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Sócrates, entre vistas

Atendendo ao momento ― pânico económico e terrorismo político-jornalístico em ano triplamente eleitoral ― pode ter sido a sua melhor entrevista audiovisual de sempre. Surpreendente frescura, descontracção, bonomia, consistência, coerência e assertividade na instauração da confiança pessoal. Também uma superior gestão da guerra aberta com (e por) Cavaco, a qual obriga a este jogo diplomático dos subtextos dado o melindre institucional da questão.

No que diz respeito ao caso Freeport, e tendo apenas como critérios a linguagem corporal e os sinais da fala, é impossível ter dúvidas quanto à sinceridade das suas afirmações. O resto ― isto é, a verdade oficial ― saberemos quando a investigação acabar. Adiante.

Os analistas repetiram-se, mais não sabem fazer. E os analistas falam de si, das suas neuroses, das suas caladas angústias. Falam a partir desse lugar onde não há cautela porque não há responsabilidade. Por isso cantam de galo, imaginam-se ministros das obras feitas, importa nunca esquecer. Senão, estariam a participar na criação de soluções.

É só isto. E é isto.

Quo vadis, Cavaco?

A ruína do PSD, e da direita em geral, deixou Cavaco numa perigosa situação: está a ser pressionado, em crescendo, pelas forças da reacção (ah pois, é este o exacto nome) para assumir a liderança da oposição. Por outro lado, detém poderes políticos e sociais que podem ter grande, até decisiva, influência nos resultados eleitorais que se avizinham. Aliás, desde o foguete de Ano Novo, a verdade como arma de arremesso, que temos um Presidente a endossar o discurso da direita, da partidária à popular.

E o homem não está desprovido de máquina amplificadora, olá. O Público é um aliado subterrâneo da Presidência, prestando-se a qualquer serviço. Os serviços tenderão a ser cada vez mais sofisticados e organizados, como se comprova pela simples leitura do que vai escrevendo Joaquim Vieira na resposta aos leitores. Os exercícios de malabarismo do Provedor do Leitor para não assumir o óbvio são até confrangedores. E o óbvio é que o Público é parte integrante da oposição, subordinando o interesse jornalístico geral, e ideal, aos objectivos políticos que persegue. Os seus editoriais e interpretações políticas não admitem dúvidas sobre o actual posicionamento. É por isso que não aparecem notícias sobre individualidades ligadas aos escândalos factuais ocorridos na banca, no Governo de Durão e Santana ou nos financiamentos partidários do PSD e CDS. Não se faz investigação em nenhuma dessas vastíssimas problemáticas que já se estabeleceram como matéria criminal, preferindo-se a torrencial construção de suspeitas sobre o carácter de Sócrates, valendo tudo desde vasculhar as pedras que pisou a caminho da escola primária até inventar compras a metade do preço. Porquê esta vergonhosa duplicidade? Talvez para não agastar um Presidente da República que confia no cidadão Dias Loureiro e o considera digno de pertencer ao Conselho de Estado. Se este é o critério, o melhor é mesmo não entrarem jornalistas do Público nos casos SLN, BPP e BCP, não vá isso obrigar mais algum amigo do cidadão Cavaco Silva a ir ao Palácio de Belém para ser visto a bater no peito e a jurar inocência e santidade.

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Campanha branca

Este vídeo feito pela TVI dispõe bem e recomenda-se a deprimidos, mal-amados e sócios do Benfica. É mais uma peça da campanha branca, aquele fenómeno onde se tenta atacar Sócrates com estratagemas ribaldeiros e se acaba a contribuir para o seu sucesso. Neste caso, é tudo imbecil como manda a lei não escrita do nosso atraso de vida. Liga-se uma manobra de marketing da SONAE/Optimus com a pulsão destrutiva dos que farão qualquer tonteira para manter o marasmo nacional, e nasce o melhor que a oposição consegue produzir: a completa instrumentalização do Público e seus jornalistas para criar factos políticos artificiais. Belmiro de Azevedo e Carvalho da Silva de mãos dadas e a rir, cirandando nas eiras e beiras dos seus ódios ao engenheiro, é o quadro desta operação debochada.

