Quo vadis, Cavaco?

A ruína do PSD, e da direita em geral, deixou Cavaco numa perigosa situação: está a ser pressionado, em crescendo, pelas forças da reacção (ah pois, é este o exacto nome) para assumir a liderança da oposição. Por outro lado, detém poderes políticos e sociais que podem ter grande, até decisiva, influência nos resultados eleitorais que se avizinham. Aliás, desde o foguete de Ano Novo, a verdade como arma de arremesso, que temos um Presidente a endossar o discurso da direita, da partidária à popular.

E o homem não está desprovido de máquina amplificadora, olá. O Público é um aliado subterrâneo da Presidência, prestando-se a qualquer serviço. Os serviços tenderão a ser cada vez mais sofisticados e organizados, como se comprova pela simples leitura do que vai escrevendo Joaquim Vieira na resposta aos leitores. Os exercícios de malabarismo do Provedor do Leitor para não assumir o óbvio são até confrangedores. E o óbvio é que o Público é parte integrante da oposição, subordinando o interesse jornalístico geral, e ideal, aos objectivos políticos que persegue. Os seus editoriais e interpretações políticas não admitem dúvidas sobre o actual posicionamento. É por isso que não aparecem notícias sobre individualidades ligadas aos escândalos factuais ocorridos na banca, no Governo de Durão e Santana ou nos financiamentos partidários do PSD e CDS. Não se faz investigação em nenhuma dessas vastíssimas problemáticas que já se estabeleceram como matéria criminal, preferindo-se a torrencial construção de suspeitas sobre o carácter de Sócrates, valendo tudo desde vasculhar as pedras que pisou a caminho da escola primária até inventar compras a metade do preço. Porquê esta vergonhosa duplicidade? Talvez para não agastar um Presidente da República que confia no cidadão Dias Loureiro e o considera digno de pertencer ao Conselho de Estado. Se este é o critério, o melhor é mesmo não entrarem jornalistas do Público nos casos SLN, BPP e BCP, não vá isso obrigar mais algum amigo do cidadão Cavaco Silva a ir ao Palácio de Belém para ser visto a bater no peito e a jurar inocência e santidade.


Que quer Cavaco? Não faço ideia, mas sei que a pergunta é outra: queremos Cavaco? Não, mil vezes não. Cavaco foi um primeiro-ministro sobrevalorizado e irresponsável, e o modo canhestro como saiu, deixando o PSD à nora e abandonando o cavaquismo sem prestar contas, exibe espectacularmente essas características. Como Presidente, está a fazer um péssimo trabalho, pois transformou-se, desde o caso do Estatuto dos Açores, numa fonte de instabilidade para o regime. O ponto a que chegámos, e que as últimas declarações elevam para um novo patamar, revelam um agente político que pretende interferir no plano da percepção do Governo ― servindo-se de uma paupérrima retórica, sem classe nem estilo, cuja única característica reconhecível é a ambiguidade. Repare-se na passagem incensada pela comunicação social:

Seria um erro muito grave, verdadeiramente intolerável, que, na ânsia de obter
estatísticas económicas mais favoráveis e ocultar a realidade, se optasse por
estratégias de combate à crise que ajudassem a perpetuar os desequilíbrios sociais já existentes ou que hipotecassem as possibilidades de desenvolvimento futuro e os direitos das gerações mais jovens.

De que se fala, exactamente? O discurso não esclarece, e quem o cita também não. Se é do Governo tomado no seu conjunto, então Cavaco sabe-se Presidente de um país cujo Governo tem como padrão a ocultação da realidade, a perpetuação dos desequilíbrios sociais e a hipoteca das possibilidades de desenvolvimento futuro e dos direitos das gerações mais jovens. Cum caralho, não parece coisa pouca. Mas, a ser assim, como pode Cavaco ser um impávido Presidente nessas condições? O dinheiro que recebe, e que paga dezenas de funcionários e colaboradores da Presidência, não é, precisamente, para impedir que algo tão desastroso aconteça ao já depauperado Portugal? Não deveríamos, pelo menos, ser informados com maior clareza dos perigos que o actual Governo representa? Ou tudo isto se resume a bocas lançadas para o ar, carne para o canhão da imprensa engajada e empurrões nas costas da Manela para que não acabe abaixo dos 20% nas legislativas? As opções são tristes: ou reina a esquizofrenia em Belém ou a equipa que rodeia o Presidente opta deliberadamente por tácticas de guerrilha e desgaste.

