Arquivo da Categoria: Valupi

Pedro Sales, larga o vinho*

Anteontem, Pedro Sales escarrapachou a sua leitura do episódio da vaia a Sócrates no CCB. Acontecimento que ele não presenciou, mas do qual recolheu testemunho de seis amigos que lhe terão ligado a fazer queixinhas. Isso bastou-lhe para concluir que Sócrates foi o responsável pelo atraso. E daí parte para as suas pertinentes ilações: que Sócrates não se importou nada com a demora, que a administração do CCB se rege pela ideia que Sales faz da monarquia, que os espectadores foram tratados como figurantes do Primeiro-Ministro, que os espectadores foram tratados como escravos coloniais e que Sócrates ainda conseguiu cometer uma indelicadeza diplomática ao ter explicado o acontecimento.

Eis um rol de estapafúrdicas ofensas que atingem o Primeiro-Ministro, o CCB e as vítimas da escravatura colonial. Isto porque um evento público se atrasou 30 minutos, por razões absolutamente excepcionais, no País onde ninguém chega a horas a lado algum. E ainda termina declarando que há na explicação do caso, onde se refere a obrigação protocolar de esperar pelo Primeiro-Ministro de Cabo Verde, todo um programa. Quê? Mas qual programa?… Enfim, se dizes que há um programa, Sales, fala-nos dele, conta o que sabes, partilha com os teus concidadãos essas relevantes informações. Ou estarás com medo da PIDE? Não? É mais cagufa do Pina Manique?

Entretanto, fui lá fazer uma pergunta. Não obtive resposta do visado, mas apareceu um paladino. Tentei responder a este amigo, tendo enviado um comentário que foi apagado. Ora, tudo nice com a cena, camarada. É sobejamente conhecida a apetência da esquerda imbecil para a pulsão censória, e até estávamos em noite de apagão. Mas vir dizer que este comentário — Sérgio Pinto, desde quando é que perguntar a idade é despropositado e insultuoso?!… Larga o vinho. — equivale a uma insinuação de alcoolismo para terceiros, logo sendo um insulto gratuito de especial gravidade, logo tendo ultrapassado os limites da decência em caixas de comentários, logo merecendo ser apagado sem sequer se dar explicação pública ou privada, reforça-me a interrogação: Pedro Sales, que idade tens?

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* Não sei se és alcoólico, nem quero saber, mas sei que estás embriagado de moralismo e hipocrisia. O que tu deves sofrer no 25 de Abril, essa data onde se celebra o fim dos tiranetes e seus minúsculos poderes.

A blogosfera pula e avança

O nosso amigo João André voltou às lides. E já é doutor. Por extenso.

O nosso amigo Henrique Fialho abandona. Mas de uma forma que permite pensar ter ido de férias. Que tanta falta fazem aos que criam.

A Sábado lançou-se em versão digital. Lamentavelmente, sem ultrapassar uma atroz banalidade no conceito e conteúdos. O mais interessante acaba por estar na experiência de emulação dos blogues. José Mário Silva e Luis Rainha, figuras que foram desta casa, dinamizam o Blogue de Esquerda, ao lado da Ana Leonardo (que tentámos convencer a entrar no Aspirina, antes de ter aberto o seu Meditação na Pastelaria) e do Vasco M. Barreto. No Blogue de Direita, João Miranda, João Vacas, João Gonçalves e o nosso amigo Rui Castro são os artistas. Portanto, e dos dois lados, o elenco reúne bloggers prestigiados. Garantia de textos de qualidade, maturidade analítica e potencial polémico. Todavia, talvez a maior vantagem desta secção seja a captação de novos públicos para a blogosfera entre os leitores da revista. Há um desvirtuamento da independência dos autores quando servem uma marca, qualquer — e ainda pior se for um órgão de comunicação social — pelo que o espaço poderá ser frio demais para a comunidade. Também aponto como mau critério (são gostos, claro) a disparidade entre as pilas e os pipis, 7 a 1, uma correlação funesta. Seja como for, as maiores felicidades para todos.

Speculu

Marinho Pinto levou a TVI a gastar o seu maior trunfo, talvez antes do tempo planeado. É a única coisa que vale a pena dizer após a audição de um diálogo sui generis. O que se acrescente, é espelho.