Que ambiciona a matilha ― Público, TVI, Intersindical, Fenprof, PCP e BE ― que montou a marosca e apareceu a mostrar as favolas no lançamento? Coisas simples e belas: que Sócrates perca a maioria; que Sócrates, ainda antes de perder a maioria, seja demitido por Cavaco; e que Sócrates, ainda antes de ser demitido por Cavaco antes de perder a maioria, seja enjaulado no Tarrafal por causa de uma filmagem que Manuela Moura Guedes ofereceu aos portugueses como símbolo do seu amor pela justiça e respeito pela verdade. Aí sim, finalmente livres, os comunas, os pulhas, os broncos e os reaças poderiam descansar. O cabrão deixava de ser um estorvo, o bolo voltaria a ser fatiado nas proporções pré-2005.

Entretanto, um bicharoco de nome Luciano Alvarez apresentou o plano da luta. E o que escarrapacha é extraordinário. Trata-se de um panfleto político para activistas acéfalos, escrito ao melhor estilo profético das Testemunhas de Jeová. Embriagado ou bêbado com a proximidade do 25 de Abril, imagina a turbamulta a cantar em coro de norte a sul do país [sic], perseguindo Sócrates até à humilhação final, onde o tirano será corrido do burgo pelos decibéis do povo unido. Para lembrar aos acólitos que estamos a lutar contra o fascismo, foi buscar José Mário Branco numa citação desasada; mas que tem o mérito de chamar a atenção para eventuais erros dos bardos-pistoleiros que vão para o palco disparar as suas armas contra o sistema. Só que de eventuais erros, neste grandioso plano Público, Luciano não quer nem ouvir falar. Tem apenas uma preocupação, a abrir e fechar a prosa: informar os autores da música de que ela já não lhes pertence, e qualquer coisa que digam a seu respeito que saia fora da tramóia não será admitida pelo team do Zé Manel.

Alvarez garante que a letra é bem clara e que é um manifesto contra o Governo, toda ela. O que faz antecipar que iremos ouvir muitos professores, muitos sindicalistas e muitos agitadores profissionais do PC e BE a gritar a plenos pulmões que já levam 30 anos de ladroagem no bucho. Vai ser uma autêntica revolução se esta moda de dizer a verdade aos portugueses continuar a espalhar-se.

Asco

Local: SIC Notícias
Data: 16 de Abril de 2009
Hora: 21.50 (mais minuto, menos minuto)
Programa: JORNAL DAS NOVE
Protagonistas: Mário Crespo, António Seguro, Ângelo Correia
Tipologia: Decadência exibicionista
Relato: Crespo interrompe à pressa a discussão sobre os modos de combater a corrupção, o tempo está a acabar e ele quer ainda introduzir um último tema. O facto de Mário Cristina e Francisco Gandarez terem sido ouvidos como testemunhas no processo Freeport. Seguro faz um silêncio e responde devagar, que nada há para dizer. Silêncio. Crespo percebe que a bala acaba de rebentar no cano. Seguro repete que nada há para dizer pois o processo está a decorrer e todas as ocorrências são normais. Crespo afirma que também nada tem para dizer, mas daquele modo canalha que tanto pode ser súbito rebate de consciência como cínica ironia. Passa a bola para Ângelo Correia. E ouve o mesmo. O que, por ser exactamente o mesmo, é já uma outra coisa. Que nada há para dizer. E Ângelo, no melhor momento que lhe recordo, de longe e de sempre, avança. Que é um excelente sinal não estarem a sair notícias, nos últimos dias, sobre o que acontece nos bastidores da investigação. E que esperava que nada mais se soubesse até o processo estar concluído, pois é nesse silêncio público que o apuro da verdade deve ocorrer. Crespo defende-se, diz que todas as informações que aparecerem, sejam elas quais forem, serão noticiadas por ele na SIC, pois essa é a sua missão como jornalista. E é aí que Ângelo, demoníaco, não perde tempo em levar a espada à altura do ombro, termina a faena com golpe certeiro no coração da besta. Diz que o problema até pode nem ser dele, Mário Crespo, mas seguramente será de quem lhe passa essas informações que pervertem o normal andamento da Justiça. Crespo já só consegue balbuciar que isso é que seria, realmente, um assunto interessante a tratar ― assim revelando que, mesmo ferido de morte na sua cidadania e deontologia, continuava o irrecuperável crápula que agora todos reconhecem ser. Perdão: todos, menos o Medina Carreira.

