Não enfies a inteligência no preservativo

Defender a Igreja é um dos meus pecados favoritos. Porque ela não tem defesa, daí o luxo (ou luxúria) a que me entrego apaixonadamente. E também porque nem sequer cristão sou, quanto mais católico, daí o gozo supremo da peleja. Os temas do aborto, eutanásia e preservativo são ocasiões de flame wars onde não se fazem prisioneiros nem se vira as costas ao inimigo. E o inimigo é só um: a luta da inteligência com ela própria.

Ana Matos Pires e Carlos Amorim Abreu formam um par de opostos que atinge a perfeição dos contrários. Opostos em tudo menos na banalidade de uma inteligência acrítica quando o assunto é religioso. As suas reacções são intelectualmente infantis, manifestando profunda ignorância acerca da própria natureza de uma instituição religiosa. Eles representam a mediania, a enorme mole das opiniões comuns. Para esta gente a Igreja faz muito mal em ter valores e ideias próprias, há muito que deveria ter adoptado as ideias e valores deles. Sim, estamos no domínio das liberdades, e estas explosões emocionais nascem do desejo de retirar a liberdade de expressão e vivência às religiões.


Sempre que o Papa faz uma declaração sobre o preservativo, sendo coerente com a doutrina da Igreja, tem de repetir esta evidência: os católicos obedecem a uma concepção da sexualidade que a liga à monogamia, à fidelidade, à abstinência, à castidade, ao matrimónio, ao amor ao próximo, à misericórdia, à compaixão, à fé, ao amor a Deus, à ética, à responsabilidade máxima, à consciência. Ora, por economia de tempo, seria impraticável, ou fastidioso, estar a recontar a História da Igreja de cada vez que um jornalista faz uma pergunta sobre a actualidade. Este problema teve uma solução genial: quando se elege um Papa, avisa-se o mundo. Para facilitar ainda mais a identificação do senhor, ele aparece em público com umas vestes engraçadas e todos à sua volta o tratam, olha a coincidência, por Papa. Mesmo assim, até Governos têm dificuldade em perceber quem diz o quê.

O motivo do escândalo é invariavelmente o mesmo: a posição da Igreja em relação ao preservativo está a ser causa do aumento do contágio ou dificulta a sua diminuição. Esta acusação é tremenda, escabrosa, diabólica. Implica que haja assumida cumplicidade por parte de todos os católicos com uma prática que não tem outro exemplo conhecido na História, superando em vítimas e perfídia o próprio nazismo. Será verdade? Será verdade que a doutrina da Igreja está a causar vítimas? Se for verdade, não deverá ser difícil comprová-lo. Mas, onde estão as provas? É que bastará uma prova para que não mais a Igreja possa repetir publicamente a sua mensagem, nem sequer a possa repetir nos seus domínios, posto que seriam afirmações criminosas. Sim, ser cúmplice de contágio de SIDA é criminoso.

O Carlos e a Ana, que aqui tomo como exemplo posto que entrei em diálogo com eles, fazem essa acusação, implicitamente. Não perdem um caracter com a mais leve interrogação sobre o significado das frases que os jornalistas destacaram e que uma resposta dada de improviso agregou. Para eles, na displicência das conversas de café, o Papa tinha dito uma barbaridade. De facto, passa lá pela cabeça de alguém estar a pôr em causa o preservativo… que maluco irresponsável… e foi para África dizer isso! O nosso par, a fazer fé na sua honestidade intelectual, se vier a cruzar-se com o Frei Bento Domingues, ou padre Vítor Melícias, ou padre Vaz Pinto, por exemplo, desatará às caralhadas, chamando-os de assassinos para cima, atirando os sapatos na sua direcção. Afinal, essas figuras sinistras alimentam a máquina da morte mais sórdida, aquela que é causada pelo amor.

Mas pensemos, recorrendo a uma hipótese simplista: enviados para África, a Ana e o Carlos de um lado, com inesgotável fornecimento de preservativos, super-Bento do outro, munido apenas do verbo e do Verbo – quem teria mais sucesso no combate à SIDA? Neste problema, a principal constante é o tempo, estando em causa garantir a melhor defesa contra toda e qualquer ocasião de transmissão pela vida fora, posto que basta uma ocorrência sexual para resultar em infecção. Na estratégia de saturação das populações com preservativos, devidamente elucidadas as técnicas e ocasiões do seu uso, não se interfere com a cultura e moral sexual. O preservativo é neutro, não quer saber da circunstância em que é usado, apenas ambiciona poder cumprir a sua função. Na estratégia da educação para os valores e ideais católicos, devidamente elucidadas as condições de assunção do credo, interfere-se decisivamente na cultura e moral sexual. É o principal alvo da acção, não existindo nenhuma neutralidade na mensagem nem no mensageiro. O que se ambiciona é o compromisso de cada um com a sua saúde, responsabilizando-se absolutamente pelo seu comportamento.