Valente

De leitura benfazeja a crónica de Vasco Pulido Valente, hoje. Só verdades, como recomenda Anibal aos seus paquidermes. E lanço a ideia de um abaixo-assinado para que o homem escreva apenas sobre o PSD. Pelo menos, até o PSD arranjar alguém com algo, qualquer coisa, que valha a pena ouvir. Aí, mas só aí, poderia descansar ou divagar.

Anéis de Saturno

1 minuto antes das 21h, ontem, cruzei-me com César das Neves (se me estás a ler, eu era aquele tipo com cara de mau, tão ou mais matulão do que tu, que passou em direcção ao jardim, ias em direcção da papelaria ou por aí). Somos vizinhos. 1 minuto depois das 21h — isto é, 1 minuto depois de Mário Crespo ter anunciado compungido que Portugal estava a caminho da falência — voltei a encontrar o César. Desta vez falou-me. Disse-me que dentro de poucos anos, por causa deste Governo, não ia haver dinheiro para nada nem para ninguém. Depois apareceu o João Ferreira do Amaral, mas como não puseram legendas fiquei sem perceber corno. Seguiram-se imagens do Medina Carreira, de perfil, mais a Ferreira Leite, mais malta em manifestações. Muita. Gráficos com as contas do Medina, que provavam com números o que diziam as autoridades. Voltou o César. Disse que isto de Portugal falir teria como consequência o fim da União Europeia. Numa outra parte, a seguir ao segmento onde Sócrates aparecia a confirmar que ia mesmo fazer investimentos públicos, eis a prova, César foi ainda mais intenso. Declarou que a política de Sócrates era criminosa, e nesse entusiasmo saltou-lhe o braço esquerdo para a frente com o dedo indicador espetado, ao mesmo tempo que, num movimento interrompido, quase levantou da cadeira as generosas carnes adjacentes ao fim das costas. Tive a certeza de que a vontade dele era avançar em direcção à câmara e entrar por ela adentro na esperança de apanhar um, alguém. A peça terminou com o aviso de um jornalista: para que em 2013 ainda seja possível salvar o pouco que nos resta, temos de tratar do assunto já nestas eleições, ou será tarde demais.

Quando acabou esta coisa que em tudo, até nos códigos de montagem, seguiu as regras de construção de um tempo de antena, Mário Crespo fez a transição para uma notícia sobre Obama. O seu rosto estava agastado, e disse que íamos para um assunto bem diferente; repetindo que era mesmo bem diferente, na esperança de que todos entendessem que estávamos a sair da choldra em direcção à civilização. E eu gostei disso, porque temos de gostar de um jornalista, ou de uma estação TV, que se julga com a missão de derrubar o Governo. Não é que seja ético ou faça sentido, mas é engraçado. Do que não gostei foi de recordar as sábias palavras do meu vizinho. De repente, percebia tudo, tudinho. Sócrates ia levar o País à falência com o fito de acabar com a União Europeia, e assim pôr no desemprego Barroso e acólitos, estava na cara. Mas, para um mariola como eu, ainda era pouco, porque é sabido que Sócrates não se contenta só com o espaço europeu, vide política comercial. Assim, estava cada vez mais claro que a falência de Portugal ia arruinar o Planeta, talvez também a Lua. E foi então que desceu sobre mim a mais ignominiosa das ameaças: era desta que teríamos de pôr no prego os anéis de Saturno.

Coelhinhas, design thinking e chocolates

Então, e a Sarah Couto, hã?!… Pois é. Também não fazes puto ideia de quem seja a Sarah Couto, né? Eu nunca vi a Sarah Couto mais magra (juro, e ela que não leve mal a confissão). Mas tenho a certeza certezinha de pertencermos à mesma geração, tenha ela a idade que tiver. Ou eu.

E tu, também fazes parte desta geração que não se envergonha de ser (e querer ser) hoje mais corajosa, mais inteligente, mais criativa, mais amorosa e mais livre do que foi ontem? Aposto que sim.

E o Zé Manel ainda não tuitou sobre isso?

Repito o que já disse antes: se a maioria dos portugueses soubesse efectivamente como são feitas as “notícias”, não comprava um jornal, não via um noticiário, a não ser como entretenimento, ou como obra de ficção.