O triunfo dos escaganifobéticos – IV

Uma das principais características da esquerda imbecil é a sua concepção simplista e hipócrita do poder. Ser hipócrita é grave, porque alimenta a permanente manipulação demagógica e populista. Mas ser simplista é trágico, porque do simplismo nasce a incapacidade de auto-crítica, fonte de todos os fundamentalismos e violências. Veja-se o caso de dois dos mais notáveis representantes da esquerda imbecil, Rui Tavares e Daniel Oliveira:

O que escrevi até aqui relaciona-se com o lado político do caso. Mas o aspecto moral é mais grave. O erro de percurso do político preocupa-me menos do que o pecado contra a liberdade de expressão. Vindo do primeiro-ministro, este pecado acaba por infectar toda a cadeia de comando e degradar a qualidade da democracia que temos. Há valores mais altos do que a ofensa que o primeiro-ministro possa sentir; um deles é o direito de não ter medo de ofender os poderosos.

É pois uma vitória amarga para o cronista que, ainda antes do processo começar, o primeiro-ministro tenha já confirmado o essencial da crónica. Seja como for, neste caso entre um Sócrates e um Tavares, eu não poderia deixar de estar do lado do Tavares. E não é por nepotismo: ele não é meu primo, nem filho do meu tio.

Rui Tavares

A semana passada, José Sócrates juntou-se ao clube dos que querem calar a crítica na barra do tribunal. Processou o colunista João Miguel Tavares por, no “Diário de Notícias”, ter escrito que não tem grande apreço pelo comportamento do primeiro-ministro na sua vida política e cívica. Para Sócrates, o Freeport é excelente para teorias da conspiração. Mas a condição deste jogo é que ninguém, usando desse direito universal que é o da liberdade de opinar, o ponha em causa. Pois eu repito o que Tavares escreveu: Sócrates não é um político sério e falta-lhe autoridade moral em quase tudo. E é, acima de tudo, como Jardim, um homem que vive mal com a liberdade dos outros.

Daniel Oliveira

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We need help from the media

Não existe nenhum Jon Stewart português, mas existem muitos fogos cruzados na comunicação social. A expressão campanha negra pode ser tomada em vários sentidos, porém, no seu principal, consiste na reunião de estratégias de destruição moral para ganho político e de sensacionalismos e perversão da Justiça para ganhos financeiros através do mercado. O que têm de comum as duas modalidades é o dano que se inflige à comunidade, à saúde moral da democracia e à confiança nas autoridades. Pacheco Pereira e a TVI, só para dar dois incontornáveis exemplos, não precisam de estar alinhados, sequer terem algum contacto, para alimentarem em conjunto a campanha negra. Basta continuarem a explorar as fragilidades decorrentes do exercício governativo e dos processos legais em investigação. O que eles fazem obedece ao princípio do quanto pior, melhor, captando audiências entre os grupos mais fragilizados cognitivamente, os ressabiados e os tontinhos.

Este paradigmático momento de Jon Stewart no programa Crossfire, a dizer algumas verdades cabeludas em 2004, serve como uma luva para o que se passa em Portugal desde 2006. Precisamos de ajuda da comunicação social, tanto para colocar as questões mais difíceis aos políticos, e para investigar com liberdade e rigor qualquer assunto de interesse público, como para os proteger das campanhas negras no serviço que nos prestam. Não entender isto é não fazer a menor ideia do que seja a democracia.