A menos que o nosso par garantisse estar presente em cada ocorrência sexual de risco, o sucesso da exclusiva distribuição dos preservativos estará sempre dependente da imprevisível utilização por cada indivíduo, e ainda da sua correcta utilização desde o princípio ao fim do acto, e ainda da qualidade suficiente do próprio preservativo. Do outro lado, uma vez mudada a mentalidade, nem sequer há ocasiões de risco, sendo o sucesso da estratégia completo. Isto não custa a compreender, pois não? Para mais quando é do domínio público, e desde os anos 80, que a Igreja também distribui preservativos em variadas ocasiões e locais, e que não poderia deixar de o fazer. Responsáveis da Igreja, bispos e padres, quando questionados sobre o que se deve fazer com alguém que pretende ter relações sexuais de risco, e posto que a sua liberdade é intocável, respondem que será um acto de misericórdia levar essa pessoa a usar preservativo. Isto não custa a compreender, pois não? Pois não?

É que a igreja tem esta característica curiosa: é uma comunidade, verdadeiramente. O Papa é apenas mais um no rebanho, aquele cuja missão implica um especial sacrifício, pois está inevitavelmente sujeito aos sujeitos que enfiam a sua inteligência dentro do preservativo, tornando estéril o diálogo.

60 thoughts on “Não enfies a inteligência no preservativo”

  1. Esta Igreja de Valupi é tão certinha, tão correctinha, tão sagaz, tão de bem consigo própria, tão de bem com o seu rebanho, tão…tão…que até parece que foi outra (e outro, o Papa) a que retirou a excomunhão ao bispo que negou o Holocausto…Só para referir ocorrências recentes.

    João Coelho

  2. Estás tramado, Valupi,

    Depois dum posto longo e cheio de juizo e que te deve ter dado imenso trabalho, tens agora um Coelho para esfolar com uma mão atrás das costas. Jesus, que canseira! Mas põe-te a pau, olha que o homem está mais politicamente correcto que uma bicileta a motor com filtros para o morónico de carbono…

  3. Protagoras foi percursor dos sofistas (como Valupi), mas disse “O homem é a medida de todas as coisas”. O Papa é coerente com a doutrina da Igreja, como tal, tem o direito de proferir frases que (ainda que se não possa provar), podem levar à morte de quem nelas acreditar. Esta da coerência é a parte mais engraçada, Hitler e Mussolini também tnham as suas doutrinas, com as quais foram coerentes. Torquemada foi mais um exemplo de coerência. A partir de agora podemos deixar de usar o termo barbárie e substiui-lo por coerência.
    Como leram é sempre possível defender qualquer tipo de argumento, por absurdo que seja …

  4. Mas então… a Igreja sempre distribui preservativos para ocasiões especiais? Funciona como um sistema de quotas, é? 10%% de preservativos para 90% de sermões sobre a fidelidade monogâmica? Meu filho, trago aqui um preservativo no bolso, mas é só para quando te aparecer o diabo em forma de angelina jolie em missão da ONU e te der uma tesão incontrolável. Ou colocam o preservativo dentro de uma caixa de vidro, no altar mor, com um aviso para só quebrar em caso de emergência?

  5. Conversa, como sempre.

    A unica questão consiste em saber se esta nova afirmação do papa (mas ja sei que vais dizer que não é dele, ou que não pode querer dizer o que significa, porque seria demasiado simples se as asneiras fossem erros, e tu és um pensador complexo) relativamente à eficacia do preservativo é ou não valida.

    O resto (a igreja, o seu papel no mundo, o que nos fazemos concretamente para ajudar os pobrezinhos, etc.) é mera diversão.

    Se (como defende o papa) a moral catolica é a arma mais eficaz contra a epidemia de SIDA, porque é que a epidemia progride num continente onde o catolicismo esta em expansão ?

  6. Subscrevo-o. Afinal de contas, não é de crer que quem seja católico para não usar preservativo não seja católico para não observar a castidade pré-marital e, inversamente, que quem pretenda prescindir desta tenha demasiado apego aos valores da Igreja para se servir de um contraceptivo. A fazer fé nos comentadores que cita, as pessoas, talvez por algum condicionalismo especificamente africano, só conseguem cometer um pecado de cada vez, optando, mais uma vez porque estão em contexto sub-mediterrânico, por obviar um uso do preservativo que lhes pode assegurar a saúde, mas sem nunca deixarem de praticar sexo com diversos parceiros…

  7. Caro Valupi, escreveste, na caixa de comentários do Jugular que não me conhecias com problema de literacia. Confesso que esse é um problema que não tens tu. Adorava escrever como tu. Adorava ainda mais conseguir escrever tão bem sobre coisa nenhuma, como tu fazes. No fim acabamos por ver que, segundo escreves, nada disto tem nada a ver com nada, porque o Papa é apenas um entre muitos católicos, o homem até nem tem grande importância (a não ser como grande pensador, suponho) e no fim de contas não possui divisões nenhumas ao dispôr, não é verdade?

    Meu caro, tal como escrevi noutras alturas, eu nada tenho contra o facto de a Igreja tomar posições destas sobre os preservativos. Todas as discussões filosóficas, teológicas ontológicas ou astrológicas deixo-as para o sketch dos Monty Python e para o que se lhe segue, com o casal de protestantes. Quem quer usar que use, quem não quer que não use.