Pacheco

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Haja alguém amigo do Pacheco que seja amigo do Pacheco e lhe diga, como amigo, Ó Pacheco, se sabes efectivamente como são feitas as notícias, dá notícia, Pacheco. Anda Pacheco, força Pacheco, toca lá essa guitarra.

Cineterapia


The Dark Knight_Christopher Nolan

Dizer que este filme foi o melhor de 2008 é curto. Foi também o melhor de 2007 e de 2009. Ah, dane-se, é o melhor filme que o século XXI já viu. Porque é uma análise matemática, um ensaio político e uma reflexão ética, tudo incluído no preço do bilhete. E porque é a obra de um virtuoso, um criador de clássicos, de perfeições. Trata do problema que enchia anfiteatros nas cidades gregas, 2500 anos atrás: que é o Homem? Eles não sabiam, sortudos. E quem não sabe, pergunta. Nasceu a filosofia, nasceram esses chatos do caralho que zumbem aos ouvidos dos sonâmbulos. Tão perigosos que a polis os persegue, quer castigar, envenenar. Mas são eles que vigiam e protegem a pergunta, sempre ameaçada pelos que não querem abandonar a ilusão que lhes calhou à toa ou pelos que receiam perder-se caso se encontre a resposta.

Grandes verdades são reveladas neste filme, mausoléu do génio de Heath Ledger. Seguem a sapiencial tradição de esconder o tesouro mais valioso no local mais próximo e visível. Por exemplo, que quando se joga ao dilema do prisioneiro são os loucos aqueles que têm razão; isto é, aqueles que escolhem confiar no outro. Por exemplo, que há heróis que temos de perseguir e afugentar, pois ainda não estamos preparados para eles. Por exemplo, que sometimes the truth isn’t good enough, sometimes people deserve more, sometimes people deserve to have their faith rewarded. Por exemplo.

O que é o Homem? É aquele ser que faz filmes.

Frente Unida dos Imbecis

O que se passou no processo que levou à brutal censura de um anúncio da Antena 1 prova como a democracia é frágil. Não sei se a virose agitprop teve origem no Nuno Ramos de Almeida, mas a favor desta tese está a data de publicação, 19. Ontem de manhã, Pacheco Pereira acrescentou veneno ao que tinha nascido podre e deu-se uma explosão no final da tarde. Pelo meio, o PSD alinhou com a esquerda imbecil, partido invertebrado que actualmente é, e Carvalho da Silva disse esta coisa fabulosa; que fica como programa de abolição da singularidade humana e manifestação psicótica:

A concepção individualista apresentada no spot não configura a missão de serviço público a que a rádio pública está adstrita, antes parece reflectir uma atitude de subserviência a posições de incómodo manifestadas pelo Governo relativamente à contestação das suas políticas.

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Do adubo

A bosta é natural e alimenta muito bicharoco. Entra na economia do sistema vegetal e sai da vegetação dos economistas. Também a real bosta que é a TVI veio enriquecer as nossas opções lúdicas na versão 24. Nada se perde.

É o caso do Prolongamento, onde se encontram reunidos Pôncio Monteiro, Fernando Seara e Eduardo Barroso, os três sob a desculpa de irem falar de futebol. Mentira. Eles são mantidos naquele espaço apenas para não andarem à solta na cidade. Pelo menos durante duas horas, uma vez por semana, ficam num ambiente controlado, monitorizado por um auxiliar de enfermagem e vigiados por várias câmaras de televisão; assim descansando familiares e amigos que podem aproveitar para ir jantar fora, ao cinema ou pôr a conversa em dia.

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Não enfies a inteligência no preservativo

Defender a Igreja é um dos meus pecados favoritos. Porque ela não tem defesa, daí o luxo (ou luxúria) a que me entrego apaixonadamente. E também porque nem sequer cristão sou, quanto mais católico, daí o gozo supremo da peleja. Os temas do aborto, eutanásia e preservativo são ocasiões de flame wars onde não se fazem prisioneiros nem se vira as costas ao inimigo. E o inimigo é só um: a luta da inteligência com ela própria.

Ana Matos Pires e Carlos Amorim Abreu formam um par de opostos que atinge a perfeição dos contrários. Opostos em tudo menos na banalidade de uma inteligência acrítica quando o assunto é religioso. As suas reacções são intelectualmente infantis, manifestando profunda ignorância acerca da própria natureza de uma instituição religiosa. Eles representam a mediania, a enorme mole das opiniões comuns. Para esta gente a Igreja faz muito mal em ter valores e ideias próprias, há muito que deveria ter adoptado as ideias e valores deles. Sim, estamos no domínio das liberdades, e estas explosões emocionais nascem do desejo de retirar a liberdade de expressão e vivência às religiões.