Salvem o fascismo

salazar-fascismo

Manuel Alegre disse, de umas directrizes banais relativas ao profissionalismo das funcionárias da Loja do Cidadão em Faro, o seguinte:

é uma coisa de cariz fascizante, totalitário, contra a liberdade individual, é inconstitucional, tem que ser revogada sob pena de qualquer dia numa repartição alguém querer dizer como usar o cabelo e que livro ler, estas coisas são sinais, multiplicam-se estes sinais, tem que ser levado a sério

Manuel dispõe de poder suficiente para aparecer na comunicação social sempre que quiser. Reúne à sua volta algumas figuras públicas com importância política dentro do PS e à volta dele. No Parlamento, comporta-se como líder independente, votando como lhe dá na real gana. Fora do Parlamento, é parte da oposição ao Governo, deixa-se manipular pelo BE, ameaça criar um novo partido, não se envergonha de apoiar figuras como João Palma, Presidente do Sindicato dos Magistrados. Correm boatos de que está a tentar negociar, ou forçar, o apoio do PS a uma nova candidatura presidencial. Sempre que abre a boca, salta cá para fora o milhão de votos, seguido ou antecedido do 25 de Abril, da esquerda e da sua magnífica pessoa. A sua pessoa, é o próprio a lembrá-lo sem descanso, tem muita importância para a sua pessoa.

Pois bem, o homem faz 73 anos em Maio. Existe a possibilidade de que ainda se imagine a chefiar a Frente Patriótica de Libertação Nacional, tendo em conta que se apresenta no papel de salvador da democracia portuguesa, chantageando o próprio partido onde ganhou a vida. E que terá ele para mostrar? Que feitos, ideias, meros acontecimentos relacionados com as suas funções políticas, pode Alegre referir que tenham contribuído para algum salto qualitativo na sociedade? Não há memória de nada, nadinha, nicles. Tem sido funcionário do PS, profissional do Parlamento, apenas mais um daqueles cidadãos que contribuíram de alguma forma para a mudança de regime, como largos milhares, e depois ficaram com privilégios oligárquicos e vaidade infinita, como algumas centenas. Se porventura viesse a ocupar a Presidência da República, realizando a soberba de se apresentar ao povo como rei-trovador, a boçalidade pacóvia seria torrencial ― e os riscos de intervenções populistas, e dementes, seriam tantos quantos os dias em que tivesse poder político para tal.

Se isto é assim, e não parece que venha a melhorar, antes pelo contrário, vamos combinar uma coisinha, Manuel Alegre de Melo Duarte: diz as maiores bacoradas que te surgirem na moleirinha sobre o Governo, Sócrates, o PS e a esquerda, fogo à peça, mas não apagues o fascismo da História. Por favor. Não nos estragues essa tão útil memória, que tanto revela dos nossos avós, pais e irmãos.

Sim, poeta, quando te permites relacionar o fascismo com um episódio de legítima e bondosa ― mesmo que discutível, como tantas outras dimensões da vida social e profissional ― regulação da aparência de quem serve o público representando o Estado, estás a ofender as passadas, presentes e futuras vítimas de todos os tiranos e seus cúmplices. E pior: estás a reduzir o fascismo aos conflitos morais inerentes à democracia. Isso é grotesco e, se tivesses um pingo de sensatez, chegava para que pedisses perdão pela desonra que cometeste cego e bruto.

O triunfo dos escaganifobéticos – III

O Arrastão tem o primeiro sistema de censura escaganifobética no mundo ocidental. É o único a conseguir fazer extrapolações bovinas a partir do fundamentalismo semântico ― assim conseguindo antecipar a Web 3.0 em versão taralhouca. Atente-se no exemplo ocorrido com uma expressão popular:

Larga o vinho -> Censurado porque “mandava o outro comentador parar de beber vinho. Desculpe, mas há limites. O insulto gratuito é um deles. Se quiser replicar a mensagem, deixando de insinuar que o outro comentador – que não conheço de lado nenhum – é alcoólico, terei todo o prazer em aprová-lo.

Como é que o sistema detectou o insulto? Através do algoritmo que estabelece só ser possível largar o vinho estando previamente na sua posse. Nada de mais lógico. Daqui para a frente, entra uma parte verdadeiramente enigmática, pois não temos forma de descobrir o nexo entre a posse do vinho e a condição de alcoólico. Aliás, nem sequer se entende a associação entre a posse do vinho e a ingestão do mesmo, embora deva ser fenómeno relacionado com a gratuitidade referida. O poder deste índex censório desafia as capacidades mentais do cidadão comum, é só para malta que esteja na vanguarda da esquerda revolucionária. Mas também não se deve perder muito tempo a pensar nisso, serão segredos da vocação.