Falando verdade, há a dizer que Cavaco representa um Portugal bolorento, pacóvio e imbecil. O Portugal das oportunidades perdidas, dos patos-bravos, dos políticos medíocres, do betão como desígnio nacional. Merece ser o primeiro Presidente a não fazer um segundo mandato ― embora Alegre não tenha os mínimos para ocupar o cargo, pelo que se recomenda que nem a brincar se pense nessa alternativa. Basta ouvir os apoiantes do Professor, tanto os oficiais como os espontâneos, reminiscências do estrutural salazarismo que nos desviriliza, para se iluminar a mentalidade dos que espumam de raiva: querem o seu mundo de volta, o das referências esterilmente conservadoras, estagnado no pardieiro centenário que tem feito do jardim à beira-mar plantado uma quinta de trabalho para quase todos e de recreio para dois ou três. Eles não têm culpa, sabemos, mas também não têm desculpa.

O essencial do nosso problema político está nisto: ninguém na oposição é capaz de apontar um caminho, trazer um plano, revelar uma ideia agregadora de vontades e esperanças; só restando o terrorismo das campanhas negras e a manipulação dos mais miseráveis cultural, cognitiva e socialmente. O que prova, contudo, uma outra velha verdade: a de que o poder nunca fica vazio. Não há crise nacional e internacional que refreie a ganância dos que sabem que resta sempre alguma coisa para partir e repartir, e ficar a rir. Mesmo nos países mais pobres do Mundo, estar no topo da cadeia alimentar proporciona banquetes e festas; quanto mais num Portugal que se amanha com tão pouco e tem recebido tanto.

18 thoughts on “Quo vadis, Cavaco?”

  1. Pois, o PSD tem um Dias Loureiro, tinha um Isaltino, … O PS tem um Sócrates, uma Felgueiras, um Mesquita, … O PC também tem qualquer coisa e ao que parece até o BE terá.
    Mas o que é preciso é não defender nenhum deles de forma tão acéfala e desesperada.

  2. muito bom Valupi, amanhã venho cá contar-te uma conclusão a que cheguei hoje no meio do verde, a força da folhagem, recordando que virens vem de vir,

  3. vir , raiz de virtus

    (hoje vou voltar a ver o Gandalf, já não me lembro como ele se safou do Balrog, mas ao menos ficou branquinho :)

  4. Do que é que estavam à espera? Não perceberam que “cooperação estratégica” era uma forma de credibilizar a oposição que viria a seguir, em véspera de eleições?

    E quem é que “ajudou” à eleição de Cavaco?

  5. Muito bem, Valupi. Este Cavacório está-me a sair fraca encomenda. Está-se a transformar numa cavaca das Caldas nas mãos da Manela Leite. Já só falam a rimar um com a outra. Antes que os dois ponham Portugal a apanhar cavacos, é preciso fazer alguma coisa.

    É preciso pensar numa alternativa forte para a presidência, para impedir o visconde de Poço de Boliqueime de ganhar segundo mandato. Acreditem no Medina Carreira: o segundo mandato é o mais perigoso, porque o PR já não está a pensar em ser reeleito, por isso se o elegerem, fará o que lhe der na real gana.

  6. O “provedor do leitor” no jornal do engenheiro Belmiro é uma perfeita aldrabice, à qual se presta um gajo como o Joaquim Vieira não sei se por simples ganância, se por ambição ao lugar de director. Faz-me lembrar o antigo cargo do provedor do cliente da PT: só estava ali para defender e justificar a política da empresa contra o interesse dos utentes.

  7. Porque é que será que é tão raro conseguirmos ler ou ouvir tanta verdade junta sobre o mito do cavaquismo? Chega a parecer que o Cavaco Silva é o nosso Dom Sebastião actual.