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Sócrates e o culto da personalidade

Existe um culto da personalidade à volta de Sócrates, é indesmentível. Começou em 2006, com as corridinhas a assustarem os pançudos, as tareias no Parlamento a envergonharem os palonços e a evidência de que o homem ia mesmo tentar reformar alguma coisa. E o culto cresceu. Cresceu como nunca se tinha visto em Portugal. Até no PS há militantes e deputados que alimentam o culto da personalidade a Sócrates, veja-se o ponto a que isto chegou. O Alegre, por exemplo, é um deles. E outros que estão com ele, que até chegam a votar contra o partido na Assembleia da República ou sonham com a perda da maioria absoluta, não se cansam de falar em Sócrates. Mas onde o culto da personalidade atinge o seu histerismo é na oposição. À direita, o mais destacado cultor é o Pacheco, coadjuvado pelo Zé Manel e pasquim, a que se juntou o Sol, TVI e Correio de Manhã, pelo menos. À esquerda, PCP, BE e sindicatos amigos, vocacionados para cultos da personalidade desde o berço, não deixam os seus créditos por manipulações alheias. Todavia, nada se compara com o paroxismo que acaba de ser alcançado pelos professores:

Sou professor não voto em Sócrates

Os professores consideram que a governação de Portugal é matéria da exclusiva responsabilidade de um indivíduo. Não há partidos, não há militantes, não há programas, não há eleições, não há Parlamento, não há sociedade, não há comunidade, não há Pátria, não há nada para além de um nome, uma cara, um poder que se projecta absoluto, um monarca.

Espero que os professores não andem a ensinar estas porcarias aos seus alunos. Para isso, mais vale que ocupem o seu tempo em manifestações, onde podem dar largas ao culto da personalidade de Sócrates com aqueles cartazes tão giros que o procuram ofender, precisamente, na sua personalidade. Os alunos, assim livres da influência destes professores, terão até tempo para aprender alguma coisa de política.

Que nome vamos dar a quem foge do Parlamento?

O BE saiu do Parlamento porque o Chefe de Estado de Angola lá entrou. Pelas seguintes razões:

Fernando Rosas acusou ainda o regime angolano de ser “oligárquico, assente na corrupção e com chocantes desigualdades sociais”

E, súbito, a muitos, e a muitos até agora simpatizantes do Bloco ou em aproximação, caiu uma chuvada de lucidez: o BE é um bando de perigosos irresponsáveis. Porquê? Porque também representam o Estado português ao mais alto nível – ou ao mais fundamental nível – ao terem representação parlamentar. Estás de acordo? Tens de estar, tira agora o resto das conclusões: ao se recusar a receber o Presidente de Angola no Parlamento, o BE está a afirmar a ilegitimidade do poder político angolano. E que tipo de relações se pode ter com um Estado a cujos representantes não se reconhece o direito de representação? Se o BE não recebe Eduardo dos Santos no Parlamento, servindo-se de critérios tão vagos e ambíguos, como seriam as suas relações com a enorme maioria dos países mundiais, inevitavelmente abrangidos pelos mesmos critérios, caso fosse Governo? Os eleitores aguardam um rápido esclarecimento.

Entretanto, o papagaio-mor do partido, Daniel Oliveira, vendo-se à beira do abismo lógico, resolveu dar um passo em frente: afirmou que Eduardo dos Santos é um criminoso. Ter estado presente no Parlamento, então, significaria ter sido cúmplice dos crimes que o BE já averiguou e encaminhou para as autoridades nacionais e internacionais (presumo, fazendo fé na honestidade intelectual deste arauto da verdade). Fez muito bem o BE, canta o Daniel, e tal imbecilidade abre-nos o apetite para as seguintes perguntas: o BE aceita partilhar o Parlamento com deputados e partidos que foram ao beija-mão do criminoso?; o BE aceita ter um Presidente da República que convida criminosos para visitas de Estado?; o BE tem planos para alterar a política interna angolana? Os eleitores, e as autoridades angolanas, aguardam um rapidíssimo esclarecimento.