Para ti, que precisas de comentar no Arrastão e não queres ver o teu esforço desperdiçado, segue listagem das expressões a evitar, mais a respectiva explicação escaganifobética:

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O triunfo dos escaganifobéticos – II

Miguel Portas tem a desdita de andar lá fora a ganhar a vida, emigrante, num trabalho bem difícil: rodeado de estrangeirada burguesa, corrupta e imperialista. Agora, após 5 anos de tortura, nem suporta ouvir falar na União Europeia e suas chatices:

José Sócrates e Vital Moreira não querem que nas próximas eleições europeias se discuta Portugal, querem que seja uma grande conversa de sofá sobre assuntos que não têm nada a ver com as nossas vidas. Eles gostariam, mas não vão ter essa sorte. José Sócrates vai ter que responder e começará a responder em 07 de Junho e continuará a responder no final de Setembro ou inícios de Outubro.”

Os assuntos europeus não têm nada a ver com as nossas vidas, diz o cabeça de lista do BE ao Parlamento Europeu. Acredito. Isto é, acredito que o Miguel expressa o seu pensamento com rigor. E que faça todo o sentido ir para a campanha eleitoral fazer as seguintes revelações:

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O triunfo dos escaganifobéticos

Vai para dois anos que ando a remoer numa sugestão da Catarina Campos. Missão difícil, sempre adiada, até ao dia em que li esta declaração. Nela, uma das coqueluches da política-espectáculo anunciava, em registo confessional, a candidatura para uma bolsa de estudo no valor de 7665 euros brutos por mês:

[…] quando alguém próximo me pergunta o que iria eu fazer para o Parlamento Europeu, a minha resposta é “aprender”. Talvez não seja a resposta mais “política” mas é certamente a mais sincera. Aprender é aquilo que sempre mais gostei de fazer. Aprender em público é o que eu tenho feito nos últimos anos. O que vou escrevendo nos jornais ou dizendo na televisão não são opiniões fechadas; são momentos dessa aprendizagem em público. O Parlamento Europeu é provavelmente um dos melhores lugares no mundo para continuar a fazê-lo e tudo o que eu aprender será devolvido ao debate público e, por essa via, aos cidadãos.

Aprender é belo. Não ter opiniões fechadas é lindo. E vender a sonsa balela de que se devolve ao cidadão o que se anda a aprender com os nossos impostos é de subir aos postes e apalpar o cu às lâmpadas. Então, bute lá aprender no Parlamento Europeu, o qual tem magníficas instalações de ensino e refeitórios de encher a pança. Até o Pacheco, outro insigne historiador da cepa do Tavares, quer voltar para lá. O nosso estudante teria companhia no avião e bom conselho em Bruxelas sobre hotéis a evitar e restaurantes a não perder.

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Solidão e fragilidade do poder

A maior parte dos portugueses, se posta perante a possibilidade de trocar de lugar com Sócrates amanhã às 9 da matina, assumindo o cargo de Primeiro-Ministro, ficaria cagada de medo. Recusariam de imediato e ficavam incrédulos com o convite. E o mesmo aconteceria se o desafio fosse para daqui a 1 mês, ou 6, ou 1 ano ou 100. Temor e tremor, seria o resultado dessa experiência.

Mas não só no caso do Governo: quantos portugueses aceitariam estar à frente do PSD, por exemplo? Quantos estão dispostos a ficarem expostos? Quantos conseguem sequer falar em público para o público? Quantos arriscam discutir ideias próprias, negociar compromissos com adversários, defender vontades de terceiros? Quantos aguentariam a pressão da responsabilidade máxima e constante? Quantos portugueses fazem alguma ideia da complexidade de chefiar o Governo, ou um partido, ou um destino?

No entanto, parece que não faltam valentes prontos para a função. Manuela Ferreira Leite, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa, Paulo Portas, Santana Lopes, Pedro Passos Coelho, Luís Filipe Menezes, Marques Mendes, Carlos Carvalhas, para ficar pelo passado recente, são nomes que, de uma forma ou outra, têm estado na calha para nos governar. E trazem os seus companheiros e amigos com eles, há muita gente que saliva por gabinetes, secretárias, motoristas, seguranças, repórteres, salamaleques, almoços grátis, conhecer o Mundo e os mundanos. Sempre assim foi e será.