    Pessoalmente (obviamente não falo nem pela AMP nem pelo CAA), o que me incomoda é o Papa vir dizer que o preservativo é parte do problema (na luta contra a SIDA) e a abstinência parte da solução quando isso não é verdade (tenho a certeza de já ter lido estudos sobre isso). Se é ele que tem razão, então que apresente ele as razões para o que diz. Nada disto tem a ver com a questão religiosa (a abstinência não é um exclusivo religioso e, tal como referes, também a padres e missões religiosas distribuiem preservativos). É apenas uma questão de factos ou, no mínimo, evidências.

    Já quanto à hipótese que apresentas, de dar os preservativos e depois não se ter controle sobre o que fazem os receptores do mesmo, isso aplica-se igualmente à abstinência (nem precisas que eu o diga). Podemos dizer-lhes que, se se abstiverem do sexo, não vão contrair SIDA (pelo menos por via sexual, que é do que tratamos aqui). Mas também não vamos ver o que é que estão a fazer todos os dias, se o homem está realmente a lembrar-se da abstinência quando vê a mulher de cócoras a limpar o chão ou a mulher quando vê o homem de manhã na cama antes de este ir dar a sua mijinha.

    A questão, no fundo, é simples: qual é a lembrança mais provável? Não ter sexo ou colocar o preservativo? Sabemos que nenhuma será cumprida a 100% por toda a gente, mas qual é que tem mais probabilidades de ser mais frequentemente lembrada por uma maior percentagem de casais? Pois, é isso.

    A questão religiosa e o proselitismo religioso (de que gosto, para evitar meias tintas) não é para aqui chamada. Pelo menos por mim.

  8. Bom dia meu caro amigo. Permite que te chame assim. Salto da cama. Afivelo a dentadura porque tenho de ir ao multibanco para ver se chegou a reforma e ligo esta máquina do demo. Vejo o teu post. É de homem e tenho de confessar que demonstra coragem porque vai contra a corrente. Não concordo. Não posso concordar. A explanação dos meus argumentos seria longa e tu já tens “melgas” suficientes. Para quê mais uma? Todavia vou colocar o Stabat Mater de Pergolesi e ligar para o Velho da Barbas pode ser que volte a este assunto.

  9. jafonso, podes dizer à vontade por que é que não concordas, como os outros. O valupi dispensa concerteza manifestações de solidariedade. E olha que isto de fazer posts e comentários em blogs a defender o Papa não exige uma coragem por aí além, não exageremos.

  10. Totalmente de acordo com o João Viegas. Acrescentaria que é de um grande cinismo de avestruz a Igreja Católica defender a FIDELIDADE (não a companhia de seguros, mas a outra) como o grande remédio para uma epidemia que assola os países africanos. É como tentar defender o sistema financeiro internacional das crises que estamos a viver com sermões contra a ganância. A gente sabe como se portaram os fulanos da Opus Dei na banca portuguesa. Os tais que são um exemplo vivo das virtudes católicas no trabalho e na vida de negócios.

    O papa está, nesta questão, ao nível das idiotices irresponsáveis que, por razões puramente ideológicas, Tabo Mbeki defendeu sobre a sida, nomeadamente ao afirmar que essa história da sida em África era fruto de uma visão racista e que, além do mais, não havia consenso entre os cientistas acerca da origem viral da doença.

  11. Suscitar dúvidas quanto ao preservativo no continente africano é no mínimo
    um anacronismo e no limite obsceno. É não ter em conta as condições sócio-culturais em que vive esse continente. É relegar para plano secundário a sua história. É fazer recuar o trabalho daqueles que no terreno lutam, e em que condições, contra a SIDA. Claro que deste Papa em particular e tendo em conta a doutrina da Igreja sobre a matéria outra coisa não seria de esperar. Mas por amor de Deus um pouco de realismo/pragmatiso não seriam de considerar? Dizer isto agora e no local em que foi dito? Mas não importa, entre diatribes contra a luxúria e hinos á castidade, vão morrendo mais uns milhões. Quanto ao que foi dito pelo Valupi mantenho tudo o que afirmei.Não foram manifestações de solidariedade, mas com toda a certeza teria sido bem mais fácil descer o rio que o subir. Agora a minha discordância não me pode deixar de afirmar o que afirmei, como a minha oposição ás palavras de Bento XVI não faz esquecer o papel relevante da Igreja e de muitos dos seus membros em solo africano. Será que eles concordam com a posição do Bispo de Roma? Agora vou ao British Bar passar a tarde que a reforma já cá canta. Aparece Caramelo que o dia está lindo. Há apenas un problema…mas não… o “beto” Alegre não vai aparecer.

  12. Nik,

    Vomita lá esses nomes da Opus Dei envolvidos no carcanhol das virtudes católicas. Há um processo crime contra esses gajos instaurado na terceira verga civil maçónica. Tem que se tirar isso a limpo sem salpicar o resto dos partidos com alvas nódoas.

    E olha que terminaste bem com essa do Tabo Mbeki. Mas só tiveste coragem porque vestiste a casaca de se dizer mal. Logo, larga a amarguinha e, se puderes, a antífrase valupiana imperceptível à vista de gente que nunca põe os cérebros à cora.

    E Ai Jesus, credo, Tancredo, que o JAsonso, mesmo na reforma, está indignado com as obscenidades dos herdeiros de S. Pedro! Sai um comboio carregado de camisas de vénus para a Angola do canto, por favor! E três pudins de malária à prova de sickle cell e foice e martel.