    Estas declarações do PR reflectem também uma enorme mágoa por lhe terem desbaratinado um oásis que só ele e respectivos seguidores conseguiram alucinar.

    E muita nostalgia porque já não sobram manifestações onde se possam aplicar cargas policiais ou colocar a polícia a filmar os estudantes.

    Amnésia generalizada, isso sim. E depois é sempre o actual governo que demonstra tentações tirânicas pretendendo reduzir as nossas liberdades. Ou é culpado pelo nosso atraso e põe em risco o futuro quer seja porque sustenta os lobies do betão quer porque não apoia devidamente a iniciativa privada. É assim hoje e há-de continuar a ser assim amanhã.

    Agora é de extrema importância o combate à corrupção, ao enriquecimento ilícito e urgente o levantamento do sigilo bancário mas ninguém consegue perceber porque é que isso não foi feito há vinte e cinco anos quando abriram as torneiras dos eurodutos da CEE evitando a penhora do nosso desenvolvimento e um sem número de oportunismos e falcatruas que hoje colocam em causa a credibilidade do nosso sistema.

    O cavaquismo não só secou o psd como foi um contributo decisivo para a desertificação da vida política nacional. Mas prontos, até o Louçã gabou o PR este fim de semana, tá bom.

    Agora só falta irmos todos ao Vaticano pedir um milagre especial para o nosso país.

  8. Valupi, há talvez 2 semanas, apeteceu-me dar-lhe os parabéns pela inteligência, a lucidez e a coragem, raras no panorama público português… eu sabia que apareceria nova oportunidade. Aqui fica o registo.

  9. Valupi: ontem, devidamente alapado no sofá para ver o Gandalf branquinho liguei a tv e saiu-me o Vitorino na 1 e já agora vi: rosadinho e escarninho como sempre. Mas fiquei a saber que há hoje uma entrevista com o pm, ora também vou ver.

    Mas mesmo antes disso a minha conclusão de ontem no meio da folhagem é que possivelmente voto PS nas legislativas. Não é uma certeza nem uma promessa, apenas uma probabilidade significativa, ainda muita água vai correr sob a ponte, mas poderá ser a única forma de não me sentir cúmplice com a manobra ensaiada pelo PSD e a direita no seu conjunto para tomar conta do barco, ainda carregado com as 13ª maiores reservas de ouro do mundo e o buracão do BPN que cilindra muitos dos políticos do cavaquismo, caso o rol de nomes e montantes viesse a lume.

    Claro que seria diferente se o Bloco estivesse disponível para participar numa qualquer plataforma governativa, a ser acordada entre os actantes, mas a partir do momento em que se exclui liminarmente com cerca de 10% das intenções de voto não pode ter o meu, assim à primeira vista.

    Quanto ao freeport: lamento muito que os nossos concidadãos movidos e tolhidos por uma inveja (in_veja: ver para dentro) quase psicótica prefiram acreditar num inglês que tem mesmo cara de aldrabão a soldo de uma qualquer manobra inglesa, do que perceber que não faz de todo sentido que um gajo ministro com ambições maiores como se veio a provar arriscasse andar a receber envelopes de dinheiro sucessivamente e confiasse na família para o feito. Desde sempre que se sabe que nas famílias se mata por partilhas e por carcanhol. E por poder: olha os Bórgia, só para dar um exemplo.

    Além disso aquele zézito enunciado pelo tio, do PSD, disse tudo.