Paradoxo? Não, imbecilidade. Os que tentam derrubar o poder vigente na chã cobiça de o substituir, nesse exercício erradamente designado por oposição, ignoram o que é a solidão e fragilidade do poder. Ignoram por inexperiência ou vício. Esses, claro, são os que mais estranham ver um primeiro-ministro a pedir ajuda à Justiça.

Da vergonha

A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.

[…]

Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser “terreno propício para as campanhas negras”; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático.

João Miguel Tavares

Quando saiu este texto, subiu-me o fel à boca. Porque é um texto odioso, alucinado. Toma partido pelas suspeitas, construindo com elas as conclusões. Nem as investigações entretanto feitas, que nada revelaram de errado no percurso e currículo de Sócrates, nem as investigações a decorrer, que obrigam a uma espera, contam para suspender a sentença: Sócrates já é culpado, e para sempre será tirano. Quem o diz é um jornalista, daqueles com opinião.

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Lembretes

– Se a oposição não apresenta projectos e programas alternativos aos do Governo e PS, tal não se deve a qualquer dificuldade no acesso aos meios de comunicação, bem pelo contrário. TVI, SIC, Público, Sol, Expresso e Correio da Manhã, pelo menos, assumiram uma desbragada postura anti-Governo. No outro lado, a oposição aparece a comunicar na RTP, TSF, DN e JN constantemente, entre tantos outros meios, fora os próprios. A explicação, obviamente, é outra: a oposição não tem projectos nem alternativas. Contudo, caso se reclame ser a anterior conclusão não mais do que rasteira propaganda, então terá de se admitir que essas ideias não ganharam favor, nem sequer curiosidade, apesar das circunstâncias extraordinariamente adversas para Sócrates e Governo. Choose your poison.

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A violência dos justos

O jugular é um blogue matriarcal. Para nossa sorte. As questões da igualdade de género, direitos das minorias, violência doméstica ― exemplos maiores de uma cidadania feminina, ou no feminino ― são tratadas com frequência, denodo e genuíno interesse. Noutros blogues políticos de topo não se encontra agenda culturalmente tão relevante, muito menos um elenco de qualidade similar para as mesmas questões. O que nos deixa num cenário blogosférico desolador, pois a congénita estupidez da rapaziada que reúne maiores audiências, seja à direita ou à esquerda, não faz avançar estas urgentes causas sociais, preferindo gastar munição na chicana, na infantilidade e nos delírios narcísicos. Ou pior. É, as mulheres fazem muita falta -> na política, lugar ainda demasiado adverso para um cérebro de mulher, posto que espaço de poder ainda estruturado e preenchido pela tipologia conflitual do masculino. E se o belicismo não chegasse para justificar o afastamento, nalguns casos repulsa, as mulheres também sabem que a política está cheia de clones daquele marmanjo que tuitou em nome do Pedro Duarte. Há nos partidos e no debate político um cheiro a balneário que tresanda, até na esquerda mais à esquerda se tropeça em túbaros falantes. Heróicas são as que se expõem e lutam pela elevação da humanidade nesta arena, pois.

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Farmacopeia chinesa

Confúcio Costa bateu à porta e pediu para entrar. Queria passar aqui uma temporada. A seu favor trazia o magnífico apelido e uma carta de recomendação especial de corrida. Aliás, mais três cartas. Pelo menos.

Tal como o meu primo — co-fundador e presidente honorário desta agremiação terapêutica — tão bem estabeleceu para toda a eternidade e mais 30 minutos, isto do HTML pede muita descontracção e um coração bem maior do que a Internet. E também dá jeito estar medicado com aquilo que Pessoa definiu como o individualismo fraternitário.

Confúcio virá por tempo indefinido, fazer não se sabe bem o quê nem para quê, e apenas porque lhe deu na real gana. Ou seja, está perfeitamente adaptado ao ambiente.