    Mas bom mesmo é o Caramelo das Beiras de Alhos Vedros. Criticar o papa é só para gajos de tomates! Que heroismo, vou já entrar para a resistência contra os anjos malditos das catacumbas romanas. Dá medalha, diz-se.

  13. Um British Bar, com este calor, Jafonso? Bebe pelo menos uma cerveja geladinha e não uma daquelas mistelas mornas dos camones. Eu não sei onde é, mas obrigadinho na mesma.. Aqui nas beiras de alhos vedras, onde o outro aí em baixo diz que eu moro, encosto-me ao balcão de mármore da tasca do sítio e bebo finos. E também levaste por tabela do tal Estaca, tás a ver? ;). Ó Estaca, reza um terço e acalma-te, rapaz.

  14. Não digo onde é (Cais do Sodré) porque senão o padreca do Estaca sai do confessionário e abotoando a sotaina lança-me a sua excomunhão.Fim de polémica porque enquanto respondi aqueceu a cervejola.Demos graças ao Senhor!Oremos!

  15. Ah, é aquele que tem o relógio que anda ao contrário, não é? Tou a ver. Pede mais duas, uma por mim. Bom fim de semana.

  16. “uma vez mudada a mentalidade, nem sequer há ocasiões de risco, sendo o sucesso da estratégia completo.”

    AHAHAH es um pandego, o’ Valupi. Estas melhor do que o Pedro Arroja.

  17. O CAA e a nao sei quantas teem de estar presentes para garantir a aplicacao tecnicamente correcta do preservativo; ja’ o Papa conta com o anjinho branco ou com o grilo falante cada vez que um sujeito da’ de caras com a tentacao pecaminosa. ahahah

  18. j.coelho, a Igreja sempre foi santa e puta, como disseram os medievais. Tens de dar um desconto; afinal, também há alguns humanos por lá.
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    jv, depende. Porque as religiões são, igualmente, obra humana. Portanto, há algo para defender com legítima racionalidade.
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    ESTACA, vejo que adoptaste os meus tracinhos-maravilha para separar os pratos. Afinal, sempre aprendeu alguma coisinha por estas bandas, seu malandreco…
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    JCV, parabéns. No Mundo inteiro, conta-se pelos dedos das mãos (e, vá lá, também de um dos pés) o número daqueles que citam Protágoras em caixas de comentários. Não estou é a entender a parte do ter sido “percursor dos sofistas”. Tens de rever isso, ó pá.
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    caramelo, já desconfiava, mas vieste confirmar: isto da Igreja, e tal, é para ti uma ganda confusão, né?
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    joão viegas, é possível que estejas a expressar o erro de muito boa gente. É que o Papa não se referiu à eficácia do látex, mas sim à ineficácia de uma estratégia exclusivamente apoiada na distribuição e divulgação do preservativo.

    Se for o caso, é voltares a ler o que disse o homem. Ou finalmente leres, pois desconfio que ainda não passaste do título das notícias.
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    claudia, sábias palavras.
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    JV, nem mais. É um extraordinário fenómeno colectivo onde uma falácia tão óbvia persiste protegida por emoções primárias.
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    Z, castidade, certíssimo conselho.
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    João André, tens vários pontos interessantes no que escreveste, nisso em que estimulam a discussão dando que pensar e investigar. Outros, o essencial, talvez já esteja desactualizado, pois é evidente que houve manipulação da resposta do Papa. Mas, enfim, é também inegável que a sua mensagem é provocadora nisso de chocar contra a inércia bem-pensante, ocidental, rica, esquerdalha, politicamente correcta, branca e o diabo a sete.

    Vou só realçar um aspecto que trazes, porque é mesmo estimulante. Dizes que a Igreja propõe a abstinência como método concorrente ao do preservativo. Isto é um mito, embora com base real. De facto, a abstinência é uma figura que a Igreja utiliza para traduzir o seu credo, e as implicações do seu credo. No entanto, a regra da abstinência não faz sentido para os casais, por exemplo. Tal como, ao limite, não faz sentido entre duas pessoas saudáveis, ou sem o vírus. Onde a abstinência se aplica como mandamento é na específica situação em que as alternativas sejam a prática de sexo inseguro sem protecção ou a sua recusa.

    E ainda outra coisinha. Dizes que também não se sabe se aquele que aprendeu a não ter relações de risco vai cumprir com esses ensinamentos. Tens toda a razão. Porém, a probabilidade de não ficar infectado é muito maior do que aquele a quem se disse para fazer o que lhe desse na gana desde que utilizasse o preservativo. A esse, até no caso de ser um escrupuloso cumpridor, não falhando uma ocasião, as coisas podem correr mal, pode haver acidentes, os mais variados. Donde, e evidentemente, o grande batalha é a da educação.
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    jafonso, és uma malha. Tens de nos começar a brindar com algumas crónicas. Serias o nosso enviado no British Bar. Era logo um sucesso, e não te pagaríamos nada. Que tal?
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    Nik, a Igreja tem feito mais pelos doentes com SIDA, e pela prevenção, do que qualquer outra organização no Mundo. Tens de aceitar que a Igreja é muito maior do que o Vaticano ou muito melhor do que as cenas feitas pelos trafulhas que por lá passam ou habitam.
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    MP-S, a tua perspicácia é de mandar foguetes.