  10. maravilha…
    obrigado Val…

    Isto está duro

    e tem que se acabar com os paninhos quentes
    com S. Exa, o cooperante estratégico

    Pelas suas intevenções e conúbios

    ele estará em jogo
    já nestas varias eleições “intercalares”
    para as próximas presidenciais…

    Ele

    é a expressão de todos os corporativismos
    que frustram este país
    na sua via de desenvolviemnto

    e já agora

    porque será que a posse de um sr. sindicalista dos magistrados
    terá direito a noticia de um discurso emproado

    sobre matéria que não lhe cabe
    nem constitucional, nem politicamente

    pronunciar-se???

    a dra. Avoila não protesta com esta discriminação?

    abraço, fico por aqui…

  11. Cada vez mais se define a escolha que os portugueses irão fazer em Outubro: Continuar a modrnização do país e a luta contra os interesses que roubam os contribuintes há mais de 30 anos (Os Sindicatos e os Corporastivismos obviamente) ou ceder a essa comandita toda e voltarmos a dar 100 ou 200 passos atrás.
    No fundo a escolha é entre “o certo e o incerto”: Entre um governo que já deu provas que melhora e que faz e aqueles que passaram 4 anos a apoucar, insultar e maldizer tudo o que for feito, aqueles que quando tiveram a sua oportunidade prometram resolver as contas deixadas por Guterres e fazer as reformas…mas fracassaram rotundamente e deixaram as coisas ainda bem piores (…e sem direito à maior Crise Mundial desde 1929..e com TGV com 5 linhas!)

    Uma coisa vos garanto meus amigos – EU NÃO TROCO O CERTO PELO INCERTO
    …e muito menos o troco quando do outro lado da barricada está gente que há falta de argumentos políticos usa aquilo que há de mais baixo e reles – a difamação e o ataque pessoal.

    Que ninguém duvíde que em Portugal há uma corrente de actuação de estilo e métodos fascistas, cuja espinha dorsal é aquela comunicação social escrita e televisionada que todos estão a pensar..

    (Depois do que insinuaram com o Casa Pia..depois de conseguirem decapitar uma direcção do PS insinuando que todos ali são pedofilos..depois dessa orgia fascista a que o povo assistiu surpreso, pensei que aquilo iría ficar por ali, pensei que tinha sido um assomo passageiro…mas não, meus amigos. A hora é de tocar a rebate outra vez! Os Fascistas andam de novo por aí ..

  12. Caro Val já bastantes vezes opinei sobre o sr. ao qual Jardim tão simpaticamente chamou ou chama Sr. Silva. Ele é a face de um Portugal pacóvio, saloio, inculto, hipócrita, admirador do respeitinho e da espinha dobrada por mais que os seus ideólogos (Pacheco Pereira, Vasco Graça Moura etc.) se esforcem por nos tentar mostrar o contrário e nos fazer crer que o cavaquismo e o seu longo cortejo de erros nunca existiu. Mas o mais curioso é que certa “esquerda” se omite de lhe fazer qualquer crítica. A Esquerda arrisca-se, face ás discussões do costume e ás birras do beto Alegre, a conseguir a nova eleição do pior Presidente depois do 1974l. Penso que está na nossa mão (teclado) desencadear um movimento para que isso não seja possível. Sabes Val sou realmente um pouco usado e desculpa o tom confessional,mas não foi para isto que esperei, eu e mais alguns, um par de horas numa noite fria de Março a norte de Lisboa por um grupo de corajosos que tentaram marchar sobre a capital. E não foi com toda a certeza para isto que numa noite de Abril, faz no sábado 35 anos, com um burnal repleto de sonhos, subi a rampa da RTP na Alameda das Linhas de Torres. Foi mais um óptimo post o teu. Não há mais nada a acrescentar está lá tudo.

  13. ELES aí estão! Há minutos na SIC-“Nutícias” Maria José Nogueira Pinto afimava, face ao ar beático do jornalista Crespo, que se o Presidente acha que as instituições não estão a funcionar tem de ACTUAR EM CONFORMIDADE.

  14. (ai, eu confesso que a minha maior perplexidade continua a ser por que raio vim parar a esta vida, entendida como um espaço cruel do desdobramento do Ser, mas já que não consigo iludir essa realidade as minhas conclusões são: i) nunca tinha reparado que o pm tem orelhas élficas, mais vale tarde que nunca ii) faço votos que a Judite tropece no trambolho que trazia no dedo iii) já que sobrevivi a esta entrevista apesar dum espantamento na aorta só não pego hoje no baktron porque não seria prudente para as gerações vindouras,)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.