois… em ’78 eu ainda não falava português daí que “linguado” seja apenas e só:
    a. uma espécie de peixe achatado parecido com a solha;
    b. uma espécie de coisa que fazem as pessoas linguarudas…
    Mas estou sempre pronta a alargar o léxico.
    :)

  6. Hoje a minha filha mais velhas celebra 32 anos curioso que esse ano de 1978 foi rico nesse aspecto: nasceu ela, eu comecei a escrever no Diário Popular mas tambem morreram escritores importantes – Ruy Belo, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio. Foi por casua da morte do Ruy Belo que eu comecei no Diário Popular. Tu eras então uma «piolha» mas hoje estás aqui de igual para igual. Porreiro, miúda!

  7. A propósito disso tenho uma curiosa. Quando eu nasci (1951) a minha mãe tinha 22 anos mas era muito amiga de uma senhora de 33 anos que estava grávida de uma menina. Entretanto nascida a dita cuja, logo a mãe se pôs a dizer que eu devia casar com essa moça para multiplicar a amizade dela com minha mãe. Nunca calhou mas outro dia em Londres num almoço de uma das filhas dessa rapariga do meu tempo (hoje com 28 anos) falei da história da sua avó que ela conhece bem e explicámos ao namorado inglês da moça. Resposta dele quando ela a rir anunciou «Este senhor podia ter sido meu pai» – Isto é muita informação para mim…

  8. Pronto já cá não está quem falou, era apenas uma questão cronológica, uma possibilidade, aliás foste tu a levantar a hipótese. Assunto encerrado.

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