  19. Se non c’è l’anima, se gli africani non si aiutano, non si può risolvere il flagello con la distribuzione di preservativi: al contrario, il rischio è di aumentare il problema.

    Tens razão, o papa esta so a dizer que se não ha ninguém para pegar no preservativo e enfia-lo no sexo, o preservativo fica na caixa, onde é claramente ineficaz.

    Mas o equivoco vai ja desaparecer amanha, com o filme do papa a mostrar-nos como se faz concretamente para enfiar o preservativo. E ninguém podera dizer que o homem não tem alma.

    Nem que tu não tens juizo…

  20. Eu, que não sou católico e muito menos católico-praticante entendi.

    7-13 Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que guia para a perdição, e muitos são os que entram por ela.
    7-14 Que estreita é a porta e que apertado o caminho que guia para a vida; e que poucos são os que acertam com ele!
    Evangelho segundo S. Mateus.

    O Papa sabe de cor e salteado estes parágrafos da Bíblia, que há-de ele dizer a propósito da infecção pela SIDA? Forniquem à vontade desde que usem preservativo?

    Note-se que este texto é válido para todos os seres da Criação, e não só para o homem! Os macaquinhos não usam preservativo e por isso infectam-se descontroladamente. Isso não significa que não se cumpra a Lei de Deus.

  21. Não Manolo, não entendeu. Neste caso, o papa esta a falar de politicas de combate a uma epidemia, e não da via para entrar no paraiso.

    Não sei se sabe mas, no reino das trevas, existem animais situados a meio caminho entre o macaco e o anjo. Chamam-se “homens” (e “mulheres”). Alguns até são catolicos. Não vejo nada nos evangelhos que autorize o papa a considerar que não se deve preocupar com a vida desses animais ca na terra. Acredito até que ele considera ser seu dever fazê-lo.

    Dai, alias, ele ter falado no assunto aqui debatido.

    Infelizmente, saiu asneira…

  22. Protagoras (Greek: Πρωταγόρας) (ca. 490– 420 BC) was a pre-Socratic Greek philosopher and is numbered as one of the sophists by Plato. In his dialogue Protagoras, Plato credits him with having invented the role of the professional sophist or teacher of virtue. He is also believed to have created a major controversy during ancient times through his statement that man is the measure of all things. This idea was very revolutionary for the time and contrasting to other philosophical doctrines that claimed the universe was based on something objective, outside the human influence.

    Sei que a wikipedia não é a melhor fonte, mas é a que está mais à mão. Quanto aos parabéns, dispenso o paternalismo

  23. João Viegas,
    Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

    A Saúde Pública é um problema de César. As boas práticas para manter a saúde devem ser divulgadas pelo poder temporal, sem distinção de raça ou credo.
    Além do mais só uma minoria de indígenas africanos ouve as prédicas do Papa, aconselhando rezarem tantas Ave-Marias e tantos Padres-Nossos. Só essa minoria se interessa pela opinião que o Papa tem relativamente ao uso de perservativo. E essa minoria não tem os ouvidos tapados, ouve perfeitamente o que as campanhas de prevenção da SIDA dizem.
    Por isso acho que esta notícia é só propaganda, um aproveitamento de meia-dúzia de palavras do Papa para esgrimir ideias que favorecem a negociata das ONGs.

  24. Muito bem, João Viegas.

    Val, o maior trafulha do Vaticano, agora, é este papa com pê pequenino, este papa-açorda que acha que, com preservativo, ‘il flagello’, ‘il problema’ se agrava. Deve ser ‘il problema’ da salvação da alma pecaminosa, porque ‘i problemi’ dos seres de carne e osso, esses, não lhe interessam ‘assolutamente niente’.

    Ele que fale 24 horas por dia contra ‘la fornicazione’, todos aceitaremos, cristãos e não cristãos. Até aplaudo quando ele acusar a nossa civilização ultra-hedonista, insensível à miséria de milhares de milhões. Quando acusar, porque ainda não o ouvi. O problema aqui é, só, o que essa ‘santità’ diz acerca do preservativo, que é criminoso na boca de uma pessoa com a autoridade moral que ele tem.

  25. JCV, não sei se os sofistas tinham um PERCURSOR, ou seja, um gajo que percorre.

    Se estás a pensar em alguém que vem antes, então é PRECURSOR.

  26. Bom isto hoje está mal. Deixo aí a minha melhor memória do dito vocábulo.

    “… Vou cambaleando através do lavor
    Duma vida-interior de renda e laca.
    Tenho a impressão de ter em casa a faca
    Com que foi degolado o Precursor. …”

    Opiáro “Álvaro de campos”

  27. Refraseando…

    contra a luxúria, castidade

    Uiiiiiiiiii !!!! É muita maldade junta.
    Ele é o banimento da camisinha, ele é a abstinência, em breve estamos a propor o fim do cosido à portuguesa, não?

  28. Caro Manolo,

    Se o papa acreditasse que as questões de saude publica não lhe dizem respeito, teria feito melhor em abster-se de se pronunciar sobre elas, ou não ?