Para mim, é tudo muito mais simples. Sendo o Parlamento a sede da democracia, quem foge dele foge dela.

7 Reasons Leaders Fail

Dilbert.com

Serão os filhos culpados pelas ignorâncias e limitações dos pais? Idem para os empregados em relação aos patrões. Em Portugal é raro encontrar um patrão inteligente, o que é diferente de encontrar um patrão com sucesso. O sucesso é um conceito fluido, adaptável à circunstância de cada um e à sorte que tudo rege. Mas a inteligência é uma capacidade que remete para o outro, para essa arte de criar comunidades. Aqui o sucesso não nasce da sorte, mas da atenção, da humildade e da coragem.

Os portugueses urbanos não sabem criar comunidades, são profundamente incultos, e isso leva a que sejam inevitáveis tiranetes, ou capatazes mesquinhos, no exercício das chefias. Donde, a necessidade de fazer uma revolução que comece por cima, pelas lideranças. E este artigo, tão elementar, chega e sobra para essa alquimia.

Queda livre

O programa Roda Livre, da TVI24 (ainda a anunciar Vital Moreira no elenco), reúne Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Correia de Campos e Henrique Garcia. O moderador está lá para garantir o festim de chicana contra o Governo, PS e Sócrates, não faz rigorosamente mais nada. O Vasco comporta-se com a senilidade que as palavras escritas escondem e a voz não disfarça. E o Rui Ramos revelou-se, ao vivo, uma surpreendente fraude intelectual.

Neste ambiente de hostilidade desbragada, Correia de Campos tenta apresentar factos, números e argumentos. Para nada. Do outro lado há opiniões, percepções e vitupérios, sem carência de base real ou imunes ao contraditório objectivo. Por isso, anteontem, ele acabava invariavelmente a rir-se da fantochada onde estava metido.

Mas o cúmulo atingiu-se quando Henrique Garcia introduziu o tema do computador Magalhães, o qual, nas suas palavras, estava cheio de erros gramaticais. É importante notar que esta ideia é transmitida publicamente no dia 12 de Março de 2009 pelo responsável editorial da TVI24. Ou seja, não se trata de um episódio de má informação ou falta dela, é antes a deliberada intenção de mentir. Pois foi isto que aconteceu: quando Correia de Campos começou a falar, os outros três começaram a vaiar, literalmente! Estavam em regime de pateada, boicotando o discurso do orador antes mesmo de ele ter conseguido ligar duas sentenças. Foi uma situação extraordinária, nisso em que ela revela, de modo obsceno, as actuais disfunções de tanta gente com que crescemos, ou amadurecemos, intelectual e jornalisticamente, e agora se apresenta alucinada, espumando a sua frustração e ressabiamento para cima dos telespectadores e interlocutores. Não têm a mínima noção do que assim revelam da sua intimidade, ou parece não se importarem com algum critério de aferição da honestidade. Supremo encanto da merenda, quando chegou a vez do Vasco e do Rui falarem das supostas desgraças linguísticas do Magalhães, nada se ouviu sobre o assunto. O Rui apenas reconheceu que o computador era um sucesso junto das crianças, e o Vasco queria cascar nos professores. Quer-se dizer: há idosos analfabetos em lares insalubres que teriam algo de mais valioso a dizer do que este par de jarras.

Estamos a assistir a um fenómeno colectivo onde há um efeito de contágio. O delírio de Pacheco Pereira, de que os outros são cópia, é a expressão mais acabada da patologia originada pelo desabamento da direita, tanto no plano partidário, como no plano ideológico. Mas as causas mais fundas do actual desespero e paranóia ligam-se à qualidade política do Governo, que promete levar o PS a vencer as eleições apesar da contestação artificial e das campanhas negras, e aos acontecimentos no BCP, BPN/SLN e BPP. Uma rede vastíssima de cumplicidades, de empresas a indivíduos, sente-se ameaçada, entrou em pânico e teme o pior das investigações. Sócrates tem de ser condicionado, ou afastado, a todo o custo, pois o que está em jogo são casos de polícia e prisão que atingem a elite nascida do cavaquismo e os negócios que ela alimentou nos últimos 20 anos.

Um aviso com 86 anos

Aviso por Causa da Moral

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim – exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más – boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível. Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo o mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

António Nogueira, Europa, 1923