  29. M, cozido à portuguesa comi eu ontem ao jantar! eu sei que não se deve mas o meu jantar foi às 19h e pouco,

    Quanto à luxúria era só para lembrar o Valupi, porque ele começa no intróito com isso, depois mete-se nestes assados e quem fica descambado sou eu,

    Se eu bem me vejo este papa se não fosse um jurássico da congregação da doutrina da fé podia invocar reserva moral e dizer alguma coisa como: ‘embora não seja o ideal em certos casos é melhor usar preservativo’ e pronto, calava-se. Felizmente os católicos praticantes que deu em eu conhecer são militantes de preservativo.

  30. Não, Valupi, tu é que fazes uma grande confusão. O papa foi claro e objectivo (o tipo é alemão, topas?). Tu é que vens com a treta do contexto e tal. E mais esse enxerto de que os padres levam preservativos no bolso para dar aos nativos para as eventualidades, blablabla. Eu acho que o Papa não te encomendou nenhum sermão justificatório, nem exegeses complicadas. Repete como ele: A Sida só se resolve com a abstinência e fidelidade. O preservativo só resolve o problema. Capicce?

  31. Pois Z, aproveita porque a danação deve estar para breve.

    Teria bastado ao Bentinho insistir nas práticas da igreja, incluindo a abstinência e chegando à ablação para os mais recalcitrantes, e não minar os esforços dispendidos nas questões de saúde pública. Penso que lá no etéreo cadeirão que ocupa ainda terá a noção de prioridade.
    Mas não tenho bem a certeza.

  32. val, caríssimo,
    gosto do texto, discordo do conteúdo, adoro assistir aos teus malabarismos com letras, pontos e vírgulas; gosto do título, porém, vale pelo que soa mais que por aquilo que quer dizer, propriamente, digo eu. Porque bem vistas as coisas, na prática o que este texto tenta fazer é exactamente o contrário daquilo que o título sugere, ou seja: não estarás tu, querido amigo, a enfiar um preservativo nessa tua inteligência marota, meu provocador?

    abraço-te, ó discípulo papal!

  33. upi,
    ora mica lá esta que eu li agorinha, só:
    «Os valores de Bento XVI não são os valores de um governo, de uma ONG ou de um indivíduo que tenta limitar o imenso desastre da sida em África. São valores de outra ordem. São valores de uma ordem religiosa, que cada vez menos se percebem ou respeitam no Ocidente. Não vale por isso a pena discutir a moral sexual da Igreja (e do Papa). Vale a pena garantir que ela não invade a esfera da liberdade civil. Ora Ratzinger não andou por África a pedir que se proibisse o preservativo. Pediu aos católicos que prescindissem dele, em nome de uma perfeição que os católicos escolheram procurar. A influência dele é, neste capítulo, deletéria? Inegavelmente. Convém que ela não alastre em África (e na Europa)? Sem a menor dúvida. Mas sem esquecer que o Papa está no seu direito e no seu papel.»
    Vasco Pulido Valente, in Público

  34. Valupi diz aí: e porque é que os que rejeitam o uso da contracepção (incluindo o preservativo) é que são os “humanos” ?
    Parece que o senhor – o Papa – vem a Portugal para o ano. Queres que te arranjem um lugarzinho, no altar, à esquerda ou à direita de Sua Santidade?..
    Tu és um gajo porreiro, mas quando toca à Santa Madre e ao Estado de Israel (disse Israel, não disse judeus) ficas de proa ao vento, a bater pano…É masoquismo, flagelação intelectual, exercicio florentino ou quê?

    João Coelho

  35. joão viegas, tens de começar a apostar nas vantagens do raciocínio.
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    Manolo, dizes bem: houve aproveitamento das palavras do Papa para fazer um chinfrim.
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    JVC, não tem mal nenhum o (duplo) engano. Já sei que dispensas o paternalismo, mas não dispenses o interesse por Protágoras.
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    Nik, estás a repetir as inanidades da turbamulta. Não móis farinha, assim.
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    caramelo, quando me informas que o contexto é uma treta, compreendo na perfeição o teu subtexto.
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    Z, és uma agência noticiosa. Sorte a nossa!
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    M, o teu peculiar modo lateral de entrar nas conversas não permite saber ao que vens.
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    Rui, bons olhos te leiam. Sei que fizeste um pausa, e que voltaste recentemente. Excelente notícia.

    Quanto a esta questão que estamos aqui a resolver para todo o sempre, registo que o Vasco Pulido Valente diz algumas coisas acertadas, nada mau. Do que tu pensas é que não tenho informação suficiente. És mauzinho para nós.
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    j.coelho, que história é essa dos humanos?!… Tu é que tens de aceitar esta evidência: ninguém é católico contra vontade. Daqui decorre que o Papa fala para quem o aceita e compreende. Nada mais.

  36. É verdade Valupi, saiu-me esta na rifa ainda nem sei porquê, deve ser um karma, entretanto brinco, mas olha aproveito para avisar que breve vai mudar,

  37. A abertura à procriação como requisito de liceidade da união sexual
    É possível demonstrar esse princípio?

    1. Como não deve existir contradição entre fé e razão, toca-me pedir demonstração racional do princípio, a fim de que eu possa acatar também com a razão o que acaso acate por fé.

    2. Uma demonstração racional precisa ter por fundamento fatos objetivos. Não lhe podem servir de base, por exemplo, postulados que se sustentem apenas no escrúpulo ou na piedade, tal como a defesa, sem prova objetiva, do sexo como coisa naturalmente impura e vinculada ao pecado.

    3. Exame de princípios:

    3.1. Princípios objetivos:

    3.1.1. Se a natureza é obra de Deus, então as leis naturais são leis divinas.

    3.1.2. Por lei natural, resultam da união sexual do casal:

    a) bem-estar, habitualmente;
    b) procriação, ocasionalmente.

    3.2. Princípio por demonstrar:
    A cópula sexual só é lícita se aberta à procriação.

    Noutras palavras, o resultado habitual, bem-estar, só é iícito se aberto ao resultado ocasional, procriação.

    Pode-se inferir do princípio (3.2.) que a liceidade da união sexual requer a abertura à procriação; mas não requer o objetivo de procriar.

    Se, na natureza, toda copulação resultasse em procriação, seria evidente e objetivamente contrário à lei natural querer a copulação sem a procriação. Isso, contudo, não invalida o princípio (3.2.); apenas mostra que sua validade pede demonstração.

    Então, resta demonstrar que “a união sexual é lícita somente se realizada sem impedimento deliberado da procriação”.

    4. Questões a contemplar na demonstração:

    4.1. Por qual fundamento racional e objetivo o bem-estar do casal, que é resultado habitual da cópula, só é lícito se aberto à procriação, que é resultado casual da cópula?

    Se o sexo for mesmo coisa impura e vinculada ao pecado, como defendia Santo Agostinho, é decorrente a conclusão de que deva sempre pagar tributo à procriação, como forma de lhe prescrever uma regulação e de tolerá-lo apenas no limite da necessidade de preservação da espécie. Contudo, como provar, objetivamente, esse atributo de impureza intrínseca, que não é mais defendida nem pelo catecismo publicado pelo Papa João Paulo II?
    Em contrapartida, se negada ao sexo essa condição de natural impureza, que razão ainda sustentaria a ilicitude da busca do bem-estar desvinculado das consequências procriativas, no exercício da paternidade responsável?

    4.2. Se a natureza quer ambos os resultados, bem-estar e procriação, seria correto valorizar um em detrimento do outro? No entanto, não parece restar outra além destas duas opções:

    a) privar-se do bem-estar ou
    b) privar-se da escolha do momento de procriar

    A exigência de abertura à procriação faz do acaso um fator restritivo da escolha do momento de procriar. De fato, uma coisa é escolher algo, outra coisa é torcer por algo.

    5. Outros fatos a considerar:

    5.1. Na natureza, esses dois resultados da união sexual (bem-estar e procriação) não se produzem sempre em conjunto e em sincronia. O prazer sem consequência procriativa é resultado frequente na vida sexual de primatas, por exemplo. Portanto, na natureza, mesmo entre parceiros jovens e sadios, é frequente a união (prazer, bem-estar) sem procriação.

    5.2. Não há procriação sem união, mas há união sem procriação e com prazer, no plano da natureza.

    5.3. O princípio (3.2.) impõe ao animal racional uma exigência muito pesada, que não é exigida de nenhuma outra espécie animal: viver em situação de habitual intimidade entre macho e fêmea, sem espontâneo exercício do apetite sexual.

    6. Tentativa de demonstração do princípio (3.2.):

    Tudo que segue a lei natural é lícito.
    A lei natural põe na cópula a potência procriativa.
    Quem retira da cópula a potência procriativa age contra a lei natural.
    Com efeito, quem retira aquilo que outro põe age contra este.
    Portanto, é ilícito retirar da união sexual o poder gerador.

    7. É interessante observar que a lei natural põe dor no parto, mas nunca vi nenhum pronunciamento religioso contra a analgesia no parto. Não deveria valer o mesmo princípio da ilicitude de tudo que “retire” o que a lei natural “põe”? Tudo bem. Hão-de me dizer que amenizar ou neutralizar a dor do parto é ação que tem por fim o benefício à vida. Mesmo assim, não seria preciso admitir que se pode “retirar” o que a natureza “põe” (dor/potência procriativa) quando se busca um fim bom (bem-estar, analgesia/controle de natalidade para uma paternidade responsável)?

  38. A abertura à procriação como requisito de liceidade da união sexual
    É possível demonstrar esse princípio?
    1. Como não deve existir contradição entre fé e razão, toca-me pedir demonstração racional do princípio, a fim de que eu possa acatar também com a razão o que acaso acate por fé.
    2. Uma demonstração racional precisa ter por fundamento fatos objetivos. Não lhe podem servir de base, por exemplo, postulados que se sustentem apenas no escrúpulo ou na piedade, tal como a defesa, sem prova objetiva, do sexo como coisa naturalmente impura e vinculada ao pecado.
    3. Exame de princípios:
    3.1. Princípios objetivos:
    3.1.1. Se a natureza é obra de Deus, então as leis naturais são leis divinas.
    3.1.2. Por lei natural, resultam da união sexual do casal:
    a) bem-estar, habitualmente;
    b) procriação, ocasionalmente.
    3.2. Princípio por demonstrar:
    A cópula sexual só é lícita se aberta à procriação.
    Noutras palavras, o resultado habitual, bem-estar, só é lícito se aberto ao resultado ocasional, procriação.
    Pode-se inferir do princípio (3.2.) que a liceidade da união sexual requer a abertura à procriação; mas não requer o objetivo de procriar.
    Se, na natureza, toda copulação resultasse em procriação, seria evidente e objetivamente contrário à lei natural querer a copulação sem a procriação. Isso, contudo, não invalida o princípio (3.2.); apenas mostra que sua validade pede demonstração.
    Então, resta demonstrar que “a união sexual é lícita somente se realizada sem impedimento deliberado da procriação”.
    4. Questões a contemplar na demonstração:
    4.1. Por qual fundamento racional e objetivo o bem-estar do casal, que é resultado habitual da cópula, só é lícito se aberto à procriação, que é resultado casual da cópula?
    Se o sexo for mesmo coisa impura e vinculada ao pecado, como defendia Santo Agostinho, é decorrente a conclusão de que deva sempre pagar tributo à procriação, como forma de lhe prescrever uma regulação e de tolerá-lo apenas no limite da necessidade de preservação da espécie. Contudo, como provar, objetivamente, esse atributo de impureza intrínseca, que não é mais defendida nem pelo catecismo publicado pelo Papa João Paulo II?
    Em contrapartida, se negada ao sexo essa condição de natural impureza, que razão ainda sustentaria a ilicitude da busca do bem-estar desvinculado das consequências procriativas, no exercício da paternidade responsável?
    4.2. Se a natureza quer ambos os resultados, bem-estar e procriação, seria correto valorizar um em detrimento do outro? No entanto, não parece restar outra além destas duas opções:
    a) privar-se do bem-estar ou
    b) privar-se da escolha do momento de procriar
    A exigência de abertura à procriação faz do acaso um fator restritivo da escolha do momento de procriar. De fato, uma coisa é escolher algo, outra coisa é torcer por algo.
    5. Outros fatos a considerar:
    5.1. Na natureza, esses dois resultados da união sexual (bem-estar e procriação) não se produzem sempre em conjunto e em sincronia. O prazer sem consequência procriativa é resultado frequente na vida sexual de primatas, por exemplo. Portanto, na natureza, mesmo entre parceiros jovens e sadios, é frequente a união (prazer, bem-estar) sem procriação.
    5.2. Não há procriação sem união, mas há união sem procriação e com prazer, no plano da natureza.
    5.3. O princípio (3.2.) impõe ao animal racional uma exigência muito pesada, que não é exigida de nenhuma outra espécie animal: viver em situação de habitual intimidade entre macho e fêmea, sem espontâneo exercício do apetite sexual.
    6. Tentativa de demonstração do princípio (3.2.):

    Tudo que segue a lei natural é lícito.
    A lei natural põe na cópula a potência procriativa.
    Quem retira da cópula a potência procriativa age contra a lei natural.
    Com efeito, quem retira aquilo que outro põe age contra este.
    Portanto, é ilícito retirar da união sexual o poder gerador.

    7. É interessante observar que a lei natural põe dor no parto, mas não se vê pronunciamento religioso contra a analgesia no parto. Por que não vale, nesse caso, o princípio que defende a ilicitude de tudo que “retira” o que a lei natural “põe”?

    Apliquemos o mesmo princípio e a mesma demonstração (6.):

    Tudo que segue a lei natural é lícito.
    A lei natural põe no parto a dor.
    Quem retira do parto a dor age contra a lei natural.
    Com efeito, quem retira aquilo que outro põe age contra este.
    Portanto, é ilícito retirar do parto a dor.

    8. Muito provavelmente, hão-de alegar que amenizar ou neutralizar a dor do parto é uma ação que visa a um fim bom: benefício à vida. Essa alegação não salva o princípio, por, no mínimo, duas razões:
    a) por admitir, dessa vez, como lícito algo que age contra a lei natural (analgesia contra a dor natural do parto); e
    b) por admitir que um fim bom (benefício à vida) justifica um meio contrário à lei natural (analgesia contra a dor natural do parto).

    A validade do princípio fica prejudicada quando se estabelecem restrições subjetivas dos âmbitos de aplicação, a fim de excluir conclusões lógicas no âmbito da sexualidade.

    Em termos de lei natural, a dor está para o parto como a potência geradora está para a união sexual. Portanto, uma aplicação do princípio, se isenta de subjetividade e de preconceito contra o sexo, não pode chegar a conclusões diferentes sobre a “liceidade de retirar o que a natureza põe”: a dor, no parto; o poder gerador, no ato sexual.

    9. A demonstração (6.) contém um erro lógico: partindo da negação da condição, conclui como verdadeira a negação do condicionado. Dessa forma, não obedece a nenhuma das duas regras de inferência do silogismo condicional (modo ponens e modo tollens).

    Sejam:
    p = “O ato segue a lei natural.”
    q = “O ato é lícito.”

    Silogismo incorreto:
    p->q (Se a ato segue a lei natural, então o ato é lícito.)
    ~p (O ato não segue a lei natural.)
    ~q (Portanto, o ato não é lícito.): conclusão incorreta.

    10. Alguém se dispõe a demonstrar o princípio da “abertura à procriação como requisito de liceidade da união sexual”? Seja para refutar, seja para defender, importa conhecer. Eu apreciaria muito analisar a demonstração.

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